A Onda

por Fernando da Mota Lima – O filme A Onda (Alemanha, 2008) é baseado num experimento pedagógico ocorrido na Califórnia em 1967. Transposto para a Alemanha contemporânea, berço do nazismo, resulta num precioso e inquietante documento psicossocial que desce às entranhas das potencialidades destrutivas do gênero humano. Compreendido enquanto cinema, esteticamente falando, A Onda é rasa, mas importa muitíssimo pela idéia recriada para iluminar questões do presente. É isso o que intento explorar um pouco na minha crítica.

Embora incapaz de ajustar-me a qualquer movimento ou disciplina partidária, acredito que ninguém pode, a rigor, ser indiferente à política. Como disse alguém, não importa que não nos importemos com ela; ela se importará conosco. Talvez um sintoma da minha descrença na ação política se expresse na preocupação de compreendê-la em termos puramente teóricos – compreender a mais terrível onda bárbara que foi o nazismo, por exemplo. Lendo Freud, Bertrand Russell e Erich Fromm, depois vieram outros, julgo haver compreendido melhor o papel que determinados componentes psicossociais exercem na ação política.

Vamos ao filme. Rainer é um professor anarquista que ironicamente se defronta com o desafio de dar um curso sobre autocracia e regimes políticos similares (ditadura, nazismo, fascismo) para uma turma de jovens estudantes. Os jovens têm muitos dos traços psicossociais comuns à juventude do mundo ocidental e suas derivações periféricas. Esses traços decorrem, em suma, da cultura narcisista e consumista cujo solo e circuitos de manifestação contínua bem conhecemos. Incerto sobre o que fazer diante do desafio pedagógico que tem pela frente, Rainer procede a um experimento nazi-fascista em plena sala de aula. As reações dos alunos e as transformações perturbadoras que neles se processam apontam para as fontes psíquicas e sociais geradoras dos regimes políticos de extrema direita.

-- Cena do filme --

À exceção de Karo e outra aluna que a segue, toda a turma adere entusiasmada à formação de um grupo inspirado pelos valores e práticas do nazismo. A motivação psicológica decisiva para a adesão reside no desejo obscuro de dissolver a individualidade e a liberdade individual, bem mais penosas do que supomos, numa unidade mística e grupal. Essa unidade supõe gestos, rituais e símbolos lastreados na disciplina cega e na força forjada pelo grupo. A figura do líder é a fonte de autoridade e poder com a qual os jovens seguidores cegamente se identificam. Essa identificação liberta os jovens de pensarem e decidirem por si próprios. Pouca gente se dá conta do quanto a liberdade assim compreendida (implicando autonomia, liberdade de escolha e conseqüente responsabilidade em face do que escolhemos) é difícil e mesmo penosa.

É desse peso que os jovens participantes do experimento fascista se liberam. O líder ordena e eles disciplinadamente agem. Não ser parte dessa unidade cega e intolerante é uma ameaça à unidade conquistada que precisa crescer na sua força expansiva. É aí que a jovem Karo se torna uma ameaça que precisa ser excluída do grupo. Ela representa os valores da liberdade individual aos quais todos renunciaram. O exemplo extremo dessa renúncia cega e radical é Tim, o jovem que no desfecho do filme se suicida. Quando o professor renuncia ao papel de líder, impondo ao grupo um retorno à situação inicial, ele se revela incapaz de reverter o jogo perigoso proposto pelo professor. Sua renúncia à liberdade individual tocou o extremo passível de o impelir para a destruição completa, que no caso resulta em autodestruição.

A Onda sugeriu-me um paralelo com Sociedade dos Poetas Mortos. Este filme, talvez já esquecido, poderia ser interpretado como o oposto simétrico daquele. Também aqui nos vemos diante de um professor, Mr. Keating, cuja personalidade magnética seduz um grupo de jovens estudantes da elite americana. A pedagogia que propõe a seus alunos, inspirado pela tradição romântica libertária, baseia-se em tudo que a ideologia nazista intenta suprimir: a educação compreendida como a realização da singularidade irredutível de cada indivíduo. Faça seu próprio caminho, cante sua própria canção, realize a vida extraordinária que lateja em cada indivíduo. O desfecho de Sociedade dos Poetas Mortos também envolve um suicídio. Neil, o jovem suicida, mata-se por não poder suportar um sentido de repressão imposto pela família e a escola que suprime sua individualidade. É portanto a contraface de Tim, que se mata porque renunciou completamente à possibilidade de se realizar como indivíduo.

