A Deus, Saramago!

Para Lillian, que encontra paz na oração.

por Luciano Oliveira - O título deste artigo é uma evidente brincadeira com o ateísmo militante de Saramago, agora que o grande escritor português morreu. Se seu espírito partiu desta para outra ou, como ele incisivamente acreditava, tudo o que um dia se chamou José Saramago  carne, fluidos, desejos, ossos, inteligência  agora virou literalmente cinzas, nunca nenhum de nós saberá, porque tudo isso pertence agora ao Grande Mistério. Devo dizer que conheço pouco sua obra. Mas me lembro ainda hoje de um longínquo carnaval em que, refugiando-me já da ruidosa folia que só fez piorar desde então, li, maravilhado, O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Era um grande escritor, dono de um estilo todo seu que o leitor identificava assim que lia as primeiras linhas  da mesma maneira que três acordes identificam a música de um Piazzolla, por exemplo. Foi um desses autores que invertem o gesto do leitor que larga o livro quando quer: o texto dele nos agarrava!

Isso é uma coisa. Outra são as idéias desse renitente comunista e ateu português. Sei que de acordo com um velho fair-play  afinal de contas o defunto não está mais aqui para se defender , não se deve falar mal de quem acabou de falecer. Mas, no caso de figuras públicas, suas ideias como que se despregam da boca que as enunciou, passam ao domínio público e, nesse espaço, é legítimo, sim, delas discordar; e, até, reafirmar tal discordância exatamente num momento como esse em que a morte, com o seu poder de beatificação, produz uma espécie de culto ao grande morto, como se tudo o que ele tivesse dito merecesse devoção.

Não é o caso. É preciso lembrar que Saramago, politicamente, protagonizou, antes de escrevê-lo, seu próprio “ensaio sobre a cegueira”! Apenas em abril de 2003, depois que o regime caquético de Fidel Castro fuzilou três desesperados cubanos que seqüestraram um barco de turistas numa tentativa mambembe de fugir da Ilha  uma operação em que ninguém saiu ferido e deu literalmente com os burros n´água  é que Saramago escreveu um artigo em que declarava seu afastamento do regime cubano com uma frase que ficou famosa: “Até aqui cheguei”. Chegou tarde. O mais surpreendente é que, a despeito disso, continuou proclamando-se um comunista de velha cepa, como se o stalinismo, o maoísmo e todos os milhões de mortos que esses regimes produziram fossem desvios de percurso, e não algo inscrito na lógica mesma da ideia estapafúrdia de produzir um “homem novo” através de um regime político. Como disse certa feita outro grande escritor, Graham Greene, “a inocência é uma forma de insanidade”…

Voltando ao assunto sugerido pelo título, há algo de primário no ateísmo militante em que o morto parecia se deleitar. Crenças são crenças e é difícil argumentar racionalmente a respeito delas. Descrenças, também. Mas certas provocações de Saramago eram tão ásperas que pareciam ecoar um vetusto anticlericalismo de comunista português que passou boa parte da vida adulta vergado sob a ditadura beata de Salazar, à qual nunca faltou a bênção da Santa Madre Igreja. A ideia de Deus como o “maior absurdo” criado pelo “cérebro humano”  palavras suas  soa gratuita e, metafisicamente falando, é primária, porque nada resolve acerca da questão fundamental do próprio Ser  que já atormentou a cabeça de tantos filósofos: por que existe algo ao invés de nada? Noutros termos, por que o universo existe? Questão intransponível. Despercebida pelo homem comum, ela interpela a certeza do ateu que acha absurda a existência de um Deus incriado, mas não nota que a existência de um mundo sem Deus, por conseqüência também incriado, é igualmente absurda! A questão atormentou Aristóteles, que a resolveu através da hipótese  incorporada, aliás, à teologia cristã por São Tomás de Aquino  do “primeiro motor”, espécie de exigência lógica para o pensamento salvar-se do bloqueio em que a questão o mergulha.

