Da mentira como método

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por Leonardo de Souza * – Vão dizer que é implicância de minha parte, que estou exagerando. Mas vamos lá. A “Carta ao leitor” da Veja desta semana, intitulada “A riqueza sem culpa” (acima), começa com uma afirmação: “ ‘É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus’, escreveu o evangelista Marcos”.

Na imagem que ilustra o editorial, um retrato sacro de São Marcos (o evangelista, não o goleiro), com os seguintes dizeres: “São Marcos, evangelista, e a condenação dos ricos: na estagnação, enriquecer é pecado; no crescimento, é virtude”.

Ora, a famosa advertência (“é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”) não é de São Marcos. Trata-se, sabemos todos, de uma reflexão cujo autor é Jesus Cristo e que foi registrada por Marcos no seu evangelho (10:25). Um leitor que desconhecesse completamente que o livro de Marcos é um registro da vida e dos sermões de Jesus, e que não soubesse que a frase  foi também registrada pelos evangelistas Mateus (19:24) e Lucas (18:24), naturalmente suporia que sua autoria é de Marcos, e não do Cristo. Atribuir a assertiva a Marcos seria como se eu tivesse escrito, digamos,  uma biografia de Vinícius de Moraes, e mais tarde a Veja publicasse: “Leonardo escreveu: as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”.

Sim, claro, Leonardo não é São Marcos, nem Vinícius é Jesus Cristo, mas o meu ponto é o seguinte: se a Veja não é exata nem quando cita Jesus Cristo, como esperar que o seja quando faz referência a um simples mortal? Se a Veja não prima pelo rigor nem quando menciona um texto acessível como o Evangelho, como é que podemos confiar quando cita artigos acadêmicos de antropologia?

Se, no editorial desta semana, a revista atribui a Marcos uma frase que não é dele, na reportagem “A farra da antropologia oportunista”, Veja fez exatamente o mesmo, mas com Eduardo Viveiros de Castro: atribui-lhe uma declaração, colocando-a entre aspas, como se a mesma tivesse sido afirmada diretamente aos repórteres da Abril:

“Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente de cultura indígena original”, diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

Eduardo Viveiros de Castro é um dos maiores antropólogos brasileiros (senão o maior). Goza de enorme prestígio internacional: lecionou em renomadas universidades estrangeiras, foi diretor de pesquisas no CNRS (Conseil National de la Recherche Scientifique) e presta consulta ao magnífico museu parisiense de artes primitivas, no Quai Branly.

Viveiros de Castro não deu entrevista aos jornalistas da Veja, nem jamais escreveu coisa semelhante ao publicado na revista, como reiterou em carta enviada à Abril e divulgada amplamente na internet (aqui, via NPTO):

A matéria de Veja cita, entre aspas, duas frases que formam um argumento único, o qual jamais foi enunciado por mim. Cito, para memória, a atribuição imaginária: “Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original”. Com isso, a revista induz maliciosamente o leitor a pensar que (1) a declaração foi dada de viva voz aos repórteres; (2) ela reproduz literalmente algo que disse. Duas grosseiras inverdades.

Veja sequer publicou a contestação do antropólogo na seção de cartas dos leitores. Não pediu desculpas. Não reparou o erro. Não o fez porque, além de não querer, ela não consegue.

Não consegue porque dentro da Veja não há ninguém – ninguém – capaz de manter um debate sério sobre antropologia com Viveiros de Castro.

Não consegue porque a mentira é um método dessa publicação. Porque o diálogo é raso e, se alguém contesta o que publicam, logo aparece o Tio Rei para chamar de petralha e para acusar o interlocutor de delinqüência moral – é o que lhes sobra fazer: se não podem refutar o argumento, denigrem o argumentador.

O crime que a Veja cometeu não é discordar das posições antropológicas de Viveiros de Castro. É algo muito mais sério do que isso: é afirmar que ele disse uma coisa que ele jamais disse. Isso é mentira. Qualquer um pode discordar das teses de Viveiros de Castro, mas deturpar seu argumento é desonestidade intelectual da pior espécie.

O que está em discussão não é a visão que a revista tem das questões agrária e indigenista. É evidente que há muitos abusos na distribuição de terras a indígenas. Tampouco me simpatizo com as ações do MST, nem satanizo o agronegócio. Mas a Veja tem a obrigação de defender sua posição com dados consistentes, não com afirmações distorcidas. E não deveria usar o menosprezo nervosinho (típico do Tio Rei) como método de diálogo com quem dela discorda, como se fosse detentora de uma verdade inquestionável.

