MEC e populismo pedagógico
por Fernando da Mota Lima

Repercutiu na mídia o fato de o MEC (Ministério da Educação e Cultura) adotar um livro de português no qual os autores, ligados à ONG Ação Educativa, justificam e validam na escola expressões linguísticas do tipo: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. A julgar pelos critérios linguísticos e pedagógicos adotados na obra, corrigir ou reprovar erros dessa natureza seria incorrer em preconceito linguístico. Aliás, a correção seria injustificada, já que não se trata de erro, mas de simples variação linguística. Há aí uma confusão que procurarei esclarecer adiante.
O MEC justifica a adoção do livro alegando que corresponde aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Suponho, baseado no mesmo critério, que o aluno carente poderia justificadamente escrever “Os Parâmetro Curricular Nacionais”. Infelizmente, não é o meu caso. Sendo assim, sinto-me constrangido a escrever seguindo a norma culta relativa à concordância nominal. Pensando melhor, vou me reeducar lendo esses livros adotados pelo MEC, primores do populismo pedagógico corrente na nossa política educacional, para não ser vítima de preconceito linguístico.
Seguindo ainda as justificativas expostas pelo MEC, a adoção da norma linguística culta nas escolas não passa de um mito do qual ele louvavelmente se declara determinado a nos libertar. É sem dúvida alentador saber que uma das missões confessas do MEC é libertar o aluno da tirania que nós professores sobre ele exercemos erradamente apoiados numa noção normativa que não passa de um mito. Esse mito opressor precisa ser varrido das nossas escolas.
Trocando a justificação da ignorância em miúdos (ou inguinorância, como escreveu Clovis Rossi com preciso corte polêmico na sua coluna da Folha de S. Paulo), insistir numa pedagogia baseada nesse mito seria mutilar culturalmente o código linguístico do aluno. Além de constituir uma forma de violência simbólica, como afirmou João Paulo Filho, essa atitude desprezaria o fato de que a língua escrita “não corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos”.
Ora, quem disse que postular uma pedagogia baseada na norma culta da língua é confundir a língua escrita com a língua falada ou com os dialetos compreendidos pela língua portuguesa? O reconhecimento da distinção corrente entre língua falada e língua escrita é uma verdade elementar. Mais que essa distinção, é também elementar o reconhecimento da variedade de códigos linguísticos compreendidos pela língua geral que falamos. Eles decorrem das diferenciações objetivas inscritas nas variáveis de classe e região compreendidas por todo complexo linguístico. Uma coisa é reconhecer e respeitar esses fatos comezinhos da realidade linguística de qualquer cultura, outra bem diferente é desqualificar a norma culta, objetivo e ideal de todo processo educativo, em nome de um suposto princípio de democracia linguística que não passa de populismo pedagógico.
Aparentemente, a política educacional postulada pelo MEC é inspirada em princípios louváveis, tanto que a opinião corrente também aparenta aprová-la. Mesmo alguns críticos que contra ela se pronunciaram, como é o caso do professor Evanildo Bechara, invocam apenas argumentos restritos ao pragmatismo social, que bem entendido significa zelar pelas oportunidades de ascensão social dos estudantes. Dizendo melhor, é preciso induzir o estudante à aprendizagem da norma culta por constituir ela uma das precondições de ascensão profissional baseada na educação escolar. O buraco é mais embaixo, como reza o lugar comum. O episódio que aqui discuto é antes de tudo um sintoma entre muitos de uma pedagogia que mais e mais se impõe nas nossas escolas e o próprio MEC, instituição reguladora do nosso sistema educacional, tende a promover.
Dado que me falta autoridade para discutir aspectos mais amplos e precisos da nossa política educacional, prendo-me unicamente a algumas observações de caráter geral. Formar a criança e o jovem para o exercício da cidadania, um dos alvos da educação, é um ideal agora rotineiramente deformado por idiotices como o slogan “criança cidadã”, que evidentemente supõe a consciência e o exercício da cidadania na infância. Que dizer de um disparate desses? Outro de circulação ainda mais ampla, verdadeiro refrão da pedagogia permissiva e enganadora de adoção generalizada, reside na ilusão de supor que a aprendizagem deve basear-se no prazer. Aprender brincando, aprender gozando, são lugares comuns na representação da experiência educativa. Esse disparate circula nos clipes publicitários das instituições educacionais difundidos pela mídia e, o que é mais grave, é de fato adotado pela escola em geral, assim como em muitos projetos e programas pedagógicos.
Introduzir o aluno no universo da norma culta da língua foi sempre um dos objetivos do sistema escolar. Do contrário, qual o sentido de educá-lo? Quero dizer, se o objetivo é mantê-lo prisioneiro do código restrito que emprega, reflexo aliás da sua subordinação social e das condições culturais restritas características de um ser em formação, por que então puni-lo com as agruras necessárias de qualquer processo educativo? Ninguém aprende sem esforço, disciplina e constância, tenhamos o bom senso de admitir essa platitude implicada em qualquer experiência de aprendizagem. Ninguém toca violão sem fazer calo nos dedos que desenham uma sequência de acordes no braço do instrumento, assim como ninguém se torna um craque de futebol, valho-me do exemplo mais universal da cultura contemporânea, sem muito suor, aplicação e tenacidade. Se a aprendizagem que qualifica os atores para o reino do entretenimento é assim, o que dizer no âmbito da escola, da educação formal? Os lugares comuns que acabo de mencionar seriam inteiramente dispensáveis, não fosse o clima corrente de fantasia publicitária em que passamos a viver na mídia, nas escolas, nas práticas e representações culturais dominantes.
O populismo pedagógico que denuncio é mais grave, também de percepção restrita, porque ele se mascara sob as vestes de uma ideologia aparentemente muito louvável. Ele supostamente se põe em defesa dos oprimidos, das camadas socialmente subordinadas ou ainda das classes desprivilegiadas, como reza outro lugar comum. Por isso é proposto por pessoas que se identificam como de esquerda. Tenhamos no entanto a coragem de afirmar que serve em termos efetivos apenas para manter o estudante pobre no estado de subordinação social que a educação deveria concorrer para transformar. Um dos meios de se alcançar tal ideal consiste precisamente no acesso ao código elaborado da língua, ou na assimilação da norma culta que conduz à consciência crítica da sociedade, à capacidade cognitiva de propor alternativas para a ordem social existente, para o estado de desigualdade e exploração corrente na sociedade brasileira. Introduzir o aluno no universo da norma culta significa, noutros termos, abrir os horizontes da sua consciência para a crítica dos preconceitos e ideias feitas enraizadas no solo social onde domina a consciência espontânea.
Já que os propositores da pedagogia populista e pseudoigualitária invocam argumentos ideológicos de esquerda, quando não francamente revolucionários, conviria ressaltar que nenhum revolucionário que conheço confiou na consciência espontânea do povo. Karl Marx, líder supremo do comunismo moderno, denunciou a consciência espontânea do povo, assim como, nas suas palavras, a idiotia rural, que precisaria ser superada como precondição da revolução proletária. Lênin foi mais longe e postulou a necessidade do revolucionário profissional, cuja função maior seria o exercício de um apostolado revolucionário intransigente, já que o povo, mergulhado na consciência espontânea e alienada, jamais se mobilizaria em favor da revolução, fato que a história das revoluções parece comprovar. A evidência disponível – ou a que conheço, noutras palavras – indica que não houve na história revolução baseada na consciência espontânea do povo.
Mas deixemos a revolução de lado, já que ela não figura nos meus propósitos ideológicos e de resto não identifico nenhuma possibilidade revolucionária no horizonte da história acaso comparável ao figurino das revoluções que sacudiram o século 20. Os limites e fins que viso são bem mais modestos, como suponho sejam também os do MEC e os do establishment pedagógico. O que tenho em mente é a assimilação da norma culta da língua, ou do código linguístico elaborado, como uma das precondições de uma consciência social crítica, passível assim de propor mudanças necessárias no quadro de uma sociedade caracterizada por condições iníquas e exploração do povo. Propor orientações pedagógicas ao gosto dos autores da ONG Ação Educativa é apenas concorrer em termos efetivos para a manutenção das condições sociais que a pedagogia populista supostamente combate.

Só se faz análise do ponto de vista ideológico com relação às medidas do MEC?
Eu não encontro em nenhum site de notícias, jornal ou qualquer portal de grande destaque no jornalismo nacional, que esteja analisando essa questão do ponto de vista linguístico. Ninguém está questionando a decisão com argumentos sustentados por estudos aprofundados… São só especulações ideológicas!
Essa obra da Heloísa não é a primeira publicação que aborda a variação linguística. Assim como os autores da ONG Ação Educativa não abusam de populismo pedagógico, porque além de combater o preconceito, eles estão colocando em prática tudo que vem sendo assumido pelos linguistas nos últimos anos.
Ensinar a norma CULTA para os nossos alunos impondo CERTO E ERRADO, é tão descompromissado com a ética quanto a Alemanha Nazista abordar o evolucionismo nas escolas por meio de uma interpretação distorcida sobre os conceitos de Darwin.
A “GRAMÁTICA NORMATIVA” precisa ser ensinada, fazendo com que um gaúcho compreenda tudo que o nordestino diz. Assim há um diálogo uniforme de norte a sul do país ou em qualquer espaço da sociedade. Por isso a norma padrão (é tão estranho dizer NORMA CULTA), é fundamental.
