Ridley Scott e seu Robin Hood
por Ana Al Izdihar – Você saberia dizer o que Gladiador, Thelma e Louise e Blade Runner têm em comum? Certo! O diretor Ridley Scott. Mas já se perguntou ou percebeu o que esses filmes e personagens têm em comum? A princípio parecem extremamente diferentes entre si, inclusive o são no geral, mas olhemos mais de perto…
Ridley Scott é um inglês formado em Artes, e por isso defende a arte mais tradicional, digamos assim, fazendo questão de usar atores com boa formação e reputação teatral. Mas também por ter tido uma família de fortes ligações com o exército, mostra em seus filmes seu conhecimento de estratégias de guerra aliado ao seu perfeccionismo em recriar ambientes históricos.
Podemos então perceber que suas cenas de luta e batalhas são geralmente estonteantes. Para dar mais liberdade de encenação aos atores, usa bastante o recurso de duas câmeras em posição V, para não atrapalhá-los com tantos cortes. Entre outros traços, as narrativas de Scott mostram também: personagens femininas fortes, closes de personagens com o rosto ou corpo perto do chão (indicando reverência, como os antigos soldados), cenas amplas de paisagens. Alcançou o privilégio de ter o director’s cut, ou seja, ele pode dar a palavra final na edição de seus filmes. Ele mesmo desenha seus storyboards (desenhos que ajudam na composição de cenas). Veja este de Robin Hood [em cartaz] quando subir os créditos: são bem bonitos!
Na minha opinião, Scott é um dos diretores de nossa época que reinventa o épico cinematográfico – tão explorado por Cecil B. Demille, por exemplo – tanto tecnicamente quanto no enredo. Quando falamos deste último, sua preferência é pela narrativa clássica da jornada do herói: um homem admirável, que leva sua vida honestamente e desempenha sua função na comunidade como lhe é pedido, às vezes com um toque a mais de inteligência, solidariedade ou qualquer outro traço que o distingue dos demais e/ou vai ajudá-lo mais tarde. Porém, como todo herói clássico, há algo em sua personalidade – a ingenuidade ou o desconhecimento de alguma verdade – que ele precisa desenvolver. Assim seu destino sofre um duro golpe – um desterro, morte de entes queridos, uma injustiça, ou traição – que o fará sair para jornada em busca desta verdade que resgatará a paz em sua vida. E durante o processo ele sempre acaba aprendendo e crescendo mais do que esperava. Sua recompensa final é, além de resgatar o equilíbrio perdido, um bônus: um novo amor, maior prestígio ou posição, uma herança.
Você já deve ter reparado isso nos filmes de Scott, mesmo que o final não seja literalmente feliz, com casamento ou coroação. Em Thelma & Louise o final é trágico e pessimista, mesmo que entendamos que as moças aprenderam muitas lições e tão profundas na verdade que é impossível que elas voltem para o mesmo mundo de antes. Em Blade Runner nem precisamos dizer que, independente de Deckard terminar ou não com Rachel (a andróide), ele é sacudido de uma ingenuidade que acreditava não ter e o final não deixa de ser sombrio. Em Gladiador, o valoroso Maximus, traído e humilhado, se entrega de corpo e alma à busca da verdade que salvará toda uma nação. Sua existência é uma lição para todos e a sua crença em algo maior – reencontrar sua família nos Campos Elíseos – o torna um herói eterno.
Em Robin Hood, o Robin Longstride de Riddley Scott abarca todas as características do herói clássico. É aquele que mesmo quando parece enganar, está sendo honesto. Seus princípios morais e sentido de justiça estão profundamente arraigados no inconsciente e vão aflorando na medida em que usa sua experiência para ajudar a comunidade. Ao fazer isso, descobre mais sobre si mesmo e seu passado nebuloso. Só que desta vez vemos o herói terminar uma jornada no começo do filme e começar outra no final! Golpe esperto de Scott para não ser repetitivo ao contar a história de Robin Hood, já contatada inúmeras vezes no cinema.

