Por que ir à Slutwalk

por Marjorie Rodrigues

Sábado (04/6), na praça da República, São Paulo, vai acontecer a versão brasileira da Slutwalk, ou marcha das vagabundas. O evento nasceu no Canadá, em resposta a um policial que disse que uma vítima de estupro “pediu” para ser estuprada por causa da roupa que vestia.

A marcha, na qual várias mulheres vestiram roupas provocantes ou lingeries, virou moda. Nos EUA, uma das organizadoras foi a incrível Jaclyn Friedman, co-autora da antologia Yes Means Yes, de quem sou fã. Agora, no dia 4 de junho, a marcha acontece simultaneamente em várias cidades, incluindo Sampa. Mais detalhes sobre o evento, aqui.

Nós, brasileiras, temos inclusive um gancho recente para o protesto: as declarações do humorista Rafinha Bastos, que afirmou, segundo a revista Rolling Stones, que “homem que estupra mulher feia não merece cadeia, merece um abraço”. Mas, na real, nem precisa de gancho, né. Convivemos diariamente com a dicotomia santa x puta, com o controle da sexualidade feminina. Somos o país do carnaval que escurraça Geisys no intervalo da aula. Um país que continua elegendo Bolsonaros e Malufs. Nada mais apropriado do que uma Slutwalk por aqui.

No entanto, há quem não esteja querendo participar. Por motivos vários. Eis, abaixo, porque eu acho que você devia, sim, ir à marcha.

“Não vou porque estaria me denegrindo. Não sou puta, não quero ser vista como puta, acho que estou assinando embaixo de uma cultura que incita as mulheres a mostrar os seus corpos e reduz a sexualidade delas a isso.”

A ideia da manifestação é justamente tirar a carga pejorativa da palavra puta. Ou vadia, ou vagabunda, ou biscate, como preferir. Não existem santas nem vadias, existem diferentes maneiras de exercer sua sexualidade. A ideia da marcha tampouco é reduzir a sexualidade à exibição. Pelo contrário. Estamos defendendo que as mulheres possam vestir o que quiserem e que nada, nem uma saia curta nem uma gola rolê, dá a alguém o direito de te desrespeitar ou te agredir. Você pode ir à marcha vestida da maneira que bem entender. Estamos defendendo (bom, pelo menos eu estou) que a sexualidade é natural e plural, e que eu tenho direito de seduzir com pouca roupa se essa for a minha vontade. Mas que fique bem claro que a decisão final de fazer sexo e com quem fazer sexo é sempre minha.

“Não vou porque o negócio tá despolitizado.”

A meu ver, toda manifestação de mulheres clamando por mais liberdade e menos estigma sexual é válida, esteja ela oficialmente ligada ao movimento feminista ou não. O churrascão da gente diferenciada, em Higienópolis, estava cheio de gente que só foi ali por pura farra — e isso, de maneira nenhuma, anulou ou invalidou o significado do ato. O recado foi dado: o preconceito de classe de alguns não p0de se sobrepor ao que é melhor para a cidade como um todo. Todo mundo entendeu.

O fato de muitas meninas dispostas a comparecer à marcha não se declararem feministas não é algo necessariamente ruim. Pelo contrário. Acho que, se elas já se sentem revoltadas com a cultura que culpa as mulheres pelo estupro, se elas já se sentem oprimidas pela dicotomia santa x puta, então há grandes chances delas já serem inclinadas ao feminismo: elas talvez apenas não conheçam o movimento direito. Talvez ainda estejam presas a um estereótipo bobo de que feministas são caricatas, ranzinzas, odiadoras de homens. E bem, nada mais eficiente para quebrar estereótipos do que ter algum tipo de contato com o Outro. A Slutwalk colocará as moças que dizem “defendo isso, isso e aquilo, mas não sou feminista” em contato direto com militantes e outras moças que se assumem abertamente feministas. Taí uma excelente chance delas enxergarem as feministas com outros olhos e, quem sabe, se juntarem ao nosso balaio.

“Não vou porque a imprensa só está interessada nas mulheres de lingerie.”