Na França, há três grandes jornais: o Libération (esquerda), o Monde (centro-esquerda) e o Figaro (direita). Em questões sensíveis (como a imigração), esses jornais são absolutamente discordantes. Mas a divergência se dá em argumentos, não em desonestidade; não se troca o justificar pelo rotular o interlocutor com etiquetas cheias de desprezo boçal. Um leitor do Figaro não diz que os jornalistas do Libé são analfabetos e delinqüentes morais, nem o assinante do Monde esperneia dizendo que o Figaro publica mentiras: os leitores discordam veementemente da perspectiva político-econômica, mas não colocam em xeque a idoneidade editorial do jornal de que discordam. É isso que enriquece o debate político-cultural. Isso é democracia. A Veja não está preparada, nem contribui, para esse tipo de jornalismo. Um cara como Reinaldo Azevedo só sobrevive em um ambiente em que não há uma revista semanal que tenha força editorial para fazer contraponto ideológico à Veja. Apenas em um país em que o debate político é rasteiro um livro como O país dos petralhas pode ser best-seller. Fosse na França, ou nos EUA, o melhor trabalho que restaria ao Tio Rei seria redigir o folhetinho da paróquia que ele freqüenta.

O NPTO lançou um repto: “Nenhum acadêmico brasileiro, de nenhuma área, tem direito de dar entrevista para a Veja, ou colaborar com a revista de que forma seja, enquanto não houver um pedido de desculpas a Eduardo Viveiros de Castro”. NPTO tem razão. Que haja adesão imediata e irrestrita. Pena que a Regininha Poltergeist, em entrevista à Veja desta semana, tenha furado o pacto. Mas convenhamos: para o nível jornalístico da revista, uma intelectual do porte da Regininha está mais do que apropriado.

* Leonardo de Souza é médico formado pela UFMG. Especialista em Neurologia, trabalha desde 2005 no Centro de Doenças Cognitivo-Comportamentais do Hospital da Pitié-Salpétriêre, em Paris. É doutorando em neurociências na Université Paris VI. Blog: aterceiramargemdosena.opsblog.org.

20 comentários | Dê sua opinião

  1. Daniel 16/05/2010 em 12:45 pm

    Poxa, Regininha Poltergeist? Como eu era uma criança na década de 90, não sabia da existência dessa cidadã. Um verdadeiro resgate da cultura nacional. Merece o Prêmio Abril de Jornalismo.

    Responder
    • Leonardo 17/05/2010 em 3:08 pm

      Rapaz, olha, a Regininha teve enorme importância no debate intelectual entre adolescentes dos anos 90. Enorme.

      Responder
  2. Francisco Boni Neto 17/05/2010 em 1:42 am

    O que falar do caso da Veja e da matéria sobre antropologia? Não é caso de jornalismo antiético, jornalismo sociopático… É caso de polícia.

    Responder
  3. fred.k 17/05/2010 em 9:14 am

    A total falta de repercussão do caso Viveiros de Castro mostra a quantas anda o debate intelectual no País.

    Responder
  4. José W M Genro 17/05/2010 em 11:46 am

    Fantástico, maravilhoso e tudo mais de bom este artigo “Da mentira como método”. Meu abraço solidário e minha concordância total ao texto. Parabéns, o Sr. foi magnífico em suas observações sobre a revista Veja.

    Responder
    • Leonardo 17/05/2010 em 3:08 pm

      Obrigado, mas não me chame de “senhor” que eu me sinto velho!

      Responder
  5. Otávio 17/05/2010 em 12:40 pm

    Nem de longe trata-se de defender a revista – como bem podem dizer que faço, por conta de textos e inclinações minhas – mas dizer que

    ” Apenas em um país em que o debate político é rasteiro um livro como O país dos petralhas pode ser best-seller. Fosse na França, ou nos EUA, o melhor trabalho que restaria ao Tio Rei seria redigir o folhetinho da paróquia que ele freqüenta.”

    soa desproposital ou, quem sabe, apressado. Basta lembrar dos livros de Michael Moore e, na esfera científica, do caso Lysenko – ou trocar França por U.R.S.S não conta?

    Quanto à provocação do NPTO, que dizer? Os acadêmicos são reescritos diariamente, textos e declarações são tiradas de contexto todos os dias por tantos meios, tantos. Nenhuma novidade, mesmo. Ou há: todo mundo deve se calar, pra seguir um repto. Ainda bem que é apenas isso: um repto.

