Sobre cozinheiros e jornalistas

por Lelê Teles – Eltinho é meu amigo desde a adolescência. Éramos punx e mal encarados. Eltinho tinha cabelo moicano, tomava cachaça no gargalo, cuspia e escarrava em tudo e em todos. Nos acampamentos em que íamos, Eltinho e eu gostávamos de cozinhar: macarrão com sardinha, feijoada de latinha, cream cracker com feijão, linguicinha frita; gororobas.

Na semana passada encontrei o velho amigo em um show. Tem três filhos, é casado, está com uma cara corada e um aspecto saudável. Tomava scotch. Disse-me que é o chef de cozinha do Hotel Nacional, um dos mais tradicionais de Brasília. Eltinho frequentou escolas para aperfeiçoar o seu ofício, que ele define como arte. Mas não foi escola alguma que o levou ao metier, foi o seu interesse, a oportunidade e o “jeito para a coisa”. Ele me disse que tem um monte de filhinho de papai fazendo excelentes cursos mundo afora e que jamais serão grandes cozinheiros.

Eu, que à época do punkismo andava andrajoso, vociferante, irascível, antimoda, antimédia, antimedo, antígona, disse ao amigo que sou escritor e roterista e que depois de uma competente carreira como publicitário me tornei secretário de comunicação. E disse que igualmente não foi a faculdade que me levou à publicidade; quando estudei jornalismo na UnB, achava que não deveria existir curso de publicidade em universidade federal, e ainda acho. Eu e Eltinho entramos para nossas atuais profissões por amor a ela, por senso de oportunidade e por sermos capazes para tais ofícios. Nas nossas profissões, os grandes profissionais não se importam com diplomas.

Ontem o STF decidiu pela não obrigatoriedade do diploma para jornalistas. Acho correto e louvável. Na maioira dos países do mundo é assim. A FENAJ ficou furiosa. E eu fiquei desconfiado dessa fúria. A lei não proíbe que faculdades ensinem jornalismo e formem jornalistas, a lei não proíbe os jornais de contratarem jornalistas formados em faculdades. O que houve foi a extinção da lei que exigia o diploma para exercer o ofício. Ora, não muda quase nada. Volta-se ao tempo em que as redações tinham jornalistas que escreviam extremamente bem e que não tinham formação em jornalismo. Os juízes, ao seguirem o voto do relator Gilmar Mendes, apenas garantiram o direito de qualquer sujeito poder exercer a profissão, desde que tenha competência para tal. O mesmo direito que têm os cozinheiros, roteiristas, escritores e publicitários.

Quem sabe eu e Eltinho nos encontremos novamente e encontremos um antigo amigo punk exercendo com maestria a profissão de jornalista, embora tenha se formado em música.


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23 comentários | Dê sua opinião

  1. Drixz 18/06/2009 em 7:25 pm

    Eu adorei a decisão. A imprensa estava se tornando eletista e estatizada. Com a concorrência de pessoas que entendem dos assuntos que falam acho que os jornalistas terão mais atenção ao opinarem por qualquer tema que lhe der na telha. Acho que isso ainda minimiza um pouco as chamadas “edições” onde o jornalista entrevista uma pessoa sobre um tema e corta algo importante do que ela falou no intuito de simplificar, mas no fundo mudando o que ela falou. Os jornalistas estão com medo e concordo que só isso já diz muita coisa.

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  2. Vanessa Souza 18/06/2009 em 7:48 pm

    Os colegas jornalistas não estão nada felizes com essa decisão.

    Engraçado é que fiquei sabendo por um noticiária e alguém dizia: “As faculdades de jornalismo não vão fechar”. Também, era só o que faltava!

    Eu me formei há 5 anos, em jornalismo, e lembro que na época todos temiam essa decisão – que parecia tão tão distante. Agora é fato. Acredito que na cabeça dos jornalistas muda muita coisa.

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  3. Bosco Ferreira 18/06/2009 em 8:50 pm

    Há profissões que exigem apenas talento: Jornalistas, escritores, atores, diretores, iluminadores, publicitários, dançarinos, pintores, treinadores, locutores, compositores, cantores, comentaristas…
    Estudei com um grande professor de geometria descritiva, Túlio Studart, no colégio Prof.Castelo em Fortaleza. Uma inteligência rara. O Túlio era considerado o melhor professor de geometria da escola de arquitetura do Ceará. Um dia resolveram efetivá-lo com medo de perde-lo para outra escola, foi aí que o bicho pegou. O Tulio já tinha feito varios cursos superiores mas nunca teve tesão de terminar pelo menos um, solicitaram o seu diploma e como ele não tinha nenhum o demitiram. Ele perguntou ao reitor: “vocês querem que eu lecione ou querem PAPAEL?”