Sobre variação linguística, não tem como confundir: o aluno precisa desenvolver a sua capacidade de contextualizar. A língua é flexível! Estudos linguísticos concluem que utilizamos grupos de palavras específicos para cada tipo de ação: em casa, no mercado, farmácia, hospital, diante de um advogado ou engenheiro…
Li comentários por aí, ironizando a iniciativa, dizendo que agora 2+2=5 e está certo, porque se disser que é errado estamos praticando preconceito matemático. A relação é tão boa que o comentarista esquece que a raiz de número negativo, por exemplo, pode existir num outro conjunto. Para entender a noção de conjuntos é necessário uma contextualização!
Não se diz para o aluno que raiz de número negativo não existe. Ela simplesmente não faz parte do conjunto dos números reais. E quanto tempo esse aluno vai aprender “errado” até que um professor do ensino médio ou pré-vestibular exponha outras possibilidades?
A realidade para os alunos tem sido essas sombras projetadas na parede da caverna, com definições inquestionáveis feitas por… por… QUEM É QUE ESTIPULA AS NORMAS MESMO?! Eles representam todos que utilizam a língua portuguesa? A reforma ortográfica acontece para facilitar a vida de quem?
Estudar regionalismo é perder tempo? Ler Erico Verissimo, Jorge Amado, José de Alencar, Graciliano Ramos… ah, eles não usam o português CORRETO. Então, por que estudar? Será que os alunos vão conseguir separar as expressões regionalistas das que pertencem às normas?
Obrigado por me poupar o trabalho. Parabéns pela excelente resposta.
André: se você lesse meu artigo com um pouco mais de atenção, admitiria que não se prende a uma crítica puramente ideológica. Também reconheço claramente no artigo o fenômeno da variedade linguística, verdade comezinha acessível a quem saiba um grão de linguística e mesmo gramática normativa. De onde você deduz, lendo o que escrevi, que seria perda de tempo estudar nossos autores regionalistas? Nosso debate parece debate de surdo. Por isso ainda me pergunto por que teimo, em respeito ao leitor, em discutir o que a maioria escreve no espaço de comentário. Assinalo claramente a região como uma das variáveis do sistema linguístico, assim como as variáveis de classe. Omiti as variáveis de cunho individual, que agora explicito. Quanto ao mais, está dito no que escrevi. Um abraço,
Fernando.
Faço minhas as palavras do Cleiton.
Nenhuma pedagogia é feita a partir da Norma Culta, querido.
Você está a confundir Norma Culta com Norma Padrão – esta última é, sempre foi e nunca deixará de ser ensinada no processo de letramento e grafação dos alunos.
Confundir Norma Culta e Norma Padrão é típico de quem só conhece linguística de orelhada. êta, ignorãça & glossofobia!
cuâdu xamu augeim de qiridu tó mãdãdu i pa merda.
Lucas: ah, Lucas e sua falsa cultura fazendo pose de pedante. O que a confusão entre norma culta e norma padrão tem a ver com glossofobia? Além disso, apesar do seu saber linguístico intimidante, você não sabe o que diz. Prove-me com argumento substantivo a diferença entre os dois tipos de norma. Poderia citar linguistas com Mattoso Câmara Jr. e Luiz Carlos Lessa, mas longe de mim impressioná-lo com argumentos de autoridade.
Fernando.
Meu caro, a Norma Culta é UMA DAS variantes da língua. E a Norma Culta também foge a Norma Padrão.
O que a escola ensina, e deve continuar ensinando, é a Norma Padrão – e não a Norma Culta.
Curioso você citar Bechara e não saber a diferença das duas…
E em que aprender variantes A MAIS deixa alguém MENOS habilidoso linguisticamente?
Ou em que momento o MEC disse que não vai mais priorizar o ensino da Norma Padrão (Padrão, e não Culta, que a Culta também é “erro” dentro da Padrão)?!
Glossofobia aqui dá e deixa!
Prof.
vale a pena a leitura do seguinte texto: http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=745
Thais: muito grato pelo link que me levou ao blog do linguista Marcos Bagno, de quem já li alguns textos ocasionais. Sei bem pouco dele, mas o bastante para afirmar que é um dos apologistas do que chamo de populismo pedagógico no meu artigo. Para minha surpresa, ele afirma no artigo que você me indicou, assim como numa longa carta endereçada à revista Veja, coisas justas e sensatas. Mas incorre em contradições do tipo: devemos ensinar ao aluno as diversas variáveis linguísticas. Cabe a ele, de acordo com seu interesse ou necessidade, aprender a norma culta. Ora, a norma culta é a norma regente do ensino escolar. Como afirmei no meu artigo, se não é a norma correta no contexto da escola, então para que ensiná-la? Deixemos que o aluno pobre, preso ao código restrito ou vulgar da língua, continue dizendo em paz: Os livro etc. Mas os populistas acham que corrigir o falar vulgar do povo é preconceito linguístico, ou violência simbólica…
Fernando.
axo qui o mek ta serto nois iscrevi du geito qui quize, num tem di fica nus inxendu u çaco naum.
si iscrevi du geito qui quize, si noçu prezidenti podi pur que nois naum pode?
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Escreve como ninguém, mas não consegue ler um simples fenômeno social, sem que o deturpe. Isso é que é sofisma. Um exemplo vivo de falácia do espantalho.
Os adeptos do “populismos pedagógico” e os frutos do mesmo não leem seu artigo, infelizmente, é muito grande e rebuscado. Mas eles não sabem que estão perdendo, são avaliados por baixo.
Era de costume, a professora pedagoga de formação parcelada, como “boa profissional” que era, sempre chegava mais cedo para escrever os recados da semana no quadro de avisos da sala dos professores. Apesar de serem recados úteis, ninguém os lia; um ou outro passava apenas os olhos e ria porque, quase sempre, estavam subscritos: à direção. Planejei usar, como desculpa, a crase mal empregada e dizer que o recado não era para mim, mas para a direção. Achei que os outros pensavam o mesmo. De tão cansada e desestimulada por não vê nada, do planejado acontecendo, ela então foi ao extremo quando, numa segunda-feira, ao me aproximar para ler os anúncios daquela semana, deparei-me com um forte apelo, em letras garrafais, colocado na parte superior do quadro, bem destacado: “LEIÃO”. Foi em um instante, enquanto fui ao bebedouro dos alunos tomar um copo d’água, que quando retornei, logo aquele quadro de avisos chamou-me a atenção novamente, agora com mais força. Um colega havia interpretado o então atrevido apelo, com uma boa pitada de humor, usando uma conjugação verbal um tanto estranha: “Se não puder leiar então leiam”. Disseram-me que a frase foi arte do professor Joaquim. Eu já tinha visto a conjugação do verbo Xerocar e, mais artisticamente, eu Tvjo que significa: ver televisão na primeira pessoa do presente do indicativo, mas naquele momento, tive que refletir um pouco mais sobre aquela locução verbal numa espécie de futuro do subjuntivo: “…puder leiar…”! Porém, para chegar alguma conclusão, precisei pensar em outra direção, não gramaticalmente. Questionei, para mim mesmo, a qualidade da formação acadêmica do profissional da educação, ou melhor, questionei minha qualidade profissional. Ao sair da sala dos professores, perguntei ao professor coordenador de turno Joaquim: Por que um bom número de profissionais da educação pública mantém seus filhos nas escolas particulares? Você não acha incoerente? Eu queria saber se esse comportamento tinha a ver com a qualidade de ensino público.
— Eu colocaria minha filha para estudar numa escola pública sem receio algum! E você Rapelle?— pergunta ele para a coordenadora pedagógica em questão, na busca de apoio.
— Meus filhos estudam em uma escola municipal e minha conclusão final é: não existe escola ruim e/ou professor ruim, mas, aluno ruim.
Então me perguntei novamente: E o que é aluno ruim? Fui resmungando até a sala em que eu ia ministrar minha primeira aula daquela noite. Era uma turma de 8a série que tinha aluno cujo seu próprio nome não sabia escrever corretamente. Nessa turma, propus-me, com a ajuda da coordenadora pedagógica, ensinar os tipos de redação; no final do mês, então, pedi um texto dissertativo para somar nota àquele primeiro bimestre. Investi muito esforço e paciência para corrigir, folha por folha, os textos que me entregaram.
No dia seguinte, ao devolvê-los corrigidos para que eles tomassem consciência das deficiências textuais, fui coroado com um abaixo assinado, contendo muitas assinaturas, reprovando-me como professor deles. Pelas conversas informais no pátio e pelas confidências até pensava que tinha alguns bons estudantes, ali! Fui traído!
Passaram-se os dias; não pude me esquecer daquele dia, no qual, bem intencionado, havia decidido ensiná-los melhor, motivado pela reflexão feita sobre os erros ortográficos da professora coordenadora, responsável pelos os anúncios para os professores. E então, me perguntei quem era o ruim: eu, ou a escola, ou o aluno?
Hoje depois de seis meses, retornei àquela escola para rever os amigos que ali deixei. O quadro de funcionários já não é o mesmo, mas o professor Joaquim continua lá com o mesmo espírito de humor, agora está lecionando matemática, contudo me contou um fato interessante, pareceu-me que ainda se lembrava da teoria de Rapelle: “… ruim é o aluno”.
— Professor, tenho uma novidade para lhe contar, — disse-me ele entusiasmado — este ano vieram duas moças bonitas do colégio vizinho, ambas as moças acabaram de concluir o terceiro ano do Ensino Médio, magistério, foram colegas na mesma sala: uma veio para assistir aulas de reforço na 8a série porque se sentia fraca; a outra veio lecionar matemática para a mesma 8a série porque se achava muito forte.
Não me convenceu. Ele, no final, se contradisse sem sentir. Já na saída, depois de termos cruzado com um senhor distinto.