    (em tempos de internet, qualquer um pode escrever o que quiser; inclusive eu. Cuidar dos excessos é difícil e provocar pode ser saudável – ou não -)

    Responder
  6. Leonardo 17/05/2010 em 3:18 pm

    Caro Otávio,

    Obrigado pelo comentário.

    Sim, Michael Moore é panfletário. Mas, há uma diferença: Michael Moore não é um órgão de imprensa. É um cidadão que emite opiniões em filmes que produz. Não se vê um de seus filmes como informação, mas como opinião. “Veja” e o Tio Rei podem dar suas opiniões. É bom que o façam. Mas, quando derem uma informação, têm que pautar pela precisão, visto que são órgãos jornalísticos. Esse caso do Viveiros de Castro mostra que a revista não é precisa na informação que publica. Isso é grave.

    Sim, acadêmicos são reescritos diariamente, por jornalistas leigos. Freqüentemente, há erros de conteúdo de informação, porque jornalistas não são acadêmicos. Neste caso do Viveiros de Castro, o erro é ainda mais grave: a revista DETURPOU o pensamento do antropólogo, afirmando que o mesmo diz uma coisa que ele jamais escreveu.

    A obrigação do órgão de imprensa é corrigir o erro quando for alertado para tanto, coisa que a Veja SE NEGA a fazer neste caso.

    É lamentável constatar que a Veja rompe com uma postura que ela mesmo tinha. Dou-lhe um exemplo.

    Em 6 de março de 2002, a revista publicou uma reportagem sobre uma nova técnica oftalmológica para correção de ceratocone, uma doença da córnea. A cirurgia era realizada pelo Dr. Paulo Ferrara, de Minas Gerais. O título já era sensacionalista: “O anel mágico”. Eis a reportagem: http://veja.abril.com.br/060302/p_058.html

    Acontece que a reportagem trazia erros sérios e os oftalmologistas reagiram. Houve uma série de cartas. Ao contrário do que faz neste caso do Viveiros de Castro, a revista publicou as cartas que demontravam o erro da reportagem. A revista o fez durante quatro semanas:

    http://veja.abril.com.br/130302/cartas.html

    http://veja.abril.com.br/200302/cartas.html

    http://veja.abril.com.br/270302/cartas.html

    http://veja.abril.com.br/030402/cartas.html

    O debate se concluiu quando, na edição de 17 de abril, a revista publicou uma nota ( http://veja.abril.com.br/170402/cartas.html ), com os seguintes dizeres:

    “ A cirurgia é experimental

    Na edição de 6 de março de 2002, VEJA publicou uma reportagem com o título “Anel mágico”, sobre um método proposto pelo médico Paulo Ferrara de Almeida Cunha para o tratamento do ceratocone (…)

    A reportagem recebeu, num nível bem acima do normal, muitos reparos de oftalmologistas. Depois de ouvir seis dos mais conceituados especialistas brasileiros e estrangeiros, VEJA julga necessário fazer as seguintes correções das informações divulgadas: (…)”

    Viu só como a Veja fazia ? Isso era o certo.

    Pergunto: por que ela não age assim no caso de Viveiros de Castro?

    Não se pode aceitar essa resignação do tipo “acadêmicos são reescritos diariamente, textos e declarações são tiradas de contexto todos os dias por tantos meios, tantos. Nenhuma novidade, mesmo.” Temos que batalhar para que se prevaleça a verdade. E um órgão de imprensa tem que ter compromisso com a verdade. A Veja, como demonstrei, já teve esse compromisso. Hoje, não tem mais, como bem o demonstra o caso Viveiros de Castro.

    Abraço,

    Leonardo

    Responder
  7. Otávio 17/05/2010 em 4:48 pm

    Leornardo, boa resposta.

    Mas discordo quando diz que
    “Sim, Michael Moore é panfletário. Mas, há uma diferença: Michael Moore não é um órgão de imprensa. É um cidadão que emite opiniões em filmes que produz. Não se vê um de seus filmes como informação, mas como opinião. “Veja” e o Tio Rei podem dar suas opiniões. É bom que o façam. Mas, quando derem uma informação, têm que pautar pela precisão, visto que são órgãos jornalísticos. Esse caso do Viveiros de Castro mostra que a revista não é precisa na informação que publica. Isso é grave.”