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  4. Sandra 18/06/2009 em 10:45 pm

    Gostei da estória, até me comoveu.
    Por analogia, eu tenho um sobrinho, uma gracinha de criança, que adora matar e dissecar pequenos animais que encontra pelo jardim: borboletas, besouros, filhotes de passarinho e, diz a vizinhança, até um gatinho ele retalhou.
    Olho essa cena tão terna e imagino se, num futuro próximo, ele irá ou não precisar de um diploma da faculdade de medicina…. afinal, parece que ele tem “jeito” prá coisa.
    E não é só isso que precisa? “Jeito”?

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  5. Daniel 19/06/2009 em 12:48 am

    Sandra, o jornalismo está mais pra música que pra medicina. O que não o desabona, claro. Mas já que você falou na medicina: sugiro mandar um médico com certa cultura cobrir uma eleição presidencial para um jornal qualquer e, em troca, um jornalista com rudimento de medicina vai fazer uma cirurgia cardíaca. Vejamos quem se sai melhor.

    Quero dizer, o nível de exigência de conhecimento específico não é o mesmo. Só não vê quem não quer. Em vários países, historiadores, sociólogos e economistas dão melhores jornalistas que… “comunicólogos”. E, nesses mesmos países, não se tem notícia de alguém que tenha bradado: “Pois se não precisa diploma pra ser jornalista, quero ser piloto de avião a partir de amanhã!”

    Seu sobrinho, se estudar biologia, será um ótimo profissional. Inclusive, pode dar um excelente repórter da Scientific American. Incentive, por favor.

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  6. Fabiana Pelles 19/06/2009 em 12:09 pm

    SOBRE JORNALISTAS E LOBOS

    Por Fabiana Pelles – Lembro-me de quando era adolescente da eterna dúvida sobre qual carreira deveria seguir… Na época meus pais me levaram a uma psicóloga para que eu fizesse os famosos testes vocacionais. Ela (a psicóloga) me aplicava provas e me perguntava o que eu gostava de fazer, e eu, muito inocentemente respondia, “eu gosto de escrever”. Eis que alguns meses depois aquela astuta mulher chegava a mim com a resposta, “porque você não tenta ser jornalista?”

    Naquele momento fiquei pensativa, achava que não era necessário apenas aprender a escrever para tornar-me uma jornalista; se assim fosse, apenas me tornaria uma escritora, não?! Coloquei aquele sentimento para ela, disse acreditar que era preciso muito mais, coisas que eu não sabia bem o que, mas que tinha certeza ainda não conhecer. Ela então me disse, “porque não tenta? Porque você não faz a faculdade e vê no que dá? Se você não gostar é muito nova… pode tentar outro caminho!” E lá fui eu.

    Foram quatro (quando o algarismo é menor que dez, escrevemos por extenso. Essa é uma das regras de um texto jornalístico que aprendemos na faculdade) anos, estudando apuração, semiótica, ética, diagramação, técnicas de rádiojornalismo, técnicas de televisão, entre tantas outras coisas. Coisas essas que, por algum motivo, eu já havia imaginado que um escritor não sabia.

    Devo confessar que somente aprendi muito do que li e estudei na faculdade fazendo, mas até para começar esse “fazer” foi preciso uma base.

    Ao final da faculdade fiquei grata aquela psicóloga que me deu um rumo no passado, e tive a certeza que havia escolhido o caminho certo. Contudo, com quase um ano de formação e com cerca de três anos de trabalho na área, me vem a notícia! Na quarta-feira (3), depois de 40 anos, o STF decidiu pela não obrigatoriedade do diploma para jornalistas!