Outra provocação lhe era particularmente cara, a de que as religiões, “sem exceção”  as palavras são igualmente suas  “fizeram à humanidade mais mal do que bem.” Trata-se de uma afirmação, como diria o filósofo Karl Popper, “infalsificável”. De um lado porque não se conhece sociedade humana que não tenha tido religião. Então, como comparar?  como saber se a ausência de religião produziria um mundo em que há mais bem que mal? Europeu e, portanto, inserido na tradição judaico-cristã, Saramago, ao dizer essas coisas, provavelmente tinha em mente instituições como a Santa Inquisição e eventos como as guerras de religião que ensangüentaram a Europa durante muito tempo  aquela e estas, de fato, coisas más e, aliás, muito pouco cristãs! Mas disso pode-se deduzir que o sentimento do sagrado não foi igualmente responsável por coisas boas? A Santa Madre, por exemplo, não gestou apenas a intolerância de Santo Inácio de Loyola, abrigou também o infinito amor por todas as coisas de um São Francisco de Assis. Aliás, saindo da órbita ocidental, o que dizer do Budismo  segundo o qual os homens não têm o direito de fazer mal sequer a uma minhoca?…

Deixemos tudo isso de lado. O grande escritor está morto e não mais escreverá. A mão que compôs com tanta humanidade o Evangelho Segundo Jesus Cristo não está mais aqui. Mas o livro está! Invertendo o que disse Drummond, “as coisas lindas, muito mais que findas, estas ficarão”.


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13 comentários | Dê sua opinião

  1. Daniel 23/06/2010 em 12:46 am

    Caro Luciano,

    Quando Saramago disse que a religião fez mais mal do que bem à humanidade, ele quis dizer apenas que os bens em seu nome foram menores que os males. Com o que eu concordo. O mundo sem religião seria melhor, porque boas pessoas religiosas continuariam sendo boas pessoas e eliminaríamos alguns males que só são possíveis em nome da religião — por exemplo, ataques à educação científica de crianças e oposição por princípio a pesquisas com células-tronco e expressão da homossexualidade. Ah!, não podemos comparar uma sociedade com religião com uma sem religião, mas podemos comparar sociedades de pouca influência religiosa (na Constituição e em escolas, por exemplo) com sociedades com pouca ou nenhuma tradição secular-humanista, em que a religião é a principal força.

    As respostas possíveis para a pergunta “por que existe algo ao invés de nada?” são tantas, que escolher uma e dedicar a vida a defendê-la como a única é um procedimento no mínimo curioso — e a enorme idade da resposta não a deixa menos curiosa. “Deus” é apenas uma das coisas em que o ateu não acredita. Todas as pessoas, sem exceção, não acreditam na maioria das coisas que “podem existir” ou “não podem ser provadas não existir” — a começar, no caso dos crentes, pelos deuses dos outros, passados e presentes. A hipótese do “primeiro motor” não é uma resposta digna, porque regride infinitamente — qual o motor do primeiro motor? Se o complexo não pôde ter evoluído do menos complexo e o menos complexo do nada ou seja lá o que tenha sido, quais as chances do complexo ter sido criado por um ser mais complexo ainda que tenha surgido do nada?

    O budismo está mais para filosofia do que para religião. O próprio Ratzinger, quando ainda cardeal, observou que o budismo é “uma auto-absorção espiritual” sem “compromissos religiosos concretos”. [http://shotofpolitics.blogspot.com/2005/05/this-is-emergency-post.html]

    Para resumir, acredito, com Saramago, que viveríamos melhor desconsiderando deus, qualquer deus. No mínimo veríamos líderes religiosos como o que realmente são: autoridades de carne e osso com interesses mundanos.

    Mas, pra concordar em alguma coisa, concordo que o “Evangelho” é ótima leitura e que a esquerda é melhor sem o comunismo.

    Abs.

