André Mehmari e Nó Barroco
por Camila Pavanelli – Acompanho de perto a carreira do pianista André Mehmari há mais de dez anos, desde que ele venceu o primeiro Prêmio Visa de MPB Instrumental em 1998. Na verdade, caracterizá-lo como pianista é comprimir uma realidade sublime no espaço de uma palavra: assim como quase a totalidade dos grandes músicos do século XX, seu trabalho como compositor é tão ou mais significativo do que sua performance como instrumentista. André, além disso, é incrivelmente talentoso em diversos outros instrumentos: não é exagero dizer que a qualquer momento ele poderia iniciar uma carreira como violista, violonista, flautista ou cantor, para citar apenas alguns dos instrumentos que ele mesmo toca com maestria em seus discos solo.
Mas este texto tem um foco definido: a apresentação de André a que assisti ontem com o grupo Nó Barroco, que tinha o objetivo auto-declarado de construir pontes entre a música barroca e a canção brasileira. Não sei quantas performances de André pude ver ao longo dos anos; devem se aproximar de meia centena. E, até ontem, eu não saberia dizer qual foi a mais marcante: o trio de improvisos? O lançamento do disco de composições próprias? Os duos com Ná Ozzetti, Mônica Salmaso? O quarteto com Tutty Moreno?
Agora esse dilema acabou. Não tenho nenhuma dúvida de que o que eu e mais alguns privilegiados ouvimos ontem à noite foi a performance ao vivo mais bonita e impressionante de André Mehmari, e estou mordendo o braço para não mergulhar no clichê “uma das apresentações mais bonitas que já ouvi / do Brasil / do mundo / do universo”. O problema dos clichês é que eles são profundamente verdadeiros – e, para nosso imenso desgosto e frustração, não acrescentam nada à verdade que anunciam. Por isso me foi necessário começar a escrever: porque, desta vez, não consegui me acalmar com a platitude de um clichê.
Há mais ou menos oito anos estreava o trio de André com Dimous Goudaroulis (violoncelo) e Guello (percussão), com uma proposta senão explícita como a do Nó Barroco, pelo menos aparentada a ela, até pela afinidade entre André e Dimos, ambos estudiosos apaixonados de música antiga. Agora, na nova formação, sai a percussão e entra o baixo acústico de Neymar Dias, além da participação do cantor Tiago Pinheiro.
Primeiramente cabe deixar claro que não tenho nenhuma condição de escrever sobre música barroca, pois tenho pouquíssimas condições de ouvi-la. Esta música não faz parte da minha formação musical e nunca me despertou nenhum grande interesse. A apresentação do grupo é entremeada de arranjos de diversas composições antigas que desconheço inteiramente. Dado o que acabei de confessar sobre minha própria ignorância e desinteresse, seria óbvio supor que esses eram momentos do show que eu esperava passar com resignação. Felizmente, nem tudo na vida é óbvio. Esses acabaram sendo os momentos em que eu respirava. Millôr dizia que sua parte preferida do Rio de Janeiro eram os túneis, porque a beleza da cidade era tanta que chegava a ser insultante. Pois bem: as árias e cantigas barrocas foram os túneis do show para mim. Meus ouvidos populares contemporâneos precisam de temas sinuosos e quebradiços, não sabem apreciar outros modos de conceber melodias. Assim, os momentos propriamente barrocos do show foram de desaceleração, respiro e retomada de fôlego para as intensidades que a eles se sucederiam. Nada muito diferente, ademais, de uma relação sexual, que também é feita de intensidades e repousos de intensidades.
Passemos então às intensidades que fui capaz de sentir. Sobre a formação do grupo, tenho um breve comentário a fazer. Logo de início uma ausência me impressionou: é incrível como a percussão, para essa música, não faz a menor falta. Entre baixo acústico e violoncelo – e os deliciosos estalos daquele -, há suficiente espaço para condução rítmica: qualquer caxixi ou pandeiro ali seria de fato desnecessário, mesmo que tocados por um percussionista excepcional (como efetivamente era o caso do trio com Dimos e Guello). Esta é uma música que precisa de vazios, não de preenchimentos. E que música é essa?
Comecemos pelo método covarde de dizer primeiro o que uma coisa não é na esperança de nos aproximarmos lentamente do que ela parece ser. Essa música não é MPB – principalmente, não é o que se convencionou chamar de “música instrumental”, recheada de instrumentistas “tocando pra caralho” e “quebrando tudo”. Tampouco é música erudita – que, ao menos contemporaneamente, não costuma ver com bons olhos a improvisação. Nem por isso é jazz – rubrica que, apesar de bastante inclusiva, não parece a mais apropriada para designar um grupo que, para este trabalho, não a tem como referência. Por tudo isso, tenho de concluir que ontem estive diante de mais do que uma bela apresentação: presenciei o nascimento de um gênero musical distinto, que não cabe mais em nenhuma categoria pré-existente. Não me contento em dizer que este é um grupo que produz novos arranjos de clássicos da MPB; apenas a educação me impediria de brigar com quem eventualmente o dissesse. Mas não me arvorarei de explicar em que consiste essa distinção. Em vez disso, deixarei registradas algumas impressões descritivas que, com sorte, poderão sugerir essa diferença e instigar curiosidades.