— Você viu esse senhor educado que passou aqui agora por nós! — disse Joaquim — É o pai da jovem professora de matemática da 8a série, minha colega. Ele é um político muito influente na cidade e consegue muitas coisas para nossa escola!
Lamento pela evidente conclusão que o alfabetizado é escravo e o analfabeto é misirável e o semianalfabeto tolo.
Essa ação educativa devia procurar saber o que é o ensino e para que serve uma escola. Aprender o que é certo para não ser preconceituoso com quem está errado.
Estou começando a me entrosar neste tema para me posicionar. Por coincidência, hoje conversei com um aluno universitário, cujo texto continha tantos erros de Português – pelo menos por mim assim considerados, que comprometia a compreensão do texto. Exemplos: “pode auterar o equilíbrio; fonte inatura; as drogas e os nutriente serão absorvido; não se deve igerir álcool; devi-se levar em conta as variabilidade”; dosar a glicemia sanguínea” e por aí vai. Procuro ao máximo não ter preconceitos e aceitar a diversidade, no entanto, me arrepio ao ver algo assim. Questionei se algum professor havia comentado sobre isto: nenhum mesmo. Se, para sermos justos, devemos aceitar qualquer maneira de expressão escrita ou falada, qual a necessidade de escolas, professores, material didático, práticas, estudo de técnicas? Devemos rever as idéias de Ivan Illich. Aí fica tudo mais fácil, todo mundo já sabe falar mesmo, não é? Pensei que inclusão seria alçar as pessoas que não tiveram chance social a patamares que só o acesso à cultura (que inclui a linguagem) pode levar. Seria aceitar a diferença de grupos sociais e étnicos sem aculturá-los nem violentar seus códigos, valorizar e incorporar seus saberes. Mas, por enquanto, aceitar que qualquer coisa que se diga ou se escreva é válida, me faz pensar que tinha razão Isadora de Toma Lá Da Cá quando dizia: Entendeu? Então não sacrifica! Posso até mudar depois, mas por enquanto ainda prefiro ler e ouvir nossa língua como instrumento de comunicação, dinâmica, mas com algumas regras que caracterizem e valorizem quem a estudou. E gostaria imensamente que toda a nossa juventude tivesse chance de estudá-la. Mas se agora for vigorar o vale-tudo, qual o sentido de estudá-la? Ser um velho chato e abusado, “out”? Em tempo: sobre o aluno acima, já que dá pra entender algumas coisas, fico caladinha e peço desculpas a ele por ter referido que sua escrita continha erros?
É por aí, concordo com a Maria de Fátima Amorim, o ensino deve ter como objetivo dá oportunidade para que as pessoas conheçam a própria lingua, para falar e escrever corretamente. Isso melhora muito o entendimento do que se ler e do que se fala. A escola é o lugar onde se aprende a dominar as regras da linguagem. É também na escola que aprendemos a respeitar as pessoas que não conseguiram ter acesso a esse conhecimento, é lá que aprendemos que não devemos cultivar nenhum tipo de preconceitos, principalmente em relação a quem não fala ou não escreve corretamente.
Ma. de Fatima: se não partimos do pressuposto de que o papel da escola é ensinar a norma culta da língua ao aluno, então precisaremos aceitar como certo o que esse seu aluno escreveu e tudo mais que se diga e escreva na sala de aula. Ensinar a norma culta não significa ignorar a variedade efetiva da língua, de qualquer sistema linguístico. Já estou me cansando de frisar essa verdade banal. No ano passado, tive na universidade três alunos que iniciaram uma dissertação sobre cultura do seguinte modo: um começou com uma conjunção conclusiva: Portanto etc.; outro com uma adversativa: Não obstante etc; o terceiro assim: Noutras palavras, …
Que mais dizer? Corrigi esses erros grosseiros antes de tudo do ponto de vista lógico. Antes que me acusem de preconceito linguístico, não mencionei o nome dos alunos. Comentei as dissertações respeitando o anonimato requerido pela situação, coloquei-me a disposição dos alunos, se acaso quisessem conversar privadamente comigo (observo que nenhum me procurou) e naturalmente atribuí nota baixa às dissertações. Se não adotasse a norma culta como critério, não teria evidentemente como atribuir nota baixa. Em suma, avaliei os trabalhos baseado na norma culta da língua. Um abraço, Ma. de Fátima.
Só uma pergunta para aqueles que defendem essa “variante”: Caso eu use uma expressão como a defendida pelo MEC em uma redação de vestibular (de uma instituição séria), qual será a minha nota????
O mais triste é que o auto seuer leu o trecho que ele próprio destacou. Vejamos o fimda seeão:
“O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.”
O livro, dedicado à educação de jovens e adultos, diga-se de passagem, apenas destaca que o falar comum não é inferior à norma culta. Em nenhum momento recusa-se a ensinar a norma culta, apenas (e de modo muito correto) valoriza os estudantes e os prepara para um aprendizado mais suave da norma culta.
Infelizmente, para o blogueiro e grande parte da mídia que repercute o assunto, é mais interessante criticar um pretenso “populismo” que dominaria o Brasil.
Triste, triste…
Parabéns pelo discernimento, Paulo Soares. Infelizmente muita gente que julga dominar a “norma culta” é extremamente ignorante em relação aos fenômenos linguísticos. NInguém está propondo a extinção da “norma culta”. Porém, é necessário esclarecer: 1) Todas as normas são cultas, pois carregam em si a cultura de seus falantes; 2) nenhuma variedade é superior a outra do ponto de vista linguístico. O valor que se dá a uma variedade é social, daí porque é mais indicado o termo “variedade de prestígio” do que “norma culta”; 3) é possível promover o aprendizado da variedade de prestígio abordando outras variedades e eliminando preconceitos; 4) a variedade de prestígio ou “norma culta” não é uniforme, mudando com o tempo, lugar, ocasião. O que é “certo” hoje, em grande, foi “errado” há tempos atrás, a começar pelo próprio português, que poderia, segundo algum raciocínio, ser considerado uma grande ofensa ao bom latim. Por que usamos: “Aquelas casas são rosa” (e não “rosas”), “Aquelas árvores são grandes” (e não “grandas”), “Vamos embora” (não “Vamos em boa hora”), “Eu sei” (e não “Eu sabo”), “Você é brasileiro” (e não “Vossa Mercê é brasileira”), “O filme foi assistido por milhões de pessoas” (quando não se poderia fazer isso de acordo com a gramática normativa, já que assistir é, reza a lenda, regido por preposição), ‘Eu vou te avisar quando ela chegar” (e não “Avisar-te-ei quando ela chegar”). Por que não usamos “Esse apartamente é mais pequeno que aquele” (em Portugal isso é correto)? Porque a língua muda para atender àquilo que os seus usuários querem e precisam expressar. A “norma culta” não é uma língua mágica e pura, mas uma variedade dinâmica.
Paulo, está correto o blogueiro e até agora, em toda a discussão e em todos os outros locais que eu li, foi nas suas palavras a primeira vez que eu vi alguém referir-se ao erro como “inferior”. O que o livro citado ensina está errado pura e simplesmente porque existe uma regra a ser seguida. A regra só existe com o objetivo de normatizar as relações dentro do conceito de nação, assim como para a moeda nacional, as leis, as fronteiras. O Brasil é plural em maneirismos e expressões idiomáticas, mas concordância não influencia nas características sociais.
Ou por acaso a pessoa humilde que não sabe somar deve preocupar-se em ser vítima de preconceito matemático? A gramática é dinâmica ao longo dos anos, é criada na observação da linguagem (e não no estabelecimento prévio ao uso), mas é precisa e exata. Os argumentos dos autores do livro são risíveis…
Prezado Fernando, indico a leitura de livros como “A Norma Oculta”, “Preconceito Linguístico”, de Marcos Bagno, ou a gramática de Ataliba de Castilho, ou “O português são dois”, de Rosa Virgínia Mattos e Silva, entre muitos outros. A “norma culta” não deve ser desqualificada nem enaltecida, não é nem mais certa nem mais errada. Do ponto de vista científico, não há certo e errado em língua. São as relações de poder, o prestígio social dos falantes, assim como a política linguística, que determinam qual variedade será tomada como “padrão”. Por isso, um “erro” do passado se transforma em um padrão após ser assimilado pelos falantes de prestígio social. Ninguém está defendendo que não se use a variedade de prestígio, mas sim que não se estigmatize as outras variedades, as quais são tão plausíveis e coerentes quanto o “padrão”. Em casa, pode ter certeza que até o Sr. deixa, em algum momento, de fazer o plural. Grave as suas conversas com parentes próximos e faça uma análise. E isso não significa estupidez nem falta de domínio da “normal culta” (sic).