    Porque Reinaldo Azevedo também pode bem ser encarado como cidadão emitindo opinião – aliás, em princípio qualquer jornalista poderia fazê-lo, não? E não, há muita gente, muita mesmo, que entende que documentários não partem de pontos de vista e não possuem inclinação alguma; caramba, muita gente confunde personagem de novela com ator! O fato de que eu ou você temos claro a existência das inclinações não torna isso uma verdade para todas as outras pessoas. Não só isso, aceitar Moore dizendo que “é apenas um cidadão”, quando o tal cidadão produziu alguns dos documentários mais assistidos – e que mais arrecadaram – na história do cinema… não consigo ver como poderia concordar. E qual a diferença entre um livro best-seller pra um documentário best-seller?

    Responder
    • Leonardo 17/05/2010 em 5:30 pm

      Oi,

      Agora é minha vez de dizer : Otávio, boa resposta.

      Eu disse que “Michael Moore é um cidadão (…)” e não “apenas um cidadão”. O “apenas” aqui faz toda a diferença, você sabe bem. Evidentemente, Michael Moore não é um cidadão como os outros, visto que pouquíssimos de nós podemos expressar nossas opiniões em filmes difundidos planetariamente.

      Sua colocação (“há muita gente, muita mesmo, que entende que documentários não partem de pontos de vista e não possuem inclinação alguma”) me fez pensar em uma coisa. Creio que, no Brasil, as pessoas imaginam que documentários, jornais e colunistas de jornais têm que ser imparciais. Ora, nenhum ser humano é imparcial, como lembra Nélson Rodrigues: “o homem é capaz de tudo, até mesmo de uma boa ação, só não é capaz de uma imparcialidade”. Ser parcial não é crime. Errado é dar uma informação factual que é errada. Resistir a corrigir a informação errada, mesmo quando o erro foi apontado, é ainda mais grave (é crime). Esse foi o erro da Veja aqui neste caso.

      Retomando, essa expectativa de imparcialidade é um sintoma grave do quão mal formados somos como leitores, como consumidores da imprensa. A tomada de posição e a expressão da opinião causam espanto. Talvez isso seja resquício da ditadura, época em que manifestar livremente a opinião era crime.

      E sim, Michael Moore e Reinaldo Azevedo são, cada um à sua maneira, muito parecidos e você tem razão nisso. “O país dos petralhas” é, de certa forma, correlato a “Fahrenheit 911”. Ambos são panfletários. Mas critico o Reinaldo não por manifestar sua posição política, mas pela sua maneira, pela retórica, pelo linguajar. Tanto os textos do Tio Rei quanto os filmes do Moore não contribuem para um debate político aprofundado. Mas os filmes do Moore não têm essa intenção, ao passo que o Reinaldo diz que a tem. A Veja (que hospeda o Reinaldo) tem (ou deveria ter) o compromisso jornalístico de aprofundar o debate político, mas não se pode exigir tal compromisso de um cineasta (se um diretor o faz, é lucro). Por isso, entendo que a cobrança e a marcação em cima do Reinaldo (ou do Nassif, ou do Paulo Henrique Amorim) devam ser sempre muito cerradas.

      Abraço

      Responder
      • Otávio 17/05/2010 em 7:01 pm

        Leonardo,

        será que soei desonesto por causa do “apenas”? Espero que não, sinceramente, porque não foi essa a intenção. Mas o que está escrito, aí está e quanto a isso pouco posso fazer.

        Independente disso (e de encontrarmos pontos em comum, termos nos provocado mutuamente), ainda não me sinto nada confortável em concordar contigo quando diz
        “A Veja (que hospeda o Reinaldo) tem (ou deveria ter) o compromisso jornalístico de aprofundar o debate político, mas não se pode exigir tal compromisso de um cineasta (se um diretor o faz, é lucro). Por isso, entendo que a cobrança e a marcação em cima do Reinaldo (ou do Nassif, ou do Paulo Henrique Amorim) devam ser sempre muito cerradas. ”

        Por quê? Bem, não conheço legislação sobre ou que quer que seja, mas tenho claro que tanto Michael Moore quanto Veja são tão capitalistas quanto podem e, como tal, pretendem vender. Vivem de vender, ingressos ou revistas ou dvds.

        Bem, estou tergiversando, já. Escreverei algumas linhas em meu blog sobre este caso. Afinal, “(…) tudo isso são palavras, e só palavras, fora das palavras não há nada.”

        Responder
        • Leonardo 18/05/2010 em 2:33 am

          Oi Otávio,

          Não o chamei de desonesto, por favor. O que assinalei é que eu não havia dito ” ‘apenas’ um cidadão”. Só isso.