Não há dúvidas de que a imprensa só se interessou pela marcha por causa das moças com pouca roupa. Aposto meu dedo mindinho que boa parte da cobertura sobre o evento o tratará como fait-divers, algo inusitado, bizarro. Aposto outro dedo que ainda vai rolar “vou/não vou” das participantes: manifestante que não for gostosa vai ser ridicularizada. Podem ter certeza de que haverá veículos que tornarão invisível ou pouco visível o discurso que norteia a manifestação. Mas, gente, isso é o que a imprensa já faz conosco todos os dias. E não falo apenas do movimento feminista, mas dos movimentos sociais em geral. São diariamente ‘invisibilizados’ (quando não vilanizados) pela imprensa. Quase todo protesto é abordado pelo viés do trânsito, da baderna, do tumulto. Se a gente passar a se sentir desencorajado a protestar só porque a imprensa pode nos retratar de maneira equivocada, bem, então deixaremos de protestar por completo. Por tudo. A imprensa que se foda, vou fazer o que acho certo. Vou pra rua dizer que não quero mais uma cultura de Malufs e Rafinhas, independentemente do que a mídia vá falar de mim.

12 comentários | Dê sua opinião

  1. Femme 26/05/2011 em 11:11 pm

    Marjorie, há controvérsias sobre a slutwalk. Mas não sei argumentar, então sugiro:

    http://www.facebook.com/notes/rebecca-mott/reasons-i-will-not-go-on-the-slutwalk/347641264968

    e

    http://krasis.wordpress.com/2011/05/16/reconsideracoes-slutwalk/

    Responder
  2. Flavio 27/05/2011 em 1:50 am

    Confesso que ainda não li o texto todo, vou ler depois com mais calma, mas reconheço que a motivação de vocês é legítima. Achar que um traje mais sensual “autoriza” um estupro é um absurdo, as mulheres têm mais é que lutar para rechaçar essa violência. No fundo, as pessoas ainda têm muito problema com a própria sexualidade. Porque quem tem a sexualidade resolvida não sente necessidade de agredir. A mulher pode estar completamente nua, sexo só com o seu consentimento e fim de papo. Um abraço e boa sorte pra vocês lá.

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  3. Bosco 27/05/2011 em 8:04 am

    Legal. Quando vai ter em Teresina uma Slutwalk? Vou ficar aqui torcendo e vêr a reação da impresa cristã reaça.

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  4. Camila 27/05/2011 em 1:43 pm

    Que ótima surpresa chegar ao final do texto e ver q foi vc quem escreveu. Comecei a ler sem saber que era seu. Tb estarei lá. Com meu namorado e com quantas pessoas mais quiserem ir. Excelente texto. Beijos.

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  5. Marjorie 27/05/2011 em 3:42 pm

    Camila — ê! Cê ainda tem meu telefone? A gente se esbarra lá =)

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  6. Georgenor Franco Neto 28/05/2011 em 3:26 am

    Muito boa a proposta do protesto! Já é hora de acabar com a dicotomia santaxputa!

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  7. Pingback: Por que os meninos devem ir à Slut Walk? «

  8. Marco Túlio 04/06/2011 em 12:46 pm

    Acho toda essa discussão importantissima, mas muito dificil e abrangente. Gostaria de contribuir e mando um texto que escrevi. Espero ajudar.
    Abraço Marco Túlio Peixoto

