Fora da nova ordem mundial
por Ricardo Cabral - Aguardei essa foto por mais de uma eternidade. E só depois que chegou comecei a processar parte do que pensara quando soube da história em torno dela.

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Para começar, a dúvida sobre ser um ponto ou um acento agudo aquilo que aparecia em cima do “i” de Francis, o único que assinou sua carteira de identidade. E a confissão de ter tido um certo pudor ao ver sua assinatura, o éfe com jeito de tê, a ligeira inclinação das letras para a esquerda. (Será que ele é destro?) Pode que não se importasse de ver sua letra exposta por aqui, mas se eu estivesse em seu lugar, garanto que me importaria. Nesse caso, melhor não deixá-la à mostra. Por outro lado, me chateia não saber como se chama o senhor que aparenta ser mais velho. Tem algo de descortês falar de alguém sem sequer poder chamá-lo pelo nome. O que sinto, porém, é totalmente irrelevante. Vale é a história deles.
Antes de mais nada, a foto com essas duas cédulas de identidade circula mundo afora desde o ano de 2005, se não me falha a memória. É por isso que me atrevo a reproduzi-las aqui. Conheço quem as retratou e sou muito amigo daquele que as mostrou pela primeira vez em público, num congresso internacional de medicina. (E bato demoradas palmas para ambos.) Porque mesmo que eu não tenha dito nada ainda, a esta altura do campeonato duvido que alguém não tenha notado que o Francis com ou sem acento no “i” e o senhor que aparenta ser mais velho têm algo em comum, e fica no pescoço, do lado direito: trata-se de um cateter venoso central, um acesso temporário para a hemodiálise que em algum momento de suas vidas ambos descobriram precisar. (Tentei dar mais destaque nos 3X4 aí ao lado.)
Sim, são dois sujeitos com insuficiência renal crônica; e não, este não é um post sobre a doença, pelo menos não especificamente sobre ela. Estatísticas sobre sua incidência, diagnóstico, tratamento, taxas de mortalidade e aspectos correlatos ficam de fora, devo avisar. Em compensação, ainda há o que dizer sobre os dois cidadãos dessas fotos. E cortando o clima, vou logo avisando: a pista está na frase anterior, na maneira como os nomeei.
As cédulas de identidade são de Sergipe. É mais um dado que ambos têm em comum, mas não o último. Baixa renda e analfabetismo — funcional, no caso do Francis com ou sem acento no “i” — são outros dois. Mas em meio a tanta restrição, o que haveria de positivo a destacar?
Cidadãos, eu disse. Pode que muitos não os vejam assim, mas aqueles que pensam desse jeito que se danem. A cidadania de ambos é reconhecida como tal pelo Estado: à raiz da doença eles passaram a ter identidade, CPF, e o Sistema Único de Saúde sabe bem quem são. Seu tratamento é custeado por todos nós, inclusive pelos que olham para eles com desdém. E aqui vai outro não: nenhum dos dois recebe esmolas, favores ou coisa que o valha, nem mesmo precisam dizer obrigado, embora sempre o tenham feito, nem que fosse por educação.
Poderia se dizer que foi por mau gosto do destino, só que seria hipocrisia pôr nos ombros dele as consequências desse nosso arranjo social perversamente excludente e iníquo. Mas o que vale é que mesmo pelo avesso, fruto de uma doença crônica, estes dois saíram da margem e enfim receberam o que sempre lhes foi de direito. É isso o que verdadeiramente importa.
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Da história que me contaram, esboço a cena. Ela se dá num congresso internacional de medicina, mais especificamente sobre nefrologia. Médicos, representantes da indústria farmacêutica e fabricantes de equipamentos hospitalares reunidos em uma ampla sala de conferências, discutindo em torno a números sobre pacientes, formas de tratamento, políticas locais e globais de saúde, e também sobre os valores astronômicos envolvidos, em dólar, euros e reais. E entre tantas palestras cheias de estatísticas, nomes de novos equipamentos e técnicas para terapias renais substitutivas, uma simples foto, no meio da apresentação em PowerPoint de um médico de país emergente, silencia a plateia. Os milhões de dólares em contratos para novos medicamentos e máquinas de última geração ficam inadvertidamente em segundo plano. E todos, eu disse todos, dão-se conta daqueles dois senhores, com seus catéteres à mostra, como dizendo-lhes “com licença, nós estamos aqui, sim, e agora queiram fazer o favor de nos respeitar”. E todos, ou quase todos, mesmo que por um instante, re-humanizam-se.
A minha imaginação tem muito de piegas, concordo. Mas desentorte a boca, vá, que essa indiferença no rosto te envelhece (e envilece), além de não assentar contigo — se essa for a tua expressão agora. Pois o Francis com ou sem acento no “i”, que nunca ouvirá falar deste texto, até onde sei está muito bem, obrigado, tocando sua vida cidadã. Pena não poder dizer o mesmo do senhor que aparenta ser mais velho, pois ouvi dizer que faleceu, não sei a causa. Mas o certo é que antes do seu passamento viveu dignamente, tão cidadão quanto o Francis, você ou eu. E vale dizer que a minha pieguice e a minha tristeza, o sarcasmo e o desdém de alguns e mesmo a caridade de outros não tiveram sequer um pingo de participação nisso.
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Para terminar, logo depois de ler os parágrafos anteriores, um bom amigo me disse: “Sinceramente, não entendi onde esse seu texto quis chegar…”. Assumo como minha a dificuldade de me fazer entender, e respondo de maneira sucinta: que no meio de um tratamento médico, sem que ninguém tivesse pensado a respeito, houve inclusão social, resgate de cidadania; que o fato ocorreu sem que fosse favor, esmola ou qualquer tipo de caridade por parte dos bem-nascidos; e que isso é muito, muito bom!
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Meu caro Ricardo, ótimo texto, sem pieguice nenhuma. Muitas pessoas precisam ver fotos para perceber a realidade que nos cerca e se dar conta que pessoas são muito mais que números, estatísticas, parte de um tecido social ou exemplo de cidadania: são pessoas como eu e você, com suas virtudes e defeitos, problemas e soluções, simplicidade e complexidade, saúde e doença, tudo resumido numa foto, como nesse episódio! A carência humana desperta naturalmente bons sentimentos nos outros, ou ao menos deveria. Caridade, favor ou esmola, tudo isso é muito bom tanto para quem dá quanto para quem recebe, desde que se tenha em mente apenas o alcance objetivo mútuo do gesto, sem culpa.
Parabéns pelo texto.
Caro Olivio, obrigado pelo comentário. De fato, no texto toco na questão da nossa desumanização, quando conto a história do congresso de nefrologia, mas da possibilidade de reumanizar-nos, ao dar-nos conta de um outro que até então não víamos, que tratávamos como número, coisa. Ao mesmo tempo, bato um pouco na questão da filantropia, de um tipo de ação que tem aspectos muito positivos, não nego, mas que às vezes funciona para deixar as coisas como estão, isto é, a manutenção do que chamei de “arranjo social perversamente excludente e iníquo”. O outro, especialmente aquele desfavorecido, à margem, não pode dever aquilo que é seu de direito. Sua dignidade não lhe é dada por nós, mais favorecidos, graças aos nossos gestos piedosos, mas sempre lhe pertenceu. Esse é o risco encoberto pelos nossos nobres gestos, que só importam se tivermos “…em mente apenas o alcance objetivo mútuo do gesto”, como você bem disse.
Abraços
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