Na pele do outro

Graças a Philip Roth, posso dizer que experimentei, aos vinte e quatro anos, as agruras de envelhecer.

-- Philip Roth na Universidade de Princeton, 1964 --

A leitura estreita as distâncias entre universos afastados e díspares; a leitura inclui, agrega, compartilha e divide a dor de existir onde, quando e como for. É um contrassenso salientar somente a qualidade aproximadora da ficção: as biografias e autobiografias, os volumes de correspondências e memórias e as edições de diários também têm o poder de colocar o leitor momentaneamente na pele do outro — quem quer que seja o leitor, quem quer que seja o outro. É isso que faz da literatura um elemento indispensável para a contemplação e para o entendimento, até onde ele é viável, da vida: a possibilidade tangível de intercambiar, em qualquer sentido, as mais diversas experiências do homem sobre a terra. Qualquer história, portanto — qualquer enredo elaborado ou descrição superficial de uma única cena —, nos retira brevemente, e sem maiores consequências, da realidade imediata. Uma vez abandonados ao fluxo de palavras e à sorte que ele contém, inteiramente absorvidos no caminho a ser percorrido da primeira à última linha, é preciso dar vazão à capacidade de imaginar; somos, assim, arrastados a um contexto confortável ou perturbador, convidativo ou sufocante, aprazível ou desagradável — um contexto que, de todo ou minimamente, difere do nosso.

Uma profunda reflexão sobre uma situação real, embora emocionalmente distante, ou o conhecimento em estado bruto arrancado a custo de artigos científicos não são capazes, na maioria das vezes, de gerar o entendimento grave e arraigado proporcionado pela literatura — a carga de compreensão, reconhecimento e concordância que nos põe inevitável e dolorosamente na pele do outro. A simples assimilação de ideia e as análises lógicas e racionais diferem, em todos os sentidos, do conhecimento do qual nos apropriamos através de vivências impactantes. E a leitura é, de certa forma, uma vivência: trata-se uma experiência pessoal, que nunca será igual para dois leitores. Da mesma forma que ocorre com um acontecimento real, a leitura vem acompanhada, inevitavelmente (por mais que a escrita de um autor seja seca e distanciada), de uma profusão de sensações e emoções proporcionadas pelo contato direto com os detalhes de uma história. Estes detalhes são abrangentes: incluem a descrição indiferente de um cenário ou jorro de pensamentos de um personagem. Dependendo da profundidade da imersão — e da extensão da influência, portanto —, é possível dizer que a leitura propicia, tanto quanto identificação, uma alternativa momentânea, dolorosa ou alegre, para nossa identidade.

Poucos autores fornecem ao leitor um panorama tão nítido, amargo e aflitivo da velhice quanto Philip Roth. Posso dizer que experimentei, aos vinte e quatro anos e de forma subjetiva e indireta, as agruras de envelhecer. Personagens como David Kepesh, Coleman Silk e Nathan Zukerman demonstraram a quem ainda não completou setenta anos as dificuldades do declínio da saúde física, da permanência dos desejos sexuais em um momento da vida em que o censo comum diz que estes deveriam ter ficado para trás, das mortes incessantes de amigos de toda uma vida. Da mesma forma, leitores que já atingiram certa idade podem ver seus dramas representados nas páginas dos livros. Há, claro, algumas diferenças importantes que ratificam o fato de que ali, retratada por Roth, está outra pessoa — que vive, para o bem e para o mal, dramas parecidos.

Este enfrentamento doloroso da velhice é possível porque Philip Roth é assombrosamente talentoso. O autor usa sua técnica a favor dos temas que mais lhe instigam. Não faz diferença que Roth narre em primeira ou terceira pessoa: o essencial e inescapável jamais fica de fora. Seus livros não foram feitos para leitores que desejam mascarar ou fugir dos fatos mais elementares da vida — a ruína do corpo e a morte. Para a maioria dos leitores jovens talvez esta não seja uma troca justa: ver um caminho livre e ensolarado barrado, mesmo que por algumas horas, por perspectivas de dor e sofrimento.

Talvez este seja um dos benefícios mais questionáveis de se vestir furtivamente a pele do outro: poder despir. Descobrir, sem necessidade de experimentar na realidade, que algumas perspectivas são mais sinistras do que a nossa; entender que algumas estradas são mais extensas e cheias de buracos e percalços. Acredito que se possa discutir com a sabedoria popular quando esta afirma que o sofrimento enobrece. É possível, portanto, ser grato pelo que se tem — por um contexto específico e mais aprazível que outros — sem que seja necessário enfrentar determinados revezes. É possível engrandecer o espírito a partir de um entendimento, ainda que pálido e indireto, de vidas e mundos diferentes dos nossos.