    Naquele momento acho que fiquei meio sem rumo. Queria poder gritar para o mundo a idiotice que aqueles juízes sem escrúpulos acabavam de cometer, com a simples desculpa que, jornalismo não é ciência, ou mesmo que, qualquer um pode escrever… Ah, sim, eu dizia para mim mesma… Qualquer um pode escrever! Qualquer um pode, infelizmente assim como já acontece (e agora só tente a piorar), escrever notícias sem apurar matérias, sem ter ética, prejudicando a vida dos outros (veja o famoso caso “Escola Base”)…

    E por que não comparar o jornalista ao cozinheiro, como muitos vêm fazendo? De certo porque essas pessoas acreditam que para ser jornalista, ou cozinho é preciso apenas ter amor, saber fazer… Esquecendo-se que, para ser cozinheiro é preciso estudar, ou ter o mínimo de noção de química, saber que não dá para misturar bicarbonato de sódio com vinagre. Ou então, digamos, vamos entender que, se aprendemos com a vida, fazendo, será preciso cometer erros; perder um prato ou mesmo intoxicar uma pessoa até acertar!

    Eu não quero ser extremista. Mas também não me vejo nesse mundo lindo, cheio de idealismo e utopia; onde tudo é tão perfeito. A vida, infelizmente não funciona assim! Se vocês não sabem, então no mínimo não leram o suficiente para isso. O que domina no Brasil são as relações econômicas, sempre voltadas aos que possuem o poder. Para esses lobos (muitas vezes em pele de cordeiros), pouco importa passar por cima do outro. Se eles estiverem ganhando dinheiro, se puderem se beneficiar economicamente; está tudo certo!

    Sim, estou sim inflamada. Mas não é de se estranhar. Com tudo isso acontecendo e ainda venho saber (porque o “ti ti ti” no meio jornalístico anda solto!) que quem começou com essa história de liminar para acabar com a exigência de diploma foi, pasmem (ou não), a Folha de S.Paulo! E vocês ainda me vêm com essa utopia de que escrever é amor? Amor por quem? Até onde eu sei, e entendi, a Folha de S. Paulo quer que não exista mais a exigência de diploma para poder contratar, em sua imensa redação, pessoas com o mínimo conhecimento da área, aquelas para as quais eles poderão pagar pelo salário mais ínfimo possível. Ah, não venham me dizer que vocês acreditam que os gabinetes de senadores e deputados contratarão (tanto em concurso quanto terceirizados) jornalistas com diploma! A farra está iniciada!

    Enfim, o resumo de tudo isso é que eu devo ser mesmo muito idiota! Porque não pensei melhor e fiz um outro curso, já que para ser jornalista é apenas preciso saber escrever?! Tudo bem… Não vou sofrer. Pelo menos sei que tenho capacidade e competência para continuar exercendo a minha “profissão”, ou mesmo qualquer outra que um dia me ‘dê na telha’! Como disse um amigo meu, “ainda bem que eu me diverti e fiz bons amigos na faculdade!”.

    Responder
  7. Ricardo Queiroz Pinheiro 20/06/2009 em 8:42 am

    Estou aguardando ansiosamente o anuncio do “fim da obrigatoriedade de jornais e revistas”, extinguir os Marinho, Civita, Mesquita da face da terra.

    Responder
  8. Sandra 20/06/2009 em 10:30 am

    Daniel,
    obrigada pelas palavras tão delicadas e pelo seu conselho.
    Acredito que você seja advogado, não é?
    Porque é uma carreira onde, depois de cinco anos de faculdade, você ainda não é um profissional habilitado se não fizer exame da OAB.
    Veja que extremos.

    Responder
  9. Estêvão dos Anjos 21/06/2009 em 7:55 pm

    Em época em que se fala em terceiro mandato é bastante interessante termos uma imprensa desmobilizada. Interessante pra quem? Com certeza a sociedade é a última a se beneficiar com isso. Fala-se que o supremo acabou os resquícios da ditadura ( essa fala veio do editor da Veja) que utilizou o diploma para fazer uma “filtragem” de quem escreveria no período da ditadura nos jornais, uma espécie de proteção. De que lado está o ato ditatorial dessa vez? Boas vindas ao novos Fautões e Galvões podem vir por aí!

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  10. Isaac Moraes 22/06/2009 em 12:38 pm

    Diploma nunca comprovou competência.

    O único medo que vejo ser realmente compreensível da categopria (principalmente os já concursados ou contratados, pois estão agora mais vulneráveis) é em relação aos direitos trabalhistas. Será que os patrões se sentirão obrigados a pagar piso, teto, e outros direitos?

    O profissional também será bastante desvalorizado, tendo que ser BOM. Só vai ficar quem tiver amor ao ofício (salvos os babacas parentes de deputados ou similares que começarão a trabalhar sem saber nem mesmo o que é um lead)

    Acho que, pra realmente existir uma mudança no jornalismo, ou na imprensa brasileira como um todo, deve-se começar a partir das universidades. A maioria dos alunos que conheço, salvo alguns, não querem nada com nada e pensam que comunicação se restringe às grandes emissoras manipuladoras.

