Brasileiros, mais um esforço se quiserdes ser livres

por Raphael Douglas

(Esse é um texto utópico – infelizmente)

A frase do presente texto é uma paródia de um escrito do Marquês de Sade. Este deu tudo o que pôde intelectualmente para ajudar a derrubar o regime monárquico em seu país. Tendo visto e vivido o extremo sucesso do 10 de agosto de 1792, clamava prudentemente aos seus compatriotas que era necessário, ainda, um esforço para extirpar os vapores da monarquia que continuavam a infectar os ares franceses. A indecisão popular de como organizar a república, deu espaço para a retomada do poder central na figura de Napoleão em 1804.

O que isso tem a ver com o nosso país? Tudo. É hora de derrubarmos a nossa própria Bastilha. Temos ainda o recente exemplo das revoluções árabes que estão indubitavelmente mudando o mundo, derrubando os desmandos sufocantes de poderes centrais. A entrega vital daqueles povos deve servir para nós como um arquétipo de busca de liberdade (no sentido mais genuíno da palavra). Todos nós sabemos, e o célebre Sócrates já indicava isso, que a democracia talvez não seja o melhor dos governos. Calma. Não se trata de proposições ditatoriais e nem de uma proposta de algum império de poder central. Assim como o seu sucessor Platão, desejava ardentemente a presença de gente capacitada para gerir um regime de poder descentralizado. Qualquer um sabe que nosso pitoresco país nunca, eu disse nunca, foi governado por gente capacitada. Gente capacitada é uma espécie de raça superior? Não. Dizer que alguém é capacitado é dizer que é necessariamente letrado? De maneira alguma. Se assim fosse, o retórico e cretino Fernando Collor teria sido o melhor até então. O que ele fez? Se você for da minha idade (27 anos) basta perguntar ao seu pai ou avô quanto eles tinham na poupança quando o ilustre ex-presidente seqüestrou o dinheiro do Brasil.

É hora de pensar como as crianças. Logo, é hora de pensar como filósofos e indagar o óbvio. A luz da obviedade ofusca a compreensão mais profunda da realidade. É hora das questões simplórias. Que estas não sejam respondidas por especialistas em política e estatística. O império da ciência não é a salvação da totalidade do mundo. É hora de questionar os fundamentos! Quem é gente capacitada para governar? Gente capacitada é gente com olhar de progresso e alívio entre os desiguais socialmente. Gente capacitada é a que luta para que não paguemos impostos altos em qualquer bem de consumo, inclusive a água! Gente capacitada não desvia dinheiro de instituições públicas, não escraviza humanos em fazendas, não manda assassinar gente honesta, não desrespeita o meio ambiente, não enriquece com dinheiro público, não paga motéis de luxo para desfrutar de boas prostitutas com o dinheiro do contribuinte, não privilegia banqueiros, preocupa-se em minorar o sofrimento de comunidades carentes, não lava dinheiro em loterias, não utiliza a fé como fator de exploração financeira, não manipula a mídia, não se interessa que a população continue analfabeta. Gente capacitada enxerga a educação como panacéia de cura da burrice induzida. Os que são genuinamente capacitados a governar são aqueles que sofrem ao ver uma criança habitando as ruas e passado fome.

Um indivíduo capacitado a governar não é, sob hipótese alguma, acusado de sonegação fiscal, nunca é pego em falsidade ideológica, não nomeia laranjas para acumular riquezas ilícitas, nunca comete apropriação indébita, não se mancha com peculato, não é comparado a nenhum ser vivo parasitário como os sanguessugas, não comete improbidade administrativa, não sofre acusação de crime eleitoral, não compra voto com sacos de feijão e cimento, não declara imposto de renda falso, não comete crime contra a ordem tributária, não empreende crimes contra o consumidor e nunca precisa passar pela inquisição de uma CPI.

