Quando a vida não dá outra chance
por Marcelo Barbão
Placebo é um livro pequeno, mas nervoso. Agoniante, de tirar o fôlego, eu diria. Parece um daqueles de filme ou vídeo-clip (algo que já nem existe mais) em que uma cena vai se conectando à outra sem parar. Um plano sequencial.
Conta alguns dias da vida de Becerra, um profissional de classe média, sem muitas emoções na vida, a não ser quando está com sua amante. A não ser quando pensa em seu melhor amigo, que está morrendo num hospital de Buenos Aires. A não ser quando vê as duas garotas mais deliciosas do mundo, ao chegar à casa em que vai passar o verão com sua mulher no Tigre.
Tirando isso, sua vida é um desastre. Ele se instala com a mulher na casa que esta herdou de uma tia, para descansar no verão, mas sempre consegue inventar uma desculpa e voltar por algum tempo para a capital. Ali está Estela, sua amante. Jovem, fogosa e ao mesmo tempo pouco exigente, Becerra não tem certeza do que levou a garota a querer ficar com ele. Nem se pode dizer que ele é bom de cama.
Mas também está Horacio, o amigo de toda a vida, desenganado por um câncer numa cama de hospital. Entre estes dois extremos de dor e prazer, gira – perdida – a vida asfixiada e asfixiante de Becerra.
Talvez por transitar entre estes dois extremos é que ele ainda sente uma forte inveja de seu “vizinho” (entre aspas, já que estão separados por um rio) de casa no delta do Tigre. O estranho Sutton, que Becerra inveja por imaginar ser alguém que desfruta da vida, por se desmanchar em festas e orgias – que podem ser mero fruto da imaginação de Becerra -, bombardeando-o com uma intensa música, dia e noite.

-- O autor --
Para cúmulo, está no período do calor, típico do verão portenho (Nota Pessoal: é o único momento do ano em que odeio esta cidade), que impede os pensamentos de se organizarem de forma coerente. O calor, a perda do amigo, a música incessante do vizinho e as comparações entre as mulheres (a esposa e a amante) levam ao trágico final.
Escrita a partir da primeira pessoa e sem parágrafos, como se fosse uma longa reflexão interior, Placebo vai montando um quebra-cabeça onde morte e perda de desejo (sexual e de vida) vão se misturando e crescendo até chegar ao final.
Neste meio tempo, algumas lembranças de Becerra, alguns momentos de encontros sexuais reais ou imaginários, vão servindo como placebos, tentando adiar o fim inevitável. Certamente Becerra acaba vendo a si mesmo como alguém pouco ou nada importante. A esposa não o procura mais para nada, a amante não o necessita, não o oprime, não exige nada dele. O amigo está morrendo em uma cama de hospital, já conforme com seu destino. E para piorar, o vizinho, que não o convida para suas festas e orgias, é tudo que ele queria ser: atlético, disposto e feliz. Becerra não é necessitado, não é querido. Nada o une, de maneira firme, ao mundo que vai sendo criado ao seu redor enquanto acompanhamos o traço preciso de Brindisi.
A nouvelle curta (100 páginas) consegue ser de uma claustrofobia na medida certa, trabalhando com elementos de erotismo, violência e desespero em doses crescentes, sem placebos. Pode ser considerada, até aqui, um dos melhores romances de 2011.
::: Placebo ::: José María Brindisi ::: Editorial Entropía, 2011, 102 páginas :::

