José Saramago: Literatura e Ideologia

por Fernando da Mota Lima – José Saramago tornou-se um escritor celebrado pela mídia desde quando recebeu o Nobel de Literatura. É certo que antes disso já conquistara um amplo público, inclusive no Brasil. Aliás, a recepção da sua obra no Brasil é um fenômeno literário inusitado, já que desde o advento do modernismo a literatura portuguesa ficou reduzida a uma faixa de circulação muito restrita entre nós. Sem dúvida, caberia lembrar o fenômeno Fernando Pessoa, escritor português de maior repercussão no Brasil no decorrer do século 20. Mas o reconhecimento da sua obra, do seu gênio único, foi tardio mesmo em Portugal. Em suma, diferentemente de Saramago, que gozou em vida de prestígio literário único no Brasil e em muitos outros países, Fernando Pessoa é um gênio de reconhecimento e fama póstumos.

A obra de Saramago importa por seu valor intrínseco, pelos valores irredutivelmente literários ou estéticos que são de resto os que asseguram imortalidade a uma obra. E esta, a imortalidade ou permanência no veio da tradição literária, esta é decidida por um juiz supremo e infalível: o tempo. Portanto, somente nossos pósteros poderão avaliar se a obra de Saramago sobreviverá ao juízo do tempo. Isso evidentemente não anula algumas evidências aferíveis no presente. A melhor crítica ainda em atividade aparenta endossar o consenso segundo o qual fração significativa da obra de Saramago sobreviverá à passagem do tempo. Como pouco a conheço, não seria honesto de minha parte propor apreciações que se sustentam na leitura de uma ou duas obras. Aliás, esclareço que foi esse declarado conhecimento restrito da obra de Saramago que me fez relutar em aceitar o convite de Daniel Lopes para registrar num artigo a morte recente do grande romancista português. Diante disso, conviria desdobrar o artigo retendo-o na franja de aspectos externos à obra. De resto, é isso o que a maioria dos artigos e notas correntes na mídia tem feito.

Saramago foi um autor deliberadamente polêmico. Sempre que solicitado a se pronunciar sobre seus pontos de vista, deu ênfase maior, senão quase exclusiva, a temas de natureza política e religiosa. O homem público, investido de um sentido de militância política e ideológica raro na atmosfera cultural em que passamos a viver depois do patente esgotamento dos ideais e utopias gestados pelos movimentos de esquerda, valeu-se sempre de sua fama literária para opinar, por vezes em tom áspero, contra o capitalismo, a religião, as formas correntes de opressão observáveis sob a hegemonia universal do capitalismo. Embora implacável na sua crítica recorrente ao capitalismo, raramente se pronunciou contra os horrores do chamado socialismo de Estado imposto pela União Soviética a grande parte do mundo. Aliás, leia-se totalitarismo onde escrevi socialismo de Estado. Embora sinceramente votado à causa dos oprimidos, dos levantados do chão, assim como daqueles impotentes para levantar-se em face de formas impiedosas de dominação, Saramago praticamente silenciou diante das tiranias impostas em nome dos ideais utópicos que abraçou e sempre defendeu.

Penso que essa é a restrição ideológica e moral mais grave que se deve fazer à militância intelectual de Saramago. Nisso, infelizmente, ele reitera o itinerário de muitos dos maiores intelectuais do Ocidente. Movidos por ideias de justiça e igualdade cuja sinceridade admito, o fato é que findaram sempre na prática silenciando sobre a opressão praticado em nome da ideologia que abraçaram. Falo nestes termos de Saramago assim como poderia falar da maioria dos intelectuais de esquerda que li e noutras circunstâncias inspiraram minhas convicções, assim como as de milhões que através do mundo lhes deram crédito. Falo de Saramago assim como poderia falar de Sartre, Georg Lukács, García Márquez, uma infinidade de comunistas e socialistas democráticos (designação que quase sempre significa comunismo isento de estalinismo) que curiosamente nunca criticaram o estalinismo com a veemência que imprimiram à crítica das ditaduras de direita.

