A filosofia e a necessidade de um posicionamento teórico

por Maria Ivonilda * – Ontem eu tive a oportunidade de conversar sobre Filosofia, e foi uma experiência muito agradável, aliás, agradável não, só boa. Eu, embora sendo estudante de Filosofia, tenho dificuldade de encontrar alguém com quem conversar sobre Filosofia. Claro, no cotidiano o debate é relativamente intenso entre filósofos, mas ele sempre gira em torno de problemas filosóficos que, por sua vez, estão situados em diferentes áreas.

Um renomado professor do meu curso costuma relatar para nós, em suas aulas, o caráter precário em que a Filosofia no Brasil se encontra, e isso se confirma em alguns encontros específicos, como um em especial, que ocorre de dois em dois anos. Esse caráter pode ser entendido sob a seguinte ótica: a Filosofia sofre uma espécie de “setorização” (divisão em setores) por partes dos acadêmicos em geral, e tudo que se encontra fora ou à margem disso é visto por esses mesmos acadêmicos como a periferia da Filosofia. Parece um contra-senso afirmar a ocorrência desse evento em um país em que essa disciplina se encontra em desenvolvimento, pelo menos no sentido acadêmico, mas parece que o professor não está errado. Ele afirma ainda que esse processo prejudica o amadurecimento do pensamento e, conseqüentemente, da comunidade filosófica do país. Mesmo nos setores em que a Filosofia se divide, há grandes falhas, como o fato de que os autores brasileiros não travam um diálogo verdadeiro, não se colocam a favor, tampouco se contrapõem aos seus colegas a nível textual – diferente da realidade estadunidense, por exemplo.

Mas, voltando à conversa de ontem. Eu sinto constantemente a necessidade de diálogo para que minhas ideias possam fluir e, na minha opinião, esse diálogo ocorre quando eu coloco na “mesa” não apenas o meu objeto de estudo, como também tomo como objetos os pressupostos do meu objeto de estudo. Ou seja, transpondo para uma linguagem metafórica, é como se eu tentasse tornar mais claras as regras com as quais eu jogo determinado jogo. Como boa “dialética”, jamais imagino um jogo em que se joga sozinho. E por ter entrado em contato, ainda que superficialmente, com a filosofia de Gadamer, sei que as implicações teóricas de um “jogo” podem ser decisivas. Sei que se algo está errado (incorreto) dentro de uma sentença, ideia ou teoria é porque determinadas regras foram infringidas e devo sofrer a punição.

Não sei se a ideia está se tornando mais ou menos clara na medida em que escrevo o texto, mas o fato é que me incomoda bastante a irresponsabilidade ou falta de comprometimento (para usar uma terminologia menos ofensiva) de alguns profissionais – e aqui eu enfatizo o termo profissional por acreditar que enquanto se é estudante, o indivíduo pode até ignorar um pouco o que se passa nessas estruturas basilares de uma determinada área do conhecimento, mas não quando se é profissional, pois o sujeito, enquanto consciente das más causas e conseqüências de elementos constituintes dessas estruturas, não está tendo mais uma postura passiva, mas ativa diante dos fatos, ele está sendo cúmplice desse mau-fucionamento, para dizer o mínimo.

A essa altura, a pessoa está lendo e pensando que estou me referindo a uma reforma educacional, mas não é esse o caso, me refiro simplesmente ao “nível” (na falta de uma palavra melhor que me foge à mente agora) de um indivíduo enquanto pesquisador na Filosofia e como isso se reflete na formação dos indivíduos que dele dependem para entender como se configura o pensamento filosófico.

E por que comentei a conversa e não disse quase nada a respeito dela? Bem, o seu caráter é simplesmente ilustrativo, apenas a utilizei para ilustrar o fato de que há momentos em que o indivíduo, já a ponto de desistir de sua opinião sobre o que se passa em um ambiente no qual está inserido, pois mais ninguém parece conseguir enxergar o que ele está enxergando, por sorte encontra outra pessoa que pensa de forma semelhante. Pensemos nas relações sociais, se um indivíduo está inserido num campo teórico em que ele pensa diferente de todos os outros, ele deve escolher entre duas opções: ou se volta contra a maioria – preservando assim o seu intelecto, o seu corpo, a sua alma ou o que quer que esteja em jogo naquele momento -, ou se une aos demais.

Quantas pessoas já tiveram a mesma conversa que eu tive, e quantas dessas conversas passaram a ser decisivas em um determinado contexto histórico? Não estou afirmando que é esse o caso, pois, pelo menos de minha parte, se assim o fosse eu já estaria a essa hora escrevendo um tratado filosófico (a não ser que seja o caso com o meu interlocutor, coisa que me deixaria muito feliz).

Mas o texto serve apenas para tentar deixar claro que o conhecimento nem sempre deve ser um campo teórico no qual as ideias devam ser reproduzidas, mas também o lugar onde novas ideias são produzidas. E o primeiro passo, por mais doloroso e difícil que seja, pode ser aquele no qual erros são apontados. Como eu e meu interlocutor chegamos a comentar, grandes pensadores, inclusive, se tornaram o que são não por estar sempre de acordo com aqueles que foram seus mestres ou que tiveram um grande peso em sua formação intelectual, mas por se colocarem em posição oposta.

