De língua e linguagens

por Amâncio Siqueira

Uma das mais desconhecidas ciências da atualidade é a linguística. Muitos já ouviram falar dela, sem que, entretanto, deixem de lado as preconcepções e busquem saber o que ela tem a dizer. Alguns acham que tal ciência não merece essa classificação, e consideram que trata-se apenas de um pandemônio de indivíduos que não têm nada melhor para fazer que destruir a língua portuguesa. Outros acreditam que é apenas um estudo para simplificar a língua.

Primeiramente, o foco não é esse. Não se discute uma “simplificação da língua”. A língua portuguesa, assim como qualquer outra, é simples, pois tem inúmeros usuários que a compreendem diariamente. A linguística, ao contrário da gramática, não busca impor uma linguagem correta, mas estudar os fenômenos inerentes à linguagem. Camões, por exemplo, utilizava vocábulos como frecha, ao invés de flecha, que se tornou o correto para os gramáticos.

Toda língua possui regras. O fato de alguém usar tu/você é, nós é, vocês é, eles é, é uma regra de conjugação verbal com pouca variação dos lexemas e morfemas, inclusive o inglês a adotou em sua norma culta (you are, we are, you are, they are). É uma regra de conjugação válida como qualquer outra. Você já viu alguém escrever uma frase assim: assim frase viu escrever gostaria alguém saber de só uma já você?

As regras estão implícitas na comunicação, a sintaxe é comum a todos os falantes, que sabem a que sujeito se refere o verbo e quais os complementos que os acompanham. Não se trata de simplificar nada, mas de compreender que todos os usos que se fazem, desde que a língua sirva ao fim de comunicar, são válidos. Nenhum linguista defende o fim das gramáticas, ou da norma “culta”. Nas palavras de Evanildo Bechara, grande linguista, gramático e acadêmico da ABL, trata-se de mostrar ao usuário a possibilidade de ser “poliglota em sua própria língua”.

O estudante deve compreender que, assim como o inglês não é mais correto que o latim, ou o italiano que o alemão, a norma padrão não é melhor ou pior que as variedades regionais ou sociais. Estudar a norma padrão é importante não porque é melhor, mas porque é o norte para o texto escrito, aquele que deve ser compreendido por todos os usuários. A forma escrita da língua varia menos que a oral e tem menos regras, para que qualquer leitor possa compreender o que está no papel (ou na tela), enquanto na linguagem oral há muito de interatividade entre os falantes, que não se compreendem apenas pelas palavras, mas pela entonação, sinais faciais ou manuais et cetera.

Por fim, não se confunda língua portuguesa com norma culta, que é apenas uma das suas milhares de modalidades.

O que a linguística faz em relação à gramática é o mesmo que a psicanálise fez em relação à moralidade: deixou de lado o normatismo e a exigência de rígidos padrões e passou a estudar cientificamente os mecanismos internos, sem preconceitos. Os moralistas continuam considerando a paixão do filho pela mãe e da filha pelo pai como algo abominável, que sequer deve ser citado. A psicanálise sabe que tais fenômenos são comuns, os nomeia como Complexo de Édipo e Complexo de Electra e estuda como funcionam.

Sugiro a leitura de Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno. Você terá uma visão mais científica do que estamos discutindo e perceberá que o autor, a despeito de defender o fim do preconceito em relação às variantes não cultas da língua, expressa-se perfeitamente na norma padrão. Que é excelente para a escrita, mas péssima para contar piadas para os amigos no barzinho da esquina.

1 comentário | Dê sua opinião

  1. Flavio 27/05/2011 em 1:25 am

    Bom texto, Amâncio, simples e objetivo. Só para acrescentar que por “gramática” entenda-se “gramática normativa”, já que sempre há uma gramática, sem a qual seria impossível a comunicação nesse contexto. A gramática que usamos são as tais regras implícitas à comunicação. Uma criança de seis anos já possui uma gramática desenvolvida, uma vez que ele consegue reconhecer e usar com eficiência construções de sua língua materna. No que se refere ao ensino, esse é o ponto: você parte da gramática do aluno, reconhecendo que ele já é um usuário da língua, e o leva a enriquecer seu discurso com novas possibilidades expressivas. É a trilha percorrida pelo livro didático que foi alvo de ataques maldosos e equivocados na mídia e aqui no Amálgama.

    Uma leitura bacana também é o livro do Celso Pedro Luft, “Língua e Liberdade”, que trata exatamente do ensino de Língua Portuguesa. Esse livro tem quase trinta anos desde sua primeira edição, o que mostra que essa discussão não é novidade. O Luft ali já criticava o ensino “normativista” da Língua Portuguesa e apontava que o ensino deve ser informado pela Linguística. Não no sentido de “ensinar linguística” em vez de “gramática”, mas de o professor estar municiado com a ciência linguística para saber respeitar a vivência do aluno e conduzir melhor o processo de aprendizagem.

    Quando ainda não temos uma escola realmente inclusiva, em que as pessoas não só estejam dentro da escola mas também APRENDAM, a discussão sobre o ensino da Língua Portuguesa é muito pertinente. Ainda que o problema da escola brasileira não se resuma a aspectos pedagógicos.

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