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    • José Pessoa 28/06/2010 em 6:59 pm

      Concordo com a generalidade das opiniões que aqui expressa, como Saramago, Deus não existe, é um embróglio criado por alguns homens, para refrear em muitos os instintos maldosos, noutros a sua exploração, usando-os em proveito próprio e com outros a santa ignorância, porque será deles o reino dos céus e com esta vão amançando as revoltas e lavando a àgua ao seu moinho, viver na opulência,na luxúria, na malvadez.
      Concordo na generalidade, estamos no século XXI, como é possivel acreditar num ente depois de tantas descobertas que negam a existência de deus, só na imaginação humana e na grande capacidade criadora de mitos e lendas realizada pelo homem, mas dicordo totalmente da sua ultima frase, NÃO HÁ ESQUERDA, SEM COMUNISMO”! Onde o “Comunismo desapareceu”, melhor nunca existiu Comunismo em local nenhum, o que existiu foram países liderados por partidos Comunistas, existindo alguns hoje, com um objectivo de melhorar as condições sociais e económicas e conseguiu-se em parte pois a generalidade dos povos tem melhores condições do que há 100 anos,devido à sua luta e a ter havido paises com a aquela ideia de justiça social, infelizmente ainda existem paises sem o minimo para viver dignamente e a tal “esquerda sem comunismo” tem sido o baluarte da regressão social dos principios do século XXI; convicto de que com tomada de consciência e a luta melhores dias virão.
      Com os meus cumprimentos – J. Pessoa

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  2. B.O.B. 23/06/2010 em 1:18 am

    A existência de deus num aspecto metafísico é muito diferente da existência de deus num aspecto físico (sic).

    Acredito que a filosofica conquistou o direito de discutir questões relativas a existência (ou não-existência) de um deus e as consequências (morais, éticas, etc.) disso. E tenho a lucidez de saber que esse deus conceitual da filosofia é muito diferente do deus religioso proposto por instituições como a ICAR. Portanto, no meu ponto de vista, o grande erro do autor desse post é tentar tratar esses dois deuses de naturezas distintas como uma coisa só.

    Como a maioria dos ateus, o deus que Saramago rejeita é o deus religioso — aquele deus que Einstein (como bom ateu) chamou de “deus pessoal”. É um deus designer; um deus que existe, pensa, reage, reflete, moraliza, normatiza. Esse é o tipo de deus tem o mesmo valor real que um lobisomem ou um duende; é o deus que pessoas como Richard Dawkins limitam contra.

    Já o deus da filosofia (ou, pelo menos, de boa parte dela) não tem a pretensão de ser real — de existir. É um deus projetado conceitualmente para que nos façamos questões que o pensamento puramente materialista não permitem.

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  3. André Tadeu de Oliveira 23/06/2010 em 8:34 am

    Luciano, brilhante post. Depois comentarei com mais calma.

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  4. Tarciso Oliveira 23/06/2010 em 8:46 am

    Gosto do professor Luciano, inclusive já fui seu aluno no final dos anos 90. Era uma das aulas que mais apreciava aos sábados. Contudo não concordo com ele quando ele afirma que “… a existência de um mundo sem Deus, por conseqüência também incriado, é igualmente absurda!” Será que por trás dessa afirmação está incutida a ideia de que o ser humano precisa acreditar em algo, mesmo inexistente, para viver melhor? Ou ele acredita, sinceramente, que existe um ser criador, criado por ninguém, que sempre existiu, que detém tais poderes inimagináveis e que há apenas alguns milhares de anos sentiu vontade de criar um planeta com seres inteligentes para fazer um laboratório onde o dono nunca aparece? Eu prefiro o racionalismo de Saramago.

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  5. Bruno Cava 23/06/2010 em 9:30 am

    É fútil o tribunal moral erigido quando da morte de um grande homem. Um julgamento tanto mais fácil quanto maior o ideal de perfeição que o inspira. Saramago não se propôs a ser santo, mas escritor. Santo qualquer um pode ser.

    Num mundo em que a moda é não tomar posição e assumir relativismos moderninhos, em que intelectuais se refastelam como carreiristas oportunistas, ou então se fecham em torres de marfim da academia ou dos círculos sorriso-da-sociedade e suas vernissages, nesse contexto, Saramago teve a hombridade e o caráter de se posicionar.

