A reeleição de Ahmadinejad. E a hipocrisia de Israel
por Daniel Lopes – Dificilmente a eleição presidencial iraniana foi um processo inteiramente justo. Sobraram denúncias de que os apoiadores de Mahmoud Ahmadinejad usaram métodos pouco democráticos para assegurar a vitória do atual líder. Nada que se compare à idade da pedra institucional de uma Arábia Saudita, mas denúncias preocupantes, ainda assim. Veja, por exemplo, essa entrevista de um dissidente iraniano a Robert Dreyfuss, correspondente da The Nation no Oriente Médio.
Assim, quando Ahmadinejad diz que sua vitória foi a expressão da “voz do povo”, podemos detectar um traço de hipocrisia. Mas menor do que aquele que salta dos discursos dos mandatários israelenses ao lamentarem a reeleição de seu arquiinimigo (será que lamentam mesmo?). Eles sim, entendem de democracia. A cada Arafat que mantém em cárcere privado até a morte, conseguem abrir espaço para um Hamas vencer eleições. A cada chuva de bombas que fazem cair no sul do Líbano, unem um país rachado em torno dos terroristas do Hezbolá.
O vice-ministro de Assuntos Exteriores de Israel, Danny Ayalon, disse: “Se havia alguma sombra de esperança de mudança no Irã, eis aqui a reeleição de Ahmadinejad, que significa o aumento da ameaça iraniana”. Os números das urnas, afirmou Silvan Shalom, ministro de Cooperação Regional, “explodem na cara daqueles que pensavam que o Irã estava pronto para o diálogo verdadeiro com o mundo livre”. Parece que estão comemorando ou é só impressão minha?
Mas suponhamos que haja indignação geral e irrestrita.
Como se durante toda a década de 1990 Israel não tivesse trabalhado para que os estadunidenses não tomassem qualquer decisão errada diante das ofertas de aproximação dos líderes iranianos. Akbar Rafsanjani, eleito em 1989, passou a comandar um país recém-saído de uma guerra violentíssima com o Iraque (então apoiado pelos EUA). Com o exército aos frangalhos, desejava trégua com o Ocidente. Mas aí por 1993 o primeiro ministro israelense Yitzhak Rabin mexeu os pauzinhos para que Washington mantivesse e aumentasse sua presença militar no Oriente Médio, medida mal vista tanto por Irã quanto por Iraque – de fato, por todo o povo árabe.
Em maio de 1997, Mohammad Khatami foi eleito. Iria além do antecessor na tentativa de aproximar seu país dos EUA. No início de 1998, em entrevista à CNN, falou bem do “grande povo americano”, garantiu que seu país não estava disposto a praticar atos hostis e clamou pelo fim das desconfianças. Aceitou a presença do estado de Israel na área palestina histórica, exigindo apenas sua retirada dos territórios ocupados em 1967 e a criação do estado da Palestina – nada que inúmeras resoluções da ONU já não tenham exigido com maior vigor (e comparável ineficácia).
Em The Israel lobby and U.S. foreign policy, leio que
(…) tão logo ficou claro, em meados de dezembro de 1997, que Khatami estava pedindo melhores relações com os Estados Unidos, oficiais israelenses movimentaram-se para frustrar essa iniciativa. O [diário israelense] Ha’aretz informou que “Israel expressou a Washington sua preocupação diante das notícias de uma iminente mudança de política dos Estados Unidos em relação ao Irã”, completando que o primeiro ministro Netanyahu “pediu à AIPAC [American Israel Public Affairs Committee, a maior instituição do lobby pró-Israel nos EUA] para agir vigorosamente no Congresso para prevenir tal mudança de política”.
Em abril de 2003, mal Bagdá havia caído, o embaixador de Israel em Washington dizia que a derrubada de Saddam não era o bastante. Mirava em Teerã. Em novembro de 2002, Ariel Sharon, cujas credenciais pacifistas são mundialmente conhecidas, afirmou em entrevista ao Times londrino que o Irã era o “centro do terror mundial”. Foi essa política de confrontação cega com presidentes moderados do Irã (moderados pelo menos em relação a Ahmadinejad; certamente em relação a quase todos os líderes que Israel já teve desde sua fundação), somada à defesa da “mudança de regime” por parte de Israel e de seus aliados nos EUA, que afinal fez com que Ahmadinejad angariasse suporte e, com um discurso radical de enfrentamento, fosse eleito pela primeira vez, em 2005.
E se agora, ao invés da reeleição, Hossein Mousavi, o oponente de Ahmadinejad, tivesse vencido o pleito? Nenhuma diferença, garantiu Danny Ayalon, para quem não havia mesmo grandes diferenças entre os dois. Ou, nas palavras do ministro das Relações Exteriores, o racista Avigdor Lieberman: “O problema do Irã não é de natureza pessoal”.
