Casamento sem igreja (graças a Deus)
por Camila Pavanelli – “Filha, entenda bem uma coisa. Vão tentar te convencer por mil maneiras de que Deus existe, vão inventar explicações mirabolantes. Mas aí você olha pra rua e lembra que tem criança passando fome, criança usando droga. Então acabou. Se Deus existisse mesmo, como é que iria permitir uma coisa dessas? Sabe, filha, Deus é uma coisa que as pessoas inventam pra esquecer que tem criança passando fome na rua.”
Vivi imune às explicações mirabolantes, até ela morrer. Então virei espírita e tive um sonho em que ela aparecia de vestido branco (tão chato isso das pessoas mortas terem sempre que usar branco) num deck em que se via o mar brilhando por debaixo das tábuas de madeira do chão (as tábuas eram separadinhas e a lua brilhava no mar) e um garçom vinha de vez em quando nos servir bebidas gostosas (leia-se toddynho e coquetel de frutas não-alcoólico), e ela sorria e me falava de como estava a vida dela e de como muitas coisas legais ainda iriam acontecer comigo, e a música que não tocava mas estava presente, e até hoje quando toca o que eu ouço é esse sonho, era Fotografia do Elis & Tom.
Algumas leituras e muita análise depois, deixei as mirabolações de lado e me empenhei em recordar e elaborar. Voltei exatamente ao ponto em que ela havia me deixado: se crianças na rua sim, então Deus não.
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“Mamãe, por que você e o papai se casaram na igreja se vocês dois são ateus?” “Porque a vovó é muito religiosa, filha, e ela iria ficar muito magoada se a gente não fizesse assim. Então fomos lá e ouvimos bem quietinhos tudo o que o padre tinha pra dizer, mas não demos a menor bola, a vovó ficou feliz e tudo acabou bem.”
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Agora quem vai se casar sou eu, e felizmente não precisarei enfrentar o dilema com que meus pais tiveram de se haver: ir contra os próprios princípios para evitar conflitos com uma pessoa querida, ou comprar uma briga e manter a coerência com as próprias ideias? Meus pais fizeram sua opção, mostrando-me que privilegiavam relações humanas concretas a ideias abstratas. O primado da concretude, aqui, está em perfeita consonância com o raciocínio de minha mãe sobre a existência de Deus: o que importa, nos dois casos, não é a existência de um cara que não posso ver ou a fidelidade a ideias que não posso agarrar. Mais vale a barriga cheia das crianças e o sorriso no rosto da vovó.
Entendo, pois, a opção deles. Mas, hoje, penso que realmente seria a maior prova de amor do mundo se eu me dispusesse a pagar o mico do vestido branco e da bênção do padre, melando assim um dia que deveria ser tão legal para meu futuro marido e eu. Não me vejo fazendo isso de jeito nenhum, por mais religiosa que fosse a minha sogra; acho que eu faria prevalecer a minha/nossa vontade, o meu/nosso egoísmo e as minhas/nossas ideias do que quero/queremos para a nossa vida juntos (o futuro marido também tem horror a padre, hóstia, aliança, essas coisas). Porque outra lição que aprendi com minha mãe – não pelo que ela fez, mas pelo que sofreu – é que o evitamento permanente de conflitos é a pior política possível a longo prazo. Ainda assim, tenho um mínimo de sabedoria para entender que não existem imperativos categóricos aqui. É fácil falar que eu faria e aconteceria (ou melhor, que não aconteceria véu e grinalda porra nenhuma) quando os pais do meu namorado tampouco obedecem ao Papa. Quero ver se eu ia ter peito de já começar mal a relação com eles só porque vestido branco é muito mico. Pior é que talvez tivesse. Vestido branco – os mortos que o digam – é mico demais.
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como é bom ler exatamente o que a gente pensa
Meus pais não são ateus, são espiritas, e meu noivo e eu também. Mas sei exatamente do que se trata. Não casaremos na igreja, mas o simples fato de termos decidido mudar sem cerimonias já causaram alguns conflitos e olhares tortos. Mas o que a gente precisa está além de festas e rituais. Acho que demos sorte de encontrarmos alguém que pensa como a gente, senão seria escolher qual sofrimento passar, o da igreja ou do conflito.
"acho que eu faria prevalecer a minha/nossa vontade, o meu/nosso egoísmo e as minhas/nossas ideias do que quero/queremos para a nossa vida juntos"
"o evitamento permanente de conflitos é a pior política possível a longo prazo."
