The imaginarium of Doctor Parnassus: A mais nova aventura arquetípica de Terry Gilliam

por Ana Al IzdiharThe Imaginarium of Doctor Parnassus está pronto e faltam alguns grandes executivos comprarem o filme para que seja distribuído. Como qualquer outro filme de Terry Gilliam, este também causa desconforto. Não se sabe exatamente por que as obras deste diretor incomodam tanto, pois não há nada de tão aterrorizante, nem degradante em seus filmes. As pessoas que se “amedrontam” com eles não parecem ter argumentos sólidos que justifiquem tal postura.

Nunca se ouviu dizer que Gilliam seja um cara entojado (como se ouve de James Cameron) ou excêntrico (como foi Kubrick) ou intragável (como foi Hitchcock). Gilliam sempre é descrito como bem humorado, uma língua afiada que às vezes solta demais (não é à toa, pois participou do grupo mais perturbador do mundo, o Monty Python), mas sempre o tal “boa praça”.

Vou arriscar um palpite: os filmes de Gilliam são sempre incômodos, mas num nível bastante individual. Eles tocam as pessoas de uma maneira profunda e sutil, mexem com o imaginário, mas não somente de maneira lúdica. Há algo em sua maneira de dirigir um filme que vem a revolver águas profundas do inconsciente do espectador. E o máximo que os executivos insensíveis da indústria cinematográfica conseguem como justificativa é: “Esse tipo de filme vai ser difícil de vender! É… estranho demais!” Foi assim com seus filmes anteriores: Jabberwocky, um herói por acaso, Bandidos do tempo, As aventuras do barão de Münchausen, O pescador de ilusões, Medo e delírio em Las Vegas, 12 macacos e Os irmãos Grimm, para citar os mais conhecidos e que tiveram certa divulgação mediana.

Gilliam é um dos diretores mais criativos da nossa era. Tem como mestre inspirador Orson Welles e gosta de investir naquela aura de sonho em seus filmes. Acredita na alegoria, nas metáforas, na simbologia, na literatura e bem pouco em efeitos especiais. Usa efeitos, mas prefere se cercar de ótimos atores com feições fortes, quase como personagens em quadrinhos. Prima para que os atores passem toda a carga simbólica na interpretação e os efeitos são apenas um toque a mais, não o contrário. Tem uma assinatura muito clara e por isso seus filmes são rotulados de auteur cinema, ou seja, filmes autorais, em que o diretor tem presença marcante.

A influência de Orson Welles se nota na marca registrada de Gilliam: filmar algumas cenas com a câmera de baixo para cima, ou em diagonal, fazer closes ousados da face dos atores e usar cenários gigantescos.

Claro, seu humor sarcástico e cruel está sempre lá, em todos os filmes sem exceção, e acho que muitas vezes suas piadas não são entendidas. Um humor tipicamente “inglês”, apesar de seu autor ser americano – aliás, ele foi o único não-inglês aceito no grupo Monty Python. Gilliam fazia participações especiais no programa de TV do Python e desenhou as famosas charges e caricaturas de abertura e links do programa. Depois dirigiu um dos filmes do Python (junto com Terry Jones – Monty Python e o Cálice Sagrado) e seguiu fazendo alguns personagens e roteiros aqui e ali. Quando o grupo se separou, o humor (às vezes incompreensível) de Gilliam, já era crônico.

Através de seus filmes é possível notar sua perspectiva de vida: a preocupação com a evolução simbólica do homem; por isso suas estórias voltam sempre a momentos históricos muito importantes para o inconsciente coletivo ocidental, a saber: Idade Média, a Renascença, o Romantismo (e muitas vezes o Gótico). Quando menciona o momento atual, seus personagens estão nesse limiar de resgate do passado, e o futuro, quando aparece, é quase sempre caótico e/ou pessimista.

Vejamos brevemente. Em Jabberwocky, um rapaz totalmente medíocre vai sendo empurrado pela força da ignorância e da hipocrisia da Idade Média a uma situação que ele jamais procurou e da qual não sabe como sair. Ali, Gilliam expõe as mazelas do iniciante e futuro comerciante burguês: o personagem parece ser um visionário, mas da futura idiotice capitalista.