Essa lista de obscuridades comportamentais é infinita? A prática da corrupção no Brasil será eterna? Ficaremos eternamente passivos diante dessa realidade?

* * *

Nós não temos uma boa e saudável constituição social no Brasil. Estamos morrendo como indivíduos e apodrecendo enquanto coletividade. Os políticos corruptos são um despautério constante e permanecem rindo grotescamente em nossas caras. Nossa macropolítica é um equívoco. Mas está tudo globeleza! E nós não fazemos nada! Eu me sinto um indivíduo apático. Apático é um indivíduo sem paixões (apátheia). Mas há paixões que começam a amotinar o meu espírito (e sinto que de muitos ao meu redor). Tenho sonhado cada dia com o tempo em que marcharemos juntos nas ruas do Brasil tal qual fizeram muito recentemente seres humanos ávidos por liberdade no Egito e na Líbia. Sonho com o dia em que expulsaremos não um só ditador, mas centenas de pequenos coronéis que me fazem ter a infeliz vontade de sair desse lindo país que não se livra da metástase da corrupção. Por todos os deuses se eles existem! Que prazer incomensurável seria poder ver punido em praça pública um político acusado de escravidão ou outro que desvia dinheiro de merenda escolar. Que imagem de beleza incomparável o congresso nacional “incendiado” com todos os corruptos “enforcados” lado a lado. Mudaremos um dia?

* * *

A capital política do país é longe de tudo e de todos. Imagem mor do estado burocrático no qual agonizamos. Marchar até lá é de uma dificuldade sem precedentes. Mas por que não fazê-lo? Seria estúpido parar o país? Congelar a produção e decretar estado de crise? É hora de proporcionar um curto-circuito na identidade brasileira. Só uma crise nos fundamentos para abalar o edifício das mentiras que nos fazem engolir. É hora de esquecermos um pouco as individualidades egóicas e marchamos. Sim, marchar! Com que objetivo? “Assassinar” toda uma geração de frutos podres que cometem toda sorte de manobras pusilânimes com o meu e o seu dinheiro. Marchar até Brasília e levar o caos público e financeiro, sim. A pé, com carros, animais de tração, avião, seja lá como. É hora de cobrar salário zero aos políticos. É hora de arrancar do poder o vereador ladrão e no lugar dele nomear gente que serve sopa nas madrugadas do Brasil. Prefeito é aquele que ama a cidade em que nasceu e só! É hora de enxergar o óbvio.

É hora da percepção infantil. É hora de exigir uma porcentagem efetivamente grande do PIB nacional para que seja aplicado na moribunda e sucateada área educacional. Um professor do estado brasileiro, assinalou muito recentemente a professora Amanda Gurgel, sofre como um burro de carga para tentar desesperadamente educar quem não recebe a mínima estrutura educacional. É hora de usar todo o potencial financeiro e natural desse famigerado país para tirar das ruas quem passa fome. Esse discurso não é o sentimento de um adolescente líder de uma banda punk. É um desabafo espiritual de um cidadão que analisa friamente os fenômenos que o rodeia. É hora de educação política. É chegado o tempo da desalienação. É o momento de purificar os ares pútridos e fétidos da política que manda e desmanda nessa terra maravilhosa.

Quem daria a vida por uma prática política honesta? Quem seria, hoje em dia, capaz de morrer por seus iguais e por gente que ainda nem nasceu? Quando políticos ruralistas vaiam a morte de um ambientalista que deu a vida pela proteção dos nossos bens naturais, é porque estamos numa época de profunda e bizarra anomia. É hora de suspender a moral e mandar o jeitinho brasileiro para o espaço! Se esse texto é uma utopia pré-adolescente? Espero que sim. Ao menos não corro o risco de estar fora de intenções inocentes, que são as verdadeiramente genuínas.

