Obama e os dilemas da política americana no Oriente Médio

por Juan Cole

O mais importante discurso político do presidente Obama sobre o Oriente Médio acertou em muitas coisas. Ele apontou al-Qaeda e terrorismo, que atinge civis, como becos sem saída. Alinhou-se retoricamente com os movimentos de base em luta por mais democracia na região. Condenou completamente os antigos regimes, como aquele de Hosni Mubarak, que haviam sido aliados dos EUA e que governaram por meio de sórdidos estados policiais. Prometeu apoio americano para os movimentos por democracia. Evitou hipocrisia, ao condenar aliados americanos como o rei do Bahrein e o presidente Ali Abdullah Saleh do Iêmen por reprimirem os movimentos em seus países. Reconheceu a importância de pôr um fim na longa espera do povo palestino por seu estado. Apontou a restrição que as elites corruptas representam para as oportunidades econômicas e educacionais dos jovens do Oriente Médio como um dos principais motores da Primavera Árabe. Sublinhou a importância dos direitos das mulheres e dos direitos de minorias como cristãos e xiitas.

A coragem do discurso de Obama deve ser reconhecida. Ele terá deixado com raiva os dois aliados centrais dos EUA na região, os governos que haviam formado os dois pilares da política americana para o Oriente Médio. O rei Abdullah da Arábia Saudita está com raiva por Obama (que ele classifica mais ou menos como um jovenzinho inexperiente) ter abandonado o ditador egípcio Hosni Mubarak. A Arábia Saudita vê o Egito como chave para sua própria segurança e está extremamente nervosa sobre os rumos que a política pode tomar naquele país, e como eles afetarão o reino. O rei Abdullah também está furioso pelo fato do governo Obama ter criticado abertamente o rei sunita do Bahrein por esmagar o movimento democrático de seu país, que tinha uma casta desproporcionalmente xiita (os xiitas constituem atualmente 58% da população, mas são discriminados economicamente e impedidos de expressar sua maioria politicamente). Se houve uma mudança, foi no sentido de Obama ter sido mais direto e duro em sua crítica de Manama na quinta-feira do que havia sido antes. A Arábia Saudita bombeia na ordem de 11 por cento da produção mundial diária de petróleo, tem um impacto significante em seu preço e tem centenas de bilhões de dólares em reservas, que investe no Ocidente bem como no Oriente Médio. Obama fez um movimento arriscado ao enraivecer o rei e ao adotar uma política a que ele se opõe em todo lugar, menos na Líbia. Obama também foi honesto e agudo em sua crítica implícita ao governo do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, cujo governo obstruiu as conversações de paz com os palestinos e levou a cabo um amplo e inexorável projeto de colonizar a Cisjordânia palestina, na esperança de no final das contas criar uma Grande Israel e prevenir permanentemente o surgimento de um estado palestino. Obama colocou recursos e seu próprio prestígio em jogo ao tentar um reinício das negociações dois anos atrás, mas os esforços desmoronaram, principalmente por causa da intransigência israelense, e o ex-senador George Mitchell (que mais ou menos resolvera o conflito da Irlanda do Norte) acabou de renunciar, em uma mistura de desespero e desgosto. O pedido de Obama para que as fronteiras de 1967 sejam a base para negociações (o que exigiria que Israel cedesse largas porções de território ilegalmente usurpado dos palestinos) marca um considerável ponto de virada e provocou gritos de indignação em Tel Aviv.

Defensores de Israel nos EUA haviam dito a Obama que sua atitude de mudar muito rapidamente para a defesa de uma solução de dois estados poria em risco sua habilidade de levantar dinheiro entre os judeus americanos (o grupo proporciona uma quantidade vastamente desproporcional de dinheiro para campanhas políticas, estimada em até 65% no Partido Democrata), e portanto colocaria em perigo sua campanha para um segundo mandato. Para crédito seu, manteve-se firme, já que um movimento rápido rumo a uma solução de dois estados beneficiaria tanto os Estados Unidos quanto Israel, pra não falar dos palestinos.

Então sua coragem e visão devem ser reconhecidas.

Entre os contras de seu discurso, evidências da estranha obsessão de Washington com o Irã. O Partido Baath sírio esmagou a dissidência em 1992 quando ainda não era aliado do Irã, e não precisa da ajuda do Irã para lidar com Deraa. Não há evidência da mão iraniana no Bahrein. Não há evidência de um programa nuclear iraniano com o real desejo de produzir uma bomba. Esse foco inútil no Irã deriva em parte de círculos sauditas e israelenses, mas deve ser resistido. O Irã não é assim tão forte no mundo árabe, com exceção do Iraque (culpa do Bush) e do Líbano (culpa da longa ocupação israelense). Onde o público árabe se tornou mais influente junto a seus próprios governos, como no Egito, os governos se sentiram obrigados a melhorar relações com Teerã.

Da mesma forma, a retórica da equidade pela falha nas conversações israelense-palestinas o levaram a culpar tanto palestinos quanto israelenses, mas foram estes últimos que se recusaram a parar de furtar terras palestinas em grande quantidade no momento mesmo em que as conversações estavam ocorrendo, um forte desincentivo para os palestinos. Além disso, foi inaceitável culpar os palestinos pela violência, mas não os colonos israelenses fanáticos e armados, usurpadores de terra, recursos e direitos palestinos. Obama também rejeitou o atual movimento da Palestina para ser reconhecida como um estado na Assembleia Geral da ONU em setembro, mas este pode ser na verdade um ato útil para pressionar Netanyahu a voltar a negociar. E não é totalmente verdade que a simpatia pelos palestinos entre os públicos árabes foi artificialmente construída por regimes autoritários, para que tivessem com que desabafar suas frustrações. Qualquer um com um coração, e que entenda a situação, fica deprimido com a má situação dos palestinos.

Obama apontou seu abandono gradual da Guerra do Iraque e a retirada de 100 mil soldados, mas não reafirmou com o Iraque um compromisso com o Status of Forces Agreement, que pede por uma completa retirada até o final deste ano. Sua indicação do Iraque como um sucesso na solução de conflitos sectários entre sunitas e xiitas é bizarra. Os EUA ajudaram a provocar um banho de sangue sectário por lá, e os sunitas foram transformados em uma permanente minoria estrutural.

A ajuda sendo oferecida ao Egito e à Tunísia é um belo gesto, mas é pouca. O Egito precisa de um grande perdão da dívida, e um mero bilhão de dólares é apenas uma gota no oceano.

Um discurso mais audacioso teria anunciado que os EUA retirariam sua base naval do Bahrein, por nos recusarmos permanecer aliados a uma monarquia sectária repressiva; teria apoiado o movimento em prol do estado palestino na ONU como uma força contra a intransigência do Likud; e teria mencionado democratização em Riade junto às outras capitais mencionadas.

Ainda assim, foi um bom discurso, um discurso corajoso, porque desafiou aliados americanos da mesma forma que inimigos americanos, e colocou os EUA no lado da Avenida Bourguiba e da Praça Tahrir e de Deraa e Taizz. Esse é o lado da história em que os EUA precisam ficar. Como um conjunto de ideias, foi um grande passo na direção correta. Como política prática, é difícil ver como poderia ser implementado eficazmente (censurar levemente Israel e Bahrein não alterará as crises). Mas pelo menos Washington finalmente não está mais posicionada no meio do caminho do povo da região.

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