Líbia: Apesar do incidente no aeroporto, Henry Kissinger está errado sobre o país

Fiquei impressionado com o ar de normalidade em todos os lugares que visitei.

Passei de 27 de maio a 3 de junho na Líbia e deixei o aeroporto de Trípoli rumo ao Cairo um dia antes que uma pequena milícia Tarhouna fosse até ali para protestar contra o desaparecimento de seu líder. Apesar de ter escapado por um triz da confusão, voltei com uma visão geral otimista sobre a Líbia. O protesto da Tarhouna foi tratado de forma eficiente pelo novo exército líbio, que assumiu o controle do aeroporto semanas atrás, e há toda razão para acreditar que ele será reaberto em breve. Quando entrei e saí do aeroporto de Trípoli, não havia milicianos lá, apenas o exército regular e a polícia (que têm veículos diferenciados, marcados de vermelho). Agora há também voos regulares a partir do Cairo, por exemplo, para cidades do interior como Misratah.

Há uma espécie de lenda negra sobre a Líbia, que teria se tornado um Estado falido e uma bagunça, onde existem milícias armadas em todos os lugares, onde todo mundo é separatista, o governo de transição não faz nada, as pessoas de ascensão subsariana estão reclamando nas ruas, etc., etc. A lenda negra é promovida em parte por remanescentes do regime de Kadafi e seus admiradores no Ocidente, em parte por líbios de classe média muito ansiosos em meio a uma transição reconhecidamente difícil, em parte por editores de mídia à procura de uma história dramática.

Henry Kissinger, em seu recente comentário contra uma intervenção na Síria, listou o desaparecimento do Estado líbio como um argumento contra tais intervenções. Li tal alegação com descrença. A Líbia não é como a Somália! Não é nem mesmo como o Iêmen. (Os líbios com quem falei acerca do Iêmen simpatizavam com os problemas do país, mas ficaram surpresos ao ouvir que alguns observadores ocidentais veem certos problemas seus como semelhantes!)

Então imagine minha surpresa ao fazer visitas a Bengazi, Misratah e Trípoli, e descobrir que não havia milicianos à vista, que a maioria das coisas estava funcionando normalmente, que não havia policiais nos cruzamentos, que havia festas infantis até tarde, com as famílias saindo, joalherias abertas até as 20 horas, árabes e africanos trabalhando lado a lado, e com as pessoas orgulhosas de Bengazi ter se manifestado contra certos posicionamentos pedindo a descentralização do país.

Como alguém que viveu em situações de conflito, tomo como um indicador muito sério de segurança se as lojas de um local estão abertas e o quão tarde elas permanecem abertas. Joalherias, em particular, são facilmente pilhadas, e o saque é rápido e sem obstáculos. Mas em Trípoli havia bastante ouro enfileirado em joalherias, e lojas de roupa recém-abastecidas com modas italianas. Lojistas que entrevistei estavam totalmente abastecidos, confiantes e felizes por finalmente se livrarem da governança errática de Kadafi, em que nunca tinham certeza se iriam obter algum lucro, devido às políticas alteradas com muita frequência.

Flagrei uma celebração de policiais recém-formados na Praça dos Mártires, em Trípoli:

E aqui, um pequeno parque próximo à Praça dos Mártires na capital:

E pessoas indo às compras:

A vida está bastante normal. Conversei com um líbio de ascendência africana que tinha trabalhado na Alemanha por 14 anos e recentemente retornado a seu país de origem. Ele disse que é muito mais feliz na Líbia, mesmo tendo que trabalhar em dois empregos (num deles, ensinando árabe). Um amigo meu está organizando um festival de música na capital. As pessoas estão se preparando para a eleição do Congresso Nacional, que irá elaborar uma nova constituição e, gradualmente, criar um novo governo.

Cidades inconformadas com a lentidão do governo de transição nacional simplesmente fizeram suas próprias eleições municipais. Bengazi acabou de realizar a sua com sucesso, e Misratah fez o mesmo meses atrás. Conheci o marido de uma integrante de um recém-criado conselho feminino em Bengazi; ela foi a primeira mais votada entre as candidatas, e poderá presidir o conselho. Os governos municipais têm a legitimidade das urnas e estão começando a tratar de problemas locais.