Kant, em sua Crítica da Razão Pura, ao colocar a razão em um tribunal para que esta fosse julgada, afirma em certa passagem que um dos seus objetivos com a obra não é tirar dos corações humanos as ideias de liberdade, Deus e imortalidade da alma, mas acabar com o monopólio das escolas, pois, segundo ele, elas pensavam a si mesmas como detentoras do sentido dessas ideias em um grau que chegou a se tornar pernicioso para a vida humana – lembremos das igrejas e a reforma feita por elas do pensamento aristotélico. É nesse sentido a que me refiro quando sugiro a mudança em alguns padrões que servem de parâmetro para a articulação do pensamento filosófico, não é para acabar com maneiras de pensar a Filosofia, mesmo porque, assim como Schopenhauer, penso a verdade como superior ao curto tempo de vida dos homens e, portanto, em última instância a verdade se sobrepõe àquilo que tenta negá-la. Mas, de qualquer maneira, enxergo a necessidade de uma abertura à mudança, de uma superação de um estado-de-coisas e, no final das contas, por motivos que já apontei, comungo dessa ideia de posicionamento teórico: posicionamento no sentido forte do termo e não apenas repetição. O filósofo, da mesma forma que põe conteúdo no mundo, com sua autonomia é também capaz de criar novas situações em que a verdade se configure na realidade de outra maneira.


leia mais
Lars von Trier e a polêmica do Nazismo
A democracia de Rosenfeld
A filosofia do incômodo

9 comentários | Dê sua opinião

  1. Valdecy 08/06/2010 em 2:54 pm

    Vc está convidado a ler matéria em meu blog sobre como deve ser uma pessoa ideal, conforme Aristóteles e Nietzsche formularam. Como é o ser humano atual comparado com a formulação de cada um dos filósofos? Vc se encaixa nas formulações? Ler em: http://www.valdecyalves.blogspot.com

    Responder
  2. André HP 08/06/2010 em 7:17 pm

    Esta ‘setorização’ é por tratar a filosofia como ciência, e não como uma arte de pensar. Uma crise maior da filosofia é ser tratada como uma auto-ajuda.

    “Pensemos nas relações sociais, se um indivíduo está inserido num campo teórico em que ele pensa diferente de todos os outros, ele deve escolher entre duas opções: ou se volta contra a maioria – preservando assim o seu intelecto, o seu corpo, a sua alma ou o que quer que esteja em jogo naquele momento -, ou se une aos demais.”

    É o que acontece com os comunistas-jovens-maconheiros.

    Responder
    • Ivonilda 08/06/2010 em 8:40 pm

      O problema é quando uma aspirante à ciência carrega um peso ideológico forte, que ultrapassa a sua importância histórica: não nos esqueçamos que ela é um saber não apenas fundamental, mas fundante.

      O segundo comentário é de responsabilidade sua.

      Responder
  3. Carlos Gil 09/06/2010 em 2:36 pm

    Tenho para mim que todos os cursos deveriam conter nos seus planos cadeiras de Filosofia… sim ” a arte de pensar”, mas tb uma ciência: a ciência do pensamento. No seu ramo mais elaborado, mais esteta, à Filosofia chamo Poesia.

    Responder
  4. antonioni ferreira chaves 17/06/2010 em 8:55 am

    sou formado em Filosofia pela UECE e especialista em História da África pela UFC.também sinto a mesma angústia que você senta com relação com quem conversar sobre Filosofia.se quiser trocar ideias filosóficas,conte comigo.beijos.

    Responder
    • Ivonilda 17/06/2010 em 1:24 pm

      Opa, quem sabe marcamos algo, Antonioni. Assim que possível, te envio um e-mail.

      abraços!

      Responder
  5. Raphael Douglas 18/06/2010 em 2:18 pm

    Deixo apenas a seguinte afirmação de um grande mestre:

    “Aqueles que se ocupam da filosofia, mas não filosofam, só chegam raramente ou mesmo nunca chegam a um diálogo filosofante porque desconhecem esta prontidão e poruqe a principio, a bem dizer, ela não é algo real e efetivo. Mesmo que diversos artigos venham a ser lançados uns contra os outros através de revistas, nunca haverá uma discussão filosofante enquanto esta prontidão elementar para a periculosidade da filosofia não se apresentar. Todos eles querem demonstrar para si reciprocamente verdades e esquecem, com isso, a tarefa real e mais difícil: inserir seu próprio se-aí e o ser-aí dos outros em uma problematicidade frutífera.”

    Concordando com o filósofo acima, é bem capaz que um faxineiro, passando em frente a uma sala de aula de filosofia, esteja tomado por uma prontidão filosófica autêntica enquanto o próprio professor de filosofia dentro da sala, nada de filosofia (em sentido genuíno) tenha intimidade.

    Responder
    • Ivonilda 21/06/2010 em 1:53 pm

      É, Raphael, olhando deste ângulo, até imagino que a coisa seja bem mais complexa do que imaginamos, pois não é uma questão que diz respeito apenas a países nos quais a Filosofia esteja em desenvolvimento, mas se estende à tradição inteira! Não sabemos como legitimar o discurso filosófico – no sentido científico – sem ferir o princípio de “autenticidade” ou “genuinidade”.

      Obrigada pelo comentário, sempre é bom trazer à tona passagens de pessoas que conseguiram exprimir melhor o que nós estamos querendo dizer.

      Responder

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----