21–05–2010

Ridley Scott e seu Robin Hood


por Ana Al Izdihar – Você saberia dizer o que Gladiador, Thelma e Louise e Blade Runner têm em comum? Certo! O diretor Ridley Scott. Mas já se perguntou ou percebeu o que esses filmes e personagens têm em comum? A princípio parecem extremamente diferentes entre si, inclusive o são no geral, mas olhemos mais de perto…

Ridley Scott é um inglês formado em Artes, e por isso defende a arte mais tradicional, digamos assim, fazendo questão de usar atores com boa formação e reputação teatral. Mas também por ter tido uma família de fortes ligações com o exército, mostra em seus filmes seu conhecimento de estratégias de guerra aliado ao seu perfeccionismo em recriar ambientes históricos.

Podemos então perceber que suas cenas de luta e batalhas são geralmente estonteantes. Para dar mais liberdade de encenação aos atores, usa bastante o recurso de duas câmeras em posição V, para não atrapalhá-los com tantos cortes. Entre outros traços, as narrativas de Scott mostram também: personagens femininas fortes, closes de personagens com o rosto ou corpo perto do chão (indicando reverência, como os antigos soldados), cenas amplas de paisagens. Alcançou o privilégio de ter o director’s cut, ou seja, ele pode dar a palavra final na edição de seus filmes. Ele mesmo desenha seus storyboards (desenhos que ajudam na composição de cenas). Veja este de Robin Hood [em cartaz] quando subir os créditos: são bem bonitos!

Na minha opinião, Scott é um dos diretores de nossa época que reinventa o épico cinematográfico – tão explorado por Cecil B. Demille, por exemplo – tanto tecnicamente quanto no enredo. Quando falamos deste último, sua preferência é pela narrativa clássica da jornada do herói: um homem admirável, que leva sua vida honestamente e desempenha sua função na comunidade como lhe é pedido, às vezes com um toque a mais de inteligência, solidariedade ou qualquer outro traço que o distingue dos demais e/ou vai ajudá-lo mais tarde. Porém, como todo herói clássico, há algo em sua personalidade – a ingenuidade ou o desconhecimento de alguma verdade – que ele precisa desenvolver. Assim seu destino sofre um duro golpe – um desterro, morte de entes queridos, uma injustiça, ou traição – que o fará sair para jornada em busca desta verdade que resgatará a paz em sua vida. E durante o processo ele sempre acaba aprendendo e crescendo mais do que esperava. Sua recompensa final é, além de resgatar o equilíbrio perdido, um bônus: um novo amor, maior prestígio ou posição, uma herança.

Você já deve ter reparado isso nos filmes de Scott, mesmo que o final não seja literalmente feliz, com casamento ou coroação. Em Thelma & Louise o final é trágico e pessimista, mesmo que entendamos que as moças aprenderam muitas lições e tão profundas na verdade que é impossível que elas voltem para o mesmo mundo de antes. Em Blade Runner nem precisamos dizer que, independente de Deckard terminar ou não com Rachel (a andróide), ele é sacudido de uma ingenuidade que acreditava não ter e o final não deixa de ser sombrio. Em Gladiador, o valoroso Maximus, traído e humilhado, se entrega de corpo e alma à busca da verdade que salvará toda uma nação. Sua existência é uma lição para todos e a sua crença em algo maior – reencontrar sua família nos Campos Elíseos – o torna um herói eterno.

Em Robin Hood, o Robin Longstride de Riddley Scott abarca todas as características do herói clássico. É aquele que mesmo quando parece enganar, está sendo honesto. Seus princípios morais e sentido de justiça estão profundamente arraigados no inconsciente e vão aflorando na medida em que usa sua experiência para ajudar a comunidade. Ao fazer isso, descobre mais sobre si mesmo e seu passado nebuloso. Só que desta vez vemos o herói terminar uma jornada no começo do filme e começar outra no final! Golpe esperto de Scott para não ser repetitivo ao contar a história de Robin Hood, já contatada inúmeras vezes no cinema.