Portanto, já fiquem avisados: qualquer abertura ao diálogo que a presidência do Irã ofereça nos próximos meses ao presidente Obama será pura máscara. Não se iludam se Ahmadinejad exigir do presidente estadunidense apoio efetivo para a criação de um estado palestino viável em troca da cooperação do regime xiita na luta contra a Al-Qaeda – como fez a Síria e o próprio Irã após os atentados de 2001 em Nova York, ajudando na queda dos talibãs no Afeganistão. Tudo será lábia, jogo de cintura para esconder seus reais objetivos, a saber, a aniquilação do indefeso estado de Israel.
Só vai derrubando tudo.
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daniel:
pra uma boa parcela dessa turma o único resultado aceitável como democrático
seria a derrota do ahmadinejad.interessante visão de democracia,não?
um abraço.
romério
É a eleição sob demanda, Romério.
Abs.
Pingback: confrontos pós eleições no Irã. « Libidinagens
caro daniel,
a cobertura de nossa grande imprensa mais uma vez se rendeu à metropole da potencia hegemônica, washington, o que não é nenhuma surpresa. simplesmente, torceu pela oposição do irã e quebrou a cara mais uma vez.
e assim continua praticando o manjado jornalismo de insinuações. daí, vida longa à blogosfera. eles não aprendem.
abçs
Difícil, uma eleição com presença histórica e contagem em tempo recorde, repressão acima do normal da polícia, rápida parabenização por parte do Aiatolá para evitar dúvidas, polls indicando que Ahmadinejad ganharia apenas em caso de pequeno comparecimento, histórico de vitórias de reformistas quando a votação conta com grande participação… Porque será que Ahmadinejad não aguenta esperar que os jornalistas estrangeiros caiam fora?
Tudo isso leva a crer em fraude, e das boas! Ahmadinejad deve ter se inspirado em Saddam e seus 99% de votos nas “eleições” no Iraque… Podia ter roubado por pouco, uns 3-5 porcento, não?
http://tsavkko.blogspot.com/2009/06/ira-alguns-comentarios.html
Prezado,
tenho a impressão de que para Israel tanto fazia quem ganhasse a eleição. Se foi de fato o Ahma, a coisa continuaria igual. se fosse o Mousavi, ele teria que mostrar serviço pros que mandam realmente no pedaço. Vai daí…
De longe, foi a melhor análise sobre o resultado das eleições no Irã.
Eu, pessoalmente, acho que nem sequer posso formar uma opinião concreta sobre isso, visto que todas as informações que chegam são contraditórias, dependendo da fonte. Por exemplo: quem joga, gratuitamente, que o Mousavi é ‘reformista’ e o Ahmadinejad é ‘radical’ é a Reuters, a BBC, que de ‘isenção’ não tem de nada. Os outros jornais simplesmente copiam os textos dessas agências e boa. E textos que são bem ‘rápidos no gatilho’ ao apontar heróis e vilões. Portanto, quem garante?
Antes de se posicionar pró-isso ou pró-aquilo, é melhor perguntar: por que o foco dos meios de comunicação em assuntos internos de um país distante? Por que o Irã? Tudo são interesses.
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Não me preocupo com a casa do vizinho. Preocupo com a minha casa que é o Brasil. Me diga Sr. Daniel, no Brasil as eleições são limpas? Os politicos são honestos nas suas eleições ou precisam se eleger sempre comprando votos que é uma pratica condenada pela justiça? O Sarney presidente do Senado é um modelo de democrata mandando descer o pau na imprensa que estava cobrindo os inumeros roubos e acusações dele e do seu filho. Porque isso é certo comparado com o erro da politica dos outros? Falamos muito bem do rabo dos outros sentados em cima do nosso.
Primeiro deveriamos dar o exemplo para depois cobrar qualquer coisa dos outros.
Tenha uma ótima semana.
A respeito do comentario acima, acho que o único erro eleitoral é a aptidão do povo. Não concordo com o fato de um eleitor estar apto para votar só por causa que ele tem mais de 16 anos. Minha opinião é de que ele a aptidão deveria ser julgada pelo grau de escolaridade. Mas isso é utópico, visto que quem controla o sistema eleitoral são os mesmos que compram os votos dos mais pobres com cestas-basicas.
Daniel,
Seu texto é inteligentíssimo. Somente um cara como você é capaz de mudar as coisas de lado.
Um país livre e democrático vira o “mexedor de pauzinhos” e o “senhor da guerra” e o país opressor, que não respeita direitos humanos e civis vira o país que quer dialogar com o mundo e só não conseguiu por causa de mais uma conspiração judaica-israelense.
Eu não acho, eu tenho certeza que criar conspirações judaico-israelenses é a ferramenta dos que tem ódio e não tem argumento.
Os israelenses querem ser “filhinhos” do mundo até quando?
Tudo o que não é anti-árabe, é “conspiração” contra o “pobre” povo perseguido.
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