Dez anos de genoma humano

por Otávio Dias – Num período como este em que as referências temporais se encontram tão embaralhadas, nada mais natural que desejar abraçar o futuro com pés plantados no passado. Um passado como aquele em que, quando o bom selvagem – troque por grego, se prefere ser politicamente correto – ficava doente, o sábio, curandeiro, bruxo da vila era convocado a fazer uso de conhecimentos milenares, livrando o bom selvagem de seus males.

O mundo moderno, entretanto, nos apresenta realidades que, de tão fantásticas, soam como delírios e são desacreditadas em círculos populares. Outra perspectiva sobre essa realidade nos é apresentada pelos especialistas nas diferentes áreas das ciências biológicas, que vêm tendo seus estudos profundamente influenciados pelas descobertas oriundas do Projeto Genoma Humano, que há dez anos – precisamente, dia 26 de junho de 2000 – nos trazia como fruto o anúncio do seqüenciamento completo do nosso genoma.

O genoma corresponde a toda informação existente no DNA de alguém, ou seja, é uma espécie de manual de instruções pra se montar o corpo físico de um homem, célula por célula, proteína por proteína. Já conhecíamos blocos de matéria mais básicos que o DNA; somos todos formados por átomos – o DNA é formado por átomos! –, partículas que são compostas por um núcleo atômico em que se aglutinam prótons e nêutrons (que por sua vez não são partículas fundamentais) envoltos por uma nuvem de elétrons (estes, sim, partículas fundamentais). Apesar de conhecermos estes pequenos blocos há quase um século e de sabermos quais os elementos químicos que compõem a mim e a você, nos escapava como a planta básica esquematizaria um ser humano, quimicamente. Numa analogia grosseira, era como se o responsável por uma obra gigantesca – tomemos o Edifício Itália como exemplo – soubesse que o prédio é composto por pedras, parafusos, canos, etc., soubesse da existência de paredes e chão e janelas mas não tivesse ideia de como posicionar cada um dos elementos, de como ordenar os componentes.

-- O museu Wellcome Collection (Londres) exibe o genoma humano completo em 118 grossos volumes --

Um grande marco em nossa história científica e resultado explícito do positivismo que, insistem alguns (leia-se especialistas em ciências humanas), está em plena decadência e não nos serve mais, o primeiro rascunho do genoma humano foi desenvolvido durante um período de dez anos, tendo sido anunciado pouco menos de 50 anos depois da descoberta da estrutura molecular do DNA – feito que valeu um Nobel. O objetivo inicial do projeto era mapear e identificar as seqüências que compõem nosso DNA, o que implicava na possibilidade de entendermos as doenças que atingem o homem de uma maneira completamente diferente, inovadora. Explico.

Voltemos aos selvagens, rapidamente. Desde os primeiros diagnósticos e curas a que estes se submetiam até tratamentos (praticamente) medievais a que nos submetemos ainda hoje, não conseguimos mudar a perspectiva que temos de doenças que têm origem genética como, por exemplo, diabetes, câncer, fibrose cística e, quem sabe – porque parece que ainda não foi identificada a origem deste mal –, ceratocone. Conhecendo o genoma humano seria possível, por comparação, identificar as variantes em nosso genoma que implicam em doenças de origem genética e, quiçá, desenvolver mecanismos de cura para estas enfermidades. Ainda não chegamos a isso. Ainda.

O rápido avanço no seqüenciamento do genoma humano foi resultado direto de muita colaboração e concorrência: um consórcio encabeçado por institutos e universidades nos Estados Unidos e Reino unido, que contaram com a colaboração de laboratórios em todo o mundo, inclusive Brasil, deu o pontapé inicial nas pesquisas. Anos depois uma empresa privada, Celera Genomics, se juntou a eles na corrida pela informação usando menos dinheiro e trabalhando com técnicas mais velozes (e, claro, usando informações já partilhadas pelo consórcio estatal); o objetivo principal desta era, ao atingir as metas já citadas, conseguir ganhar dinheiro com patentes e desenvolvimento de ratamentos. No final das contas essa corrida terminou em empate, com o fatídico anúncio do primeiro rascunho de nosso genoma há 10 anos pelos chefes dos dois projetos, estatal e privado. Desenhávamos, há dez anos, uma primeira planta do ser humano.

Não encontramos muita utilidade pra esse mapa, ainda. Nada de curas mágicas, de pote de ouro ao final do arco-íris. Conquistamos mais trabalho. O esforço conjunto gerou enorme quantidade de informação que vem sendo partilhada de maneira exemplar e permite novas abordagens tanto no estudo de doenças quanto no entendimento dos mecanismos de evolução das espécies; exemplo muito claro desse segundo campo é o seqüenciamento completo do genoma do homem de neandertal, recentemente concluído. Teorias de conspiração contra empresas farmacêuticas e discussões religiosas à parte, estamos apenas começando a maior de todas as jornadas: conhecermos a nós mesmos.

—–
Imagem na abertura do post: Representação da dupla hélice do DNA [crédito: National Human Genome Research Institute]


leia mais
Brasil entra na campanha 10²³: Homeopatia é feita de nada
Grandes Questões da Ciência
Não, a ciência não encontrou provas de precognição

4 comentários | Dê sua opinião

  1. Pingback: Dois links interessantes: um depoimento e um retrato « Caducando, lendo e assistindo.

  2. Pingback: Rato de Biblioteca » Blog Archive » Semana do Rato

  3. genivaldo elias dos santos 27/06/2010 em 2:04 pm

    precisamos entender e pesquisar muito a respeito do genoma humano,a coisa não é facil.

    Responder
  4. Pingback: [Amálgama] Mais lidos de junho

Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

----- Consulte os arquivos do Amálgama ||| Publique ||| Contato ||| Para reproduzir nossos textos -----