    A atração, o sensual e o respeito

    A sociedade ocidental cartesiana, positivista, tem muita dificuldade quando o assunto ou o conceito não pode ser apenas divido entre certo/errado, preto ou branco ou masculino e feminino. Ou é uma coisa ou é outra, assim discute ela. Ou é positivo ou é negativo. Ou quer ou não quer. Ou é dia ou é noite. Ou é claro ou é escuro. O sol da meia noite, a penumbra, o sim e não, não cabem em uma concepção de vida linear, exclusivista e noosologista (classificadora) como é nossa sociedade e nossa ciência. Os orientais deste os primórdios já dividiam a energia em dois pólos (Yin e Yam), mas diziam que dentro da Yin existia o Yan e dentro do Yan existia o Yin.
    Quando tentamos definir ou um ou outro perdemos a compreensão da totalidade e pior, começamos a criar intolerância e ignorância, sendo um subproduto do outro.
    Quando vamos discutir sexualidade essa limitação e dualidade maniqueísta, se tornam ainda mais limitadores e criadores de intolerancia.
    Mas quando vamos discutir a sensualidade essa situação se torna ainda mais critica, produzindo antagonismos e preconceitos.
    Quando um policial sugere que a mulher sensual agredida é a “culpada”pela violência e pela falta mínima de respeito ao individuo em sua liberdade, vai para um canto de ringue em sua percepção absurda causada por sua visão obtusa.
    Mas quando as mulheres indignadas, com justa razão, vão para o outro canto do ringue e negam que a sensualidade transmite mensagens e provocações que trazem para o macho sua ancestralidade animal, também não contribuem para a discussão de que, apesar de conter algo erótico atrativo e instintivo, não pode nos transformar em animais.
    Onde estão as fronteiras?
    Onde alguém pode ou não pode ultrapassar?
    Se negamos que existe atração, provocação, erotismo e sensualidade no vestir, no andar, no maquiar no olhar da mulher e do homem, como vamos então discutir os limites e o respeito e a integridade do outro?
    Os limites são muito tênues e permeáveis e sem uma sinceridade profunda, madura e responsável, vamos lançar esse assunto ao embate ridículo dos extremos, onde um lado desconsidera o outro e empobrece uma visão ampla e multifacetada desse assunto, nós afastando da verdade e de soluções justas e pluralistas.
    Sim, uma roupa é provocante, insinuante e convidativa para os machos e isso acontece em todas as espécies.
    Não, não pode considerar essa provocação um convite a violação!
    Mas talvez, talvez, precisemos repensar sim se podemos em todo lugar ou em determinadas situações, exibir certos códigos provocativos.
    Ou agora vamos negar que existe um jogo de provocação e sensualidade que desperta os instintos mais básicos em qualquer espécie e também?
    É essa negativa e falácia de tratarmos o assunto como se não existisse vários componentes, que leva algumas pessoas a perder a percepção do que esta provocando no outro e acaba autorizando, dentro da percepção errada de alguns, a invadir as fronteiras da integridade. Não podemos também trazer essa percepção acoplada ao moralismo e o julgamento machista da sociedade masculina.
    O enriquecimento do debate tem que passar pelo reconhecimento dos elementos envolvidos, sem julgamentos, e a nomeação, apenas nomeação de comportamentos, reações e sensações.
    Negar os códigos sensuais, acaba servindo a aqueles que querem usa-lo para justificar e autorizar e dar vazão instintos básicos, uma vez nega-los, também afasta da verdade. Essa é uma discussão profunda e ancestral, que quando cai para o antagonismo e para a emocionalidade não traz esclarecimento e maturação, mas embates e mais preconceitos, mesmo quando revestidos de estofamento jurídico.

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    • Miguel 08/06/2011 em 2:54 pm

      Penso de maneira semelhante. Não tiro nada do que você falou.
      As relações sociais se regem de maneira mais complexa do que “isso por causa disso”, pra tudo há uma gama de fatores intervenientes que se entrelaçam pra chegar a determinado resultado.
      Ainda não tenho opinião formada sobre a slutwalk em si, porque pelo pouco que já li parece ter um efeito duplo tanto negativo e mais banalizador e prositivo da conscientização do que todo mundo já sabe, estupro é crime e não se justifica em situação alguma.

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  9. Lia Padilha Fonseca 07/06/2011 em 7:07 pm

    Gostei do texto, Marjorie Rodrigues. Estamos organizando o SlutWalk aqui em Brasília, marcado para o dia 18/06. Seria super interessante se, a partir das marchas, que já estão se espalhando pelo Brasil, o movimento feminista brasileiro se unisse e ganhasse mais força! Acho que é uma grande oportunidade!

    Marco Túlio, concordo em parte com a sua opinião. Mas você está pensando lá na frente, como se já tivéssemos uma sociedade mais igualitária, em relação aos gêneros! Precisamos muito antes de entrarmos na sua discussão, combater o machismo ainda tão enraizado e tão brutal. Pense só, enquanto você está falando aí em códigos sensuais, muitas pessoas ainda acham o estupro um ato de violência justificável, dependendo do vestimento e comportamento da mulher!!!!!!

    Sentiu o drama?

    Abraços feministas!

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  10. pedroso 22/06/2011 em 11:04 am

    por que tanta revolta com as mulheres ,essas pessoas tao maravilhosas ,mulheres a coisa mais gostosas do mundo,carinhosaa ,amigas,companheiras,enfim tido que a gente pode imginar,se tem gente que nao gosta ,pelo menos nao maltrata,se usa roupa curta deixa,se andar peladas deixa,o corpo e delas elas fazem oque quizer.

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  11. Monique 24/06/2011 em 9:17 pm

    Que bonito… ! Acho incrivelmente e lamentavelmente uma ideia sacana com pessoas que, mesmo de um jeito não aceito pela sociedade, trabalham, sofrem e muitas vezes não tem escolhas dentro de suas realidades, como ocorre com as prostitutas. Por isso que os homens acham que nos não pensamos.

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