Transpondo esta questão para a realidade ideológica brasileira, ainda hoje intelectuais e artistas silenciam sobre a ditadura cubana, último baluarte da tirania produzida pela utopia comunista. Intelectuais e artistas que profundamente admiro, como Antonio Candido, Chico Buarque e alguns dos mais importantes intelectuais acadêmicos da Universidade de São Paulo, teimam em silenciar diante da ditadura cubana. Esse silêncio cúmplice é de ordinário justificado em nome de uma noção pragmática da luta pelo poder, isto é, mesmo admitindo a tirania praticada pelo partido que adotam, esses intelectuais acreditam fazer em termos efetivos o jogo do inimigo quando a força da verdade ou o horror em face da injustiça se sobrepõe à parcialidade não raro criminosa da ação pragmática ou estreitamente partidária. Sendo assim, não apenas silenciam diante da opressão imposta pelo partido ou ideologia que abraçam, mas também atacam sem clemência os liberais ou ex-companheiros de militância que ousam denunciar a opressão exercida em nome das utopias de esquerda. Bastaria pensar nos ataques e na intolerância desfechados contra intelectuais corajosamente independentes como George Orwell, Arthur Koestler, Camus, Mario Vargas Llosa, Octavio Paz, José Guilherme Merquior, Paulo Francis, Millôr Fernandes…

No plano que acima considero, o grande saldo da militância ideológica de Saramago consiste no combate que travou contra a religião no que esta encerra de superstição e intolerância. Não é sem razão que o L’Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, desfecha dura crítica contra a posição que publicamente adotou em matéria de religião. A voz oficial do Vaticano acusa-o por recusar qualquer forma de metafísica e consequentemente pautar sua ação fundado nos valores de uma ética secular e materialista. Este é o Saramago ideólogo com quem simpatizo. Quanto à permanência da sua obra, que é de resto o que importa para a história literária, esta é uma tarefa que devemos humildemente entregar ao juízo infalível do tempo.


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23 comentários | Dê sua opinião

  1. José Pessoa 20/06/2010 em 8:53 pm

    Caro Sr. F. Mota Lima
    A literatura sem só para nos deleitar de palavras, não serve rigorosamente para nada, a literatura para mim tem de ter um fundamento uma história de de gente, um conto de gente,sobre a vida na terra, seja ela conceito restrito ou no conceito universal de Terra. Por isso acho que Saramago traduziu através da sua capacidade de escrever e dizer, tudo aquilo que muita gente pensa e não oportunidade de dizer, que os poderosos continuam na sua senda de destruir a raça humana, sem que alguém consiga desdidizer ou opôr-se. José Saramago usou e bem a sua e engenho para meter o pauzinho na engrenagem penso que até ao momento o conseguiu, fê-lo premeditadamente digo eu. Um homem de pequeno País e Comunista, conseguiu como soi dizer em Portugal “meter uma lança em àfrica” , ser Nobel da Literatura, as invejas e raiva provocadas na direita e nalgumas “esquerdas” mundiais não lho perdoaram, mas como digo tiveram que o gramar.
    Como diz a falta de critica aos chamados ditatoriais do Socilismo real, como diz que ele não fez, como fez ao capitalismo, é natural, este sempre existiu passanfdo várias fazes da humanidade e mantendo a sua matriz opressora e obscurantista e aqui a igreja a tal dos pobres manteve-se com os poderosos e os familias inteligentes, em que eles e só eles tem direito à inteligência, os regimes que diz que ele não criticou era bom que tivesse uma leitura atenta e das suas intervenções e verificaria as discordâncias com algumas atitudes,
    países de duvidosa liberdade como o s EUA, que têm 200 Instituições policiais no activo, num controle exaustivo dos cidadãos, em que os partidos socialista, Social-democrata, de esquerda e Comunista, pura e simplesmente são marginalizados,em que só sobrevivem os Partidos ligados a empórios financeiros ou a grandes empresas, penso que D. Helder Câmara reflete bem toda uma série de questões e pergunta o que andamos cá a fazer, apesar de já não estar entre nós é um exemplo que a Igreja devia seguir. Quando fala tirania dos paises do socialismo real, de cuba etc, será que não é tirania em paises ditos democráticos, em que partidos ganham eleições na mentira no uso abusivo e desigual da Comunicação social, para impôr os seus ditames e depois de eleitos alteram tudo quanto disseram, enganando mentindo, usando estado em proveito próprio,usando as policias e os exércitos para fazer cumprir as suas mentiras e desejos.
    Finalmente sr. Lima, Saramago foi escritor mas profundamente politico demonstrou à sociedade as injustiças de que são alvo os humilhados e ofendidos, demonstrou a hipócrisia de uma igreja bafienta e lugubre, que espalha pensamentos de há 2000 anos atrás, enquanto nos vêm dizer que os comunistas são retrógados, tenha a santa paciência da honestidade intelectual, que Saramago já triunfou e como o capitalismo se vai afundando na areias lamacentas que criou não virá longe o tempo espero de uma nova sociedade.
    Vou deixar-lhe dos Cadernos de Lanzarote., uma atitude pouco consensual mas que corroboro inteiramente.