-- Russel Crowe como Robin Hood --

O enredo de Scott se passa durante a volta de Ricardo Coração de Leão das Cruzadas, dada como sendo em 1122. As lendas verdadeiras de Robin Hood narradas nas baladas de menestréis mais antigas datam somente a partir de 1200, ou seja, depois do que narra o filme. Robin era um nome muito comum na época, quase como para nós o “Raimundo”. E Hood (the hooded man, ou seja, Robin “de capuz”) poderia tanto ser um apelido ou um sobrenome – como seria o nosso “da Silva” –, porque homens simples usavam muito o capuz naqueles tempos. Então como saber quem era um tal “Raimundo da Silva” que era contra a tirania dos poderosos, que teria sido usurpado e se tornou um saqueador e um fora da lei? Impossível saber ao certo!

Portanto, chegamos a uma das características mais vibrantes dentro do estilo de Ridley Scott: ele é um exímio manipulador da verossimilhança! Suas reconstituições históricas são impecáveis em detalhes, mas não deixam de ser ficção, obviamente. Os detalhes das batalhas e de como era o cotidiano na Idade Média são realmente muito enriquecedores. Como ele mesmo já disse: “I’m a moviemaker, not a documentarian. I try to hit the truth” – “Sou um cineasta, não um documentarista. Tento atingir a verdade”.

Esse é Riddley Scott, sua arte e sua mais recente obra. Ame-o (e veja-o) ou deixe-o.

TRAILER

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| 4 comentários | Dê sua opinião ↓ |
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  1. Blog Arlesophia (21–05–2010 5:27 am)

    #ultimas Amálgama: Ridley Scott e seu Robin Hood http://tinyurl.com/38ddn93

  2. Paulo Cesar (24–05–2010 10:11 am)

    Creio que há um engano na sua apreciação sobre Blade Runner. O filme não se encaixa em nenhuma das posições comparáveis aos outros filmes. Atualmente Scot faz uso excepcional dos detalhes de sm e iluminação, tornando as cenas dramáticas. Não importa mais a história ou estória, ele encontrou uma posição de conforto para si próprio. Não é ativo como Scorcezi, que ainda pesquisa, cria, recria, tem uma elegância natural em pesoa e nos filmes, passa as idéias de uma forma não agressiva e, no entanto, é autor de filmes de realismo fant´stico e extremamente violentos, mas que o espectador não pode perceber, pois ele cria algo que vai estourar apena dentro de lgumas cabeças. O resto dos diretores nõ trbalha mais, com exceção a San Mendes. Mas Scot perdeu a credibilidade, na minha opinião, quando fez o Gladiador. É um filme sobre o nada, sobre a desimportância do nada, um filme para a seção da tarde e nenhuma coisa mais, na minha opinião. Porém, Blade Runner tem uma caraterística diferente. Ele inova na apresentação de tudo. Tudo o que ele faz, em 1985 é inovar a linguagem cinematográfica, criando novos tipos de seres, com novas funções, com sentimentos, sugerindo um mundo perto do qual estamos hoje, o inchaço social, a tendência do tempo se manter sob efeito estufa já instalado, e o fato, para quem desejou ver, que ele também é um replicante, igualzinho a Rachel. Gera aí a dúvida, que poderia ter virado um novo filme, ou não. Mas faz pensar lá pra frente, que é o hoje, e que se aproxima, rapidamente, do amanhã, tráfigo. Desculpe, portanto, mas creio que sua tese mistura coisas independentes. Algo como comparar Pulp Fiction a Amor à Queima Roupa, primeiro filme de Tarantino…

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  3. Ana Al Izdihar (24–05–2010 8:29 pm)

    Olha, Paulo Cesar

    eu tive bastante dificuldade em entender seu comentário, mas vou tentar te responder com aquilo que consegui entender.

    Acho que foi você que não entendeu o que eu quis dizer sobre pontos em comum entre os filmes de Scott. Eu falei sobre o que há em comum nas narrativas e não nos roteiros.

    Mas compreendo o que você quis dizer com alguns diretores se tornarem “funcionários públicos” do cinema…

    Se gosta de Scorsese, leia também minha resenha sobre Ilha do Medo

    Obrigada por comentar

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  4. Trin (1–06–2010 6:12 am)

    Adorei o Robin Hood do Scott.

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