6 comentários | Dê sua opinião

  1. Flavio 31/05/2011 em 5:05 pm

    Raphael, é verdade que Fernando Collor foi um cretino que confiscou a poupança dos brasileiros. E pode até ser supreendente para você, mas mesmo tendo sua poupança assaltada, meu pai foi contra o impeachment do Collor. Como assim, contra?! Pois é. Num primeiro momento eu fiquei puto com o meu velho e não entendi a posição dele. Mas meu pai me explicou: “o Collor está caindo porque não tem apoio no Congresso, esse é o verdadeiro motivo. Esse impeachment é um golpe que abre um precedente perigoso para o País”. Dito e feito: no primeiro mandato do Lula, a grande imprensa caiu de pau tentando derrubar o Lula por ocasião do chamado “mensalão”. Só não conseguiu seu intento por conta da grande popularidade do Lula, que a mídia monitorava em base diária. Mas que tentou, tentou. Golpe, meu querido. Verifique como atuou a grande imprensa brasileira no golpe de 64: é a natureza do escorpião. Sinto dizer que os meninos das caras-pintadas de boas intenções foram manipulados. Mas concordo contigo, não se deve perder a capacidade de se indignar, e sobretudo devemos saber amadurecer sem sucumbirmos ao cinismo. Só não dá para ser ingênuo. Vamos em frente.

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    • Raphael Douglas 01/06/2011 em 2:34 pm

      Simplicidade de questionador sim, ingenuidade não. Já dizia um grade mestre: “a política opõe-se à moral assim como a filosofia à ingenuidade”.

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  2. Ewerton Monteiro 01/06/2011 em 12:09 am

    Vergonha, é o que dá desse Congresso, vergonha! Em prol de seus Lucro$ fazem tudo, passam por cima de todos.

    :(

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  3. Clemer 03/06/2011 em 11:47 am

    Ótimo texto, uma repleta oração. A alienação vigente, empreendida e monitorada, faz com que essas perspectivas sejam para além de utópicas, sonhadoras. O impossível não está na atitude em si de se entregar, morrer por algo, e principalmente quando falamos do inconsciente coletivo, onde mora justamente essa passividade dos brasileiros. Vivemos um transe, um coma induzido, e a urgência da situação impede estratégias por parte dos entrincheirados, que acredito não serem poucos. Estravaso também aqui minhas utopias: Penso que capacitados e ingênuos poderiam caminhar para formação de escolas socialistas, entregar uma pequena parte da vida por elas, afim de impedir que este ciclo vicioso metastático se interrompa, e então poderemos ver mais perto da realidade este sonho, pelas mãos das futuras gerações. Unidades de formação, aglutinação, troca de experiência, debate e ação. Talvez as coisas caminhassem mais rápido do que imaginamos, e consistentemente. Capitalismo e suas consequências não são apenas um sistema, é antes de tudo, RELIGIÃO… é uma arte às avessas, com todos os seus mitos, que precisam ser desconstruidos já na sua raíz. Vamos tomar forças!

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  4. Flavio 03/06/2011 em 9:52 pm

    Se você está indignado, buzine

    Desde a minha majestosa laje em Pinheiros, estendo o ouvido e o que predomina ao fundo são brados e brados de indignação cívica contra tudo isso que está aí. Afinal, essa é a época dourada para quem sente que o mundo está perdido e que tem justamente a solução pra desentortar o pepino, não? Nossa época, estimados leitores, apresenta o indignado ao trombone, hoje, na forma poderosa das redes sociais que nos invadem. Você sente algo que o mundo precisa saber? Sem problemas, basta tuitar que a galáxia escuta. Tem a cura para a paralisia mental que assola o planeta? Um mail enviado para as pessoas certas – todos os milhões delas que nunca viram você mais gordo – e pimba, suas ideias estão espalhadas – mesmo que nem todos apreciem spams -, exceto os tão importantes quanto os seus.