          Não estou discutindo que Moore, Veja ou quem quer que seja tenha o direito de vender revistas, filmes, gibis ou seja lá o que for. É evidente que sim. Todo mundo pode ser “capitalista”.

          O meu ponto é que a Veja e qualquer colunista (Reinaldo Azevedo, PHA, Nassif, Noblat) têm uma obrigação com a informação factual. Cineastas não têm esse compromisso. Um registro é jornalístico, o outro é “arte” (com aspas). Um documentário que passa no cinema tem lá seu aspecto de criação artística. Isso se discute, sei bem. Mas continuo achando que a cobrança e a vigilância em cima do Reinaldo, do Nassif e do PHA tem que ser muito mais estrita do que em cima do Moore. Reinaldo, Nassif e PHA não são “artistas”.

          Abraço.

          Responder
        • Gato Précambriano 19/05/2010 em 2:41 pm

          Acho que existe uma diferença grande nesse caso concreto.
          Veja usou aspas, como se tivesse entrevistado Viveiros de Castro, o que nunca ocorreu. Ela poderia ter dito que ” o antropologo Viveiros de Castro , na obra tal, disse tal e qual”, o que deixaria claro ao leitor tratar-se de interpretação de um texto, que poderia estar certa ou errada, mas seriam tanto uma como outra legítimas. Não foi o que ela fez.

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  8. Pingback: Conceição Oliveira

  9. Amâncio Siqueira 18/05/2010 em 9:15 am

    Abaixo anexo trecho de uma crônica minha a respeito do partidarismo da imprensa:
    É fato notório que a imprensa era oposicionista antes mesmo do governo atual ser situação. Dando um desconto para o risco Lula alardeado pelos órgãos de imprensa, buscando evitar sua eleição, analisemos o pós. Uma semana após a primeira eleição de Lula, a Veja já trazia extensa matéria sobre os “dinossauros do PT”, ou seja, políticos contrários ao neo-liberalismo. E essa foi uma das edições mais imparciais dos últimos sete anos.
    Imprensa a serviço de interesses particulares não é novidade em nenhum lugar do mundo. Lembro claramente do caso do Antraz espalhado em cartas nos Estados Unidos, e que serviu muito bem para a campanha de apavoração da população norte-americana após o onze de setembro. Toda a mídia falava a respeito, até que se descobriu que os agentes biológicos haviam sido produzidos em laboratórios americanos. De repente, as notícias sobre as cartas mortais desapareceram. Não era do interesse do governo americano que o “terror” viesse de dentro. Só se vende guerras contra inimigos externos. De preferência, com petróleo. E com religião diferente da nacional.
    No Brasil, na falta de inimigos externos, os partidos contrários são a religião diferente, o inimigo. E o governo é o petróleo.
    Os dossiês têm ocupado as manchetes eleitorais nos últimos pleitos, e podemos ver aqui claramente o uso que a imprensa tem feito deles: Quando a candidatura de Roseana Sarney ameaçava Serra na preferência dos eleitores da direita, o caso Lunus estourou, vazado por um delegado federal ligado ao PSDB. Tomou-se conhecimento do dinheiro guardado no cofre do esposo de Roseana, que teve sua candidatura tolhida. Meses depois, descobriu-se conversas do delegado com jornalistas responsáveis por espalhar rapidamente a notícia e o dossiê Lunus. Atitude plenamente ilegal, embora pareça que a imprensa esteja na prática acima das leis, mais ainda que os primeiros três poderes.
    Veio o caso do dossiê contra o PSDB (Serra não era candidato à presidência, embora a imprensa já requente a notícia como dossiê anti-Serra). De repente, a guinada na forma de ver as coisas. Não era mais o conteúdo do dossiê que importava, mas seus “fins espúrios”. Ou seja, não havia interesse público em saber por que tal dossiê (que a Globo imediatamente passou a chamar de “falso”) valeria mais de um milhão e meio de reais. Ou por que havia um filiado do PSDB participando do leilão. Isso mesmo, quantas pessoas sabem que não era apenas uma compra, mas um leilão pelo dossiê, do qual participaram membros do PT e do PSDB? Aliás, alguém sabe o teor do arquivo? Falsas fotos e documentos? Por quase dois milhões de reais? Qualquer pessoa com conhecimentos básicos de informática cria falsificações por quinhentos reais. Na verdade, montagens são feitas todos os dias por mera diversão na internete.
    Em seguida surgem denúncias sobre o uso de cartões corporativos. Surge um dossiê sobre o uso do governo anterior. Ora, à imprensa só interessa a oposição ao governo atual. O público não tem interesse em saber como era antes, e sim em saber quais os funcionários que vazaram as informações. Ou não? Bem, cabe à imprensa decidir qual o público interesse, certo?
    Surge um funcionário acusando Palocci. É louvável seu cumprimento do dever cívico, mesmo que o faça recebendo cinquenta mil reais de um deputado oposicionista. Mais uma vez, o público, de acordo com a imprensa, não quer saber qual o interesse do deputado na delação super-premiada do caseiro. Quer-se a cabeça de quem vasculhou as contas do delator. O interesse público é puramente oposicionista.
    Não posso estender-me na máfia dos vampiros, iniciada no ministério de Serra, esquecido pela imprensa, ou do mensalão mineiro, primeiro laboratório de Marcos Valério. Devo ressalvar aqui apenas a diferença de metodologia dos dois governos: FHC apagava o fogo derrubando a floresta. Quando surgiram escândalos nas superintendências, ao invés de investigar-se os acusados, fechou-se as agências. No governo Lula, quando a máfia dos hemoderivados foi descoberta, além das investigações resultantes em mais de uma dezena de presos, criou-se o projeto da Hemobras. Combata-se o fogo, não a floresta.
    Membros do PT são corruptos? Obviamente. Os atos trazidos a público são terríveis? Evidentemente. O que ninguém pode esquecer é que a imprensa manipulou os fatos de forma a parecer que apenas os petistas estavam envolvidos, ou que foram eles que inventaram a corrupção. Ou pior, que apenas eles sejam partido e devam ser investigados.
    Nas maiores democracias mundiais a imprensa é partidária. Por que então deveria ser diferente no Brasil? – perguntar-me-á o mais arguto leitor. Não defendo tal, até por não ser ingênuo a ponto de acreditar que seja possível imprensa imparcial. Poderíamos inclusive dizer que a soma de alguns interesses particulares compõem um interesse público. Ou que os interesses particulares têm sua razão de ser e são legítimos. O que não se pode dizer é que é correto levantar a bandeira do interesse público, quando não se está em defesa de todo o público. Ou quando esse público é manobrado cuidadosamente para assimilar interesses particulares como seus fossem. Ser partidário e imparcial é tarefa impossível. Ser partidário e afirmar-se imparcial é vileza.
    Por isso, mais uma vez parabenizo essa jornalista que se assumiu de oposição. Talvez a maior imparcialidade de que sejamos capazes seja a imparcialidade de dizer: sou parcial.