    «Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… e, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos.»
    Já Almada Negreiros no seu Manifesto AntiDantas se pronunciava assim….

    E termino com este escrito do Grande Homem Português – José Saramago.

    Com os meus Cumprimentos José Pessoa

    Responder
    • Fernando da Mota Lima 21/06/2010 em 11:56 am

      Caro José Pessoa:

      Grato pelo comentário sobre meu artigo. Não há nele uma linha de louvor ou justificação ideológica da opressão que existe no cerne do capitalismo. Nesse sentido, concordo integralmente com Saramago. Deixei claro no meu artigo meu ponto de divergência fundamental diante dos pronunciamentos polêmicos correntes do grande romancista português. Infelizmente, você aparenta não perceber o cerne do meu argumento, que é crucial para compreendermos a dimensão ética e política da militância de Saramago e outros grandes escritores que cito. O que critico claramente em Saramago é seu silêncio em face da tirania e da opressão praticadas em nome de belos ideais utópicos. Somente um cego ou um completo inconsciente não sabe hoje dos horrores que ocorreram na União Soviética e em todos os países que alegaram realizar neste mundo o ideal de uma sociedade isenta de opressão de classe ou de qualquer outra natureza. Afirmar isso não é justificar a opressão imposta pelo capitalismo, que me causa tanto horror quanto causava a Saramago. O grande entrave nesse tipo de polêmica radica no fato de que somos quase sempre maniqueístas, isto é, a verdade ou a justeza da crítica está num lado ou noutro, com quem defende o comunismo, ou socialismo, ou com quem defende o capitalismo. O fato é que a verdade não está em nenhum destes extremos. A verdade, noutras palavras, não tem partido ou ideologia. O nó da questão é conciliar a militância com a fidelidade aos ideais de verdade e justiça que proclamamos. Será isso possível? O equilíbrio é sempre imperfeito, ou inalcançável, mas lembro-me de uns poucos que chegaram perto disso: Gandhi, Nelson Mandela, D. Hélder, citado no seu comentário, George Orwell, Albert Camus, George Steiner, Millôr Fernandes…

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      • José Pessoa 22/06/2010 em 8:52 pm

        Caro Sr. Fernando. Lima

        Claro que percebi a sua posição, mas no meu entendimento marxista-leninista, as situações têm de ser vistas ou, eu vejo-as como a dialética da Lutas de Classes, penso que José Saramago também assim o viu, por isso era membro do Partido Comunista Português, onde se manteve até ao fim, por uma sociedade nova e diferente. É evidente que também critico como ele o fez e é interessante verificar isso nos seus escritos, no entanto não o fez com a visibilidade, pois seria talvez dar aso aos detractores do socialismo e comunismo, usando o seu nome e capacidade de intervenção mundial, para os anti-sociedade nova lançassem mais uma campanha anticomunista, feita por um comunista, não sejamos ingénuos, penso que para alterarmos a sociedade temos de nos posicionar, ou estamos dum lado ou do outro, não há meios termos. Mesmo sendo ideais utópicos temos de fazer experiências até se conseguir atingir a ideia de Gandhi, sabendo que algumas das suas ideias foram obtidas com violência, senão por ele, mas pelos seus seguidores e como é sabido se assim não fosse não existiria a India, mas uma colónia inglesa e como sabe também praticadas atrocidades debaixo do manto e das palavras de Gandhi.

