Encare a verdade: A Síria é um estado de apartheid

por Nick Cohen

-- Bashar al-Assad, ditador sírio --

 

Para um tirano cujas forças pegaram Hamza Ali al-Khateeb, de 13 anos, o queimaram, mutilaram, esmagaram suas rótulas, cortaram seu pênis e enviaram o cadáver para os pais como um alerta contra participações em políticas de oposição, Bashar al-Assad recebe um tratamento notavelmente generoso.

Barack Obama, que se pretende o líder do mundo livre, provou semana passada que é capaz de dizer o que pensa quando confrontado com comportamentos que acredita serem verdadeiramente inaceitáveis, quando ordenou que o congressista Anthony Weiner renunciasse após tuitar imagens de calções salientes para uma angustiada americana.

Apesar de sua postura inflexível em relação ao pênis ereto de Weiner, Obama ainda não conseguiu encontrar coragem para dizer que Assad também deve renunciar, devido à ofensa um pouco mais insípida de castrar meninos sírios. O melhor que Obama conseguiu fazer desde que a Primavera Árabe chegou à Síria em março foi um discurso no dia 19 de maio, em que dirigiu suas observações ao “presidente Assad” – garantindo ao ditador um título imerecido, a que nenhuma eleição livre lhe deu o direito de possuir. “O povo sírio mostrou sua coragem ao exigir uma transição para a democracia”, disse Obama. “O presidente Assad agora tem uma escolha: ele pode liderar a transição ou sair do meio do caminho.”

Nenhum observador do selvagem reinado do clã Assad durante os últimos 40 anos deveria ter duvidado por um momento qual das opções o regime escolheria. Jamais poderia haver um segundo de hesitação. Ainda mais revelador, desde que o governo ignorou o alerta de Obama e confirmou que, ao invés de liderar uma “transição para a democracia”, preferiria atacar a população civil de Jisr al-Shughour, expôr esposas de oponentes a estupros grupais e ordenar que atiradores de elite atinjam manifestantes, o presidente dos EUA, a União Europeia, Turquia e os estados do Golfo falharam todos em se voltar para os elementos democráticos na oposição síria.

Contraste essa negligência da oposição síria com as atitudes da comunidade internacional diante da revolução tunisiana, quando os protetores de Ben Ali no Palácio do Eliseu foram constrangidos pelo manifestantes nas ruas a abandoná-lo, ou diante de Mubarak, um brutal aliado ocidental que Obama ainda assim largou de mão, ou diante da necessidade de intervenção contra o despotismo de Gaddafi, que, apesar de todos os crimes contra o povo líbio, não era mais um poder estrangeiro hostil. Os baathistas sírios já mataram mais civis do que as forças egípcias e tunisianas somadas e ainda assim são tolerados.

O grau de opressão na Síria ajuda a explicar a indiferença ocidental. O partido Baath mantem a mídia longe, e se a imprensa não vê o mundo não se importa. Hozan Ibrahim, um ex-preso político que é porta-voz do comitê que coordena protestos revolucionários, me diz que não devemos pensar apenas nos últimos quatro meses de opressão, mas nas últimas quatro décadas: “Depois de tudo isso, não tem sido tão fácil para nós nos organizarmos.”

Ainda assim, quase milagrosamente, eles estão se organizando e com bons resultados. No refúgio litorâneo turco de Antália, os vários elementos da oposição se reuniram para fechar um programa que era multiracial (a perseguida minoria curda estava bem representada), liberal (se comprometeram a lutar por eleições livres, imprensa livre e judiciário independente) e antisectário.

Este último aspecto não é a menor das conquistas da oposição. As fileiras da iniciativa nacional por mudança incluem islamistas da Irmandade Muçulmana, embora, felizmente, eles estejam em minoria. Os líderes mais seculares até agora rejeitaram a tentação de transformar a revolução em uma guerra comunalista.

A ONU nunca te informará isso, mas a Síria é um estado estilo apartheid. Membros da seita alauíta, de Assad, constituem apenas 14% da população, mas controlam o governo, muito da área de negócios e todas as forças de coerção. Até o submundo é segregado em linhas confessionais. As gangues criminosas shabbiha, que comandam os esquemas de prostituição e contrabando e cujos membros os Assad estão soltando no meio da população civil, são máfias alauítas.

Espero que liberais da minha geração, que batiam nos peitos enquanto protestavam contra o apartheid racial na África do Sul, se sintam em breve escandalizados pelo apartheid religioso no Oriente Médio. A oposição síria tem tanto direito a nosso apoio quanto tinha o Congresso Nacional Africano, porque ela não fizeram alvo dos alauítas devido à sua religião. De fato, ela deposita suas esperanças em que o exército liderado por alauítas se motine.

Tampouco ela quer intervenção militar ocidental. Em uma discussão sobre as necessidades da oposição, o instituto pró-democracia Henry Jackson Society enfatizou a modéstia das demandas dos dissidentes. Eles precisam de laptops cifrados, celulares e cartões de memória, para driblarem os apagões de mídia do regime e assim continuarem a documentação de atrocidades, e precisam também do apoio de serviços de inteligência ocidentais, para tentarem persuadir oficiais do exército sírio simpáticos à causa a mudarem de lado.

Até agora, ocorreu pouco além de sanções simbólicas. Os governos ocidentais continuam perdidos na ilusão de que Assad é um potencial reformista ao invés de um verdadeiro monstro, com os únicos argumentos, até onde posso ver, de que certa vez ele foi um estudante em Londres e que salivantes bajuladoras na revista Vogue celebraram sua glamorosa esposa como “a mais revigorante e magnética das primeiras-damas”. Eles ainda não conseguem vê-lo como um inimigo.

O governo Obama tem uma queda em particular pela linha do regime de que os baathistas podem arruinar o processo de paz no Oriente Médio e mandar à forra o Hezbollah no Líbano e “insurgentes” no Iraque. Como policiais que protegem chefões do crime porque “pelo menos eles mantém ordem nas ruas e matam apenas a si mesmos”, o Ocidente acha que o Baath é melhor que a alternativa. Nossos líderes não pausam para considerar que a Síria já retalhou o Líbano e afunilou assassinos em massa para o Iraque. No que diz respeito ao alegado “processo de paz”, Likud e Hamas são mais do que capazes de arruinar aquilo lá sem ajuda de ninguém.

Um refugiado sírio na Grã-Bretanha, chamado Ausuma Monajed, produz o inestimável resumo diário Syrian Revolution News Round-ups. Ele concluiu um post recente dizendo: “Não estamos lutando apenas contra os Assads, estamos lutando também contra seus principais patrocinadores: não Irã, Hezbollah, Rússia ou China, mas os deuses da indiferença, do cinismo e da senilidade. Deus nos ajude.”

Até que a opinião mundial enxergue o absurdo que é atacar políticos por postarem na internet fotos de seus pintos, mas não por cometerem crimes contra a humanidade, um céu indiferente será tudo a que esse povo poderá apelar.

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