3–06–2010

Jonathan, o Frankenstein


por Kentaro Mori * - Em meio a relâmpagos e trovoadas de uma tempestade, o cientista maluco, o doutor Frankenstein, comemora descontroladamente. “Está vivo! Está vivo!”, grita enquanto a criação monstruosa que acabará por matá-lo adquire vida. É a imagem gravada fundo na consciência coletiva do complexo de Frankenstein, dos perigos da ciência descontrolada. O anúncio recente de mais um passo na direção de vida sintética provocou medo, enquanto o principal responsável foi imediatamente comparado ao doutor que gritava “está vivo!”. Uma busca por “Craig Venter Frankenstein” retorna mais de 30.000 resultados, muitos dos quais de veículos importantes de mídia.

A história de terror de Mary Shelley cumpre um bom papel ao chamar atenção à necessidade de que conquistas científicas e tecnológicas sejam sempre cercadas de cautela e discussão. Como seres emocionais, contudo, o monstro de Frankenstein talvez fale bem demais com nossos sentimentos e muito pouco com a razão, elemento essencial para que a cautela não se transforme simplesmente em um pânico tão insano quanto o do fictício doutor.

Para lidar com isso na mesma moeda e contrabalançar o jogo, apresentamos aqui um adorável vídeo muito real de Jonathan. Um bebê de oito meses com problemas auditivos, no momento da ativação do implante coclear que permite que finalmente escute sons.

Assista atentamente, na marca de cinco segundos o médico diz “it’s back on again”, ou “está ligado de novo”, e como um interruptor de luz, ou mesmo como um raio, a expressão do bebê muda instantaneamente enquanto nossos corações se derretem pouco a pouco. Mais de 150.000 pessoas já receberam implantes cocleares e passaram a escutar melhor o mundo de sons que nos cerca, em dispositivos eletrônicos que não são movidos a tempestades tenebrosas nem criados por cientistas malucos, mas sim por simples baterias e uma comunidade médica e científica trabalhando para melhorar nossa qualidade de vida. Se você ficou curioso, a amiga Giseli Ramos, “uma ciborgue com ouvido biônico”, conta mais sobre sua experiência com implantes cocleares.

Ciência e tecnologia são instrumentos poderosíssimos que podem nos permitir concretizar praticamente tudo que imaginarmos, sejam estes sonhos ou pesadelos. Compreender melhor estas possibilidades e discuti-las com toda a sociedade é o que diferencia um doutor Frankenstein isolado em seu castelo de centenas de milhares de Jonathans acessando um mundo de sensações com o ligar de um interruptor.

* Kentaro Mori, Suzano-SP, é estudante de análise de sistemas e responsável pelo site Ceticismo Aberto e o blog 100nexos.

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| 3 comentários | Dê sua opinião ↓ |
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  1. Daniel (3–06–2010 11:36 pm)

    Videozinho de derreter o coração, verdade.

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  2. Blog Arlesophia (4–06–2010 3:06 am)

    #ultimas Amálgama: Jonathan, o Frankenstein http://tinyurl.com/38udqrd

  3. Andréia (18–06–2010 1:23 am)

    vc expressou td o que acredito sobre a função da ciência mas todas as profissões são dominada pela ganância do homem.

    -Responder