Caros comentadores: Não me dirijo a nenhum, em particular, por serem muitos os argumentos e ainda maiores os mal-entendidos que cercam esta polêmica e meu artigo em particular. Alguns leitores, no geral escudados no linguista Marcos Bagno, tratam meu artigo como se eu acaso ignorasse a variedade efetiva do sistema linguístico. Se nada há de novo sob o sol, como reza o Eclesiastes, esta seria a última das novidades. É claro que toda língua é um complexo de códigos e modos de expressão. Deixei isso claro no artigo quando aludi às variações de classe, região e também individuais. É claro que na intimidade da minha casa, no convívio espontâneo com os amigos, não falo como na sala de aula. Existe o falar das classes pobres e o das pessoas cultas, o do nordestino e o do sulista. Vamos ficar discutindo essas obviedades até quando? O cerne da minha crítica a esses que chamei e chamo de populistas consiste no fato de adotarem uma norma linguística e pedagógica baseada na falsa igualdade da norma culta com a norma do povo iletrado, do estudante carente que vai para a escola e escreve “os livro num presta”. Corrigir esse erro com base na norma culta não é preconceito linguístico. A função da escola é introduzir o aluno no universo da norma culta. É ela que deve prevalecer como norma regente do código das pessoas letradas. Afirmar isso não é incorrer em preconceito de classe ou cultura. Se Ricardo Lima tem razão ao afirmar que a norma culta não é mais certa nem mais errada do ponto de vista científico (leia-se do ponto de vista dos fatos da líingua estudados pela linguística), está errado ao recusar a norma cultu como critério de correção instituído socialmente. Se ele pensa o contrário, então faça um concurso, um vestibular, qualquer atividade social baseada na norma culta da língua e escreva como o povo iletrado escreve, ou como ele fala no botequim da esquina. Outra coisa: norma culta não é apenas imposição dos grupos de elite ou dirigentes. É também isso, mas é também saber objetivamente aferível. Quem pensa o contrário, não vê diferença entre Machado de Assis e a subliteratura que infesta a cultura contemporânea. É curioso: qualquer debate sobre questões culturais acaba sempre em desqualificação dessas verdades elementares em nome do antielitismo, do preconceito de classe e região etc. É elitismo afirmar que a norma culta é mais rica, complexa e portanto superior ás demais. As pessoas que combatem essa verdade elementar, no geral limitadas ou desprovidas de cultura intelectual, aceitam com santa inconsciência o que correntemente se diz no futebol, religião universal do povo. No futebol, existe rei, rainha, gênio, fenômeno, clube de elite, e todas as grandezas e até megalomanias. No reino da cultura intelectual, no entanto, não se pode falar em superior ou elite que o mundo dos pseudoigualitários e populistas cai sobre nossas cabeças. Mas não digo nem me perguntem, pois acho que esse populismo é incurável. Ele é parte do democratismo picareta que tomou conta do país em que vivemos. Isso é mais revoltante quando pensamos que o Brasil é um país picotado pela expoliação, a injustiça, o privilégio e preconceitos de todo tipo. A educação é um dos meios mais poderosos para que a gente adquira consciência disso e a partir da aquisição da consciência crítica lute para tornar esse país efetivamente democrático e portanto melhor. Por isso me indigna a incompreensão dos que me julgam elitista simplesmente por defender o direito de as camadas mais pobres e carentes ascenderem a um melhor padrão de vida. A educação não é tudo, claro, mas é um dos instrumentos fundamentais para essa mudança que não sei quando virá.
Fernando.
O papel da escola é ensinar a variedade de prestígio, à qual se dá um valor social e que, como eu também já escrevi em outros lugares, é cobrada nos vestibulares, concursos, situações formais. Entretanto, é necessário desenvolver o pensamento crítico, para que essa variedade não seja ensinada somente de forma instrumental e sem questionamento, como se tivesse sido transmitida por Deus para que alguns poucos preservassem, enquanto que outros vilões a depurpassem. Todas as variedades mudam com o tempo, inclusive a variedade de prestígio. Coisas que no passado eram totalmente abomináveis passam a ser consideradas corretas depois que são assimiladas pelas pessoas que disfrutam de maior prestígio social. NINGUÉM no Brasil se utiliza da “norma culta” utilizada por Machado de Assis, mesmo que tenha a ilusão de usá-la, pois, se o fizesse, seria internado em um hospício. É mais positivo refletir sobre a língua e observar os belíssimos fenômenos envolvidos com a formação do Português Brasileiro do que ficar reproduzindo dogmas acientíficos, movidos por crenças irracionais. Todo brasileiro tem o direito de assimilar, manipular e usar a seu favor a variedade de prestígio, assim como tem que ter toda a liberdade – sem bullying nem patrulhamento – de usar a variedade com a qual expressa as suas emoções e os seus pensamentos. Isso pode ser inclusive inferido a partir da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos. O que chamamos de “norma culta” é dinâmico, nunca para de mudar e, por isso, não pode ser idealizado como A forma correta, que melhor permite que alguém se expresse. Se, na minha comunidade, alguém diz: “Oh, Cráudia, sai cá fora e dê uma espiada nesses menino danado, qu’eles num pode ficá sozim”, nada vai expressar o pensamento e sentimento tão bem nessa situação. Na escola, isso deve ser respeitado como uma variedade, ainda que – na escola – se deva compreender que, em situações mais gerais e formais, o nome Cláudia é pronunciado com “L” e não passou pela mudança linguística pela qual passaram PRAÇA (plaza, place, Platz), ESCRAVO (Sklave, slave, esclavo) etc; que, nessas mesmas situações, quando há somente um, se usa “menino”, mas quando há mais de um, se usa “meninos” (diferente do francês, que pronuncia da mesma forma o singular e o plural; do alemão, que tem outras regras de plural, inclusive manter, em diversos casos, a palavra invariável – der Lehrer, o professor; die Lehrer, os professores); que, diferente do inglês, o adjetivo deve também concordar com o nome e o artigo (danados). Mencionam-se aqui outras línguas de propósito, para demonstrar que, linguisticamente, os fenômenos são plausíveis e as línguas mudam. No inglês de Shakespeare, havia mais flexões verbais que hoje. No português, as flexões estão diminuindo também: eu falo, você/ele/ela/a gente fala, eles/elas/vocês falam – e não é impossível que em, digamos, 200 anos, só exista a forma “fala” para todas as pessoas gramaticais. Se usarmos inteligência e observação, compreenderemos muito mais as mudanças linguísticas e as variedades existentes em todos os idiomas.
Insisto, para que os leigos não caiam nessa: Não há – DE FATO – nenhum tipo de superioridade essencial na variedade de prestígio. Ela precisa ser descrita (sem dogmas, mas sim de fato) e precisa ser estudada/aprendida, Isso é ponto pacífico. Por quê? Por ser a variedade que favorece maior mobilidade social; por facilitar a comunicação, pois é usada de forma mais comum e geral em comparação aos dialetos; por ser a referência em concursos e diversas situações formais, até porque é necessário que algum tipo de padrão comum seja estabelecido. É por isso! Não porque ela é superior, ou seja, não por uma razão transcendental. O simples fato de que essa variedade de prestígio muda é uma prova de que ela não é essencialmente superior. Ela é – ou deveria ser – um acordo comum para facilitar a vida na sociedade. De petista, eu não tenho nada, e discordo do pensamento pseudoesquerdista e populista, do democratismo cínico. Mas isso não me impede de ver a realidade dentro do campo científico, que trata da observação de fatos. Falaram tanto absurdo porque o livro – que nem conheço – observa que não fazer concordância é plausível e normal, que, se as pessoas que entendem do assunto simplesmente se abstêm, o pensamento mítico-dogmático sobre a língua toma conta. A escola tem que, não só, mas também, mostrar que cada comunidade fala como fala e se comunica muito bem dessa forma, para eliminar os estigmas. E, além disso, a escola deve ensinar a variedade de prestígio, pelas razões citadas. É isso.
Caro Ricardo: Sei que meus argumentos serão inúteis, mas talvez esclareçam um outro leitor interessado nesse nosso debate que mais me parece conversa de surdo. Você agora invoca o relativismo de tempo (histórico) e espaço (geográfico) para validar as muitas variáveis linguísticas que segundo você, como todo bom relativista, devem ser igualmente reconhecidas. Não bastasse tanto, você deita falsa cultura de poliglota como se isso acaso conferisse força a seus argumentos. É chover no molhado lembrar que as línguas mudam no tempo e no espaço. A questão não é essa. Vejamos a coisa de outro modo. Toda sociedade, toda cultura humana é composta de um complexo de normas sem o qual ela não se sustentaria. É claro que esse sistema de normas não caiu do céu nem é obra divina, embora muitos crentes assim pensem. Desde Saussure, um dos fundadores da linguística moderna, sabemos que o signo linguístico é arbitrário, isto é, não é nenhuma essência, nenhuma manifestação metafísica de uma verdade absoluta e universal. Noutros termos, não existe nenhuma relação essencial entre significante e significado. A língua é uma criação humana resultante do trabalho de uma infinidade de gerações. O relativismo dos seus argumentos em nada anula o fato de que ela é composta de estratos que não são fruto apenas de prestígio social ou variação de classe, tempo e espaço.
A besteira que você escreveu sobre Machado de Assis, fosse ela verdadeira, teria internado a mais alta inteligência humanística do Brasil na Casa Verde de Simão Bacamarte. Leia o último parágrafo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo. Se você é uma pessoa de real cultura intelectual, note que estou qualificando a cultura antes que você venha alegar que todo mundo tem cultura,o que é aliás correto segundo o conceito sócioantropológico do termo, você notará que somente uma inteligência extraordinária do ponto de visto linguístico e filosófico poderia traduzir em termos de niilismo radical a concepção da condição humana ali inscrita. Por mais que você force a nota do seu relativismo, não há como pôr no mesmo patamar aquele parágrafo, expressão da alta cultura letrada, com o falar vulgar, iletrado ou mesmo o falar da cultura média. É por isso que Machado exige um leitor altamente cultivado do ponto de vista intelectual. Afirmar essa verdade não é ser elitista. É simplesmente reconhecer que Machado é expressão de uma modalidade de cultura e norma linguística que requer anos e anos de estudo e cultivo literário. No entanto, gente como você aparenta acreditar que tudo é questão de relativismo ou imposição de valor social.
