Mulheres reais em peças para ler

2–06–2009 --- Envie para um amigo --- Tuitar

por Juliana Dacoregio – É preciso deixar claro que Mulheres virando o jogo está longe de ser uma obra de auto-ajuda para o público feminino. Também em nada se assemelha à moderna “literatura de mulherzinhas” que reduz o universo feminino ao consumismo excessivo e desventuras amorosas caricaturais. O título pode até sugerir alguma dessas publicações rasteiras, mas as personagens criadas por Marta Góes nada têm de vazias ou estereotipadas. Não que sejam diferentes de tudo e de todos; são pessoas normais, com defeitos, qualidades e características excitantes ou tediosas, mas não se parecem nem um pouco com personagens-clichês de livros feitos sob medida para o público feminino médio.

Marta é jornalista, escritora e dramaturga. Escreveu as biografias de Alfredo Mesquita e da atriz Regina Braga, aventurou-se na literatura infantil, trabalhou em grandes jornais e revistas e escreveu sete peças teatrais de sucesso, estreladas por atrizes do porte de Amy Irving, Irene Ravache, Marisa Orth, Grace Giannoukas e Regina Braga.

São três destas peças que compõem Mulheres virando o jogo. É um livro de roteiros teatrais, descrevendo cenários, personagens e mudanças de cena. A falta da voz narrativa exige maior concentração do leitor, mas como nem todos têm a oportunidade de assistir “Miss Cýclone”, “A Reserva” e “A moça que falou assim”, vale a pena driblar o estranhamento inicial causado pelos textos feitos apenas de diálogos.

“Miss Cýclone”, traz a história real de Maria de Lourdes Castro Pontes, uma jovem de vanguarda que freqüenta as reuniões íntimas de Oswald de Andrade, tornando-se amiga dos amigos dele e uma espécie de musa inspiradora dos modernistas. “A Reserva” é o relato da ascensão e queda de um restaurante de comida caseira, dirigido por Vera, uma mulher que ama cozinhar e que exprime afeto através da comida.

“A moça que falou assim” retrata o dia-a-dia de um escritório simples, “mais para ventilador do que para ar-condicionado”, onde secretárias, auxiliares de escritório e pequenos executivos vivem às voltas com suas rotina burocrática e tediosa, até que uma transformação acontece com a personagem mais acomodada e submissa da história.

Marta Góes demonstra conhecimento de causa ao escrever sobre mulheres. Todas as suas personagens nos envolvem e convencem, pois são reais, são mulheres iguais às que encontramos todos os dias. O único defeito do livro, a meu ver, é mesmo o fato de ser uma obra de peças reunidas. É difícil pegar o ritmo de leitura de uma peça, já que não contamos com um narrador para nos apresentar a história e descrever cenários. Eu, particularmente, gosto quando há um equilíbrio entre voz narrativa e diálogos e gostaria de ter lido as peças em forma de romance.

Em um filme ou peça de teatro, quando não há narrador (e muitas vezes há, às vezes até desnecessariamente), você pode observar a linguagem corporal e expressão facial dos atores. Já na leitura de uma peça você não conta com isso. Não deixa de ser um exercício de imaginação muito mais forte do que aquele exigido em qualquer outro tipo de leitura.
::: Mulheres virando o jogo ::: Marta Góes :::
::: Terceiro Nome, 2009, 184 páginas ::: compare preços :::

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6 comentários:

  1. meire silva (1–09–2009 4:04 pm)

    gostaria de receber textos de peças teatrais

  2. Wanderly (2–09–2009 12:33 am)

    Bom, muito bom.Conseguiu contagiar-me e, desse modo, buscar meios de fazer a leitura de “Mulheres virando o jogo”, embora concorde que ler o texto apenas com os diálogos, sem narrador, é diferente.Mas, acredito que o conteúdo compense uma leitura que necessite um pouco mais de concentração.

  3. philip frogstein (2–09–2009 2:30 am)

    Bom, muito bom. Dizem que tudo o que a Marta Góes escreve é especial e vale a pena ler. Ela tem carreira internacional e teve uma peça encenada na Broadway pela Amy Armstrong. Tem muitos livros publicados.

  4. Mary Lou Paris (2–09–2009 9:43 am)

    Meire, dê uma olhada no site da Terceiro Nome (www.terceironome.com.br). A editora tem publicado peças teatrais e há duas nos “especiais” que estão acessíveis gratuitamente. Uma delas é Adivinhe quem vem para rezar, do Dib Carneiro Neto, e a outra é Um porto para Elisabeth Bishop, da Marta Góes. São duas peças premiadas e muito bonitas.

  5. Camila Gadelha (2–09–2009 11:23 am)

    Eu li a “Um porto para Elisabeth Bishop” e vale mesmo a pena. A montagem da peça da Marta Góes (A Reserva, vi em SP), que parece que está no “Mulheres virando o jogo” ficou sensacional, engraçada e tocante. Vou ler o texto no livro para comparar.

  6. Almir Santos (25–09–2009 11:59 pm)

    Recomendo também o livro que Marta Goes escreveu sobre Alfredo Mesquita. Ele teve um papel importantíssimo na formação de atores e criou a Escola de Arte Dramática. Fui ao lançamento, onde um Juca de Oliveira emocionado falou sobre o grande mestre. Não é peça de teatro mas é sobre teatro, sobre a vida, sobre a convivência, a solidariedade. Um grande livro!





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