Bandidos do tempo é praticamente a versão masculina de Alice no País das Maravilhas e, acho, todo pai poderia apresentá-lo ao filho. E dizem as línguas realistas que só não fez tanto sucesso porque foi lançado muito próximo ao meloso E.T. – O extraterrestre, pois já tinha um menininho cativante como protagonista… Assim é também As aventuras do barão de Münchausen, um filme lindíssimo, um roteiro comovente, muito bem costurado, cenários, figurino e atores impecáveis. E de uma poesia e sofisticação imensas. Não sei explicar até hoje porque não foi um mega sucesso.

Brasil, o filme, diz Gilliam, foi uma versão satírica do 1984 de Orwell. E ele teria usado “Brazil” simplesmente por gostar da música de Ari Barroso, “Aquarela do Brasil”, que aparece na trilha. Sabemos que não foi só por isso, mas abafa o caso. Um futuro caótico, uma sociedade capitalista, “democrática”, mas totalmente sem saída para o personagem. Uma estória circular. Um filme que arrancou “Ohs!” da crítica, sucesso razoável.

Já em O pescador de ilusões, Gilliam se rendeu um pouco e colocou dois atores americanos nos papéis principais. Tentou fazê-lo um tanto mais pop e funcionou. Jeff Bridges e Robin Williams tiveram uma química ótima juntos; o tema da Idade Média (baseada na lenda arturiana de “O rei pescador”) e resgate da alma perdida comoveram os espectadores e críticos. Medo e delírio em Las Vegas? Viche!, foi mais do que estranho. Porém, era uma estória de drogados paranóicos numa sociedade degradada, pessimista e sarcástica – e tudo fez sentido…

Em Doze macacos, talvez seu filme mais conhecido do grande público, ele repete o tema futuro caótico, acrescentando manipulação genética, doenças mentais e uma carga extra de pessimismo. Também é uma estória circular: ela termina onde começou, dando a sensação de que para o autor o mundo não tem jeito. Os irmãos Grimm sofreu facadas de alguns por aí, pois se esperava que contasse a vida dos Grimm, quando na verdade Gilliam imagina que os maravilhosos irmãos realmente viviam o que escreviam. Foi uma divagação e não uma biografia.

Agora em The imaginarium of doctor Parnassus, o diretor retoma esse gancho e vai um pouco além: os personagens são atores de teatro mambembe e fazem seus espectadores realmente sentirem o que estão vendo. Mas tudo isso tem uma motivação secreta que só vendo o filme para saber mais. O cenário novamente é majestoso, os atores são impecáveis e a estória é uma “fábula moralizante” (palavras de Gilliam). Se seu inglês está em dia, visite o site Dreams: The Terry Gilliam Fanzine.

E há algo muito comovente nesse filme: por ter adorado trabalhar com Heath Ledger em Os irmãos Grimm, Gilliam o convidou de novo para Doctor Parnassus. Porém, Ledger faleceu no meio das gravações, sendo sua última aparição em um filme. Gilliam, mesmo desolado, teve uma grande idéia: contratou mais três atores (Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law) para continuar o papel de Ledger, insinuando que seu personagem era tão bom em interpretar que podia realmente se transformar em outra pessoa.

Gilliam agora parece que vai coçar as mentes artísticas, ultra sensíveis, mais do que antes. Novamente, não será um filme nem fácil, nem rentável, nem comum. Só, mais uma vez, estranho e bonito.


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7 comentários | Dê sua opinião

  1. cinèfila 18/11/2009 em 10:39 pm

    Crìtica perfeita, inteligente e lùcida.Gilliam è um genio ou louco ou será que
    è ambos? Os filmes de Gilliam transportam o espectador à um mundo sem limites , surreal, ele dá asas à imaginação.Nem todos entendem a poesia deste diretor, com suas metàforas e simbolismos.Espero que finalmente ele seja reconhecido como o excelente diretor que é.

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  2. Ana Al Izdihar 18/11/2009 em 11:47 pm

    é isso aí, cinéfila!

    São poucos os diretores ultimamente que investem no “sonho”, na “fantasia”.

    Outro deste tipo é o Tim Burton. Aguarde logo publicaremos um artigo meu sobre ele e depois sobre sua mais nova e louca aventura “Alice no País das Maravilhas”.