Vou retomar o exemplo do futebol que usei no meu comentário precedente. Como disse, no reino do futebol todo mundo fala de rei, rainha, imperador Adriano, gênio da bola etc. Nunca ouvi ninguém acusar isso de elitismo. Pelé é até hoje reconhecido, com justiça,como o rei do futebol. No entanto, na literatura, na cultura humanística em geral, não falta quem prontamente lance mão desses supostos argumentos para desqualificar o gênio literário de Machado de Assis, o modelo estilístico que é a sua obra etc. A explicação me parece simples. O futebol é um esporte baseado num sistema de normas e valores simples que todo mundo entende. Noutras palavras, todo mundo no Brasil tem cultura futebolística, conhecimento básico e comum para reconhecer objetivamente certos valores. Por exemplo: nunca vi ninguém negar talento a nenhum jogador convocado para a seleção brasileira. Há desacordo, claro, acerca de quem é melhor, mas nunca se desqualifica um grande jogador de futebol. Na literatura, nos códigos de linguagem, no debate sobre as normas linguísticas, todo mundo tem opinião e muitos acham que estão certos simplesmente porque não existe verdade universal, porque tudo é relativo etc. Cansei. Já que você não cede, Ricardo, o que você faria se fosse um professor? Em que norma se basearia para avaliar uma dissertação sobre Machado de Assis, por exemplo? Quanto a seu relativismo histórico, seria razoável eu, como seu professor, dar hoje em você uma surra de palmatória alegando que no tempo do seu avô era essa a norma corrente na escola? Nâo é por mudar no tempo e no espaço que a norma deve ser ignorada, ou trocada por qualquer outra, ou nivelada a qualquer outra. Cansei. Como dizem os belos versos de Chico Buarque: já conheço os passos dessa estrada / sei que não vai dar em nada / seus segredos sei de cor. Paro antes que alguém diga que esses versos são iguais a qualquer das boçalidades que passam por música em megashows de musculação e histeria de massa.
Sugestão de leitura:
http://www.stellabortoni.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3112:virgilio-p-de-almeida-faz-uma-sintese-da-polemica-sobre-o-livro-didatico&catid=45:blog&Itemid=1
Engraçado, Fernando, como as pessoas se enganam quando tentam falar sobre quem – e sobre o que -não conhecem. Eu sou uma das pessoas menos relativistas entre as que conheço, ao menos no sentido trazido por você. Além disso, jamais passou por minha cabeça deitar cultura de poliglota, apesar de não me sentir envergonhado de ser fluente em algumas línguas – desculpe se isso parece algum tipo de ataque, mas se trata simplesmente de uma verdade e, em relação à discussão, procuro simplesmente me basear em dados concretos. Acho que lhe faltaram argumentos mais racionais. Não acho que seja elitismo de sua parte considerar que a cultura está atrelada a um determinado padrão linguístico, mas acho que isso é uma ficção, pois tanto a cultura quando o padrão se transformam dentro do processo histórico, o qual envolve inclusive a dialética entre as diversas culturas e variedades existentes em um país. Ou seja, a variedade de prestígio existe, é uma realidade, deve ser aprendida/ensinada na escola, conforme eu também afirmei, mas a compreensão da relação que ela tem com as outras variedades, inclusive o continuum existente, os intercâmbios, fazem com que percebamos que nao se trata de algo intocado, mas sim de algo que faz parte do patrimônio cultural – embora não seja a totalidade desse patrimônio, a não ser que queiramos apagar todos os discursos outros que, na realidade, existem. O que gerou essa falsa polêmica foi a ideia equivocada de que estavam querendo ensinar os alunos que é OK falar “errado” e que a variedade de prestígio não seria importante. No entanto, reconhecer que as diversas variedades são reais e não podem ser estigmatizadas é muito diferente disso. Primeiro, falar e escrever “errado” é falar e escrever em desacordo com o contexto, ou seja, de uma forma inadequada à situação de uso. Ou seja, dizer “telefonar-te-ei amanhã” numa roda de amigos é tão “errado” quanto usar “Pô, cara, não deu pra faser (sic) o progeto (sic)” em uma correspondência na empresa. Os alunos têm que ser informados disso. Por isso, têm que saber que, em alguma variedade, “os livro” é aceitável, mas na variedade de prestígio (erroneamente chamada de norma culta) não é. Segundo, ensinar a variedade de prestígio de forma instrumental, sem reflexão, pode ser negativo também. Os alunos têm que saber que não se trata de uma variedade perfeita, mas que está em constante mudança e, com o tempo, vai assimilando elementos antes considerados errados. E isso acontece à medida que aqueles que têm maior prestígio social começam a usar tais elementos. Isso é científico, não é adivinhação nem relativismo de minha parte. Os problemas do aprendizado não estão relacionados de forma simplista com essa discussão, tanto que as deficiências existem em todas as disciplinas. Espero que não lhe ofenda a citação de outras culturas, mas coloco só mais um adendo que mostra que o problema está no sistema educacional, não nessa discussão sobre variedades: nos países onde o sistema educacional funciona de forma mais eficaz – ex.: Alemanha, França, Inglaterra, Argentina etc – você acha que não existem as variedades? Na Alemanha, chega ao ponto, em alguns casos, de falantes de um dialeto não compreenderem os de outro. Os berlinenses não “respeitam” quase nenhuma regra de declinação do Hochdeutsch (alemão padrão) no seu falar cotidiano. No entanto, aprendem bem o Hochdeutsch. Na Argentina, o espanhol tem diversas peculiaridades de vocabulário e gramática, e não se deixa de usar “vos podés” no lugar de “tu puedes” nem por decreto. No entanto, aprendem o espanhol padrão. Ou seja, se a escola cita, em um livro, que existem diversas variedades, que todas devem ser respeitadas etc, isso não é obstáculo para que se assimile a variedade tomada como padrão. Por último, sobre Machado de Assis, creio que simplesmente não tenha compreendido. Só quis chamar atenção para a mudança linguística mesmo, observando que ninguém usa o português que era usado por ele.
Caro Ricardo: você desarma meu ânimo polêmico com seu comentário acima. Não no que se refere à substância dos argumentos, que no essencial reiteram o que já nos dissemos. Você me desarma e tiro o chapéu para o seu tom de civilidade. Educação no sentido equivalente a civilidade é algo que me desarma e pouco encontro no convívio com brasileiros. Isso, friso, é o que mais importa no seu comentário. Vou ainda desdobrar a discussão pela última vez ainda com a intenção de introduzir alguma clareza no nosso debate. Estou me cansando de discutir com as pessoas que no geral comentam artigos meus simplesmente por constatar que a discussão no geral resulta inútil, já que não leva a lugar nenhum. Por isso declarei acima que isso era um diálogo de surdos, Ricardo.
Se não damos sentido preciso aos termos fundamentais do debate, é inútil, reitero, continuar discutindo. Por exemplo: refutei o caráter relativista dos seus argumentos e logo você me retruca afirmando o contrário. Se seus argumentos relativos a variações no tempo e no espaço não são prova de relativismo, então um de nós dois definitivamente não sabe o que é relativismo. Já estou cansado de reiterar as variáveis observáveis em qualquer sistema linguístico. São, noutras palavras, variáveis dependentes de classe social, região, indivíduo. Você simplesmente ampliou o escopo da variável espacial ou geográfica (região) ao mencionar exemplos de comparação linguística, isto é, variáveis de idioma. Não discordamos quanto a isso. Também não discordamos quando você ressalta o prestígio social como um dos fundamentos sociológicos da norma culta. Portanto, nossa divergência não reside no fato de constatarmos várias normas na língua nem as variáveis de contexto social e linguístico em que se manifestam as normas em questão. Meu argumento central é o seguinte: embora várias normas ou variáveis linguísticas convivam na escola, a norma regente deve ser a culta. Acrescentei no meu artigo que o domínio desta não traduz mera questão de arbítrio ou prestígio social. Traduz essas coisas,reitero minha concordância, mas vai a questão é mais embaixo, e é aí que discordo de você, de Marcos Bagno e todos que polemicamente qualifiquei de populistas. Uma pessoa intelectualmente culta (volto a frisar que o termo culta está modificado pelo advérbio de modo porque reconheço, seguindo o uso socioantropológico, que toda pessoa é dotada de cultura, mas nem todas são dotadas de cultura intelectual) se identifica pela aquisição e uso da norma culta. Isso supõe juízos objetivos de valor que vocês, apologistas da igualdade linguística, se recusam a reconhecer. O falante limitado ao código restrito, aquele que escreve “Os livro etc.”, não está intelectualmente habitado para perceber a realidade de forma crítica, para formular argumentos e propor alternativas à realidade. É isso o que afirmo no meu artigo. É fato que não li o livro que gerou a polêmica que nos ocupa. Meu artigo seria obscurantista e ignorante, como disse abaixo o obscurantista e ignorante Flávio, se eu confinasse meus argumentos aos limites da reportagem divulgada pela mídia. Quem sabe ler, sabe que meu artigo visa alvos mais amplos e profundos.
Estudei durante mais de 4 anos numa universidade inglesa onde havia alunos e professores de mais de cem nacionalidades. Convivendo com gente de culturas e línguas tão variáveis comunicando-se apenas por terem a língua inglesa como denominador comum, suponho haver aprendido algumas lições preciosas sobre relativismo cultural e linguístico. Mas fico por aqui, Recardo. Apesar das nossas divergências e mal-entendidos, valeu a pena discutir com você, sobretudo quando considero o tom civilizado do seu último comentário.
Fernando.
Paulo Soares, obrigado pela indicação. Vale a pena todos lerem. O que achei mais divertido foi ler a frase de Carlos Monforte: “Onde fica as leis de concordância…” Depois dessa, ele vai ter que suar muito para encontrar essas leis. Ou então deveria fazer uma reciclagem com Carlos Heitor Cony, para ver onde pode ‘encontrar elas’: “[o professor] transformou ela…”.
