Reflexões sobre a Sociedade Contemporânea Ocidental a partir do Kindle
por Camila Pavanelli

Tem quem goste do Kindle por ele ser leve. Tem quem goste por caber naquele trocim um bando de coisa. Por ser confortável de ler naquela telinha opaca. Eu mesma comprei um Kindle por toda uma série de motivos práticos e lógicos que as pessoas ficam se dando para comprar as coisas quando no fundo o que elas acham mesmo é que as coisas vão fazê-las mais felizes.
Eu ainda não conhecia aquela que viria a ser a verdadeira utilidade do Kindle.
Você conhece bem a situação. Aliás, se você for uma pessoa nível hip-hip-urra de animada & socialmente adaptada, você não conhece não. Mas eu, que em festa só me animo se tiver coxinha e brigadeiro, eu conheço essa situação bem. Conheço em primeira pessoa, mas vou falar na terceira porque todo mundo merece quinze minutos de Pelé na vida:
Você está na muvuca. As pessoas estão falando, balançando os braços, jogando os cabelos, vendo e sendo vistas. Você já viu o que tinha para ver e já foi vista por quem importava. Tudo o que tinha para acontecer já aconteceu, e só o que você quer é sumir da balada magicamente e descuidar da vida, mas a boa educação lhe impede de ir imediatamente embora – não lhe refreando, entretanto, de procurar um cantinho tranquilo e sacar um livro da bolsa.
Sério, é impossível. Não leva 5 minutos para o primeiro mala aparecer:
- Noooossa, como você consegue ler nessa muvuca? [Eu juro que estava conseguindo até você aparecer.] Ai, sério mesmo que você vai ficar lendo aqui, com todo esse agito? [Não, eu tirei o livro da bolsa só porque mulher empunhando livro é uma coisa muito sexy, cê não acha não?] Aliás, eu adoro ler, sabia? Inclusive, tô lendo um livro super legal sobre um cara que embarca numa jornada de autoconhecimento e vê Jesus numa cabana, sabe qual é?
O mais triste não é nem eu saber de que livro o mala está falando. O mais triste é que o mala, como o cliente, tem sempre razão. Eu deveria ser menos chata. Eu deveria interagir com as pessoas, trocar experiências, otimizar relacionamentos e agregar valor. Eu deveria mesmo – o fato de eu estar sendo irônica absolutamente não significa que eu não deveria. Está cada vez mais difícil estar com as pessoas – só. Estar com elas e ouvi-las. E não é só de be-in-the-moment que estou falando – eu seria uma pessoa socialmente adaptada se meus problemas de convivência com os seres humanos se resumissem a falta de budismo e meditação. O problema é que tenho me afastado das pessoas e, se eu fosse bastante cara-de-pau, eu diria que a culpa é do Facebook. Infelizmente, tanto a Psicanálise quanto qualquer corrente de auto-ajuda são rápidas e rasteiras em me informar que, aham, estou projetando.
Ocorre que me afasto das pessoas a cada vez que elas dizem no Facebook que maconheiro tem mesmo é que levar cacetada dos puliça. Eu sei que a culpa do afastamento é minha – que se eu não fosse infantil e intolerante, não me afastaria -, mas não é um impulso que eu possa conscientemente reprimir: eu perco o interesse, e é isso. O interesse se escoa pelos meus dedos e o pobre do meu amiguinho reaça pouco tem a ver com isso, porque no fim do dia e das contas todo mundo sempre tem alguma opinião tacanha e mesquinha e escrota sobre alguma coisa (nem queiram saber as minhas). A diferença é que, há cinco anos, as pessoas guardavam essas opiniões para si, e hoje elas compartilham links de alguma anta razoavelmente articulada expressando em textos imbecis e coerentes as suas opiniões mais retrógradas, beligerantes e senso-comum. É bonito, eu sei que há uma beleza nessa pluralidade de vozes, nessa velocidade de links, nessa democracia da informação e, como diria George Costanza, em all that crap. É bonito e o grande efeito prático desta beleza toda é que – me afasto.