    Se ele acompanhou a revolução cubana até 2003, é porque compreende que, na política, a lógica é outra e menos ingênua do que na religião tomada no sentido moral, onde se almeja pela perfeição da alma. Um ideal de perfeição que confina com utopias tão perigosas quanto qualquer pesadelo do socialismo real. Afinal, a boa consciência dos homens causou mais terror no século 20 do que todas as maldades praticadas.

    Cuba teve o disparate de implantar um regime socialista, rebelde e autônomo no quintal do mais poderoso estado terrorista da história. Desafiou a nação mais rica a 100 km de sua costa. E até hoje padece de um embargo criminoso, tão ilegal quanto as inúmeras invasões desse estado em países que dispunham de recursos estratégicos ou que incomodaram a sua política externa.

    Isto não justiifica a pena de morte, vai retrucar-me. Sim, mas esses fuzilamentos tampouco justificam tomar partido do outro lado, que igualmente possui a pena de morte, e além disso tem o hábito de lançar mísseis sobre opositores e populações civis. E nada do que falei justifica simplesmente não tomar posição, porque “estão todos errados”, mesmo porque essa já é uma posição. Não é questão de ser isso ou aquilo, mas de se posicionar nos conflitos, de ser também um animal político, nos riscos e contradições sem os quais qualquer política, logo qualquer mudança e resistência e liberdade imobilizam-se. Posicionar-se tomando posição mas sem maniqueísmos religiosos, por meio de uma análise histórica, com lucidez argumentativa, como fez Saramago, como faz aliás o nosso governo, que há oito anos deixou de pautar-se exclusivamente pela agenda de Washington e agora tem opinião própria dentro dos interesses latino-americanos, terceiromundistas.

    Não tomar partido significa adotar o lado do dominante. Que o diga a Igreja Católica durante o regime nazista, ou então no extermínio sistemático de 200 milhões de americanos nos séculos 17 e 18. Tudo o que os poderosos desejam, precisamente, é que não tomemos partido, que não nos envolvamos com a política, que nós, tão cândidos na nossa interessada moral, não sujemos as mãos na realidade.

    Saramago, como todo grande homem, sujou as mãos. Oxalá intelectuais sigam o seu santo exemplo.

    Responder
  6. carlos anselmo-fort-ce 23/06/2010 em 10:10 am

    salve, amálgama,

    “devo dizer que conheço pouco sua obra”. ainda bem que o professor luciano foi sincero.

    no entanto vai na linha do artigo anterior, critica o ateísmo militante e a opção ideológica do saramago como se isso definisse a ruma de livros que o grande portugues escreveu.

    e a obra do” home”, meu povo? que coisa mais chata!

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  7. Luciano Oliveira 23/06/2010 em 1:43 pm

    Caro Daniel,

    Escrevo para você, mas na verdade me dirijo a todos os leitores atentos, a maioria críticos do meu texto sobre Saramago.
    Que dizer, senão que é impossível, ainda que esse fosse meu desejo, responder a cada um?
    A internet é maravilhosa e terrível ao mesmo tempo.
    É maravilhosa a possibilidade do diálogo e do feed-back instantâneo dos nossos escritos.
    Ao mesmo tempo, é horrível reconhecer que é impossível encetar o diálogo que cada comentador merece, já pela atenção de ter reagido ao que escrevemos.
    Digo mais: o feed-back vale para os dois lados.
    Ou seja: há comentários críticos que julgo muito pertinentes e que me fazem ver certas fragilidades e/ou insuficiências da minha argumentação, o que me leva à obrigação que chega a ser moral de responder.
    Mas é impossível.
    Cada comentário tem inteligência bastante para mobilizar-me a tarde inteira, e há outras urgências a responder…
    É o lado ruim dessa hipercomunicação de hoje em dia…

    Agradeço simplesmente a todos, de coração, o simples fato de terem tido a atenção de me responder, mesmo quando foi para repreender!

