Serra e Bolívia – Kirchner ou Imperador?
por Sergio Leo * – Para começo de conversa, gosto do José Serra. Onde as pessoas veem antipatia vejo um senso peculiar de humor; e o considero um sujeito inteligente, decidido, competente, combativo. Uma das principais vitórias da diplomacia brasileira, a decisão na OMC de permitir quebra de patentes de remédios em caso de necessidade de saúde pública, teve o ministro da Saúde José Serra como um dos responsáveis (assessorado pelo brilhante diplomata José Marcos Nogueira Vianna e tendo Celso Amorim como negociador em Genebra). Dito isso, comento: o candidato Serra vem pisando nas próprias bolas em comentários sobre política externa. Não fala como potencial presidente, mas com a irresponsabilidade do populismo eleitoral.
O pronunciamento de Serra sobre fazer o Mercosul regredir de União Aduaneira mambembe para Área de Livre Comércio tem base em opiniões de diplomatas respeitáveis e empresários paulistas, principalmente. É um equívoco, mas demandaria outro post. Vamos falar só de Bolívia.
Não é a primeira vez que Serra faz declarações depreciativas sobre a Bolívia; no passado já insinuou que o Brasil nada tinha que ver com as questões bolivianas, como se não governasse um Estado onde é gigantesca a imigração ilegal de pobres da Bolívia explorados por máfias têxteis e similares. Agora, acusa um governo vizinho de “cúmplice” do narcotráfico.
Das duas uma: ou, se eleito, pretende adotar a linha dura que os EUA (sem sucesso) adotaram na Colômbia; ou imita o governo Kirchner na Argentina, e está se lixando para as relações internacionais do país, de onde pretende apenas tirar dividendos para a briga política interna. Anuncia-se como encrenqueiro onde o país vinha baixando o grau de radicalismo dos inexperientes governos da vizinhança.
Culpar o governo boliviano pelo narcotráfico é uma maneira simplória de enfrentar o problema grave, policial e político do vizinho. E é estranho isolar a Bolívia, quando se sabe que a maior parte da cocaína exportada da região andina ao exterior sai da Colômbia e do Peru. Mesmo tendo crescido a produção de coca boliviana, a Colômbia ainda é campeã nesse terreno.
Evo Morales é, ainda, presidente do sindicato dos produtores de coca. É cocalero, ou se considera como tal. Isso é um problema. A enorme produção de coca da Bolívia claramente não se destina, na maior parte, ao uso tradicional, milenar da folha do arbusto Erythroxylon coca. Não há uso da agricultura boliviana (ou mundial) mais lucrativo que produzir para o tráfico. Evo extrai dos cocaleros apoio político e social e tem simpatia da sociedade indígena, que pode ser vista em qualquer ocasião pública com as bochechas cheias da folha, mascando a coca que, nesse caso, não tem efeito alucinógeno.
Seria difícil a Serra e qualquer um defender a repressão violenta e sem trégua aos publicitários, executivos, artistas, intelectuais e demais usuários da cocaína, que são o motor último do tráfico. Da mesma maneira, não é razoável esperar que qualquer governante boliviano decrete a repressão cega ao plantio de uma folha que os aymarás já plantavam quando os espanhois chegaram plantando-lhes chumbo na testa.
É coisa que mexe com a população indígena, com setores importantes da Bolívia, há que se ter cuidado. A política de erradicação do plantio não tem o êxito que seus planejadores previam. É preciso forçar Evo a deter a expansão da coca, mas não se faz isso com declarações para a mídia, nem para os eleitores de classe média.
Não há qualquer achado policial que ligue Evo Morales ou seus aliados próximos ao tráfico de cocaína. Na vizinha Colômbia, uma quantidade surpreendente de políticos ligados a Álvaro Uribe, incusive seu chanceler, foi flagrada em relações íntimas com as milícias de direita, entranhadas no tráfico — tanto quanto as esquerdistas Farc, aliás.
Relatórios da ONU mostram empenho do governo da Bolívia em reprimir o tráfico (não o plantio de coca, que, para alarme da polícia, vem crescendo). Evo tem pedido ajuda até à Rússia, e assinou convênios com a Polícia Federal brasileira que permitem trânsito de policiais pelo território boliviano na repressão aos traficantes.
Fazer acusações sem provas e eleitoreiras como as feitas ontem por Serra só minam a possibilidade de cooperação com países de política complicada e desconfianças pesadas contra a hegemonia brasileira. O governo já vem brigando e cobrando de Evo ser mais afirmativo no combate ao tráfico e é evidente a necessidade de evitar ampliação do plantio de coca, mas não só. A Unasul tem uma iniciativa dedicada exclusivamente ao tema, não só com a Bolívia, mas com os outros grandes produtores também.
Essa é uma diferença importante entre candidatos ao próximo governo. O Brasil não tem de disputar hegemonia no continente. Já é hegemônico. Economicamente, comercialmente, empresarialmente, cientificamente, militarmente. Isso causa apreensão e desconforto entre os vizinhos. Uma maneira de exercer o soft power sem acirrar oposições é o que certos críticos equivocadamente confundem com excessiva generosidade do Brasil em relação aos vizinhos (coisa, aliás, que Fernando Henrique Cardoso já fazia; foi ele quem determinou a construção do gasoduto boliviano, e quem ajudou Chávez com a Petrobras quando houve greve política na PDVSA).