Então eu me afasto, abro o livro, vem o mala, fecho o livro, converso com o mala e novamente me integro ao mundo dos seres humanos da balada – como deve ser. Como deve ser. Em alguma época que não sei se era a dos nossos avós ou vinte anos atrás, existia uma coisa chamada bom comportamento. As crianças tinham que se comportar, e se comportar significava interagir com os adultos pacientemente até que chegasse o momento de interagir com os brinquedos. De lá para cá, os adultos parece que desistiram do bom comportamento, e qualquer criança de 5 a 12 anos sempre está com seu videogamezinho portátil em eventos de adultos. E, de lá para cá, os adultos certamente desistiram de si mesmos também, pois qualquer adulto de 13 a 80 anos sempre está com seu videogamezinho portátil (que, no caso, atende pelos nomes de iphone, ipad, blackberry) em eventos de adultos. Parece que não fui a única a perder a paciência com os adultos, afinal. Os adultos perderam a paciência consigo mesmos – mais do que tolerável, é absolutamente razoável enviar SMSs e assistir a videozinhos engraçados em um almoço de família, cada um com seu aparelhinho, cada um isolado de todos.
Vai daí que, se pego um livro para ler, todos olham estarrecidos para o elefante branco na loja de cristais: credo, um livro, que pessoa mais antipática, nem para ficar com os amigos nesta festa tão feliz e animada. Mas, se eu saco da bolsa um Kindle, é só mais um brinquedinho eletrônico como tantos outros, e aí ninguém repara. Alhear-se numa i-coisa é mais do que aceitável, é o mínimo que se espera de pessoas antenadas e descoladas. Alhear-se num livro, aí também já é demais: é coisa de gente sem-educação.
O Kindle é, portanto, um excelente espanta-malas em baladas e eventos sociais variados, atuando sobre aquele tipo bem específico de mala que não aguenta ver uma pessoa sozinha lendo. O Kindle seria perfeito, não fosse o fato de o mala estar certo quando interrompe a minha leitura do livro de papel. O Kindle afasta os malas, os malucos e, com eles, boa parte do interesse do mundo.
Não que eu seja apocalíptica, mas (sim, eu sei que esta frase está igualzinha a “não que eu seja racista, mas” – e vem a bomba) acredito que antes, num antes que se situa em algum ponto mítico dos últimos cem anos, as pessoas eram mesmo mais budistas – viviam mais no-momento e prestavam mais atenção umas às outras. Não porque elas fossem rousseaunianamente melhores e mais inocentes, mas porque elas eram obrigadas a isso – não havia telefones celulares, bluetooth e wifi à sua disposição. Então, em vez de crucificar as nossas i-coisas, que tantas alegrias e facilidades nos trazem, talvez seja mais aproveitável botar reparo na nossa própria dificuldade de olhar verdadeiramente nos olhos uns dos outros e perdoar nossas babaquices mútuas. Nosso maravilhoso mundo de interconectividade pós-qualquer-coisa só reforça características – uma intolerância e uma inércia – que já eram nossas muito antes de Steve Jobs ou Mark Zuckerberg determinarem como nossos relacionamentos viriam a ser.
Notem que neste texto passamos da primeira pessoa do singular à terceira pessoa à-la-Pelé e agora brejeiramente recorremos à primeira do plural, numas de disfarçar e justificar nossas próprias dificuldades inserindo-as numa análise sociológica pra lá de botequinesca. Com um suspiro e alguma coragem, então, volto à primeira do singular: quem tem essa dificuldade sou eu. De olhar nos olhos e não julgar – e deixar que digam, que pensem, que falem.
Dessa dificuldade, não há livro ou Kindle que me salve.
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No próximo texto da série “Reflexões sobre a Sociedade Contemporânea Ocidental”, discutiremos o efeito dos vídeos de crianças-prodígio do youtube sobre a subjetividade – adivinhem – contemporânea ocidental.

Muito bacana seu texto. Fiquei assustado de não ter comentários.