-- Russel Crowe como Robin Hood --
O enredo de Scott se passa durante a volta de Ricardo Coração de Leão das Cruzadas, dada como sendo em 1122. As lendas verdadeiras de Robin Hood narradas nas baladas de menestréis mais antigas datam somente a partir de 1200, ou seja, depois do que narra o filme. Robin era um nome muito comum na época, quase como para nós o “Raimundo”. E Hood (the hooded man, ou seja, Robin “de capuz”) poderia tanto ser um apelido ou um sobrenome – como seria o nosso “da Silva” –, porque homens simples usavam muito o capuz naqueles tempos. Então como saber quem era um tal “Raimundo da Silva” que era contra a tirania dos poderosos, que teria sido usurpado e se tornou um saqueador e um fora da lei? Impossível saber ao certo!
Portanto, chegamos a uma das características mais vibrantes dentro do estilo de Ridley Scott: ele é um exímio manipulador da verossimilhança! Suas reconstituições históricas são impecáveis em detalhes, mas não deixam de ser ficção, obviamente. Os detalhes das batalhas e de como era o cotidiano na Idade Média são realmente muito enriquecedores. Como ele mesmo já disse: “I’m a moviemaker, not a documentarian. I try to hit the truth” – “Sou um cineasta, não um documentarista. Tento atingir a verdade”.
Esse é Riddley Scott, sua arte e sua mais recente obra. Ame-o (e veja-o) ou deixe-o.
– TRAILER –
leia mais













![- No domingo, manifestantes tomaram a Paulista em protesto contra a ação da PM em Pinheirinho [foto: Pádua Fernandes] -](http://www.amalgama.blog.br/wp-content/uploads/2012/01/protesto-pinheirinho.jpg)








Pingback: Blog Arlesophia
Creio que há um engano na sua apreciação sobre Blade Runner. O filme não se encaixa em nenhuma das posições comparáveis aos outros filmes. Atualmente Scot faz uso excepcional dos detalhes de sm e iluminação, tornando as cenas dramáticas. Não importa mais a história ou estória, ele encontrou uma posição de conforto para si próprio. Não é ativo como Scorcezi, que ainda pesquisa, cria, recria, tem uma elegância natural em pesoa e nos filmes, passa as idéias de uma forma não agressiva e, no entanto, é autor de filmes de realismo fant´stico e extremamente violentos, mas que o espectador não pode perceber, pois ele cria algo que vai estourar apena dentro de lgumas cabeças. O resto dos diretores nõ trbalha mais, com exceção a San Mendes. Mas Scot perdeu a credibilidade, na minha opinião, quando fez o Gladiador. É um filme sobre o nada, sobre a desimportância do nada, um filme para a seção da tarde e nenhuma coisa mais, na minha opinião. Porém, Blade Runner tem uma caraterística diferente. Ele inova na apresentação de tudo. Tudo o que ele faz, em 1985 é inovar a linguagem cinematográfica, criando novos tipos de seres, com novas funções, com sentimentos, sugerindo um mundo perto do qual estamos hoje, o inchaço social, a tendência do tempo se manter sob efeito estufa já instalado, e o fato, para quem desejou ver, que ele também é um replicante, igualzinho a Rachel. Gera aí a dúvida, que poderia ter virado um novo filme, ou não. Mas faz pensar lá pra frente, que é o hoje, e que se aproxima, rapidamente, do amanhã, tráfigo. Desculpe, portanto, mas creio que sua tese mistura coisas independentes. Algo como comparar Pulp Fiction a Amor à Queima Roupa, primeiro filme de Tarantino…
Olha, Paulo Cesar
eu tive bastante dificuldade em entender seu comentário, mas vou tentar te responder com aquilo que consegui entender.
Acho que foi você que não entendeu o que eu quis dizer sobre pontos em comum entre os filmes de Scott. Eu falei sobre o que há em comum nas narrativas e não nos roteiros.
Mas compreendo o que você quis dizer com alguns diretores se tornarem “funcionários públicos” do cinema…
Se gosta de Scorsese, leia também minha resenha sobre Ilha do Medo
Obrigada por comentar
Adorei o Robin Hood do Scott.