O show começa com “Cálix Bento”, tema do folclore mineiro que de pronto virou um dos hinos do Clube da Esquina. Ontem, ela ressurgiu com cravo, violoncelo, viola caipira e voz, e por alguns minutos qualquer um seria capaz de jurar que violoncelo e cravo são instrumentos que nasceram e cresceram no interior de Minas Gerais animando bailes. A voz de Tiago, por sua vez, transita com igual facilidade por contextos populares e eruditos – e também por esse, que não é nem um e nem outro, mas ambos e nenhum dos dois ao mesmo tempo. Tiago Pinheiro é um cantor-instrumentista raro na música popular, que trata as melodias com especial cuidado e rigor e nem por isso deixa de ter uma presença de palco marcante. Seu timbre encorpado e o sutilíssimo e regrado uso do vibrato contribuem para interpretações ao mesmo tempo sóbrias e expressivas.
Eu o conhecia do primeiro disco solo do próprio André, Canto – é dele a voz em “Valsa Romântica”, poema de Manuel Bandeira musicado por André que é um excelente exemplo da sinuosidade melódica a que me referi anteriormente: a melodia segue os contornos sonoros do poema falado. Apenas um exemplo: o verso inicial do poema é “A tarde agoniza”. A palavra “agoniza”, na música, ganha uma sílaba extra: “agoniza-a”, o segundo “a” um tom abaixo do primeiro – o agonizar perfeito. Assim são as melodias de André: extremamente cantabile, sua complexidade nunca se interpõe à graciosidade ou à força da ideia musical ali presente. Foi emocionante ouvir a “Valsa” ao vivo com Tiago Pinheiro, mas várias outras composições suas também ganharam interpretações quase definitivas na noite de ontem. Destaco algumas: “Lachrimae”, que dizem os entendidos ser baseada numa peça de Dowland, para estes ouvidos populares lembra a “Lonely Woman” de Horace Silver em seus compassos iniciais; a formação de piano, baixo e violoncelo contribuiu para reduzir a música à sua essência dramática, os três instrumentistas percorrendo um vasto espectro dinâmico de maneira quase impertível de tão orgânica: quando se vê, o que era piano virou fortissimo. “Lamento de Diadorim” é uma música já antiga (porém nunca gravada) de André – uma melodia simples que explora a brasilidade e os coloridos do violoncelo de Dimos. Mas, de todas as suas composições, nada se compara a “Um Anjo Nasce” – um minuto e meio de uma valsa-mantra que ontem ganhou uma nova voz do violoncelo; infelizmente, ela foi tocada uma vez só (queixa inevitável quando se trata de composição tão curta). Não por acaso as menções ao violoncelo se repetem: pode até ser que exista, mas eu ainda não ouvi outro violoncelista capaz de tocar Vivaldi um minuto e fazer seu instrumento soar como uma rabeca (em “Cálix Bento”) ou violão de 7 cordas (em “Último Desejo”, de Noel Rosa) no minuto seguinte.
Chegamos assim às canções brasileiras relidas por este grupo. Do Clube da Esquina, três: além de “Cálix Bento”, eternizada em Geraes, tivemos “Cravo e Canela” com uma fantástica levada rítmica no piano e “Paixão e Fé” (Tavinho Moura / Fernando Brant) em piano solo. Com relação a esta última, devo revelar uma lembrança deveras inusitada que me ocorreu no meio da música, num lindo interlúdio em compasso ternário: subitamente, pensei em… Michael Jackson. Que morreu mas pelo menos nos deixou “Billie Jean” e outras maravilhas. Tudo bem que André Mehmari já está nos deixando bastante coisa, mas ele não pode morrer antes de gravar este arranjo de “Paixão e Fé”. E ele precisa fazer isso logo, como uma questão de segurança internacional mesmo: a ONU deveria ter como prioridades impedir a proliferação de armas nucleares nos Estados Unidos e fomentar a gravação do maior número possível de arranjos para piano solo de André Mehmari. Certamente viveríamos mais tranquilos assim.
Outro piano solo foi “Mulher Sem Alma”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Um de meus passatempos é produzir discos imaginários dos meus músicos preferidos (vide exemplo); para André Mehmari, já produzi um inteiro só de Nelson Cavaquinho. Então vocês imaginam a minha felicidade quando ele tocou uma música que estava no meu disco imaginário. Só que no meu disco, ela é (previsivelmente) uma balada lentíssima, rearmonizada e bem lacônica, com baixo e bateria bastante discretos. Já o arranjo para piano solo, num andamento mais rápido, lembrou-me um pouco a versão de “Amor Perfeito” (também de Nelson e Guilherme) gravada em “Lachrimae”, o disco – se tivesse bateria, exigiria uma condução de pratos à la Tutty Moreno.
Houve também Elomar, João Bosco e muito mais em duas horas de apresentação de quatro músicos que claramente estavam ávidos de apresentar esta música ao público. Um último comentário fica por conta da última canção antes do bis, a ária de Monteverdi “Por ti miro”. Estava eu esperando por mais um túnel, quando de repente ouço voz e violoncelo conversarem. A cada frase melódica cantada, o violoncelo respondia. E então eu vi – uma beleza a que havia estado cega durante todo o espetáculo. Minha sorte é que ontem foi apenas o primeiro dia: é possível que hoje e amanhã matas e cachoeiras comecem a despontar dentro dos túneis.
[ foto na abertura por Dani Gurgel (2006) ]
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[...] combinado e voltei para casa feito um zumbi entorpecido. Aí ralei o carro na garagem e escrevi esta resenha. Share and [...]
Textim danado de bom, Lady. Nem parece de mulher
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Obrigada por não me deixar passar vergonha sozinha, DJ!
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Que pena que eu perdi os shows do André Mehmari e o Nó Barroco… Eu já sabia que iria ser o máximo, pois musicalmente a melhor das impressões já precede o nome do André… Se música pudesse ser ouvida com palavras escritas, seu post seria a audição desse show do André. Obrigado.
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