    Abração,

    Luciano Oliveira

    Responder
  8. André Tadeu de Oliveira 23/06/2010 em 1:51 pm

    É muito bom deparar-se com argumentos inteligentes e lúcidos, mesmo quando não se concorda com parte deles. Digo isto baseado nos comentários postados até agora a respeito do brilhante texto de autoria do professor Luciano.
    Também não sou um conhecedor profundo da obra de Saramago, romances nunca foram meu forte. Minha “ viagem “ se de dá em outra praia, a saber da teologia e filosofia. Porém, conheço um pouco da biografia de Saramago. Dentre acertos e erros, acredito que o escritor português, a despeito de seu ateísmo militante que acho tão fundamentalista quanto o discurso de um pastor da igreja eletrônica made in USA, possui mais acertos. Sua luta em prol de um mundo socialmente mais justo é louvável. Obviamente ele peca pela sua falta de senso crítico a respeito das enormes atrocidades cometidas pelo stalinismo de viés soviético. Seria a mesma coisa que eu, como cristão reformado, passar panos quentes na participação da Igreja Reformada Holandesa na implantação e manutenção do apartheid sul-africano! Porém, vemos em Saramago uma indignação para com todo o tipo de injustiça que permeia nosso planeta. Indignação, esta, responsável, muitas vezes, pela visão míope do escritor em determinados pontos.
    Agora, gostaria de escrever algo a respeito do comentário feito pelo meu amigo Daniel. Não quero bancar aqui o chato, metido a arauto da cristandade. Quem me conhece, caso do próprio Daniel e de alguns leitores do Amálgama, sabe que este não é meu perfil. Respeito profundamente o ateísmo como uma postura filosófica respeitável, mesmo não concordando absolutamente com ela. Também tenho uma orientação política esquerdista, por isto, mesmo reconhecendo as várias atrocidades que foram cometidas em nome do ideal revolucionário, acho que as mesmas devem ser lidas de forma crítica, pois muitas vezes a propaganda capitalista é muito forte. Dito isto, gostaria de tecer algumas considerações. Não é verdade que nunca houve possibilidade de compararmos uma sociedade religiosa com uma anti-religiosa. Durante determinados períodos, a política oficial de certos regimes stalinistas foi absolutamente anti-religiosa, isto é, de viés ateísta. E esta história, lida criticamente, como escrevi acima, nos mostra o tanto de atrocidades que foram cometidas. E não falo apenas de atrocidades cometidas contra religiosos, mas contra opositores em geral. Onde quero chegar com isto? O problema não está na religião ou na ausência dela, mas sim no ser humano. Se há um setor em que este que vos escreve resvale no calvinismo ortodoxo, é este, tenho muito desconfiança para com o ser humano, inclusive para comigo mesmo! Infelizmente, a história me mostrou isto. Tiremos a religião, e o povo vai se matar por causa de um São Paulo x Corinthians, por exemplo.

    A respeito do secularismo, fico muito a vontade a falar, pois como protestante, concordo com Weber de que, mesmo não sendo a intenção original dos reformadores do século 16, a reforma foi a “ avó “ de nosso atual secularismo.

    Sobre o budismo, creio ser errôneo classificá-lo apenas como filosofia. Existem várias correntes budistas. Algumas, inclusive, consideram Sidarta quase como que um messias nos moldes cristãos. Também não vejo com bons olhos esta classificação do budismo como sendo uma crença atéia, pois, o ateísmo pressupõe, obrigatoriamente, o materialismo. Como pode ser chamada de atéia uma forma de pensamento que ensina a existência de uma alma imortal que migraria para outro corpo até atingir o nirvana ? Complicado.

    Ah, aproveitando, quem estiver a fim, pode visitar meu blog. É cristão, mas aberto para todo tipo de debate.

    http://wwwcristianismolibertas.blogspot.com/

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  9. Amâncio Siqueira 24/06/2010 em 1:05 pm