Palavras que parecem q saíram direto da minha cabeça!
Felizmente, eu e minha namorada estamos de acordo nesse assunto, apesar de ela ser teísta (tipo católica não praticante, o tipo mais prevalente no Brasil) e eu ser ateu. Por "sorte" o pai dela é meio antissocial e acha essas papagaiadas de igreja um saco. A mãe é a última barreira, mas no fim ela vai acabr entendendo. Na minha família eu nem tô preocupado. E o restante das pessoas das nossas relações (outros familiares e amigos), que engulam o que quer que eles achem, hehehe.
Eu passei por alguns questionamentos por não ter casado na igreja, mas ignorei todos. Não que me incomodasse tanto uma cerimônia boba, mas envolve gasto de dinheiro e tempo, muito melhor aproveitados com coisas realmente necessárias.
A única coisa que fiz foi batizar minha filha (uma cerimônia rápida, indolor e sem custo), para felicidade da minha irmã e meu cunhado, que sequer são tão católicos assim, no fim das contas.
Ou seja, as cerimônias religiosas em si são irrelevantes para quem não crê nessas coisas, desde que não gerem custos ou constrangimentos. No final das contas, a maioria dos religiosos só conhecem os lados tradicionais das cerimônias, nem sabem direito pra que deveriam servir.
Este negócio de casamento no religioso é muito engraçado. Até mesmo crenças que não consideram o casamento como sacramento praticamente lidam com o mesmo como se fosse. Sou teísta, cristã e protestante, uma típica evangélica de confissão luterana.
Para a doutrina luterana, assim como para o protestantismo em geral, o casamento não é um sacramento, mas sim uma ordem civil. Então, não há nada de " santo " no mesmo. Mas, paradoxalmente, as igrejas evangélicas sacralizaram tanto este costume que a obrigatoridade da virgindade virou meio que um pressuposto até o tal casório. E não falo apenas das igrejas de esquina, estas que lotam auditório e os bolsos de seus lideres ou de pentecostais legalistas
Nossa, como é raro protestantes desse tipo. Fui evangélica, mas de igreja neo-pentecostal, portanto o casamento era não apenas considerado sagrado, mas também uma obrigação "diante de Deus e dos homens". Também era dito que uma vez casado, você não poderia se casar com outra pessoa, caso acontecesse de se separar. Mas bem, eles sempre dão um jeitinho de encontrar uma brecha nas escrituras que eles mesmos adulteraram para pregar a obrigatoriedade de não fazer sexo antes do casamento, casar no religioso e nunca cogitar um segundo casamento.
Juliana, muito pertinente sua participação. Seu depoimento como ex-evangélica confirma o que disse; há um completo desconhecimento doutrinário entre os protestantes brasileiros. Se dizem evangélicos, mas não sabem nada de suas doutrinas originais e nem mesmo das boas novidades. Porém, perdem tempo lendo e ouvindo muita besteira de quinta categoria. Porém, sua antiga igreja, como neo-pentecostal, mesmo sendo cristã, protestante e evangélica, se encontra, historicamente, bastante distante do movimento reformatório. Agora, é duro escutar este mesmo papinho narrado por ti em igrejas que batem no peito como " luteranas", " reformadas" e etc…Bah !
. Converse com um presbiteriano( reformado), metodista, batista,anglicano, luterano e veja a opinião. Muito estranho
Pois bem, sou noiva, e estou prestes a me casar. Pequeno detalhe, eu, cristã protestante, ele, budista da corrente tibetana. Graças a Deus, a igreja que pertenço ( Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil) não obriga a conversão da parte praticante de outra crença. Só que acho uma falta de respeito a crença alheia obrigá-lo a participar desta cerimônia. Assim, tomamos a seguinte decisão; nosso casamento será apenas no civil, com uma breve oração de meu pastor e do monge da corrente budista que ele segue. Depois, uma boa festa regada à muita cerveja como é tpíco aqui na região de Teutônia.RS
Bom dia, a todos. Gosto do tipo de fórum aberto a todas as opiniões. Sou presbiteriano (reformado), sigo a posição já esboçada no post anterior, qual seja, casamento não é sacramento nem é obrigatório que seja na Igreja. Na verdade, tudo muda quando se tem fé e crê na existência de Deus, como é o meu caso. Casamos na Igreja não para satisfazer a família, mas ao meu/nosso desejo de relacionamento a dois, segundo os pressupostos da fé. Nestes termos, o vestido branco, cumpre apenas uma tradição e o que vale mesmo é a atitude diante daquele que é o nosso Deus.