        Na União Soviética, na sua formação houve Luta de classes, guerra civil, como houve em Espanha em que fascismo venceu apoiados por Hitler e Salazar, a guerra civil Americana, não foi mais que uma luta de classes, lamentavelmente os partidos de novo tipo Socialista e Comunista foram submergidos pela ideia do país das oportunidades, mas também a grande distância do centro da alterações sociais do pós guerra,levou a que a América não tenha tido influência de uma sociedade diferente mas a vida e as alterações que estão emergir vão ecarregar-se de fazer o que não foi feito.
        Também para lhe dizer não sou maniqueísta, mas sei onde me posiciono e luto por isso.

        Quando cita Nelson Mandela, pense que ele pertence ao ANC, partido formado ideologicamente na esquerda comunista de Àfrica, Mandela usou e muito bem toda a sua influência e sacrifício a que foi sujeito para beneficio do seu Povo, ele tomou a atitude dialética da luta de classes, era preciso fazer vingar uma sociedade diferente e que infelizmente ainda vai demorar muito.

        Penso que os homens citados, uns mais que outros, a prática é sempre mais experiente do que a teoria, tentaram ver o mundo à sua maneira mas o que é preciso é mudá-lo, e isso para alguns é demasiado sacrifício para o pouco tempo que vamos passar na Terra face ao cosmos, portanto é melhor irmos assistindo…
        Quando chegar ao fim, se olhar para trás, verá que discutiu, falou, mas não se revoltou!

        Quando diz que a verdade não tem partido ou ideologia, não estou de acordo ela posiciona-se sempre do lado da verdade, se queremos alterar as coisas, como dizia um autor alemão Tankred Dorst – na peça de teatro a Curva – “Todos nós temos a ver com tudo!” , por isso neste mundo nada nos pode passar ao lado e devemos actuar na luta contras a injustiças, e essas vêm do tempo de antanho, mas vamos acabar com elas! Tenho Esperança!

        Com os meus Cumprimentos
        J. Pessoa

        Responder
  2. Blog de Um Brasileiro 20/06/2010 em 9:51 pm

    O TRISTE FOI A BOBAGEM PUBLICADA PELO VATICANO DEPOIS DA MORTE DO GRANDE ESCRITOR.

    Responder
  3. carlos anselmo-fort-ce 21/06/2010 em 10:05 am

    me decepcionei com o texto, pois o imaginava sobre a obra do patrício português.
    além do autor confessar ter um “conhecimento restrito da obra de Saramago”, se limita a criticar a posição política do escritor, coisa já conhecida de seus leitores.

    dessa forma, tomo a liberdade de ousar afirmar que o amálgama continua devedor de um post sobre o genial português.

    abçs
    .

    Responder
  4. fred.k 21/06/2010 em 10:24 am

    Sua crítica não é de todo exata.
    Saramago rompeu com o regime cubano anos atrás depois de mais uma série de prisões e mortes de dissidentes do regime. Portanto, pode tirá-lo da conta dos intelectuais que se calam sobre as injustiças cubanas.

    Responder
    • Fernando da Mota Lima 21/06/2010 em 3:06 pm

      Caro Fred:

      Você menciona um fato do qual tenho conhecimento. Observe, no entanto, que ele não invalida a substância do meu argumento. Aliás, suponho que você admite isso ao frisar que minha crítica “não é de todo exata”. As nuanças e detalhes, tantas vezes ignoradas em polêmicas e debates, precisam ser lidas com atenção. Se você se der ao trabalho de reler meu artigo, notará que escrevi o seguinte: “(Saramago) raramente se pronunciou contra o chamado socialismo de Estado…” Observe, portanto, que não afirmei que ele nunca se pronunciou contra a tirania praticada em nome do comunismo ou do socialismo.