    Agora, de que serve essa explosão demográfica das expressões de ira? Sua raiva incontida por todos aqueles políticos que você também ajudou a enviar a Brasília muda alguma coisa? Sua incapacidade de ler com calma até o final o que está escrito ou falado diante da você auxilia a quem quer que seja na tentativa de construção de algo parecido com um diálogo? Você lê depois, ou antes de ler?

    Vocês devem ter notado que nos últimos tempos, o sujeito nem abre a boca e já vai apanhando de algum lado. O problema não é a crítica. A gente pode criticar o quanto quiser e o que quiser, mas isso significa que a gente deve justificar essa crítica, e não simplesmente partir pro descalabro por hábito. Eu recebo emails dizendo, por exemplo, “Essa sua coluna foi a coisa mais idiota que eu li nos últimos tempos”. Ok, deve ser. Mas, quantas coisas idiotas você leu nos últimos tempos, para eu poder avaliar a com o que eu estou sendo comparado, pra começo de conversa?

    A intenção da democracia é podemos trocar idéias sem bordoadas, o que nos permite compreender melhor o que nos cerca. Mas abrimos mão dessa riqueza em troca de uma indignação imediatista e empobrecedora. Você provavelmente não faz idéia do que realmente esteja acontecendo lá no distante Pará, mas é a favor ou contra Belo Monte. Se for ambientalista, é contra. Se for desenvolvimentista, é a favor. Na verdade, você precisa de eletricidade tanto quanto eu, mas está disposto a um real debate sobre o tema? Está preparado para discutir nuclear versus hidro, versus biomassa, versus solar ou eólica?

    A corrupção no Brasil atingiu níveis sem igual e você quer colocar fogo no Congresso. Você compara o Brasil com o que, como, a partir de quais referências? Nossas escolas públicas são um desastre. Mas desastre mesmo era o Brasil sem elas, ou o Brasil de até uns 20 anos atrás, não? Por outro lado, se você quiser discutir mesmo o retorno que esse caro e ineficiente sistema educacional oferece em troca do que a sociedade nele investe, você vai ter um debate ou vai ser vítima de uma crucificação?

    Eu vivo em uma república laica. Tá lá na Constituição, podem ver. Então por que eu, ou meu governo, precisamos dar bola pra indignação daqueles pastores e bispos todos berrando com uma bíblia na mão? Você está preparado para discutir de verdade a homofobia, o aborto, o casamento gay, a produção de etanol ou de comida, a liberação da maconha ou do diesel com menos de 50 ppm? O que significou de verdade o regime militar? O horror dele nos livrou do projeto dos stalinistas para o país? Que custo pagamos por essa liberdade? Havia uma real alternativa? Sermos governados por vinte anos pelos amigos do Bolsonaro representou um custo menor do que o de uma ditadura stalinista?

    A Argentina sabe o custo que pagou para se livrar da sua ditadura e ele foi o de perder a guerra das Malvinas. Nós somos capazes de fazer a nossa contabilidade? Você é?

    Eu li, e faz sentido, que os indignados usam a sua indignação como forma de superioridade moral. Algo como, “Sou um cidadão melhor, um homem superior porque sou contra isso tudo que está aí. Não assino em baixo e reclamo, mesmo que para o vento”.

    O fato é que gritar é moleza, enquanto fazer algo que funcione se torna a coisa mais difícil do planeta. Se você tem realmente algo a dizer, provar, sugerir, com metas, métodos e capacidade de reflexão embutidos no seu pensamento, seja muito bem-vindo ao mundo. Se tudo que você tem é uma buzina, por favor, mantenha distância. Já sabemos da sua existência, escutamos o som que vem daí e ele, por não propor nada de útil, mas abusar do volume não é, não poderia ser bem-vindo em qualquer lugar tão apreciador do que é sensível e sensato quanto as nossas vidas deveriam ser.

    Marcelo Carneiro da Cunha, de São Paulo
    http://advivo.com.br/blog/luisnassif/a-indignacao-constante-dos-nossos-dias

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