Máquinas do tempo
por Otávio Dias – São José do Rio Preto, 2002. Estávamos, Regina e eu, entediados à cata de algum bom filme para assistir. Procura daqui, procura de lá, como fã de ficção científica, me decidira: “Ah, veremos A máquina do tempo, que tal?” Num golpe de muito azar (?) a sessão estava lotada e assistimos a um filme pequeno, francês: O fabuloso destino de Amélie Poulain. Pronto, foi estabelecida uma viagem no tempo, como tantas outras que já experimentamos em nosso cotidiano, quer seja numa notícia impressa no jornal de ontem, quer seja num filme como De volta para o futuro ou revisitando seus antepassados através de um álbum de família. Viajamos pelo tempo sempre, e sempre rumo ao futuro um instantinho presente por vez.
Apesar de podermos revisitar passados distantes, o tema das viagens no tempo só veio a se tornar famoso como sub-gênero da ficção científica, como empreendimento humano após o lançamento de A máquina do tempo, de H. G. Wells. Não é o primeiro escrito a registrar uma viagem do homem pelo tempo, notem: a empresa fora realizada, até então, graças à magia e outros meios sobrenaturais. A contribuição de Wells tem um contexto: cidadão do Reino Unido em plena Era Vitoriana, período de grande valoração dos progressos científicos e tecnológicos, nada mais natural que seu método de viajar no tempo levasse em conta as possibilidades determinadas pelo homem.
Mais do que discutir ciências exatas e biológicas (porque Wells cita ideias sobre evolução e astronomia, ainda que brevemente), A máquina do tempo tem a maviosa qualidade de explorar outras áreas, fugindo da ficção científica óbvia – numa época em que o gênero engatinhava. Dado o primeiro passo, o autor se permite exibir seus conceitos sobre a sociedade e a humanidade, de maneira que poucos autores de ficção cientifica tiveram condições de fazer, como Isaac Asimov (em tantos livros, tantos) e Philip K. Dick (lembro-me com especial carinho de O Homem do Castelo Alto). Wells explicita sua crença no potencial humano e nos progressos científicos por nós alcançado:
Tive a impressão de estar encontrando a humanidade na sua fase de lento declínio. Aquele pôr do sol me levou a pensar no crepúsculo da própria espécie humana. Pela primeira vez comecei a perceber uma conseqüência bizarra dos esforços sociais nos quais estamos mergulhados em nossa época. E não obstante, é uma conseqüência bastante lógica. A força é um resultado da necessidade; a segurança conduz ao enfraquecimento. O esforço para melhorar as condições de vida – o verdadeiro processo civilizatório que torna a vida cada vez mais segura – tinha avançado até atingir o clímax. Cada triunfo conjunto da humanidade sobre a Natureza tinha sido logo seguido por outro. Coisas que hoje não passam de sonhos tinham se transformado em projetos que alguém levou a cabo. E o resultado era aquele!
Afinal de contas, a saúde e a agricultura de hoje estão ainda num estágio rudimentar. A ciência do nosso tempo conseguiu enfrentar apenas um pequeno número das enfermidades humanas, mas, mesmo assim, expande suas conquistas de maneira firme e continua. Nossa agricultura e nossa horticultura destroem algumas plantas aqui e ali, e cultivam um número elevado de plantas saudáveis, deixando que a maioria das demais encontre o melhor equilíbrio possível. Introduzimos melhoramentos em nossas plantas e animais favoritos (e são muito poucos) gradualmente, por reprodução seletiva; aqui e acolá um pêssego mais saboroso, ou uma uva sem caroço, ou uma flor maior e mais perfumada, ou uma raça de gado que mais nos convém. Nós os melhoramos gradualmente porque nossos ideais são vagos e ainda experimentais, e nosso conhecimento limitado; e porque a Natureza, também ela, é tímida e reage devagar às nossas mãos desajeitadas. Algum dia tudo isso será mais bem-organizado e dará resultados melhores. Esse é o rumo para onde flui a corrente, apesar de refluxos ocasionais. O mundo inteiro será inteligente, educado e cooperativo; as coisas caminharão cada vez mais rápidas em nosso esforço para subjugar a Natureza. No fim, iremos reajustar o equilíbrio da vida animal e vegetal, com sabedoria e cuidado, de uma maneira que satisfaça nossas necessidades humanas.
Braulio Tavares, no prefácio desta edição da Alfaguara (destaque especial pra belíssima capa), cita a importância da explicação dada por Wells para a viagem no tempo, realmente notável, como as ideias científicas e metafísicas exploradas pelo autor, dando ainda maior brilho à relação que este tem com as ciências e a tecnologia. Fontes em que Dan Brown, em seu (especialmente) macarrônico Anjos e Demônios deveria beber. Wells consegue discutir seus conceitos, que possibilitaram ao Viajante sua travessia temporal, sem soar como um pasteleiro trapalhão e, ao mesmo tempo, sem super-expor seus personagens: a máquina é uma obra de arte da tecnologia e é explicada apenas o suficiente pra que entendamos sua operação, sem suscitar um gosto de desculpa esfarrapada. Podemos, inclusive, citar meta-brincadeira do próprio autor:
Minha teoria era bastante simples, bastante plausível – como aliás acontece com a maior parte das teorias equivocadas!
Um livro curto e, ainda assim, um dos mais significativos clássicos da ficção científica. Excelente harmonia entre avanços tecnológicos, poder do esclarecimento científico e reflexões solitárias de personagens humanos e deslocados de seu tempo.
::: A máquina do tempo ::: H. G. Wells ::: Alfaguara, 2010, 152 páginas :::
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foto na abertura, do Flickr de Isadora Adamy (com autorização)
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