    Está faltando um texto de alguém que conheça a obra de Saramago, para falarmos da obra ao invés da ideologia. Sobre o artigo em si, gostaria de saber por que a propaganda neo-liberal sempre associa o comunismo à URSS e a Cuba, e não associa o capitalismo ao Haiti, e às ditaduras dos países do Eixo e latino-americanas? Comunismo é propagandeado como sinônimo de ditadura, quando são totalmente distintos. Comunismo é um sistema econômico e pode ser democrático (embora o ideal de Marx não seja nenhum desses, pois em sua concepção o comunismo seria anarquista), assim como o capitalismo existe em democracias e ditaduras.
    Sobre o ateísmo: o ateu não precisa de materialismo. Um ateu pode discordar do materialismo histórico, da evolução das espécies e qualquer outra coisa. Há ateus que creem em espíritos, como os budistas. Ser ateu é não ter deus, não ver no universo um sinal de divindade ou uma necessidade de que haja uma. Um ateu não tem (ou não precisa ter) raiva de deus ou da religião. Simplesmente não vislumbra a existência de um e a necessidade de outra.
    Interessante que os religiosos mais destacados no texto sejam exatamente os que não têm um deus, os budistas.
    Existem exemplos opostos sobre sociedades mais ou menos religiosas. Há nações europeias atualmente com maioria não-religiosa, e são exatamente as mais desenvolvidas humanamente falando. E a maioria delas segue a social-democracia.

    Responder
  10. André Tadeu de Oliveira 24/06/2010 em 10:44 pm

    Amâncio. Boa noite. Como disse, é muito complicado falarmos do budismo como uma forma única. A corrente majoritária do budismo não chega a negar a existência da divindade, apenas não a considera relevante. Não obstante, há várias correntes budistas que consideram Buda quase como um messias, se organizam eclesiásticamente e possuem até mesmo culto e liturgia. Além do mais, acho complicado se considerar ateu e crem em espíritos, reencarnação e afins.

    A respeito da social-democracia européia, é bom lembrar que seu foco se encontra, sim, em países altamente secularizados, porém, na sua maioria, de um passado fortemente protestante ( Alemanha, Suiça, Holanda, Inglaterra, e países nórdicos), corroborando minha tese de que o secularismo é um filho pródigo do movimento reformatório do século XVI

    A respeito de suas considerações sobre comunismo e capitalismo, concordo plenamente.

    Responder
  11. Amâncio Siqueira 25/06/2010 em 7:38 am

    Existiram e ainda existem correntes religiosas ateias. O Confucionismo (ao menos o próprio Confúcio era agnóstico) é outro exemplo (esse ainda mais categórico que o budismo). O termo ateu talvez seja inadequado pelo simples fato de que as pessoas acham que ateu tem que negar qualquer coisa sobrenatural, qualquer fé. Assim como um cristão que não acredita em duendes não precisa do termo aduendista para definí-lo, alguém que não tenha deus ou deuses deveria ter outro termo, que não pareça uma não-crença ativa. O que leva sempre ao mesmo argumento falacioso: ateus têm que fazer muito esforço para acreditar que deus não existe. Não há esforço algum, do mesmo modo que um cristão não precisa fazer esforço para não acreditar em Alá e Maomé. Nunca ouvi falar de um islâmico acordando e se esforçando para não acreditar em Thor. Note que todo mundo é ateu em relação a milhões de deuses. Os ateus se destacam apenas porque o são em relação a todos.
    Se o messianismo de budistas pode ser encarado como um teísmo, que dizer do credo soviético em Lênin, das peregrinações ao túmulo dele? O stalinismo-leninismo seria, por esse viés, teísta?

    Responder
  12. José Pessoa 28/06/2010 em 7:30 pm

    Não sei Galileu acreditava em Deus, mas o que sei é que foi perseguido por Deus, sabendo que a santa madre igreja, provém de Deus e que este colocou na Terra um homem escolhido por homens, dizendo que está mandatado por Deus, se nunca ninguém o viu, a não ser em tempos remotos em que Cristo encarnou esse personagem e que sentou à Direita de deus Pai, supondo eu que Deus será de esquerda, Comunista não, porque já´teria havido alguém a vir dizer abrenuncio te a renego satanás, ora tenham santa paciência, homens de cultura, de inteligência, de medos inusitados e de oportunismo também, muitas das vezes nem vós acreditais em Deus, hoje século XXI, dois mil passados, ainda se fazem rituais para lembrar uma coisa que assim não fosse seria esquecida e o homem podi alibertar-se dos seus medos e isitações.
    Com os meus Cumprimentos – J. Pessoa

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