Bom dia, Camila.
Não repare a ‘ausência distraída’ de comentários, sobre o seu texto e ideias; numa bela e claríssima reflexão de um dado cotidiano ‘quase incondicional’(!) de nossas vidas. Adorei o modo como você abordou, tão sinteticamente, o aspecto ‘high tech’ que permeia tudo o que utilizamos para viver, que vejo como ‘doses ininterruptas de tecnologia em nossas veias’, mas, principalmente, em nossas mentes. Não sou psicanalista.
Sou músico-baterista. Tive, a partir de algumas leituras de Sartre (‘A Transcendência do Ego’, ‘A Imaginação’, ‘Esboço de uma Teoria das Emoções’,…), um contato que me levou à Breuer, Freud, Jung, M. Klein, Lacan, entre outros. Enfim, foi a partir dessa dita fase ‘psicológica’ nos textos (reflexões) de Sartre, que convivia, informalmente, com Miles Davis, Picasso e Lacan, para bate papos e leituras, que fui atrás (como um ‘fuçador autodidata’) de outros escritos e fragmentos de algumas obras sobre Psicanálise.
O envolvimento de inúmeros músicos e artistas com ‘a turma psicanalítica’, foi, interiormente, para mim, uma real abertura à contemplação de uma série de aspectos humanos tidos como ‘fora dos padrões comuns’ à debates que, realmente, poderiam, e muito, numa ‘práxis’ a auxiliar, ou ‘refrear’ ( ‘refrescar’, penso eu, é um termo que cairia muito bem, nessa situação) essa ‘ânsia’ pelo tecnologicamente ‘in’ (‘modisticamente’, falando), em termos que são quase um ‘ersatz’ (me perdoe a ‘audácia’ em incluir o termo, Camila, rsrs; mas, serve na exposição, não?) materializado pelas mídias, como ‘brinquedos novos’ a fazer a alegria na vida das crianças (e adultos).
Acima de tudo, por um tipo de vício ao que pretende-se justificar, ‘teoricamente’, apenas como ‘mais um sócio-fenômeno normal e totalmente compreensível’ (e claro, que, por livre e espontanea ‘imposição’, como um dado fenomênico a refletir os ditos ‘tempos modernos’ ou o nosso ‘atual momento histórico’, ou ainda, como algo ‘inerente ao que chamamos de ‘evolução’).
Não desejaria estar ‘presente’ para assistir a ‘final explosion’ de ‘cabeças seduzidas’, e de forma tão ‘completa’ em seu dia a dia, pelos infindáveis anúncios e ‘sutis intervenções’, dos mais ‘avançados’ aos mais simples ‘brinquedinhos novos’, disponíveis na praça para fazer de sua vida, ‘algo melhor e mais prático’ (?!).
Mesmo que eu me esforce, sempre a crer na ‘boa parcela’ humana, creio mesmo é que já assistimos, diariamente, a essa ‘sedutora explosão final’, uma espécie de ‘imprescindível gozo’, algo indispensável para alguém sentir-se ‘inserido’ no presente (social), como se, caso contrário, não fosse mais possível ‘socializar’ as pessoas, os cidadãos, a não ser através de um ‘espítiro tecnológico’.
Reconheço que, se ainda estivéssemos nos tempos das ‘caras linhas telefônicas’ e seus aparelhos de ‘discar’; o bom e velho telegrama, o fax, ou ainda, à ‘mera casualidade’ (aliás, essa ‘tecnologia’, é atemporal e insuperável, certo?), não seria tão ‘instantanea’ a possibilidade de eu encontrar um texto tão bacana, escrito por alguém que, realmente, escreve, ‘psicanaliticamente’, para todas as pessoas.
(Camila, perdoe-me a ‘liberdade’, mas, não tenha ‘medo’ de ‘escrever e opinar o mundo’, em primeira pessoa. Penso que é exatamente isso que nos faz ‘tentar o bem’, não fazendo das palavras, mero ‘requinte’ diário, mas, uma real contribuição à novos despertares -à parte de qualquer credo, política, categorização social, cultural ou formativa-), por isso, querida, meus sinceros parabéns pela reflexão! E siga adiante, sempre!
