O novo Código Florestal, visto de Marte
por Marcio Miotto

-- José e Maria da Silva, assassinados no Pará --
Durante as famosas “discussões e audiências públicas” sobre o Código Florestal, saltou aos olhos um tema digno de seriado norte-americano: segundo diversos ruralistas, as ONG’s ambientalistas estrangeiras seriam na verdade instrumentos estratégicos para atravancar o desenvolvimento do Brasil. E mais: junto com essas ONG’s, a imprensa brasileira faria uma grande campanha contra o novo Código, redigido pelo corajoso Aldo Rebelo.
Calculado ou não, para além das teses implícitas (por ex.: ligar desenvolvimento ao fatal desflorestamento), o papel retórico disso era preciso: blindar os defensores do “novo” Código contra as inevitáveis críticas vindas do exterior.
Para enxergar o plano inteiro do debate, vale lembrar o caso de Chico Mendes. Antes de ser assassinado, ele procurou diversos jornalistas brasileiros. A procura não rendeu maior atenção. Esta apenas veio com vigor depois do assassinato receber grande repercussão mundial (Marina Silva, companheira de então, descreveu esses momentos). Em boa parte, foram as críticas externas as responsáveis pela criação de uma sensibilidade coletiva interna, favorável aos extrativistas e contrária aos coronéis da madeira.
Na linha da grande conspiração das ONG’s, certo pessoal ligado ao PCdoB chegou a publicar artigos curiosos, como esse. Segundo ele, há uma grande conspiração “multiculturalista” (expressa no Brasil pelo dependentismo de FHC), levando a imprensa a apoiar ONG’s majoritariamente financiadas pelo Departamento de Estado dos EUA! Como se os maiores órgãos de imprensa não se posicionassem flagrantemente do lado dos ruralistas e portanto de Aldo Rebelo, ou como se o ambientalismo em questão se reduzisse a interesses externos.
E mais: no mesmo dia da aprovação do Código, no Pará assassinaram dois extrativistas com requintes de crueldade (um deles teve a orelha arrancada). Dia 27 assassinaram outro líder. E no dia 28, uma testemunha do assassinato do Pará também foi encontrada morta. Nenhum grande órgão brasileiro de imprensa vinculou os assassinatos à luta contra o desflorestamento e essa luta à votação. Considerando os ruralistas do PCdoB, isso deve ter sido uma falha imensa da imprensa pró-ONG’s. De todo modo, os próprios partidários de Aldo Rebelo não viram maiores problemas em vincular – aí sim, deliberadamente – os históricos latifundiários brasileiros com as “aspirações” comunistas, os herdeiros de Carlos Augusto Taunay com os herdeiros (?) de Karl Marx.
Mas fora do Brasil muitos fizeram aquelas vinculações. Sob o contexto acima, um blog do Le Monde viu tudo de longe, de um modo especialmente irônico (se é possível ser verdadeiramente irônico nesse caso). Seu título: “La Terre vue de Mars“, a Terra vista de Marte.
Em um de seus textos, Mars liga José Claudio Ribeiro da Silva à “herança” de Chico Mendes. Fato: José Claudio foi um dos mortos no mesmo dia da votação do Código. Como Chico Mendes, ele lutava contra a impunidade dos desmatadores ilegais e previa a possibilidade de sua tragédia. Curiosamente, o desfecho apenas apareceu redigido por um observador longínquo: “Assassinado como Chico Mendes, em 1988″.
Visto de “Marte”, o desmatamento aumentou no Brasil várias vezes no último trimestre (1, 2). Alguma ligação com a possibilidade de “flexibilizar” a fiscalização diante da anistia prevista? Em tese, apenas os desmatamentos até 2008 seriam anistiados, mas…
O artigo “marciano” não ligou a emenda 164 (responsável por conceder boa parte da regulação da anistia e desflorestamento aos estados) à política local de muitos estados, mas o texto evoca o primado da soja e o liga ao desmatamento. O colega de “Marte” talvez não saiba por exemplo que a política de estados como o Mato Grosso é fortemente influenciada pelo cultivo extensivo da soja (seu ex-governador é o maior produtor do mundo). Mas colocou perguntas não enunciadas por aqui na TV.
Tais correlações são discutíveis e certamente muito mais complexas. Por exemplo, o próprio texto de Aldo Rebelo deveria ser confrontado criticamente – nenhum comunista reprovaria a necessidade de uma crítica efetiva – com os diferentes contextos brasileiros, não apenas ambientais mas sobretudo políticos. O histórico recente da imprensa brasileira mostra incríveis casos de acontecimentos analisados “publicamente” até as minúcias. Quem não lembra do fiasco do Jornal Nacional, ao “comprovar” com um perito que um objeto “muito pesado” foi “realmente” atirado contra José Serra na campanha de 2010? Energia dispendida com igual ou menor afinco certamente seria melhor aplicada em uma discussão bem feita sobre o Código Florestal. Ainda mais tendo em conta a flagrante pressa dos políticos, recheada com polêmicas sobre versões ou adendos de última hora e acusações acaloradas sob palavras de baixo calão.
De acordo com o jornalista britânico Robert Fisk, às vezes a imprensa se comporta em nível público como se o acontecimento ocorresse entre dois indivíduos privados. Como se – no presente caso – a disputa pelo Código Florestal se assemelhasse à briga de vizinhos de bairro. Como se ela implicasse apenas duas partes em litígio, não um país inteiro. Como se isso permitisse à imprensa o uso de um olhar neutro, situado “entre” ou “fora” de unidades idiossincráticas chamadas “ruralistas” e “ambientalistas”. Finalmente, como se os pareceres de políticos fazendeiros de rincões remotos, contrários e contrapostos com cartas coletivas de diversos departamentos brasileiros de pesquisa, servissem apenas como material de opinião ou escolha, não de debate e refutação.
Diante dessas posturas, o texto de Rebelo, suas implicações e consequências “na prática”, seus diversos propósitos estratégicos, tudo isso se descartou sob a aparência da cobertura neutra da briga de vizinhos. E se tal cobertura mostra a si mesma como “neutra”, em contrapartida seu funcionamento efetivo é bastante compromissado, conforme se vê por exemplo no editorial da Rede Bandeirantes favorável aos ruralistas.
Em tese, “Marte” é um lugar não previsto pelo “cuidado” dos conspiracionistas ruralistas do PCdoB. Bom seria a discussão brasileira chamada “pública” acolher perguntas semelhantes às acima (infelizmente enunciadas tão longe), ou mesmo desmistificá-las rigorosamente ou apontar seus erros. Como se percebe, nem os pesquisadores brasileiros foram suficientemente ouvidos, como se apenas o encaixe na categoria “ambientalista” fizesse juz a suas análises. Mas uma coisa em todo caso é certa: ouvindo ou não locais ou estrangeiros, os efeitos do debate – ou de sua ausência – sempre se recolhem – o comunista ruralista não negará isso – na materialidade da História, ou pelo menos Terra adentro.

Brilhantissimo Post. O melhor que já li pela blogosfera.Parabéns Márcio Miotto.