Popularização do pensamento filosófico em Robert Solomon, ou: Da vida apaixonada

por Maria Ivonilda

-- "O prazer da filosofia: Entre a razão e a paixão", de Robert C. Solomon --

 

O prazer da filosofia é um livro de Robert C. Solomon, filósofo americano, professor da Universidade do Texas, falecido em 2007. Obra de linguagem acessível, versa sobre os mais diversos temas presentes na história da filosofia, tais como: amor, virtude, racionalidade, justiça e verdade.

Inicio a resenha ressaltando alguns dos pontos problemáticos dessa obra. A sua extensão e riqueza de temas, somada à divisão de assuntos feita pelo próprio autor, acaba dificultando um pouco a leitura. Além disso, é inevitável sentir um pouco de estranhamento lendo o livro de Solomon quando se está habituado à leitura de algumas obras clássicas da filosofia – isto porque Solomon parece ignorar um dos pressupostos mais básicos que marcam o pensamento filosófico, que é a distinção (ainda que implícita) entre a filosofia para os não-filósofos e a filosofia feita de e para especialistas.

Como não poderia deixar de ser, existem pensadores que ignoram essa distinção, bem como há pensadores que não apenas ignoram como a negam, como parece ser o caso de uma personalidade já famosa que transita facilmente por esses dois mundos (o dos não-filósofos e dos especialistas): o esloveno Slavoj Zizek. Mas, como eu disse, são apenas pontos problemáticos, não necessariamente negativos. Há “livre-pensadores” que cumprem a sua tarefa – a saber, a de comunicar a sua fala a todo o público que queira escutá-los – com maestria. Pensadores cujos livros, entrevistas e conferências são acessados por um número significativo de pessoas e definitivamente exercem influência nas discussões sociais mais elementares – e não apenas nos meios especializados.

Entretanto, essa é mais uma observação externa à obra. De forma que agora passo a comentar alguns aspectos internos a ela. A argumentação do autor contém a seguinte estratégia: escolher um tema, discutir um ponto que considera pertinente a este tema e logo partir para outro ponto. Ou seja, importa ao autor abordar a temática sobre a qual se propõe a falar segundo diferentes perspectivas, pois, segundo ele, é desta forma que a análise de conceitos deve ser feita: através de um retorno à ideia de filosofia enquanto abrangente, totalizante e, portanto, como um pensamento que é fundado em um lugar de debate onde diversas questões vêm à tona – motivo que o leva a fazer uma crítica a determinadas posturas contemporâneas. Solomon afirma: “Neste livro (que por si só é crítico demais), quero voltar ao mais antigo e mais “romântico” modo de filosofar. Não será vazio de argumentos – de fato, pode-se ver o livro inteiro como argumentação contra a “parcimônia” da filosofia – mas sua estrutura tem muito mais a ver com a complexidade de ideias do que com a campanha analítica padronizada.” (p. 25)

Só como exemplo, no primeiro capítulo, intitulado “A vida apaixonada”, ele discorre sobre a temática o amor como virtude, depois passa a falar sobre a virtude de Eros, comenta acerca da vontade de poder como virtude e finaliza o capítulo dissertando sobre a virtude principal, isto é, a virtude das virtudes. Definitivamente não é intenção de Solomon fornecer a seus leitores respostas definitivas sobre tema algum – melhor que isso, ele quer provocá-los, instigá-los a discutir até o momento em que a capacidade crítica de cada um permitir. Utilizando-se de referências históricas, literárias e cinematográficas, Solomon julga assim popularizar o pensamento filosófico. Como se isso não bastasse, parte também para o ataque direto: comenta acerca do ponto fraco dos filósofos, a saber, a velha história de que os “filósofos acadêmicos” desencorajam e desestimulam o pensamento “autêntico” – Solomon faz com isso referência direta ao caráter fraco da filosofia enquanto institucionalizada.

Em contraponto à idéia de uma filosofia acadêmica desencorajante, o autor disserta sobre a emoção e a paixão como importantes fatores no caminho pela busca do saber: esse pensamento está presente em toda a obra. Solomon deixa claro logo no início de seu livro que não quer oferecer provas, entretanto, é notável em sua obra a tese de que paixão e capacidade crítica não são e não devem ser vistas como “separadas” na vida humana. Como está evidente na seguinte passagem: “A vida apaixonada não é privada de agudeza crítica”. (p. 133)

Embora sejam interessantes as colocações do filósofo em todos os oito capítulos, o que mais me chamou a atenção foi o conteúdo do posfácio. Nele, existem considerações necessárias tanto à platéia especialista no assunto quanto aos iniciantes ou desavisados. O caso é que o autor entra no debate filosofia analítica versus filosofia continental (européia) e se utiliza da própria história da filosofia e de seus contextos específicos para negar os danos causados por esse embate que se porta muitas vezes como desnecessário. O autor precisa ainda a origem de todo esse erro, qual seja: um intelectualismo preconceituoso – segundo ele, para alguns filósofos a ideia de ter como interlocutores pessoas comuns, sem necessidade de habilidades especiais nem de conhecimento privilegiado, soa degradante. Para Solomon, o que está em jogo, como já foi colocado, é filosofar de forma abrangente e não-excludente, é resgatar um pouco o espírito grego, a conversa filosófica, o diálogo. Para tanto, como deixa claro na conclusão, se for o caso de ser necessário jogar fora paradigmas que sejam exclusivistas, superados e que ainda estreitem a filosofia, então que os joguemos fora.

::: O prazer da filosofia: Entre a razão e a paixão ::: Robert C. Solomon (trad. Maria Beatriz de Medina) :::
::: Civilização Brasileira, 2011, 391 páginas ::: comprar na Livraria Cultura :::

1 comentário | Dê sua opinião

  1. Raphael Douglas 12/05/2011 em 9:03 pm

    Dinha, agradecemos a luz sobre a obra. Depois dessa resenha, deixo uma pergunta relacionada ao que li agora. Qual a razão da trasmissão da filosofia?

    Responder

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