      Responder
      • fred.k 21/06/2010 em 5:26 pm

        Saramago alguma vez fez defesa do Estado stalinista? Não reconheço nenhuma. Alguma vez fez elogio da ditadura norte-coreana? Também desconheço. Fez elogios à ditadura cubana? Fez, mas voltou atrás em sua posição.
        Sinceramente, eu só me lembro de Saramago defendendo uma ideia de comunismo tão profunda quanto a de um estudante universitário de primeiro ano cheio de idealismo. Da defesa do socialismo de estado para defesa do stalinismo há todo um oceano de conceitos que não pode ser ignorado.

        Aproveitando a deixa, o que seriam esses tais intelectuais independentes? Independentes em relação a quê? Independentes por serem críticos da esquerda? Orwell, quando na esquerda, não era independente? E o Céline? É independente, ou por ter sido nazista não vale a pena citá-lo? Não existem intelectuais independentes. Existem, isso sim, intelectuais comprometidos e não-comprometidos. E eles podem estar comprometidos com ideias que gostamos ou não gostamos. E, sinceramente, a tendência é que suas posições pessoais sejam diluídas na história, e o que fique sejam apenas suas obras. Sugiro que vc leia a obra de Saramago, pois, como vc disse, não tem familiaridade com ela. É a obra que importa.

        Responder
        • Fernando da Mota Lima 22/06/2010 em 1:11 pm

          Caro Fred:

          Prezo considerar os comentários de todos os leitores que dão atenção ao que escrevo. Infelizmente, você há de convir, um debate ideológico da natureza do que você me propõe é impraticável. Para não deixar você sem resposta, esclareço que em nenhum lugar disse que Saramago fez a defesa do estalinismo, nem ele nem os que critiquei por silenciarem acerca da tirania imposta em nome de ideais revolucionários. O que critiquei foi o silêncio deles, que é evidência de cumplicidade. É aí que está o cerne da questão. Você deve ter observado que citei, como exemplo de intelectuais ou políticos admiráveis pela independência partidária com que se portaram, gente de diferentes identidades ideológicas e até religiosas, embora eu seja ateu. O que neles admiro e reconheço é a independência com que criticaram a intolerância e até crimes cometidos pelo próprio grupo ou partido do qual faziam parte. É o caso, lembre-se, de Gandhi durante o processo de luta pela independência da Índia; de Mandela contra o apartheid; de Millôr Fernandes, no Brasil, que como jornalista e intelectual sem partido e sem adesão a qualquer grupo,sempre criticou e desmascarou todos os lados. Lembro ainda Orwell, que aliás nunca deixou de ser socialista democrático, portanto de esquerda. No Brasil, como em muitos outros lugares, ele foi caluniado e censurado como ideólogo do capitalismo, coisa que ele nunca foi. Quem conhece um mínimo da sua obra, um mínimo da sua vida pautada pela coragem com que sempre combateu a opressão, sabe que ele se manteve até o fim fiel a suas convicções substanciais. Nada disso pode ser dito em favor de Céline, que importa como romancista, mas como ideólogo de direita é merecedor de desprezo. Você tem razão ao me recomendar conhecer melhor a obra literária de Saramago, que é literariamente o que de fato importa, como aliás deixei claro no meu artigo. Façamos um acordo para encerrar esta polêmica: prometo ler os romances de Saramago que ainda ignoro, contanto que você também leia melhor os intelectuais dos quais fala sabendo tão pouco. Um abraço,

          Fernando.

          Responder
      • Bosco 22/06/2010 em 12:24 pm

        Intelectuais independentes? Ninguem é imparcial ou independente, o seu poste é um belo exemplo.

