Milk: A voz da igualdade
por Ana Al Izdihar – Como era de se esperar, Sean Penn foi espetacular! O filme é dele, o filme é para ele, o filme é ele. Isso não foi surpreendente, pois eu já o esperava: um personagem totalmente diferente do seu conhecido perfil (leia a retrospectiva que fiz nesse post) só poderia dar em duas coisas: fracasso ou sucesso. Já sabia que não haveria meio termo. Sean? Arrasou.
O filme é muito bem feito, tecnicamente falando. Não é à toa que abocanhou muitos prêmios pelo mundo afora, além dos esperados “melhor ator” e “melhor ator coadjuvante”. Recebeu também: melhor roteiro, direção de arte, edição, figurino, maquiagem e cabelo, trilha original, compositor de trilha e fotografia. Ufa! A fotografia é muito bonita, há mistura de vídeos antigos e verdadeiros da época de Harvey Milk com o filme e às vezes a imagem fica com aquele aspecto propositalmente envelhecido que nos teletransporta aos anos 70. A coloração (das lentes, do figurino, da maquiagem) é também muito bem cuidada. A trilha sonora é sutil, marcante e indispensável como toda trilha boa deve ser.
Os prêmios concedidos ao roteiro são merecidos também e notei que ele recebeu-os tanto para o roteiro original quanto para o de filmagem, assim como para o dito “primeiro roteiro”. Entendo a razão: a idéia original era transformar a vida de Harvey Milk em filme; depois isso teria de virar um roteiro para cinema e depois as adaptações feitas para o set de filmagem. Claro, tudo isso é muito comum, acontece com todos os roteiros no mundo, porém acho que essas mudanças ocorreram por causa do foco: Sean Penn. E como o roteirista é um profissional conhecido (Dustin Lance Black) e já parceiro do diretor Guns Van Sant, essas modificações não são feitas a lápis.
Contudo, foi exatamente no roteiro que vi um traço que poderia ter sido um tanto mais elaborado. As vidas daqueles que acompanharam Milk poderiam ter sido mais exploradas – quem eram essas pessoas, de onde vinham, por que estavam ali. É certo que ao final isso é dito por um recurso muito convencional do cinema, mas acho que se alguns desses personagens fossem mais desenvolvidos, o filme ficaria mais rico. Por exemplo, esperava saber como teria ocorrido a mudança de opinião de um dono de bar com relação a Milk. E não estou falando de fidelidade aos fatos. Simplesmente seria um ponto curioso para se mostrar, já que Milk lutava para que os gays na região fossem vistos como consumidores e cidadãos comuns.
O filme é bom, é bonito, é comovente. Talvez, você não se debulhe em lágrimas ou fique com aperto no coração, como eu fiquei ao assistir O segredo de Brokeback Mountain. Mas é uma boa diversão e, claro, a interpretação de Sean Penn é um show à parte – às vezes, me esquecia que era ele ali no papel. Esqueça as piadinhas que o brasileiro já criou sobre o filme (entre elas: “Esse leite é moça!”) e curta o Milk de Penn com seus gestos delicados, seus olhares e tons de voz, sem afetação.
É ótimo que Milk tenha estreado no Brasil no período das paradas do orgulho gay, pois ele pode estimular alguns debates interessantes a respeito do tema. E sei que há controvérsias, como Nany People já disse: a Parada Gay que acontece em São Paulo não representa mais o orgulho gay, pois é só um carnaval. Ela comenta que muitos jovens e senhores vêm em caravanas escondidos da família, colegas de trabalho, amigos, fazem coisas que Deus duvida, voltam para casa e retornam aos seus armários. Disse também que as “bichas” não gostam das “sapatas”, que não suportam as “barbies”, que por sua vez implicam com as “enrustidas”. E Nany pergunta: que orgulho gay é esse? Que união é essa? Pertinente… E eu sei que ela diz a verdade, pois tenho amigos gays que dizem o mesmo. Será que o mesmo aconteceu com os movimentos que Harvey Milk estimulou? Será que há o mesmo questionamento quando as paradas acontecem em São Francisco hoje em dia?
Creio que é sempre bom relembrar pessoas como o Milk, que tentaram fazer sua parte, mesmo não sendo perfeitos e nem super homens. Tiveram de arranjar coragem para lutar pelo direito de sair para o trabalho e voltar para casa sem levar uma surra, ou comprar o que quisessem ou ter onde morar. E ele encontrou o fio da meada, em sua época e seu contexto: sair do armário, como ele mesmo fez. Descobriu que somente ao tomar sua posição e se identificar na sociedade em que vive é que o cidadão pode entender e requerer seus direitos e, portanto, ter o respeito que merece.
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