Anotei no parágrafo acima um paralelo grosseiro entre dois filmes de sentido antagônico com o propósito de sugerir a complexidade da realidade cultural em que vivemos. Ambas as tendências conflitantes ou inconciliáveis se manifestam de muitos modos. Meu coração e minha mente estão totalmente identificados com os valores propostos por Sociedade dos Poetas Mortos. Mas nunca me esqueço, talvez precisamente por escolher o que escolhi, que as forças profundas geradoras do fascismo estão sempre entre nós. Seriam elas acaso passíveis de produzirem um fascismo à brasileira, como aliás tivemos disso um arremedo nos anos trinta com o movimento integralista? Acredito que não. Afinal, concordando com Luciano Oliveira, que tem escrito sobre esta e questões conexas observáveis na nossa sociedade, estamos longe do modelo de sociedade disciplinar proposto por Michel Foucault na sua obra. O nazismo foi um movimento baseado em formas de organização militarista somente concebíveis numa sociedade disciplinar. Nossas formas supremas de mobilização coletiva, o futebol e o carnaval, constituem a evidência de que tendemos mais para a anomia, como diria Durkheim, do que para a arregimentação disciplinar das massas. Eis um caso, talvez o único, em que nossa incurável bagunça é social e politicamente saudável.

[veja o trailer]

13 comentários | Dê sua opinião

  1. Viviane 07/05/2010 em 9:59 pm

    Fernando, parabéns! Muito interessante sua abordagem. Bacanérrimo o contraponto do belo filme "Sociedade dos Poetas Mortos". Vc toca numa questão muito importante que envolve reflexões de outros campos do saber. A questão da necessidade de identificação do indivíduo com um outro – que sabe muito bem o que quer – diz do laço social hj: de que ele é feito? Como ele se forma hj? Qual é o papel da escola na formação do laço social? Talvez nem seja esta a pergunta, mas o que pode a escola hoje? Um abraço.

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  2. Fernando 08/05/2010 em 2:05 pm

    Viviane:
    A escola poderia muito se, entre outras coisas, não ficasse servilmente atrelada à rede de consumo narcisista que fermenta a alienação sobre a qual lavram regimes políticos como aqueles tematizados no filme A Onda. Felizmente não vivemos sob os tacões de nenhum regime político de força, seja de direita ou esquerda, mas o caldo cultural dominante na nossa sociedade está aí para favorecer mudanças na linha da supressão da liberdade compreendida em sentido mais amplo que o meramente político. É neste sentido, antes de tudo, que o filme importa. Um abraço de
    Fernando

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  3. osmar 04/06/2010 em 5:19 pm

    Olá, Fernando, parabéns pela excelente abordagem! Tive a oportunidade de assistir esse filme e, sinceramente, fiquei frustrado com o final e explico que isso se deveu pelo fato de já ter assistido “A Onda”, só que em 1985, numa outra versão (que não consigo encontrar por aí!!!), quando estudava na PUCSP, e seu final, na minha opinião, foi muito contundente pois, mesmo não havendo o tal suicídio, o clima que se desencadeia entre os alunos ao se depararem com a figura de “seu lider”, Hitler, é fortíssimo, chegando ao ponto de incorrer numa histeria coletiva! Você já teve a oportunidade de assistir essa versão mais antiga? Vale a pena, confira; o problema é localizar essa película. Agora, sinceramente, penso que nosso modelo educacional não prima em formar cidadãos, infelizmente, e isso faz com que eu enxergue a geração atual completamente perdida dentro de propósitos, direitos e obrigações sem, com isso, incorrer na generalização, lógicamente. Te deixo um forte abraço.