        Responder
  5. Amâncio Siqueira 21/06/2010 em 3:38 pm

    Coloco aqui o texto de meu amigo Socó Pombo, publicado no blogue Phallos, sobre o que estamos sentindo:

    Há muitos dias em que a cegueira branca parece ameaçar contagiar todo o mundo. Dezoito de junho de 2010 terá sido um desses dias para a literatura universal. Nesse dia, a voz de José Saramago já não voltará a erigir-se contra o absurdo dos seres humanos. Restam seus mais de quarenta livros, as centenas de entrevistas gravadas e impressas e o amor daqueles que não o poderão esquecer.
    Não apresentarei aqui uma minibiografia do escritor português, único vencedor do prêmio Nobel em nossa língua. Saramago é tão universal, que será fácil encontrar sua biografia, resumos de suas obras e quaisquer minúcias de que careçam aqueles que ainda não o conhecem.
    Ainda baqueado pela tristeza, deixo aqui apenas minhas impressões, carregadas de luto, da importância da obra daquele que considerava o maior escritor vivo.
    Com apenas oitenta e sete anos, pode-se dizer que o escritor faleceu em plena flor da idade, no auge de sua lucidez, em plena forma e completa entrega ao trabalho, sem dúvida a maior diversão de sua grandiosa vida. Produzia como nunca, como a vislumbrar próximo o momento do inexistir.
    O grande diferencial da literatura de Saramago é a subversividade. Não apenas o conteúdo do seu texto é veemente contra o absurdo das regras impostas, como a própria forma. Subversividade infantil, diria, pois é no humor, no lúdico que o escritor enfrenta o irracional de ser cordeiro. Brinca com a sintaxe, com a acentuação, com os discursos, criando um mundo só seu de possibilidades linguísticas. É essa a maior perda: a perda de um estilo de escrita que transforma o próprio texto em materialização da premissa, sendo ele próprio a história e não somente seu portador. Pois não é apenas um mágico absurdo a linguagem de Saramago, como suas próprias histórias, como se a única maneira de racionalizar o absurdo do humano existir seja por intermédio do absurdo em forma de um país solto do continente a vagar pelo oceano, uma epidemia de cegueira branca ou o nascimento de um filho de deus. Tantos absurdos que nos levam a refletir sobre o afastamento dos seres humanos, seu vagar sem rumo, a contagiosa ignorância, o medo da morte e a dor da culpa auto-imposta.
    Sua ironia remonta aos tempos helênicos, como caminho para chegar à episteme, à perfeita consciência de saber-se sabedor.
    Brincando com coisas sérias, Saramago leva o leitor a rir-se de sua própria miséria, e refletir sobre sua dura realidade, a imaginar um mundo mais leve porque menos culpado.
    E assim se deu sua vida, leve e sem culpa.

    Responder
  6. Bosco 21/06/2010 em 9:11 pm

    Esse texto foi psicografado no mosteiro de Olinda pelo espírito do “corajoso” e “independente” Paulo Francis.

    Acaba não mundão!
    (ou se preferir: Santa mãe de deus!)

    Responder
  7. Bosco 21/06/2010 em 9:33 pm

    É… O amálgama anda meio engraçado…

    Ah! Tenho uma ideia: O corajoso e independente Fernando da Mota Lima, bem que podia cantar uma ode sobre a ovação de quinze mil pessoas feita ao Serra sob a batuta do corajoso e independente do Pe. Marcelo Rossi. O outro carajoso e independente Ali Kamel escreveria os versos o corajoso e independente Pe. Marcelo tocava a lira.

    Não ficaria bonitinho?

    Responder
  8. Joaquim Mendes de Azevedo 24/06/2010 em 9:17 am

    Saramago tinha o defeito de todos os radicais: defendia exacerbadamente seus ideais. Isso, indubitavelmente, impediu que nos aproximassemos.
    Pai coruja, eu aceito! Avô coruja? Claro, eu sou um. Agora, radical coruja?
    As pessoas de bem, devem criticar (dentro da razão) sem olhar a quem!
    Já literatura perdeu algo de precioso.
    Joaquim Azevedo

    Responder
  9. Amâncio Siqueira 24/06/2010 em 1:34 pm

    Fico procurando esse radicalismo de Saramago e não o encontro em nenhum de seus livros, em nunhuma de suas entrevistas. Nunca o vi conclamar ateus a matar crentes, ou comunistas à guerra contra capitalistas. Defender uma ideia é ser radical? Sempre achei que radicalismo fosse o ódio a pessoas de ideologia contrária. Nunca vi ódio em Saramago. Agora, pelo que vejo, a maioria sempre acha a minoria radical quando discorda de seus ideais.