No caso da ficção, entendemos que, diante de nós, encontra-se uma obra de arte. O fato de nos emocionarmos com alguém que nunca existiu não pode ser tomado como ingenuidade. É evidente que as fronteiras estão delimitadas. A própria consciência da não veracidade dos fatos relatados pode dar, a certas personalidades, a chave para a derradeira identificação: não havendo necessidade de troca, de diálogo e de intimidade com uma pessoa real, existe a liberdade ilimitada para que se mergulhe na vida de um personagem e, sem calcular os riscos, para que se viva se viva ao lado dele, ou antes através dele, as mais variadas experiências.

É claro que este distanciamento deliberado — a recusa, por medo ou preguiça, de viver certas experiências por conta própria ou ao lado de uma pessoa de carne e osso — nos salva de uma boa carga de sofrimento, mas também nos mantém à parte da vida. É preciso dosar.

No caso dos últimos livros de Roth, as cinco ou seis obras que assinalam com veemência os percalços da velhice, acredito que utilizá-los como uma espécie de preparação melancólica para o futuro — e não como um instrumento que possa incutir o pânico, culminando em tentativas de retardar o envelhecimento — seja a opção mais lógica e condizente com alguém que se utiliza da literatura para amadurecer e desabrochar. Creio que seja este o maior benefício da possibilidade de trocar de lugar com as figuras dos livros: a ampliação dos horizontes que melhora o entendimento que fazemos da nossa realidade; a ampliação dos horizontes que melhora a compreensão que temos daqueles que, por sua vez, estão inseridos nessa realidade. A oportunidade de absorver a experiência dos personagens, contando também com a memória como salvaguarda da gravidade do que se leu, e usá-la para melhorar a vida real é um dos maiores trunfos da literatura.

Há, na vida e na arte, milhares de cenários e de personagens para estes cenários, e cada um deles pode visto por um ângulo único, pessoal ou impessoal, preciso ou impreciso, mas que ainda assim garante um vislumbre muito específico de cada circunstância ou conjunto de circunstâncias que nos tornam quem somos. A abordagem de um livro pode influir em nossa opinião sobre determinado assunto, mas ir em busca de diferentes pontos de vista e até de estilos narrativos é essencial para descortinar novos mundos — primeiro na imaginação, depois interiormente e, por fim, carregando para a vida aquilo que é possível e aquilo que vale a pena.

  • Guilherme

    Um texto bonito, bem escrito e de muita sensibilidade. Gostei.

  • Luiz André

    Bastante interessante esta percepção de que uma obra traz um ensinamento que poderá ser útil em um momento posterior da vida. Dos escritores contemporâneos, Philip Roth é o que mais imprime esta carga da decadência do corpo e da mente que não quer ser subjugada pelo tempo. Pode soar como uma visão idílica ou até mesmo utópica, mas envelhecer tem lá suas vantagens que apenas quando se atinge certa época da vida, é possível compreender os passos que foram dados e aqueles que ainda serão percorridos.

  • Marcelo benchaya

    Muito bem escrito o texto, realmente de uma sensibilidade otima e aguçada que deu vontade de ler e saber mais sobre o autor . Parabéns!

  • http://macronomicro.blogspot.com Jr Almança

    O primeiro livro do Philip Roth que eu li foi “Homem Comum” (prefiro o título original, Everyman) curiosamente também aos 24. De fato, a forma como ele expõe todo o processo de envelhecer é bem visceral e contundente. Não apenas o fato de “ficar velho”, mas toda a etapa de formação humana.
    Ao meu ver, são diversas as funções que a ficção tem, sendo a mais popular a de criar uma situação irreal em um cenário (sur)realista. Cria-se a identificação com uma das personagens, criando no leitor o desejo de se transportar para aquele cenário.
    Essa é a ficção que idealiza muitas vezes a vida – no seu sentido basal, de destacar ou enaltecer um ideal, seja este nobre ou não.

    O que eu acredito que o Roth faz é meio que o contrário – ele empurra o personagem no leitor. Você não quer aceitar ou se identificar, mas inevitavelmente você se encontra um pouco (ou muito) ali, sendo exposto, despido das virtudes em sua forma mais humana, animal. No fim do livro, você percebe que não está vestindo a roupa do personagem, mas sim que a sua vestimenta se torna mais evidente.
    Essa ficção é aquela que rasga o véu do ideal e traz todos para um patamar comum (talvez este seja o objetivo do título traduzido, não sei). O patamar em que pode se ver a tudo e todos pelo que nós somos em nossa essência. Corruptíveis e decadentes (literalmente falando – músculos, sangue, ossos que se corrompem com o passar do inexorável tempo.)
    Acho que de certa forma eu acabei repetindo (ou parafraseando) muito do que foi escrito no texto.

    Parabéns pelo post, dá gosto de ler.

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