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  4. Fernando da Mota Lima 05/06/2010 em 9:37 am

    Osmar:
    Muito grato pelo comentário, que aliás acrescenta uma informação preciosa à crítica que escrevi. Não sabia da existência de uma outra versão do filme. Gostaria de conhecê-la, até pela curiosidade de cotejá-la com esta mais recente. No mais, concordo com o que você observa acerca do nosso modelo educacional. Mais grave ainda é considerar que os males que contém são apenas um reflexo embaçado de um estado cultural mais amplo. Com um abraço de volta,
    Fernando.

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    • Gustavo 24/11/2010 em 5:14 pm

      Fernando e Osmar, o filme que vocês procuram na verdade é uma ninissérie americana produzida para a televisão em 1981, com o titulo de (The Wave). Foi baseado em um incidente real ocorrido em uma escola secundária norte-americana em 1967, em Palo Alto, Califórnia. Antes de virar filme, foi romanceado em livro por Todd Strasser.Essa versão Alemã é muito boa tambén.Abraços

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  5. Yves Muniz 06/03/2011 em 3:54 pm

    Eu baixei o filme e depois fui procurar criticas na web e entre elas encontrei a tua. Teu ponto de vista é muito próximo ao meu, para algumas pessoas é muito fácil não pensar por si e só agir isso lhes tira muito peso e principalmente o peso da consequência.

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  6. bruna 05/05/2011 em 6:40 pm

    muit bom o filme…ainda por cima em inglês horrivel….melhor em português amei…bjbj
    ;)

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  7. Sent 13/07/2011 em 4:59 pm

    Feranbando adorei a sua classificação do ser humano.Isso reduz a gente ao que somos essencialmente.

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  8. Marcelo 08/09/2011 em 1:44 am

    Eu só discordo de uma coisa, quando você associa as ditaturas e regimes semelhantes a “extrema direita”. Esse é um erro comum, inclusive repetido nas escolas. Existem várias ditaduras de esquerda, de extrema esquerda, Aliás o nazismo, embora historicamente oposto ao socialismo, é de esquerda e não de direita como a história desinforma. Nazismo é o nacionalSOCIALISMO alemão. E digo mais, a “direita”, ou melhor, os liberais, capitalistas, os que são considerados de “direita” sempre defenderam o individualismo, a liberdade economica, o direito de expressão, etc, coisas opostas as ditaduras. Qualquer regime totalitário está associado a esquerda porque a direita é defensora das liberdades individuais.

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  9. Bianca 08/09/2011 em 5:36 pm

    eu amei esse filme,muito bom,
    eu assisti na escola com meus colegas e minha professora de informatica todos adoraram…

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  10. Flávio 10/09/2011 em 8:07 pm

    Adorei o filme, adorei o texto, principalmente quando você me fez recordar da situação oposta no filme “Sociedade dos Poetas Mortos”.
    ps: o comentário acima, do Marcelo, faz muito sentido.

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  11. anna 31/10/2011 em 6:47 pm

    Oi gente! Para quem procura o filme de 1981, aqui a primeira parte no Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=fwZdYuqKGdE

    espero ter ajudado (:

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  12. Licia Soares 25/11/2011 em 9:05 pm

    Mas, nós temos arregimentação militar como o Comando Vermelho e o PCC. Vendo a Onda, pensei em um paralelo com o filme brasileiro Salve Geral. Embora sejam contextos diferentes, o PCC e a Onda são experiências semelhantes que mostram a possibilidade de surgimento de organizações atravessadas de totalitarismos de direita ou de esquerda, em razão da falência do Estado de Direito ou do desgaste das instituições democráticas. Há uma tendência em vários membros de sublimarem suas carências, dando novo sentido existencial a suas vidas, pela proposta de igualdade, de definição de uma territorialidade, pela criação de uma linguagem própria que os torna unidos e mais fortes do que outros indivíduos sem grupos e, enfim, pela possibilidade de montar um espectro identitário. Foi, então, dessa forma, que o garoto de Salve afirmou, antes de morrer, que o Partido era sua vida, e o garoto de A Onda, que não aceita sua dissolução dá um tiro em sua boca , após declarar que a onda era sua vida.

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