    Responder
  10. josé manuel outeiro 25/06/2010 em 4:51 pm

    Eis umha sondagem sobre qual o melhor romance de José Saramago:

    http://fortunacritica.outeiro.com/2010/06/qual-e-o-melhor-romance-de-jose.html

    Responder
  11. Marinho 21/07/2010 em 10:48 am

    Independentes? gente como Vargas Llosa que defende com unhas e dentes uma “utopia” reacionária como o neoliberalismo friedmaniano? o sr. já ouviu falar dos críticos à esquerda do capitalismo de Estado soviético como o compatriota de Saramago, João Bernardo entre outros?

    Responder
  12. Fernando da Mota Lima 24/07/2010 em 8:42 pm

    Bosco:
    Complemento aqui a resposta que lhe devo e saiu há pouco muito imperfeita e com erros de revisão. Grato pela indicação do site para que eu aprenda um pouco sobre os horrores do imperialismo americano. A não ser que você me considere uma pessoa muito mal informada e apologista do imperialismo, americano ou de qualquer outra natureza, não preciso desse tipo de leitura. Tudo que escrevi sobre Saramago e os EUA não lhe fornece uma evidência mínima de que compartilho de tal ponto de vista. Já deixei claro que não discordo das críticas que Saramago faz ao capitalismo. O que nele critiquei foi a omissão, salvo raras exceções, diante do totalitarismo perpetrado em nome de belos ideais e utopias de esquerda. Quando jovem acreditei nessas fantasias ou mentiras e procurei dentro dos meus limites modestos combater o capitalismo. Aliás,continuo combatendo-o. O que não mais me passa pela cabeça é acreditar em utopias revolucionárias cujas consequências históricas estão aí diante dos olhos de quem é livre para ver. Quanto à noção de independência, deixo claro que não me refiro à independência absoluta. É claro que toda opção humana, política ou não, é falível e portanto exposta ao erro. O que designei como intelectual ou militante político independente é aquele que tem a coragem de denunciar o erro, a opressão e outros horrores praticados em nome daquilo que defende. Afinal, é fácil denunciar inimigo. Quando cito Orwell, Gandhi, Mandela, Vargas Llosa, Paulo Francis e outros, quero simplesmente afirmar que tiveram a coragem de denunciar os desvios e crimes praticados em nome do partido ou ideologia que defendiam. Vargas Llosa, assim como Octavio Paz, foi dos poucos intelectuais de esquerda, inicialmente adeptos da rev. cubana, que ousaram denunciá-la quando ela ganhou nítidos traços de ditadura. Quantos brasileiros, ainda hoje, têm a coragem de afirmar isso de público.?O mesmo argumento vale para os outros intelectuais que citei. Foi simplesmente isso o que quis dizer quando aludi a intelectuais indepedentes.
    Fernando.

    Responder
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  14. suzana 30/11/2010 em 12:41 pm

    olá! parabéns pelo artigo! eu qeria saber o q levou a depressão das questões sociais e o avanço dos partidos comunistas? e quais consequencias surgiram atravéz desta depressão?
    aguardo resposta bjosss…^_^

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  16. Paulino Gabriel Sepalanga Satchenda 09/12/2011 em 8:45 am

    Cada um tem a sua forma de analisar as ideias dos outros. Porém, eu ainda acredito no que acabei de ler e me revejo num perfeito artigo que revela, de forma resumida aquilo que é e foi José Saramago. Aliás, o titulo bem o espelha. “Literatura e Ideologia” no caso de JS. Na verdade foi o único que conseguiu, com a literatura, ser honesto consigo mesmo sem silenciar nada que o ocorresse em seu pensamento ou na alma. Força, prof. Fernando da Mota Lima, é o que lhe desejo do fundo de mim.

    Responder

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