Um caso de ação individual pública, entre especialistas e injustiças no Brasil

por Marcio Miotto

-- Cristiane Yared --

 

Com o passar dos anos, um tema é cada vez mais comum na mídia: a opinião dos especialistas. Hoje, para lavar as mãos ou passear em uma calçada, para se comportar no trânsito ou na entrevista de emprego, para tudo buscamos “especialistas”. E o termo é genérico mesmo: “os especialistas dizem…”

Se “os especialistas dizem”, logo isso tem um efeito imediato de verdade. Enfim são especialistas, consultados por fontes confiáveis de informação. Suas prescrições (talvez nunca se usou tanto na História o imperativo) possuem o efeito imediato de cada espectador analisar a própria conduta, e nessa análise perceber o que corresponde ou não a certas condutas consideradas normais para determinadas situações.

Os “especialistas” são muito requisitados em situações-limite: tragédias, desastres naturais e fatalidades se apresentam como os temas corriqueiros. E não é raro ver, nas prescrições para esse tipo de temática, práticas relativamente comuns: o vitimado por uma fatalidade (ou seu familiar) deve buscar atendimento especializado (médico, psicológico), grupos de apoio, auxílio da família, eventualmente suporte religioso; valores muito trabalhados são a aceitação (fatalidades são naturais e passíveis de acontecer a todo homem), a resignação, o retorno à vida normal e anterior à fatalidade – ou também a convivência normal ou a tentativa dela com uma fatalidade que nunca se esquecerá -, e assim por diante. Em jogo está a tentativa da vítima retornar à vida normal sem cicatrizes, ou pelo menos com um menor número ou visibilidade delas.

Enfim, qualquer vitimado sabe que as marcas do evento traumático foram profundas, e o grande desafio é conviver com elas.

Nesse sentido Cristiane Yared nos traz uma situação exemplar. A mãe de Gilmar Rafael Yared, morto em um acidente de carro envolvendo o ex-deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho (que dirigia com a carteira cassada e numa velocidade cuja controvérsia envolve a embriaguez e ultrapassa os 170 km/h), certamente se deparou com todas as questões acima. Mas em seu caso há algo mais, evidente pela própria fatalidade.

Os especialistas muitas vezes recomendam (como se vê acima) práticas e valores individualizantes e psicologizantes para o vitimado lidar com a própria dor. O esquema é semelhante ao do desastre natural: uma natureza muito superior à ação humana evoca antigos valores como o da resignação (o que fazer contra um desabamento ou um furacão?). Mas tais práticas e valores não foram suficientes ou pelo menos não serviram de linha mestra na relação de Yared com sua dor. Para ela se mostrou necessário algo mais, pois o simples trabalho sobre si mesma diante da própria dor não garantiria sua atenuação.

Desde o acidente com o filho, assombrada pela ameaça de impunidade e mesmo com as informações controversas e contraditórias sobre dados bem objetivos (amostras de sangue, exames periciais, enfim um certo emprego duvidoso de dados oriundos de nossos curiosos especialistas), Cristiane Yared se moveu publicamente. Diversas vezes manifestou seu luto, e – o que é aqui importante – o manifestou buscando não o desvincular da situação traumática.

Desvincular o próprio luto da situação traumática é uma linha mestra em diversas práticas de expertise. Um vitimado por vulcão pode condenar a ordem (ou caos) universal, mas sabe que um dia deverá se resignar a essa ordem e aprender que seu choro e luto são elementos individuais, psicológicos, imaginários, mas por definição infinitamente menores frente aos acontecimentos cósmicos. Um motorista estressado e orientado por especialistas também aprenderá a relaxar no interior de seu carro com paliativos à escolha. Recomenda-se ao morador temeroso de assaltos a compra de medidas individuais de segurança. Em todos os casos, encara-se a ação individual como desvinculada da “ordem” “natural”. Nada posso fazer contra uma ordem que me ultrapassa; portanto devo me abster dessa ordem, separar minha ação dela, ter ciência de que minha ação visa apenas a minha pessoa, e portanto a ação é valorizada positivamente apenas nas vias em que é absolutamente visível, evidente e recomendável agir. Tudo o mais seria grosso modo imaginação, vã pretensão, pensamento mágico.

Catástrofes naturais à parte, pelo menos no que diz respeito às relações humanas vê-se bem onde Yared solapa o esquema. Seria apenas mais um caso entre outros se, depois do acidente, a família da vítima se recolhesse no jogo de aguardar pacientemente os resultados do julgamento enquanto lida privadamente com o luto. As controvérsias sobre possíveis adiamentos em resultados e exames, as discrepâncias nas análises periciais (encomendadas pela família ou pela justiça), a visibilidade do caso e os indubitáveis agravantes em torno dele (um deputado assumindo o risco de dirigir em altíssima velocidade, com a carteira cassada e sob a polêmica de estar ou não alcoolizado), isso nunca atingiria tal repercussão caso a família não se movesse com tal vigor e ímpeto de mobilização social. Nada disso ocorreria, conforme testemunham tantos outros casos já esquecidos e por esquecer.

Cristiane Yared trabalha seu luto com a família, as orações e os amigos. Como qualquer vítima de fatalidade, ela sabe que o evento traumático traz marcas para a vida inteira. Mas seu modo de lidar com a dor implica não separar a ação individual de seu horizonte social, não recolher a ação individual no âmbito simplesmente privado. Diz ela:

Parei de chorar e fui à luta (…) Enchi o peito de força, dessas que a gente não sabe de onde vêm (…) e fui em busca de justiça. Entretanto, a Justiça é cega para uns e muda para outros. Não desisti, não me prendi à dor da perda, tampouco da injustiça que estraçalha meu coração.

Há ocasiões em que se pode agir contra as injustiças ou fatalidades sofridas, mesmo quando o raio dessa ação não é óbvio ou imediatamente visível. O importante, ensina Yared, é durante essas situações não confinar a possibilidade da ação em um drama privado, mesmo quando o mundo ao redor incita direta ou indiretamente a fazê-lo.

Durante a semana passada a justiça decidiu a favor das vítimas: o ex-deputado vai a júri popular.

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