Me poupe! Ou, para formular meu pensamento de forma mais elaborada e expressar a minha ideia da melhor forma: Poupe-me!
Fernando,
A fala é diferente da escrita. Não está errado falar “os livro”. O livro didático em questão apenas reconhece variações além da língua padrão. E por quê? Porque as variantes linguísticas existem, é fato, e fatos estão acima de preconceitos. Não é se deve querer calar a voz do aluno. O aluno tem o direito de falar a sua variante linguística, que ele aprendeu com sua família e amigos. Você goste ou não, é um índice cultural. O que se deve fazer é mostrar ao aluno que há variantes de maior prestigio social, que a fala é diferente da escrita, mostra-lhe bons textos, retrabalhar textos com ele, e assim por diante. Se você tivesse realmente lido o livro, teria visto que é exatamente o que o livro propõe: ele retrabalha, de acordo com a língua culta, a variante popular apresentada.
Esse é o problema, Fernando: você não leu o livro. Cometeu dois erros fatais. Como cientista, negligenciou o objeto de estudo, a fonte primária da informação. E como defensor da língua culta, não foi capaz de ler adequadamente um texto escrito em língua culta. Diante disso, de nada vale o verniz sociológico do seu texto. Quando surgiu a celeuma, a primeira coisa que fiz foi procurar o livro para não ser leviano fazendo um juízo de orelhada. Tivesse você feito o mesmo, não estaria agora dando razão ao Bagno. Sim, porque noves fora, o que fica do teu texto é apenas preconceito linguístico.
A UFPE tem bons professores na área de Letras. Procure se inteirar sobre o assunto. Ninguém está aqui mais para engolir obscurantismo e ignorância.
Flávio: Não perderei tempo discutindo com um comentador do seu tipo. Limito-me a recortar abaixo um parágrafo do meu artigo que você critica sem ler. Ou então, pior ainda, leu e nada entendeu. Logo, é você quem dever vestir a camisa de força da ignorância e do obscurantismo. Em tempo: estudei Letras onde você me recomenda estudar. Mas não foi lá que aprendi o que melhor sei de línguas e literatura.
“Ora, quem disse que postular uma pedagogia baseada na norma culta da língua é confundir a língua escrita com a língua falada ou com os dialetos compreendidos pela língua portuguesa? O reconhecimento da distinção corrente entre língua falada e língua escrita é uma verdade elementar. Mais que essa distinção, é também elementar o reconhecimento da variedade de códigos linguísticos compreendidos pela língua geral que falamos. Eles decorrem das diferenciações objetivas inscritas nas variáveis de classe e região compreendidas por todo complexo linguístico. Uma coisa é reconhecer e respeitar esses fatos comezinhos da realidade linguística de qualquer cultura, outra bem diferente é desqualificar a norma culta, objetivo e ideal de todo processo educativo, em nome de um suposto princípio de democracia linguística que não passa de populismo pedagógico”.
- Ao Editor do Amálgama: uma coisa é diferença de opinião, outra coisa é informação FALSA. A editora disponibilizou o capítulo em questão na internet. Confiram. As críticas ao livro não passam de leviandade.
E Fernando, bastou ler isto que você escreveu:
“Suponho, baseado no mesmo critério, que o aluno carente poderia justificadamente escrever “Os Parâmetro Curricular Nacionais”.
Não suponha, Fernando. Leia o livro. Você NÃO o leu. Não consta isso no livro nem nos Parâmetros do MEC, tivesse você realmente lido, saberia. Em NENHUM MOMENTO o MEC ou o livro propõem que se deva abrir mão de ensinar a língua culta. Portanto, tua premissa não passa de asneira.
Deste uma demonstração cabal de oportunismo e desonestidade intelectual. Teu texto é apenas pedante. Repito: tem professor de Linguística aí na UFPE, procure. Se é que você tem amor à ciência, o que duvido.
Eis na íntegra o capítulo “Escrever é diferente de falar” do livro em questão, a partir do próprio site da Ação Educativa: http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/V6Cap1.pdf
Qualquer pessoa com um mínimo de capacidade cognitiva vai constatar que os criticos não se deram ao trabalho de ler o livro. O livro não se furta a ensinar a norma culta, muito pelo contrário.
Em nome da isenção no trato com a informação, solicito ao Editor do Amálgama que publique este link.
É lamentável a leviandade e ignorância com que trataram a questão. O preconceito falou primeiro.
Obrigado, Fernando. Somente em relação ao relativismo, creio que não se aplica no sentido colocado, devido à obviedade do fato de que a “normal culta” muda com o tempo, ou seja, somente estou constatando um fato, sem julgamento de valor. Em outro local, dei o exemplo do francês. O francês que era tido como popular, que pronunciava o que para nós seria “as mulher”, “os homem”, “os livro”, assim como as formas verbais, em sua maioria, com poucas flexões (“eu ama”, “tu ama”, “ele ama”, “eles ama”), foi o francês que subiu ao poder com a burguesia e hoje nos encanta com toda a sua cultura e beleza. Um indício óbvio disso é que a escrita mantém as formas antigas, que, antes, eram pronunciadas (la femme, les femmes, l’homme, les hommes, le livre, les livres, j’aime, tu aimes, il aime, ils aiment). O mesmo acontece com o português, inglês e todas as línguas, ainda que em outros casos e contextos.
A marca de plural do português brasileiro realmente cairá, se os falantes “cultos” passarem, algum dia, abertamente, realmente, em situações formais, a pronunciar “os livro”, “os peixe” etc. Por enquanto, isso não acontece como regra na variante de prestígio, embora os falantes “cultos” falem assim com mais frequência do que imaginamos.
Deve-se entender também que o português brasileiro descende do português quinhentista, não do português europeu moderno. Por isso, deve-se questionar a exigência de se seguir a norma de Portugal. Conforme mencionei, a “norma culta” brasileira deve ser descrita não segundo dogmas e mitos, mas segundo a realidade, ou seja, descrevendo-se como os falantes “cultos” brasileiros realmente se expressam. Exemplo clássico: no português arcaico era totalmente adequado usar algo equivalente a “Eu convidei ela”. Ou seja, isso não é burrice nem ignorância, e podemos levantar a hipótese de que a fala brasileira manteve essa sintaxe do português trazido para cá.
Abraços.
Fernando, porque você não resume logo toda essa falácia e chama esses caras de burros. Para um país de idiotas isso pode pegar. Esse é o meu medo.
Abraços.
Caro Editor do Amálgama:
Reproduzo abaixo nota oficial da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA. Este episódio serviu para desmascarar os eruditos de fachada que jogaram o livro na fogueira sem sequer terem a decência de lê-lo, demonstrando sua total falta de ética. Falou mais alto para esses indivíduos sua vaidade de classe, de se acharem culturalmente superiores, quando na verdade não passam de pedantes. Ciência não é fama ou título acadêmico, é senso de justiça e amor pela verdade. É nessas horas que se revela quem é quem.
Segue nota oficial da ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA – ABRALIN:
Língua e Ignorância
Nas duas últimas semanas, o Brasil acompanhou uma discussão a respeito do livro didático Por uma vida melhor, da coleção Viver, aprender, distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC. Diante de posicionamentos virulentos externados na mídia, alguns até histéricos, a ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LINGUÍSTICA – ABRALIN – vê a necessidade de vir a público manifestar-se a respeito, no sentido de endossar o posicionamento dos linguistas, pouco ouvidos até o momento.
Curiosamente é de se estranhar esse procedimento, uma vez que seria de se esperar que estes fossem os primeiros a serem consultados em virtude da sua expertise. Para além disso, ainda, foram muito mal interpretados e mal lidos.
O fato que, inicialmente, chama a atenção foi que os críticos não tiveram sequer o cuidado de analisar o livro em questão mais atentamente. As críticas se pautaram sempre nas cinco ou seis linhas largamente citadas. Vale notar que o livro acata orientações dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) em relação à concepção de língua/linguagem, orientações que já estão em andamento há mais de uma década. Além disso, não somente este, mas outros livros didáticos englobam a discussão da variação lingüística com o intuito de ressaltar o papel e a importância da norma culta no mundo letrado. Portanto, em nenhum momento houve ou há a defesa de que a norma culta não deva ser ensinada. Ao contrário, entende-se que esse é o papel da escola, garantir o domínio da norma culta para o acesso efetivo aos bens culturais, ou seja, garantir o pleno exercício da cidadania. Esta é a única razão que justifica a existência de uma disciplina que ensine língua portuguesa a falantes nativos de português.
A linguística se constituiu como ciência há mais de um século. Como qualquer outra ciência, não trabalha com a dicotomia certo/errado. Independentemente da inegável repercussão política que isso possa ter, esse é o posicionamento científico. Esse trabalho investigativo permitiu aos linguistas elaborar outras constatações que constituem hoje material essencial para a descrição e explicação de qualquer língua humana.
Uma dessas constatações é o fato de que as línguas mudam no tempo, independentemente do nível de letramento de seus falantes, do avanço econômico e tecnológico de seu povo, do poder mais ou menos repressivo das Instituições. As línguas mudam. Isso não significa que ficam melhores ou piores. Elas simplesmente mudam. Formas linguísticas podem perder ou ganhar prestígio, podem desaparecer, novas formas podem ser criadas. Isso sempre foi assim. Podemos ressaltar que muitos dos usos hoje tão cultuados pelos puristas originaram-se do modo de falar de uma forma alegadamente inferior do Latim: exemplificando, as formas “noscum” e “voscum”, estigmatizadas por volta do século III, por fazerem parte do chamado “latim vulgar”, originaram respectivamente as formas “conosco” e “convosco”.