    O músico nasce com o dom, ele será um músico muito melhor se estudar.
    Assim será com os jornalistas.

    Péssimo ensino, péssimos profissionais. Com diploma ou sem diploma.

    Responder
  11. Fernanda Sobral 22/06/2009 em 2:24 pm

    “A imprensa estava se tornando eletista e estatizada” ???????
    É a desculpa mais esfarrapada que eu poderia ter lido aqui.

    Apesar de todos os pontos interessantes daqueles que são contra a obrigatoriedade, o diploma (até onde eu sei) não é sinônimo de elite. A universidade PÚBLICA TAMBÉM está a disposição para todos aqueles que acreditam apenas no “talento”.

    Concordo com o ponto talento, mas o que vocês me dizem a respeito da ética, da lei das 3 fontes e todos os outos pontos importantíssimos que estudei (ou seria desperdiçei?) ao frequentar a universidade por 4 anos? Vão baixar do Google o manual?

    Responder
  12. Daniel 22/06/2009 em 4:41 pm

    Fernanda, nada que um curso de especialização não resolva, você não acha? O sujeito se forma em Economia, faz uma breve especialização pra estudar ética e técnica e vai trabalhar em um jornal. Ou, se o proprietário do veículo quiser contratá-lo mesmo sem especialização, que contrate. Uma coisa é certa: patrão não é louco de contratar profissional desqualificado, venha de que área vier, porque ele sabe que se sua empresa não apresentar certa qualidade, perde público e quebra.

    De resto, como o Brasil era um dos poucos países que ainda exigiam diploma, e se ética se aprende apenas num curso superior, seria de se esperar que a nossa imprensa tivesse sido nas últimas décadas uma das mais éticas do planeta. Não vi ainda nenhum estudo comparativo que sustente isso.

    Responder
  13. Eneraldo Carneiro 22/06/2009 em 7:44 pm

    WTF??
    Chô vê so entendi.
    A galera está comemorando o fato de que, os donos das empresas de comunicação, tem agora à sua disposição um exercito de reserva ainda maior do que já tinham? Com as implicações que isso terá sobre valor da mão-de-obra, etc.?
    Quer dizer então que substituir as Faculdades de Comunicação (sim, com todos os problemas) pelos cursinhos de treinamento das empresas de comunicação constitui um avanço?
    É isso mesmo ou eu perdi alguma coisa?
    WTF?

    Responder
  14. Marok 23/06/2009 em 2:24 pm

    Infelizmente, é isso mesmo. Não é a reserva de mercado que vai fazer os salários melhorarem no país. Se o cara quer ser um bom profissional, que faça a faculdade e estude, pois tem gente por aí esquecendo a parte do “estude”.
    Ficar forçando a barra, impedindo outras pessoas de exercerem uma profissão só para guardá-las para um determinado grupo precisa acabar mesmo. E não é só no jornalismo não.
    Óbvio ressaltar que existem profissões que não podem ser exercidas por qualquer pessoa, mas elas devem se restringir ao mínimo, à real necessidade.
    Essas obrigatoriedades só servem mesmo para desequilíbrio social, que aliás, somos especialistas. O cara tem dinheiro, coloca o filho na faculdade e pronto, garante o futuro de alguém que não vai precisar lutar por nada, que não vai precisar se especializar, ler, fazer nada. E conheço muita gente assim, que a vida é uma eterna diversão, pois tem seu canudo abridor de portas que lhe dá sustento, sem que se perca tempo em aperfeiçoamentos.
    É triste ver pessoas inteligentíssimas, esforçadas e comprometidas que não têm a oportunidade de um almofadinha sem nenhum bom atributo a não ser dinheiro.
    No final das contas, o leitor é que tem que escolher o que quer ler, seja bom ou ruim, seja com diploma ou sem. Escrever, em si, é um direito de todos.

    Responder
  15. gerusa 24/06/2009 em 12:01 am

    Muito obrigado Eneraldo. Você colocou em poucas linhas todas as minhas indagações a respeito disso.