    Responder
  10. Otávio 18/05/2010 em 5:37 pm

    Leonardo,
    não disse que me chamou disso ou daquilo, apenas queria deixar registrado que não era minha intenção soar assim. Fica tranqüilíssimo.

    Responder
  11. Luciano Oliveira 20/05/2010 em 6:34 pm

    Acho a Veja hoje em dia uma revista que pratica a molecagem como quem respira. A minha sugestão é a de que alguém como Viveiros de Castro deveria promover um processo judicial contra a revista. Seria a ocasião de discutirmos a irresponsabilidade dessa publicação que tanto admirei na minha recuada juventude

    Responder
  12. Fernando 29/05/2010 em 7:00 pm

    Razão ou emoção? Eis a questão!!!
    Qualquer um tem o direito de ter sua opinião sobre um fato, mas é crime, pelo menos ético, falsear os fatos para que estes corrobore sua opinião. E é isso que a “imprensa” vem fazendo para dar vazão a suas emoções.

    Responder
  13. Ezio Jose 04/06/2010 em 9:44 pm

    Só para completar.
    Quando Jesus disse que era “mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que o rico ganhar o reino dos céus”, Ele dizia à uma colônia de pescadores e como sabemos a língua tem seus adjetivos alterados com o tempo, nas comunidades e etc. Camelo, entre os pescadores, era a linha de confeccionar redes. Essa linha, em virtude da espessura, era difícil de passar no fundo da agulha que era utilizada para confecção das redes. Isso não significa que não passava; apenas era difícil.
    Talves a Revista Veja esteja usando de metáforas para explicar o inexplicável que nem ela mesmo entende e tenta, no afã, ser identificada com a elite que a lê.

    Responder
  14. Mateus de Campos 04/06/2010 em 10:53 pm

    Excelente texto e formou em nossa Minas Gerais, e tenho prazer de informar não leio a Veja, pois não sei quem esta financiando sua linha editorial, conforme disse, Roberto Requião- GOV.PR.

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