    Volte sempre

    Responder
  3. danilo 19/10/2010 em 2:18 pm

    oi!

    essa foi a melhor ‘crítica’ que li do filme até agora… mas na verdade eu a considero assim porque você dissecou o cara… o gilliam…

    eu vi só alguns dos filmes deles, mas todos deixaram cicatrizes… e foi nesse que o interesse pelo cara surgiu! não por acaso!

    a relação que você estabeleceu sobre o ‘profundo e sutil’ com o trabalho é real… assim é para mim pelo menos!

    se puder, agradeceria se você esclarecesse mais sobre o motivo da escolha do nome do filme ‘brazil’… também acredito que a música não basta para sustentar o motivo!

    bacana o texto!

    valeo!

    Responder
  4. Ana Al Izdihart 19/10/2010 em 9:59 pm

    Bem, Danilo
    o que fiquei sabendo sobre “Brazil” na época é que Gilliam tinha conhecimento dos fatos históricos brasileiros, a respeito da ditadura sim (terminada oficialmente no ano de lançamento do filme, 1985), mas também sobre o “jeitinho” brasileiro principalmente no que se refere à burocracia. A mãe de Sam Lowry no filme vivia querendo que ele aceitasse as “facilidades” de cargo que ela poderia conseguir a ele nos altos escalões, por exemplo.

    Como é de praxe, alguns jornalistas teriam perguntado isso a Gilliam e inferido que ele quis “criticar” o governo brasileiro e blá, blá, blá. Ele disse – com aquela risada irônica de sagitariano que ele tem – que jamais pensou no país Brasil para fazer o roteiro; que o filme era somente uma visão cômica de 1984 de Orwell. Gilliam afirmou que nomeou o filme de Brazil simplesmente porque queria usar a canção de Ari Barroso que para ele é linda demais…

    Na realidade, não há país que não seja corrupto e o jeitinho brasileiro não deve ser o único; país totalitários estavam no alvo das críticas nos anos 80 de qualquer modo. Os Pythons viviam criticando a enorme burocracia britânica. Mas eu acho que o Gilliam tomou como inspiração algumas peculiaridades brasileiras e viu similaridades universais. Ele tem essa capacidade: quanto mais regional ele é mais ele consegue ser universal.

    Bem, eu também adoro o Gilliam e talvez um dia ainda faço um estudo acadêmico sobre ele… Ou melhor, talvez eu escreva um roteiro e peça a ele pra filmá-lo!

    Obrigada por visitar e comentar. Volte sempre!

    Responder
    • danilo 20/10/2010 em 8:55 am

      oi ana!

      obrigado você por compartilhar seu conhecimento e sua idéia!

      e sim, acho melhor o lance roteiro/filme do que o estudo acadêmico! =)

      voltarei!

      boa sorte!

      Responder
  5. Ana Al Izdihar 20/10/2010 em 10:53 am

    Danilo e demais leitores:

    aqui vai um link da NovaE com uma apreciação bem acurada de André Lux sobre uma caixa com 3 CDs (sonho!) sobre “Brazil”, só lançada lá fora… Na resenha, André conta com mais detalhes a explicação de Gilliam para o nome do filme:
    http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=801

    Responder
  6. Luiz André 29/12/2010 em 1:28 pm

    Acredito que seja uma tarefa arbitrária relegar os filmes de Terry Gilliam a um gênero específico. Como foi dito acima pela autora, os filmes de Gilliam são autorais, o que envolve a criação de um universo à parte que não necessariamente funciona seguindo os mesmos pressupostos aos quais tenhamos de seguir dia a dia. Em relação à arte cinematográfica, creio que é um sopro de fantasia e imaginação em meio a um mar de mesmices e fórmulas requentadas que abunda na meca hollywoodiana hoje e, infelizmente, amanhã. Logo, é muito bom poder reconhecer que algumas pessoas se destinam a entrar em uma sala de cinema não pelo valor do entretenimento inócuo, mas porque se dispuseram a participar de uma viagem lúdica, de uma experiência que não se restringe ao tempo de duração do filme e é esta a sensação que ocorre ao se assistir aos filmes de Terry Gilliam.

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