    Responder
  16. Estêvão dos Anjos 24/06/2009 em 11:58 am

    A educação é secundária num país onde o presidente ( cargo máximo da nação) é um analfabeto, se ele não tem formação, ou instrução mesmo, para exercer o seu cargo pra que peste um jornalista precisa disso. Infelizmente é como pensa uma nação liderada por um ignorante. Esquecem-se do peso que existe uma formação porque não tem isso.
    Um dos comentários apresentados foi que o jornalismo não afeta diretamente a sociedade, o que por si já mostra o desconhecimento desse juiz, vale lembrar que o que fazemos é Comunicação Social. Mas isso não é o pior. Além de revelar-se incompetente para dar um aval tão importante, a justiça, com essa afirmativa entrou numa enorme contradição. Peguemos o caso de um júri popular que tem a obrigação de dar um parecer sobre uma sentença…digamos a um psicopata, ou melhor, um corrupto para ficarmos na mesma área. Essas pessoas, que podem OU NÃO ter instrução, ficam resposáveis por decidir os próximos anos de uma vida e de várias vidas, interferindo diretamente com o “social” tao defendido por Gilmar. Sendo curto e grosso:se cidadãos comuns – pedindo licença ao termo empregado por Lula – podem interferir de forma tão direta na sociedade, por que nós – profissionais que se dedicaram 4 anos para uma função – não podemos?

    Responder
  17. Estêvão dos Anjos 24/06/2009 em 12:00 pm

    Um dos comentários apresentados foi que o jornalismo não afeta diretamente a sociedade, o que por si já mostra o desconhecimento desse juiz, vale lembrar que o que fazemos é Comunicação Social. Mas isso não é o pior. Além de revelar-se incompetente para dar um aval tão importante, a justiça, com essa afirmativa entrou numa enorme contradição. Peguemos o caso de um júri popular que tem a obrigação de dar um parecer sobre uma sentença…digamos a um psicopata, ou melhor, um corrupto para ficarmos na mesma área. Essas pessoas, que podem OU NÃO ter instrução, ficam resposáveis por decidir os próximos anos de uma vida e de várias vidas, interferindo diretamente com o “social” tao defendido por Gilmar. Sendo curto e grosso:se cidadãos comuns – pedindo licença ao termo empregado por Lula – podem interferir de forma tão direta na sociedade, por que nós – profissionais que se dedicaram 4 anos para uma função – não podemos?

    Responder
  18. Eneraldo Carneiro 24/06/2009 em 1:49 pm

    Marok

    Please. Ninguém está falando em melhorar os salários no país. O que eu afirmo é que agora os salários dos jornalistas, que já não são lá essas coisas, serão ainda mais deprimidos. Isso parece óbvio e não vejo como isso poderá resultar em melhoria na qualidade do jornalismo. Supondo que haja alguma preocupação com isso, pois algumas pessoas parecem crer que é disso que se trata.
    Acho ingênuo crer, como parece ser o seu caso, que a atual deliberação do STF abre as portas do jornalismo para ‘as massas’. Você realmente acredita que algum jornal vai contratar agora redatores com 1º grau completo? Really? Se fosse isso seria bom? Se a resposta a ambas for negativa, escapa a minha compreensão como o fim do diploma avança no sentido da igualdade. Acho que você está misturando alhos com bugalhos. Pessoas “inteligentissimas, esforçadas e comprometidas” tem que ter a oportunidade de estudar e concluir seus estudos, para então concorrer no mercado de trabalho, e não de pular etapas. E a solução desse problema não passa por sair desregulamentando profissões, ao que me consta.
    Noves fora que eu não conheço iniciativas visando desregulamentar outras profissões, coisa que a decisão do STF faculta. Tenho dúvidas de que irão aparecer.
    Por fim receio que essa de que o “…leitor é que tem que escolher…” também esteja no rol das falácias, junto com o “escrever é um direito de todos”. O que é que o direito de escrever tem a ver com o exercício do jornalismo? Alguém por acaso é proibido de escrever qualquer coisa, se não for jornalista de carteirinha? Quanto á “liberdade” de escolha do leitor, ela é sempre restrita às opções existentes de veículos e meios, que são os que escolhem de fato, os que com tal ou (agora) qual diploma, irão compor seu quadro funcional. E que são também os que tem poder, num quadro oligopolizado, de barrar no mercado aqueles profissionais que não lhes interessam.