Agir no estilo Roosevelt, com o big stick, dando paulada em quem incomoda, não é uma estrtégia muito sábia para o Brasil.
Há, às vezes, mal entendimento da parte dos vizinhos sobre os limites da “generosidade” do Brasil, e há genuína vacilção no governo sobre o que fazer nesses casos — o Itamaraty, em geral, é mais condescendente, e outros setores, como a Fazenda e o Desenvolvimento, mais na inha bad guys. Quando o Equador ameaçou não pagar o BNDES por uma derrapada de uma empreiteira brasileira lá, levou uma tunda e botou o rabo entre as pernas. Quando a Argentina abusou no protecionismo, houve luta surda no governo brasileiro e o Desenvolvimento, vitorioso após algum tempo, retaliou retendo exportações argentinas ao Brasil, forçando um (pequeno) recuo.
Há razões para criticar ações de política externa brasileira, mas quem for sério deve se lembrar que a diplomacia é a arte de não dizer não, e de discordar concordando. Raramente transformar desentendimentos em espetáculo, apelando ao Fla-Flu, é a coisa iteligente a se fazer. E Serra, nesse terreno delicado, tem se movido com patas de rinoceronte.
* Sergio Leo, Brasília-DF, é escritor e jornalista. Blog: verbeatblogs.org/sergioleo.
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Pois é, rapaz, as lideranças da Colômbia estão enredadas com o tráfico mesmo, e não apenas com o plantio. Mas eles são amigos da Hillary. Bater no peixe pequeno do Evo rende mais elogios nos editoriais.
Às vezes é difícil saber o que se passa pela cabeça de um DemoTucano… As respostas fáceis são, infelizmente, impublicáveis neste espaço. Mas não estão tão longe da verdade!
Serra entende tanto de diplomacia quanto Celso Lafer de dignidade (foi a figura que, como ministro de relações exteriores, se humilhou e ao Brasil ao tirar os sapatos para entrar nos EUA). Isto diz muito. E, para bater em Lula, Dilma e no PT resolveu atacar… a Bolívia!
Programa eleitoral? Pra que? Vamos atacar países amigos, aliados, e esperar os lucros!
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O Sergio Leo é uma mala sem alça e não mereceria estar publicado no Amálgama. Destila preconceito em relação ao Mercosul, ainda banca o cool, moderninho. Desprezível.
Em relação aos medicamentos, não houve quebra de patente. Houve um acordo comercial de pagto. às farmacêuticas. Pena não encontrar o documento neste exato momento, que explica o que houve em relação a isso.Fico devendo.
Ia esquecendo esse detalhe, a Cátia tem razão em deixar clara a questão das patentes (o uso do cachimbo entorta a boca; eu que evito usar a expressão no jornjal, escorreguei nela no blogue). Pelo acordo firmado recentemente, o país não “quebra” a patente se autorizado pela OMC; mas ganha o direito de usar medicamentos protegidos por patente sem necessidade de pedir auorização ao detentor dela. O dono da patente recebe os direitos mas é obrigado a dar uma espécie de autorização compulsória para fabricantes de genéricos, por exemplo.
A turma simplifica falando em quebra de patente. Acabei entrando nessa para simplificar também, já que não era o tema principal do post… Mas mereci puxão de orelha.
A mais triste posição de um político não é a de esquerda ou direita, é a de oportunismo ou de sobre muro
Serra, político, é dessa pequenez. Como médico, é uma decepção ainda maior, pois que não cuida nem da própria insanidade. Declarações como esta não cabe a um sério governante.
E o Lula é que era grosseiro? Por isso tem 80% de aprovação! Viva o Brasil!
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Pois eu adorei a declaração de Zé Serra:é isso aí!! Como é que um presidente cocaleiro vai trabalhar contra? Acho que a nossa bancada do tráfico é que se assustou. Porque ela existe, né???
Só Lula e a Dilminha Stella é que, prá variar, de nada sabem!!
Cá do meu canto, tenho de concordar com a Cátia num ponto: além de ser uma mala sem alça, eu não mereço estar no Amálgama; mas o Daniel achou que sim, queria variar um pouco, quem sou eu para contrariar. Fico grato e honrado, fazer o que.
Já em relação ao mercosul, preconceito só se for a favor. Quem lê minhas colunas no valor ou meu Sítio deve saber da minha clara simpatia com o Mercosul e o projeto de integração regional. Infelizmente por vários motivos, não conseguiu nem sequer a integração numa união aduaneira, com tarifa comum para terceiros países e livre circulação de bens entre os sócios. Serra, alguns analistas e empresários acham que a saida é detonar tudo, acabar com a tarifa externa comum largar os sócios na estrada. Eu acho que isso seria uma confissão de fracasso regional e ciaria problemas para empresas brasileiras, além de ser um passo atrás na difícil integração política e cultural do Cone Sul.