Outra constatação que merece destaque é o fato de que as línguas variam num mesmo tempo, ou seja, qualquer língua (qualquer uma!) apresenta variedades que são deflagradas por fatores já bastante estudados, como as diferenças geográficas, sociais, etárias, dentre muitas outras. Por manter um posicionamento científico, a linguística não faz juízos de valor acerca dessas variedades, simplesmente as descreve. No entanto, os linguistas, pela sua experiência como cidadãos, sabem e divulgam isso amplamente, já desde o final da década de sessenta do século passado, que essas variedades podem ter maior ou menor prestígio. O prestígio das formas linguísticas está sempre relacionado ao prestígio que têm seus falantes nos diferentes estratos sociais. Por esse motivo, sabe-se que o desconhecimento da norma de prestígio, ou norma culta, pode limitar a ascensão social. Essa constatação fundamenta o posicionamento da linguística sobre o ensino da língua materna.
Independentemente da questão didático-pedagógica, a linguística demonstra que não há nenhum caos linguístico (há sempre regras reguladoras desses usos), que nenhuma língua já foi ou pode ser “corrompida” ou “assassinada”, que nenhuma língua fica ameaçada quando faz empréstimos, etc. Independentemente da variedade que usa, qualquer falante fala segundo regras gramaticais estritas (a ampliação da noção de gramática também foi uma conquista científica). Os falantes do português brasileiro podem fazer o plural de “o livro” de duas maneiras: uma formal: os livros; outra informal: os livro. Mas certamente nunca se ouviu ninguém dizer “o livros”. Assim também, de modo bastante generalizado, não se pronuncia mais o “r” final de verbos no infinitivo, mas não se deixa de pronunciar (não de forma generalizada, pelo menos) o “r” final de substantivos. Qualquer falante, culto ou não, pode dizer (e diz) “vou comprá” para “comprar”, mas apenas algumas variedades diriam ‘dô’ para ‘dor’. Estas últimas são estigmatizadas socialmente, porque remetem a falantes de baixa extração social ou de pouca escolaridade. No entanto, a variação da supressão do final do infinitivo é bastante corriqueira e não marcada socialmente. Demonstra-se, assim, que falamos obedecendo a regras. A escola precisa estar atenta a esse fato, porque precisa ensinar que, apesar de falarmos “vou comprá” precisamos escrever “vou comprar”. E a linguística ao descrever esses fenômenos ajuda a entender melhor o funcionamento das línguas o que deve repercutir no processo de ensino.
Por outro lado, entendemos que o ensino de língua materna não tem sido bem sucedido, mas isso não se deve às questões apontadas. Esse é um tópico que demandaria uma outra discussão muito mais profunda, que não cabe aqui.
Por fim, é importante esclarecer que o uso de formas linguísticas de menor prestígio não é indício de ignorância ou de qualquer outro atributo que queiramos impingir aos que falam desse ou daquele modo. A ignorância não está ligada às formas de falar ou ao nível de letramento. Aliás, pudemos comprovar isso por meio desse debate que se instaurou em relação ao ensino de língua e à variedade linguística.
Luiz, pode ser que sejam todos burros, mas você está incluído: Você usou “porque” junto em uma pergunta, não colocou a interrogação, errou na pontuação e não deu a intenção que queria dar a sua pergunta, pois faltou a negação antes de “chama”. Vários desvios da norma culta em um trecho tão curto. KKKKKKK. Seu medo se concretiza com você mesmo. E mais: É melhor ser só burro do que burro, puxa-saco e presunçoso.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia páginae saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos doque eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentementeconvencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
http://marcosbagno.com.br/site/?page_id=745
Caro Fernando,
Como sociólogo você teria uma contribuição interessante a dar ao debate. Mas convenhamos, você está caindo em reducionismos simplistas. Indignos de um cientista social. Aliás, olhe como até a ciência tem as suas facetas, os seus jargões, as suas adequaçãoes e inadequações de abordagem.
Tem uma parte que você solta essa pérola: Existe o falar das classes pobres e o das pessoas cultas, o do nordestino e o do sulista. Você simplesmente não compreendeu a noção de variedades linguísticas. Você está preso a estereótipos grosseiros. Varidade linguística não é o jeito de cada pessoa falar, no sentido da origem social ou regional. Isso aí seriam idioletos sociais e regionais. Vamos tentar usar o exemplo do livro pra ver se você entende: os livro estão na mesa. Todo falante pobre, rico, nordestino, gay, hetero, sulista pode produzir essa frase (enunciado com sentido completo) de mais de uma forma linguística diferente, com marca de plural uma vez ou duas vezes. usar o “s”. (acredite, aqui estamos falando de regras gramaticais da língua, mas não de livros de gramática normativa no sentido popular do termo, o que você não deve ter compreendido ainda). Duas vezes na verdade seria até uma redundância grmatical linguísticamente falando. Mas não é esse o papel do linguista, fazer juizo de valor do que seja certo e errado, mas sim o que esteja acontecendo realmente no dia a dia das pessoas que usam (falam) a língua no dia a dia como meio de se comunicar e interagir (essa palavra é importante) em sociedade.
Durante dias e dias o país inteiro discutiu uma miragem, um não-fato, algo que não existia. E na discussão se leu de tudo, analistas com julgamentos definitivos sobre a questão, acadêmicos soltando sentenças condenatórias, jornalistas atirando flechas na miragem. E tudo em cima de uma nuvem, uma sombra, um ectoplasma que nunca existiu.
Poucas vezes na história contemporânea se viu manifestação tão atrasada do que seja opinião pública latino-americana. Parecia mais um daqueles contos do realismo fantástico de um Garcia Marques, uma parábola familiar de Julio Cortazar.
Refiro-me a esse episódio sobre o suposto livro que ensinaria as crianças a ler a escrever errado.
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Esse livro, sobre o qual tantas mentes brilhantes despejaram esgoto puro, não existe. Inventaram um livro com o mesmo nome, com a mesma autora e imputaram a ele um conteúdo inexistente no livro original.
O livro massacrado não defendia a norma “inculta”. Apenas seguia recomendações do Ministério da Educação, em vigor desde 1997, de não desprezar a fala popular. Era uma recomendação para que os jovens alfabetizados, que aprendem a falar corretamente, não desprezem pessoas do seu próprio meio, que não tiveram acesso à chamada norma culta.
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No entanto um país que aspira a ser potência, conduzido por um tipo de jornalismo típico de países atrasados, caiu de cabeça na interpretação de que o livro ensinava a escrever errado. Criado o primeiro tumulto, personagens ilustres caíram de cabeça na versão vendida. O país inteiro repetiu a ficção criada, as melhores cabeças da mídia de massa embarcando em uma canoa furada, apenas repetindo o que ouviram falar.
SEM QUE UM SÓ TIVESSE AO MENOS LIDO O CAPÍTULO, deram o que lhes era pedido: condenações do livro e da autora, pela discutível vantagem de saírem em jornais e programas de TV… dizendo bobagens.
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De repente, uma professora séria foi achincalhada, ofendida, tornando-se inimigo público, merecendo longos minutos no Jornal Nacional.
Episódio semelhante ocorreu alguns anos atrás com uma professora de psicologia que fazia pesquisas sobre “redução de danos” – um tipo de política de saúde visando ensinar os viciados a não se matarem. Foram apontadas – ela e sua orientadora de 68 anos – como traficantes em blogs de esgoto de portais de grande visibilidade. Depois, essa acusação leviana repercutida no Jornal Nacional.
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Em alguns setores, o país vive momentos de trevas, de um atraso similar ao macartismo americano dos anos 50, como se toda a racionalidade, lógica, valores da civilização tivessem sido varridos do mapa. E tudo debaixo do álibi de uma luta política implacável, que ideologiza tudo, transforma qualquer fato em campo de batalha, escandaliza qualquer coisa, fuzila qualquer pessoa em nome de uma guerra que já não tem rumo, objetivo. É como um exército de cruzados voltando das batalhas perdidas e destruindo tudo o que veem à sua frente apenas porque aprenderam a guerrear, a destruir e, sem guerras pela frente, praticassem o rito da execução sumária por mero vício.
http://advivo.com.br/blog/luisnassif/o-escandalo-do-livro-que-nao-existia
O Amálgama bem que podia trazer alguém com um pouco masi de informação para discutir esse caso. Especiaklmente agora que ficou claro o absurdo de criticar o livro da Heloisa por algo que el não faz. O livro ´parte do reconhecimentod a legitimidade do falar popular para defender o aprendizado da norma culta, como bem mostrraam o Possenti e outros no estadão, a Folha e até O Globo, que começou a polêmica (o Wisnik mostra a inconsist~enciad as críticas, sem deixar de criticar a ideia de “precocneito linguístico”.
Lendo o que já saiu finalmente na grande imprensa, fica sem sentido a gracinha do artigo: “justificam e validam na escola expressões linguísticas do tipo: “Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado”. A julgar pelos critérios linguísticos e pedagógicos adotados na obra, corrigir ou reprovar erros dessa natureza seria incorrer em preconceito linguístico”. Equívoco completo, de quem se prestou a nfalar de um livro que não leu, e se baseou só nas primerias e equivocadas notícias de jornal.
Agora fiquei na dúvida sobre o venha a ser populismo. Esse exemplo foi o populismo mais impopular que eu já vi. A não ser que seja um populismo apenas para agradar a classe dos linguistas.
