Dia das Mães

por Fernando da Mota Lima – Zélia é uma mãe antiga, de um tempo cujos traços mais nítidos sumiram do horizonte do presente. Tão antiga, ou já tão irreal, que é do tempo em que as mães casavam para sempre e ao casarem consagravam sua vida ao marido, aos filhos e à casa. Quando casou com Eduardo, a quem maternalmente habituou-se a tratar como Dudu, o mundo da mulher e das suas relações com o mundo do homem parecia muito simples. Enquanto ele reinava na rua, ou no mundo, ela reinava na casa.

Dudu foi o único homem que conheceu e amou na vida. Casaram-se logo que ele se formou em medicina. Ele tinha então 23 anos de idade; ela, 17. Maria Vitória, a filha mais jovem, diz agora, com certo travo de amargura, que ele é apenas uma fotografia pendurada num móvel da sala. Ela não sabe, ou é incapaz de compreender, que Dudu está vivo. Apesar de morto há cinco anos, sua presença é tão dominante na vida de Zélia que nem consegue imaginá-lo morto. Agora que é viúva e velha, ou está na boa idade, como dizem por aí, Zélia tem a solidão dos dias que lhe restam para conversar com Dudu. Nada faz na vida, nada sobre ela decide sem antes consultá-lo. É sobretudo na hora de dormir, quando reza suas orações e pede a Deus pela vida dos filhos e netos, que senta no sofá ao lado de Dudu e conversa sobre os dois, sobre os 60 anos vividos um ao lado do outro. Um dia, tem fé, deixará de conversar apenas com o espírito de Dudu, apenas com a memória que dele preserva, e irá a seu encontro. E assim a vida e o amor que aqui compartilharam serão transpostos para uma eternidade sem incerteza ou sobressalto.

Faz dois anos que Zélia escolheu viver sozinha num pequeno apartamento. Deixou a cobertura luxuosa que dividia com arthurzinho e Maria Vitória para viver solitária na sua concha de 60m2. Ainda hoje os filhos e demais parentes são incapazes de compreender sua decisão de ficar sozinha na velhice avançada. Somente Fernando, o amigo que a escreve e assim a recria como abstrata figura tecida com palavras, somente ele aparenta compreendê-la. Sua explicação é simples: não quer morrer sem antes saber o que é ter seu próprio lugar, a pequena ilha onde precisa aprender a experiência da solidão antes da morte, da viagem última que a levará ao reencontro com Dudu.

Amanhã todos estarão aqui. Será um domingo de festa dentro da sua ilha que mal contém espaço para acolher tantos filhos, netos e outros parentes. Faz uns quinze dias que a televisão não fala de outra coisa que não seja o seu dia. Tudo isso lhe confunde a inteligência afeita apenas às práticas da vida simples que vive. De repente elevam-na a tantos modos de amor, a tantas provas de carinho, reconhecimento e importância que desacerta até o modo inconsciente de andar entre a sala e a cozinha, a TV e o telefone que amanhã tocará sem repouso.

Perplexa diante de tantas imagens sedutoras, erra estrangeira e anônima entre comerciais do shopping center e de um banco que nem conhece, entre geladeiras, móveis, farmácias, supermercados, lojas de roupas e joias, sapatarias e locadoras, sociedades comerciais e beneficentes e toda uma infinita sucessão de lojas, bancos, mercados , comerciantes, publicitários… Não bastasse tanto, ouve tanta gente famosa falando dela com amor, tanta gente que nunca a viu nem a conhece… “Meu Deus, como guardar em mim meu anonimato humilde depois de tanta celebração, depois de tantas provas e promessas de amor? Como comprar tudo que me querem vender em meu nome, tudo que me vendem do que não preciso? Até parece que gerei meus filhos e eduquei-os apenas com o propósito de que no meu dia me dessem presente. O mais engraçado de tudo é que também meus netos me querem presentear. Como não têm renda própria, me pedem dinheiro para me dar presentes que ironicamente acabo pagando”.

Maria Vitória virá com novo marido, que é já o quarto. Os filhos, saídos de amores tão desencontrados e instáveis, brigam tanto que precisa sempre testar sua paciência e compreensão do seu amor de avó para apaziguá-los quando a seu lado. Ana Célia, a primogênita, separou-se do último marido, que foi o terceiro. Queixa-se sempre da solidão da casa, da ausência dos filhos já crescidos e soltos na vida. De repente, deu para morrer de amores por cachorros e parece andar mais equilibrada. Já que nos desavimos como seres de convívio e vida rotineiramente conjugada, resta-nos agora o amor dos cachorros. Marluce, depois de tanto errar de amores, arranjou uma companheira com quem vive dentro de uma comunidade mística que criaram em Brasília. “E Arthurzinho, meu Deus, bebendo tanto que já precisou até fazer tratamento no AA… Tudo isso me confunde a cabeça e a imaginação, tudo isso desconcerta meu coração de mãe estrangeira num mundo tão desequilibrado”.

Mas amanhã todos estarão aqui. Farão tanto barulho com televisão ligada, celular, videogame e telefonemas simultâneos, conversas desencontradas em meio ao ruído do apartamento… “Meu Deus, confesso que preferiria a companhia silenciosa de Dudu. Com ele, na solidão da noite antes do sono, sinto-me afinal reconciliada comigo própria, com os valores e a atmosfera de um mundo apagado das trepidantes linhas do presente. Depois da festa, como sempre acontece, todos partirão e durante um ano viverei como uma ausência sem queixas na memória volúvel desses pedaços de mim nos quais já não me reconheço nem eles em mim se reconhecem. Não sei o que seria de mim e da minha velhice solitária, não houvesse o amor sempre fiel e presente de Dudu iluminando minha vida. Um dia viajarei afinal a seu encontro e então já não haverá dia das mães na vida de filhos e netos que gastam tanto tempo e dinheiro no shopping para me dar o que não preciso e enganar a falta do que tanto neles e em mim me dói: o sentido de um amor sem comércio”.

3 comentários | Dê sua opinião

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  2. Lillian 09/05/2010 em 3:03 pm

    Não gostei. Não parece uma mulher falando. Dudu é um nome muito infantil pra marido, toda mãe, mesmo as mais lúcidas,espera pelo menos um telefonema do filho neste dia e não acredito no prazer em estar só que ela descreve. Mulheres não gostam de solidão e sucumbem mais facilmente aos apelos do consumismo.Um abraço. Lillian.

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  3. Fernando 09/05/2010 em 11:31 pm

    Lillian:
    Gostei da sua franqueza. Confesso que tenho muitas dúvidas acerca da voz narrativa que criei. Você, como mulher e mãe separada, assinala no seu tom de desagrado aspectos que denunciam as falhas da minha crônica. Preciso infelizmente admitir que você pode estar certa. Só um detalhe: nada na crônica indica que minha personagem gosta de solidão. O que sugiro é que ela, na sua solidão povoada pela memória do homem que amou a vida inteira, ampara-se no amor perdido ou nele se refugia da solidão da velhice. Disso aí você não pode discordar porque este dado é real, é extraído da experiência de uma velha amiga minha cuja vida me serviu como uma das fontes para a composição da crônica

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