Então, se você não corre risco de ser assaltado à noite em Trípoli ou Bengazi, há outros problemas? Claro, e muitos. Enquanto eu estava lá, os trabalhadores portuários entraram em greve em Trípoli para protestar contra a má gestão do porto. Há a questão de, em um Estado petrolífero, o dinheiro fluir para os municípios, ao invés das cidades levantarem dinheiro através de impostos, e o governo de transição ainda não é muito bom em remessa de verbas. Há uma situação de direitos humanos que precisa ser resolvida na pequena cidade de Tuarga, cujas milícias cometeram crimes de guerra em nome de Kadafi; Tuarga foi esvaziada de seus habitantes, e eles precisam ser autorizados a voltar para suas casas. E, se segurança como um todo não é problema para os moradores das grandes cidades ao norte, a questão provavelmente ainda não é inteiramente satisfatória para os novos investidores que trazem equipamentos caros para lugares como Bengazi (embora a BP tenha decidido voltar à Líbia). Tem-se alguns momentos de protesto de milícias, como o de dias atrás no aeroporto de Trípoli.

Mas fiquei impressionado com o ar de normalidade em todos os lugares que visitei, e pelo óbvio conforto que as pessoas tinham ao circular, vender e tocar suas vidas. Não há bombas explodindo, nem guerra civil, nem secessionismo grave. Um homem me disse que a maior mudança é que as pessoas agora não têm mais medo. Eles vivam em medo constante dos comitês revolucionários e da polícia secreta. E esse fim do medo político, insistiram os líbios com quem falei, faz valer a pena as incertezas do período de transição.

Fui para a Líbia na expectativa de encontrar pessoas nervosas ao sair de casa, uma grande quantidade de lojas fechadas e à espera de ser parado em postos de controle das milícias (algo comum na Beirute do final dos anos 1970, quando eu morava lá nos primeiros anos do Guerra Civil). Talvez essas coisas existam em pequenas cidades do interior que eu não visitei, como Gadamés no sul. Não sei. No norte urbano, encontrei uma sociedade ativamente reconstruindo-se, com o povo levando sua vida comum, onde as lojas estavam abertas e as pessoas sentadas em cafés, sem milicianos nas ruas, sem postos de controle, e onde havia na verdade guardas orientando o trânsito.

De forma que, sem querer minimizar as dificuldades que permanecem, e ciente de que uma semana em um lugar não irá revelar todos os problemas de uma sociedade, posso ainda assim dizer com certeza que a imagem do lugar que encontramos na imprensa ocidental é muito mais negativa do que a que vi com meus próprios olhos e ouvi em árabe da população local.

E posso dizer categoricamente que Henry Kissinger está errado sobre a Líbia.

  • João Silvestre

    Sou português, e estive na Líbia, mais exactamente em Tripoli, entre 18 e 25 de Maio, na Libia Build 2012, onde a minha pequena companhia preencheu um stand, aproveitando o renascer da nova Líbia. E tenho que aproveitar a oportunidade para manifestar o meu acordo com o autor deste artigo: a normalidade está inatalada na Líbia, o comércio recuperou o seu fulgor, as pesooas vivem mais felizes, a alegria da liberdade preenche as suas almas (e elas mesmas não se cansam de o dizer), os hoteis funcionam no seu pleno. Claro que há muito por fazer, o país acabou de derrubar um regime, violento, que tinha 4 décadas, e com uma guerra civil. Portanto, muito estarápor fazer. Mas a surpresa da normalidade foi enorme; os Líbios estão enormemente receptivos a um mundo novo, à democracia, ao progresso. Existem muitas armas, que se vêm a toda a hora, mas não há vontade de fazer guerra. A unica vontade daquele povo, é de seguir em frente.

  • ahmad coryzianh bermudez

    gostaria de lembrar que policia em nenhuma parte do mundo utiliza baterias antiaéreas para suas tradicionais rondas. No video postado por vc há baterias antiaereas muito claramente.
    Morei em Sirte em 1991. Posso te assegurar que era muito melhor que hj toda Líbia.

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----