Um grande abraço, Camila! Parabéns pelo trabalho!
Plinio Romero
obs. (quando tiver um tempinho, acesse: wwwblogoesia.blogspot.com, e, se gostar do blog, me siga por lá! Tudo de bom pra você!) -.-
Pois é. Claramente o Kindle e outros aparatos no caso apenas introduzem a questão central. Para os “especialistas” tudo é explicável. Para um verdadeiro “especialista” a incerteza, a dúvida ou a indefinição estão fora das cogitações, ou ele, obviamente não seria um especialista…. (Me poupe, por favor dos ele(a)….)
Não sei como as pessoas realmente honestas intelectualmente podem acreditar nessa farsa de especialistas. Estes afirmar que se vc for incapaz de tolerara a imbecilidade humana, e, mais ainda, gostar de conviver com ela, vc tem problemas, de relacionamento. Rótulos não faltarão ao especialista. Ele poderá classifica-la como uma vítima de fobia social ou autista em graus variados. Acredite. Existem especialistas régiamente pagos para treiná-la a fim de que a boçalidade humana não a perturbe e até lhe seja extremamente indispensável.
Camilas, nós entendemos seus momentos de reflexões inconsutis sobre os efeitos das plascas tectônicas nas vidas dos nossos conterrâneos, mas , acredite, nada disso existe, como uma expécie de Matrix, se você desligar a tomada. Saia da toca, desligue tudo, pegue o seu carro, ande por estradas que você não conhece, pare em lugares vagabundos, tome conhaque vagabundo, converse sobre fiosofia com um pedreiro bêbado, fale com um pastor evangêlico sobre como ele vê a formação e o funcionamento administrativo do inferno, as cores dos demônis, se existem conjuntos musicais satânicos, depois procure uma praia, deite-se de braços abertos e olhe o céu. Tudo o que importa na vida está no céu,tanto quanto as verdade humanas, aquelas drogas, estão pelas ruas. Não há nada na imprensa, nos livros, tudo já foi escrito à exaustão . Acabou, amiga genérica, acabou ! E descanse em paz, baseada na tese de que um baseado marroquino é melhor do que um baseado nacional, mas não se compara a um baseado americano G13, criado pelo governo mericano para os seus soldados morrerem alegres. Mas , e eu vos direi, nossos kiffs marroquinos dão um show indelével , baseados no fato de que nós provamos e ficamos lá por um grande tempo, sem nem saber se a terra estava girando, se o giro estava aterrando, coisas assim, até que nos deram um chazinho maneiro e nós dormimos na paz de Alá. Por é lá que está a verdade. Ninguém sabe onde fica coisa alguma, não tem placa, semáforo, humala, livros, cds, dvds, frio, gente falando, nada. Pense nisso…
Camila, achei perfeita sua análise sobre a razão dos comentários em sites de tipos diversos, que nos fazem duvidar da viabilidade intelectual da espécie humana.
Lembro-me quando, em 1988, vi pela primeira vez textos impressos a laser. Besteiras impressas de forma semelhante à impressão de um livro pareciam verdades profundas. Lembro-me como hesitei em riscar pela primeira vez um texto destes, fazendo correções a caneta: era como rabiscar um livro, um sacrilégio! Até aquela época, um texto impresso com fonte proporcional era algo a ser respeitado. Claro, era normal discordar, mas incomum descartar como lixo.
De lá para cá, não existe mais diferença entre o que um gênio da literatura ou uma pessoa média (ou mesmo medíocre) podem fazer, ao menos no aspecto físico. Uma impressão a laser ou a jato de tinta parece-se com a de um livro. A publicação em um site está ao alcance de qualquer um. Na minha área, a informática, dizemos que “se você fizer um programa que até um macaco pode operar, seus usuários serão macacos”. Ora veja, não é que é verdade?