    Responder
  19. Marok 25/06/2009 em 1:58 am

    Uma pessoa aqui da minha cidade resolveu lançar uma revista sobre variedades e vendia os anúncios. Nada pra ficar rica, era apenas uma opção de trabalho autônomo pra se manter. Pois bem, ela teve que parar com sua publicação porque os donos de jornais daqui a denunciaram por ela não ter um jornalista “assinando” a revista. O salário que ela teria que pagar a um jornalista, deduzido ps impostos, seria maior que a sua própria renda. Hoje ela trabalha de vendedora em uma loja de roupas. Isso é o quê? Que mal ela fazia à sociedade?
    A questão não é desregulamentar profissões, é sim dar o direito a todos poderem exercê-la, desde que não faça mal à alguém diretamente ou à sociedade em si. Há que se ter critério, é óbvio, pois senão teremos que regulamentar todas as áreas e elitizar de uma vez. Os músicos, técnicos da área de informática, design, mecânicos e outras mais que o digam…
    Se alguém faz uma faculdade simplesmente porque seu diploma lhe dará superpoderes por si só, há algo errado. Se você tem uma faculdade, está um passo a frente, cabe continuar caminhando para continuar na dianteira. O que tenho visto é pessoas que simplesmente estacionam e ainda assim não podem ser alcançadas mais velozes.
    Eneraldo, pelo que tenho visto por suas participações nos comentários do blog percebo que és uma pessoa muito bem instruída e de ótimo conhecimento. Sinceramente, caso você seja jornalista, acho que as coisas não vão piorar (pelo menos não muito) pra você, mas não posso dizer o mesmo para algumas pessoas que eu conheço. Imagine você um jornalista que odeia livros, detesta leitura no geral e sequer teve capacidade de fazer sua própria monografia. Estranho, né? Pois é, existe criaturas assim, e trabalham nas redações graças à reserva de mercado. Talvez resolvam se tornar profissionais realmente competentes ou procurem uma profissão que realmente possam desempenhar bem.

    Responder
  20. Marok 25/06/2009 em 1:57 pm

    Digitei esse post com a testa, acho. Bom, só pra consertar uma das frases que ficou um tanto sem sentido, onde se lê:
    O que tenho visto é pessoas que simplesmente estacionam e ainda assim não podem ser alcançadas mais velozes.
    Entenda-se:
    O que tenho visto é pessoas que simplesmente estacionam e ainda assim não podem ser alcançadas por outras mais velozes.

    Responder
  21. Flavia 29/06/2009 em 6:17 pm

    Uma provocação então: por que o que vale pra uma profissão não vale para outra? O mesmo deveria valer para juristas: sem necessidade de diploma. O mesmo então para professores: por mérito. Cirurgiões? Onde está o limite entre diplomados e não diplomados? Ou será que a própria profissão da qual se fala está tão despresada que chegamos a achar que é melhor colocar outros profissionais no lugar?

    Responder
  22. Marok 30/06/2009 em 9:19 am

    Acho que o caminho seria esse. As profissões com restrição para diplomados deveriam ser exceções, não regras. Por exemplo, no caso de médicos é necessário, assim como a fiscalização durante toda a carreira dele, por motivos óbvios. Professores também, pois tem função durante a educação, não há como fiscalizar ou criticar o que fazem de maneira satisfatória.
    É aí que está o limite. O quanto determinada profissão pode afetar a vida de outras pessoas e a forma como ela pode ser monitorada pela sociedade.
    Eu, por exemplo, trabalho com diagramação e vejo uns trabalhos horríveis por aí. Preciso lutar dia a dia contra toda sorte de gente, jornalistas, administradores, músicos, nutricionistas, que se metem a pegar um coreldraw e se sentir designer. Se hoje tenho trabalho é devido ao esforço pra mostrar pros meus clientes e potenciais clientes que não vale a pena diminuir os custos pra colocar um mexilhão qualquer para fazer seus trabalhos gráficos. Embora eu não tenha um diploma, estudo diariamente sobre a minha área e me comprazo da satisfação dos meus clientes, pois é eles que “regulamentam” a minha profissão, quando escolhem a qualidade ao invés do preço. Se eu tivesse uma reserva de mercado me protegendo, já teria há muito deixado de correr atrás da excelência, corrida esta que, por necessidade, pretendo não parar jamais.
    Portanto, se você analisar com cuidado sua própria provocação, vai ver que essa regulamentação, na prática, existe em apenas algumas profissões, algumas sem real necessidade. Afinal, padeiro, constureiro, cabeleireiro, soldador, agricultor não são também profissões? O que impede que qualquer um abra um salão de beleza e saia entortando o cabelo dos outros indiscriminadamente?

    Responder
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