Essa de bancar o cool e moderninho é nova para mim. Sinto que pintou um clima. Obrigado Cátia.
Estamos vivendo tempos hipócritas em que tudo ou é cerceado pelos agentes reguladores governamentais ou é rotulado disso ou daquilo pelos chatonildos do ‘politicamente correto’. Falar a verdade virou protocolo, uma frase passa por diferentes processos: tem que ser dita, explicada, digerida, expelida, credenciada… Chega! Serra falou a verdade e ponto. Esse esquerdismo nauseante de ‘nuestros hermanos’ aqui e ali é revoltante. Nada mais pode ser dito sem ser atribuído ao fato da disputa presidencial. Evo Morales não é só fiel depositário dos ‘narco’ como também um projeto mal-ajambrado de ditador nos moldes de seu novo ídolo, o também repugnante Hugo Chávez… Só PT-débeis acham tudo isso salutar. Isso é doentio, asqueroso. Crianças nestes países ajudam os pais a colher e refinar coca… Não me venham com essa de que isso é problema interno de cada país, é cinismo demais… Pessoas morrem todos os dias por consumo, traficantes executam policiais ainda jovens sem direito a ver os filhos crescerem, isso tudo deriva do que então, senão das vistas grossas que se fazem da droga que entra e sai do país? José Serra é o homem mais lúcido neste país quebrado moral e intelectualmente, só por isso ele já é Presidente, já esse outro, o ‘Mula’ vai entregar a casa uma bagunça…
Nielson, você mora no Brasil? Leu a matéria? Está familiarizado com os fatos citados? Verdades e meias-verdades são bem diferentes, como bem colocou
o autor do texto:
“Seria difícil a Serra e qualquer um defender a repressão violenta e sem trégua aos publicitários, executivos, artistas, intelectuais e demais usuários da cocaína, que são o motor último do tráfico. Da mesma maneira, não é razoável esperar que qualquer governante boliviano decrete a repressão cega ao plantio de uma folha que os aymarás já plantavam quando os espanhois chegaram plantando-lhes chumbo na testa.”
Se quer falar a verdade, fale primeiramente dos próprios aliados, como o Uribe e a classe média que financia o tráfico.
” …a decisão na OMC de permitir quebra de patentes de remédios em caso de necessidade de saúde pública, teve o ministro da Saúde José Serra como um dos responsáveis (assessorado pelo brilhante diplomata José Marcos Nogueira Vianna e tendo Celso Amorim como negociador em Genebra).”
Já ouvi várias vezes que o Sr. J. Serra legislou em causa própria após fechar um acordo com a então pequena EMS.
Conheço gente que trabalha na EMS e que jura de pé junto que o Serra tem participação nos lucros e/ou é um dos donos da empresa.
Gente que trabalha muito e ganha mal se compararmos os salários praticados nas empresas concorrentes.
Se for verdade o que dizem, a coisa é realmente feia!
Mas não tenho provas, como não tenho provas a respeito dos contratos de concessão que permitem a cobrança de pedágio nas principais rodovias do estado de São Paulo (e, óbvio, do restante do país) e de quem lucra com isso (quem será, né?).
Mas é fantástico pensar em um país que, de certa forma, torna suas principais rodovias públicas negócios de natureza privada nas mãos de uns poucos…
E que, com o mesmo golpe, limita o direito de ir e vir do cidadão brasileiro criando uma nova sociedade feudal!
Mas basta pesquisar “Serra EMS” no Google e você encontrará coisas assim:
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http://blog.contrapauta.com.br/2006/10/10/midia-ajuda-o-psdb-e-esconde-passado-de-barjas-negrio-papel-do-irmao-de-negri-na-ascensao-do-laboratorio-ems/
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O que eu sei é sobre a sabotagem que a educação e a classe dos professores está sofrendo no estado de São Paulo, sem falar no Brasil e, hmmm, no mundo!
Como professor da rede pública não vejo como votar nesse senhor!
Agora, antes que me chamem de petista, quero deixar claro!
Nem a tal da Dilma e nem o tal do J. Serra merecem o meu voto!
Mas e daí?
Grande m&rd@ o meu voto!
O jogo de cartas marcadas aí está, nessa balela de “democracia” que nos enfiam goela abaixo…
Grande coisa, não?
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Desculpem!
“O que eu sei é sobre a sabotagem que a educação e a classe dos professores estão sofrendo no estado de São Paulo, sem falar no Brasil e, hmmm, no mundo!”
Perdoem-me por outros erros que talvez não tenha visto.
Infelizmente, o candidato pisa feito um mamute fora de época, age irracionalmente com a política externa. O que reza em nossa Constituição,na qual diz: “unir a América Latina solidariamente e fraternalmente” em seus primeiros primeiros artigos, Serra rasgou literalmente a Carta Magna, da qual juraria cumprir. Agora, hoje, está defendo a Colombia, veja quanta inversão nas palavras do Sr. Serra. Não faça como tolo que fala bobagem e destrói a sua própria plantação.
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