Pode parecer estranho ou diferente para os que são "ateus convictos", mas essa demonstração de fé nos faz bem e muito bem mesmo.
Quanto à questão das crianças. Bem, para nós, o argumento apresentado caminharia na estrada oposta, ou seja, porque os homens se esquecem de Deus é que existem crianças na rua e todas as outras mazelas. Isso não é culpa somente dos ateus, mas também de todos nós religiosos, quando pregamos uma coisa e vivemos outra.
Abraços a todos.
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Pingback: Andira Medeiros
Dizer que as crianças na rua seria culpa dos ateus seria dose. Felizmente, há muitos países que já esqueceram deus e não têm crianças passando fome. Sobre o casamento na igreja, submeti-me ao dito cujo pra agradar minha esposa (que sequer se diz católica), que por sua vez tinha esse sonho incutido pelos pais. Fiz como Graciliano Ramos e tantos outros. O problema: você faz algo para agradar, mas nunca agrada. Se soubesse o que viria depois, nunca o teria feito.
A existência de crianças na rua não se deve ao teísmo, deísmo, agnosticismo, ateísmo ou qualquer tipo de cosmovisão religiosa. Esta anomalia é fruto da desigualdade social que existe em boa parte do globo.
Apenas temo que a proposta sugerida pela autora se perca. A questão aqui não é Deus e afins, mas sim se o casamento religioso é relevante, ou não. Pessoalmente, acho que a existência de crianças nas ruas não é argumento prol ou contrário a existência de Deus, pois tal situação esta ligada diretamente ao egoísmo existente no ser humano, seja ele crente ou cético. Doenças, tragédias naturais podem fornecer base para este tipo de dúvida. Já problemas sociais são de pura responsabilidade humana.
Em resumo, mesmo que se tire Deus da vida cotidiana, tenho cá minhas dúvidas se as pessoas serão realmente melhores. Inclusive, como cristã não concordo com aquela visão tão difundida de que o ser humano seria a " pérola da criação". Que nada ! Quanto mais observo o comportamento humano mais amo meu lindo dog.
Em tempos, não acredito que o Nepomuceno atribuiu a existência de crianças nas ruas a ateus, mas sim ao bicho cruel chamado humano !
Ana Paula Stanbach Muller
Teutônia- RS
Sobre os reformadores, obviamente não estou defendendo a tese de que eles eram super cabeças abertas, libertários partidários do amor livre e etc. Muito pelo contrário, em determinados momentos eram uns chatos. Lutero, por exemplo, tinha tanta fobia ao divórcio que chegou a aconselhar o principe Felipe de Hesse a praticar uma bigamia escondida com outra mulher só para não aprovar o divórcio. Mas, doutrinariamente, ao não considerarem o casamento como um sacramento, isto é, um meio espiritual de nos levar a Deus, acabaram minando, gradualmente, todo o espirito sacro do mesmo. Abaixo, algumas palavras de Lutero e Calvino sobre o bastante interessantes.
Lutero : Por isso, saibas que o matrimônio é um assunto físico exterior, como qualquer outro negócio secular. Assim, como posso comer, beber,dormir,passear,cavalgar,negociar,
conversar e trabalhar com um gentio, judeu, turco ou herege, também posso casar com ele e continuar casado, e não te importes com as leis loucas que te querem proibir.
Calvino : O último sacramento, na conta deles ( católicos), é o casamento. Embora todos eles declarem que foi instituido por Deus, sabe-se que antes do papa Gregório ninguém teve a idéia de considerá-lo sacramento. E que homem de bom senso teria pensado nisso ? Sem dúvida nenhuma, o casamento é uma excelente e santa ordenança de Deus. Também são boas e santas ordenanças de Deus os oficios de lavrador,pedreiro,sapateiro e barbeiro, que nem por isso são sacramentos.
O comentário do Maurício Nepomuceno foi claro: “Isso não é culpa somente dos ateus, mas também de todos nós religiosos, quando pregamos uma coisa e vivemos outra.”
O que eu disse é que seria o cúmulo se alguém dissesse que é culpa “somente dos ateus”, e esse somente traz em si a ideia de que os ateus são os mais responsáveis, embora não sejam os únicos. Se estivesse assim: Isso não é culpa dos ateus, mas também de todos nós religiosos, quando pregamos uma coisa e vivemos outra, eu não teria respondido.