As leitores do Amálgama, segue entrevista com o professor Ataliba Castilho em que ele dá uma explicação bem didática sobre o tema. Essa questão é bastante tranquila para quem tem familiaridade com o assunto.
http://www.youtube.com/watch?v=DROHTF4iaiQ
Grande Sertão: Veredas não é escrito na norma culta, e é melhor do que qualquer obra de Machado.
Ao leitor e comentador do Amálgama:
Visando ampliar e, de minha parte digitar um ponto final à minha participação nesta página de comentário, transcrevo abaixo uma fração da matéria que amanhã postarei no meu blog. O leitor acaso interessado em conferir a íntegra da postagem poderá acessar meu blog cujo endereço consta do Amálgama.
Debatendo com o leitor.
Nota introdutória:
Tomei a liberdade de reproduzir abaixo parte do debate desencadeado pela postagem do meu artigo MEC e Populismo Pedagógico no blog Amálgama, 15 de maio de 2011. Considerada a repercussão do assunto na mídia, meu artigo provocou reações e críticas do leitor talvez sem precedente na história do meu modesto percurso como colaborador permanente do Amálgama. Se me decido a reproduzir parte da polêmica desencadeada pelo artigo, a que me parece mais aproveitável e ilustrativa do que aqui qualificarei de debate de ideias na Internet, faço-o baseado na suposição de que ela ambiguamente enriquece e desdobra a matéria considerada no artigo.
Um esclarecimento adicional ao leitor. Desde que passei a escrever para blogues, tive sempre o zelo de ler, ponderar e quase sempre discutir o que o leitor escrevia na seção de comentário. Essa atitude traduzia, antes de tudo, um ponto de vista ético que sempre pautou minha atividade como articulista. Ciente de que escrevo para o leitor, como de resto todos que o fazem, dei sempre importância aos termos da sua recepção, à forma como me lê e me traduz. Ademais, reconheço que em princípio a introdução da seção de comentário, via de relação direta entre o autor e o leitor, constitui em princípio um louvável espaço de democratização da cultura e do debate das ideias. O que todavia constato, passados tantos meses de discussão com o leitor, discussão que com frequência exige mais tempo e elaboração da escrita do que o próprio processo de fatura dos artigos e ensaios que posto nos blogues para os quais escrevo, o que ao cabo constato, reitero, é o pífio ou nulo proveito dessa forma de interação que, convenhamos, pouco serve ao legítimo debate das ideias.
Exponho sumariamente dois procedimentos recorrentes que me parecem invalidar ou corromper a intenção de quem intervém na seção de comentário inspirado pelo propósito de adequadamente praticar o exercício de democratização, de esclarecer e introduzir um pouco de ordem no caos das interações entre o autor e o leitor correntemente saturadas de mal-entendidos, predisposições tendenciosas, quando não pura e simples má fé. O primeiro procedimento parece-me derivar da incapacidade que tantos leitores revelam de ler no texto o que nele não se encontra. A documentação que abaixo transcrevo ilustra um pouco esta questão. Embora ressalte no corpo do artigo, também em várias respostas que postei, o fato de que todo sistema linguístico é composto de muitos estratos e variáveis decorrentes de classe, região e grupo cultural, para não falar das infinitas variáveis individuais identificáveis como idioleto ou estilo, vários comentadores, talvez sintomaticamente os mais agressivos e petulantes, insistiram em criticar o que não escrevi. Cuidei também de frisar que a língua é mutável e portanto se transforma através do tempo. Não bastasse a evidência acima anotada, frisei constituírem verdades comezinhas dos estudos linguísticos e mesmo das gramáticas normativas, pois não conheço nenhuma, por mais que se extreme no zelo normativo, que se atreva a refutar verdade tão elementar e encontradiça. Acrescentei ainda que a norma, seja ela qual for, não procede de nenhuma instância transcendental nem é investida de qualquer essência metafísica. As normas, não só as linguísticas, são uma criação humana, portanto mutáveis e corrigíveis.
O segundo procedimento consiste na confusão, não sei até onde intencional ou deliberada, do comentador que salta do plano do debate das ideias, objetivo primacial da seção de comentário tal como a entendo, para o da agressão pessoal. Isso fica patente, por exemplo, nos comentários postados por um certo Flávio. Por razões óbvias, não os transcrevo neste post de documentação polêmica do meu artigo. O leitor acaso interessado em conferir a procedência do meu argumento poderá consultar o tom petulante e ofensivo do que escreve, assim como o comentário de uma certa Carol. A julgar pela petulância com que presume corrigir minha ignorância, julgo apropriado conferir-lhe um sobrenome digno da excelência do seu saber linguístico. Vou assim identificá-la como Carol Saussure. Afinal, somente a tocante humildade intelectual dessa leitora, digna discípula do arrogante tecnocrata dos estudos da linguagem que é Marcos Magno, supostamente o guru de todos esses tecnocratas que se sentem investidos da autoridade de legislar para os néscios não linguistas o que é e o que se deve ensinar como sendo a língua portuguesa, só isso explica o prenome que nada traduz do seu gênio. Desdobrando o mesmo princípio, por que não passar a chamar Marcos Bagno de Marcos Magno (primor psicanalítico de lapso linguístico de Deonísio Silva em debate recente no programa Observatório da Imprensa) e Flávio, meu opositor mais ofensivo e grosseiro, Flávio Jacobson.
O que aprendi depois de tanto ruído e fúria que nada significam? Aprendi afinal a inutilidade de teimar em discutir com o leitor em nome da afirmação de um critério ético que bem poucos consideram: o critério da atenção e apreço que devo ao leitor, o outro polo da função comunicativa da linguagem que constitui uma dos sentidos do trabalho de quem escreve. Acredito ainda nele, do contrário, por que estaria ainda escrevendo? Mas acredito que a função comunicativa que nos associa se traduz acima e à margem da seção de comentário. Portanto, não mais escreverei uma única palavra nesta, salvo nos casos de correção de algum mal-entendido ou revisão necessária. Concluindo, doravante nada farei além de postar o artigo.Que o leitor o leia de acordo com sua inteligência, senso de discernimento, boa ou má vontade. O que sobrar, se algo sobrar, será de todos ou de ninguém.
Ao leitor: a adição que faço ao texto acima não é evidentemente uma resposta, mas um esclarecimento. Relendo a nota acima endereçada ao leitor em geral, constatei encabulado haver incorrrido em erros que logo cuidei de corrigir na versão definitiva que, como antes frisei, será postada hoje à noite no meu blog. Presto este esclarecimento em particular ao leitor que aparentemente me lê antes movido pelo propósito de desqualificar o que escrevo do que debater ideias com espírito isento. Observei inclusive, relendo minha nota acima, erros lógicos decorrentes da desatenção com que revisei o texto. Muito grato aos que, leitores isentamente críticos, cuidarem de cotejar o texto aqui postado com o que postarei no meu blog. Este, já ressaltei, é o que deve ser lido como texto definitivo.
Fernando.
Desenvolver um trabalho pedagógico partindo da realidade do aluno não é diferente em essência da proposta de Paulo Freire. É o que o livro em questão faz ao reconhecer a “fala” do aluno. O livro parte dessa realidade e prossegue defendendo, promovendo e ensinando a “norma culta” (norma padrão).
Para conferir, basta ler o capítulo do livro em questão: http://www.acaoeducativa.org.br/downloads/V6Cap1.pdf
Portanto, a premissa de Fernando da Mota Lima é simplesmente FALSA. Com o fito de atacar o MEC, Fernando deturpa as ideias do livro e fabrica um livro que não existe. Isto se chama “falácia do espantalho”.
Fernando: não fui o único que percebeu a desonestidade do teu texto. Diante das evidências, é muito descaramento você ainda querer insistir com a falácia.
Vamos resumir a ópera: O livro adotado pelo MEC, em momento algum, diminui a importância da “norma culta” ou enaltece o “erro”. Simplesmente aborda fatos: Existem variedades linguísticas, sendo algumas estigmatizadas, outras de prestígio social. De fato, devido ao preconceito linguístico (que, admitindo-se ou não, existe), os “erros” cometidos nas variedades estigmatizadas são vistos como erros maiores e mais graves do que os “erros” cometidos nas variedades de prestígio. Por exemplo, “os livro” é altamente criticado, pois está associado com baixa escolaridade, com baixo nível social. Entretanto, “o filme foi assistido por um milhão de pessoas” (colocar na voz passiva um verbo que exige preposição é “erro” crasso) é uma construção tolerada, pois é usada comumente pelos falantes de prestígio social. Entretanto, na verdade, não se trata de erros, mas sim de características de cada variedade linguística (SIM, FERNANDO, INDEPENDENTEMENTE DOS FATORES QUE MOTIVARAM A FORMAÇÃO DE UMA VARIEDADE, ENVOLVENDO AÍ A BAIXA ESCOLARIZAÇÃO, A ÊNFASE NA ORALIDADE, TRATA-SE DE VARIEDADE, COM SUAS NORMAS, SUA LÓGICA, SUAS FUNÇÕES E CONTEXTOS DE USO). Não é nenhum ataque à “norma culta” observar o fato de que algumas construções – pertencentes a outras variedades da língua – são plausíveis, reais e têm seu contexto adequado de uso. O importante é a escola ensinar a “norma culta”, mas, para isso, não precisa e não deve estigmatizar os falantes de outras variedades. E vejam que não sou petista nem estou defendendo o populismo pedagógico, senão simplesmente reconhecendo fatos. Amo as línguas, a portuguesa e a brasileira inclusive, e as considero – inclusive na sua variedade “culta” – patrimônios de valor inestimável.