Marlon Brando, o terrorista
por Diego Viana – Era uma sessão ao ar livre, ameaçada pelos avisos da meteorologia. Foi por puro amor ao cinema que nos enrolamos em cobertores e enfrentamos a tormenta. Os nomes, afinal, pesavam mais do que as nuvens. Irresistíveis. Roteiro de John Steinbeck, ninguém menos. Marlon Brando e Anthony Quinn sob a direção de Elia Kazan, magníficos todos. Um grande clássico, quase uma chave inaugural da Guerra Fria: Viva Zapata!, de 1952. Com todos os tiros, os belos cavalos e o proselitismo velado em que o cinema americano é imbatível.
Marlon Brando, com seu estilo habitual, travestiu-se de seu personagem, para não precisar interpretá-lo. O astro, que esticou os olhos para virar japonês, pintou o cabelo para virar polonês e encheu a boca de algodão para virar italiano, vestiu organdi branco e sombrero, passou uma temporada na praia, fez-se de estrábico e se pôs a falar muito lentamente. Voilà! Um autêntico mexicano humilde, analfabeto, honrado e bigodudo. Daqueles que valem estatuetas em Los Angeles.
Zombaria à parte, o filme é um espetáculo. Anthony Quinn rouba a cena. Embora nos créditos seu nome ainda não apareça com destaque, já mostra por que foi um dos maiores atores do cinema no último século. As batalhas, os diálogos, tudo é belíssimo. E, se há incorreções históricas, se há uma pitada de doutrinamento, se há mesmo uma torrente de mensagens subliminares, respondo que ao cinema tudo se perdoa. Era a Guerra Fria, cada fotograma tinha de estar a serviço da nação.
Mas o melhor de tudo, na verdade, foi ver projetada na tela a ironia do tempo. Se fosse produzido hoje, Viva Zapata! seria considerado um atentado ao patriotismo. A turma de Bush e Limbaugh o condenaria como antiamericano. Sob suspeita de pertencer ao Talibã, acabariam deportando Elia Kazan de volta para a Turquia, como fizeram com Chaplin. A Fox, no frigir dos ovos, se recusaria a passar o material promocional. Marlon Brando, o mito fanhoso e fortão, teria seu retrato afixado em praça pública, procurado como perigoso terrorista ou, por que não, agente vermelho. O grande sucesso, quem diria, transformado em enorme perigo, pela mera correnteza das décadas.
Tudo porque, na realidade, não há dois seres humanos mais distintos que o Zapata que morreu no México em 1919 e o Zapata que nasceu em Hollywood em 1952. Este último se espelhava metade em São Francisco de Assis, metade em Rambo, com o perdão do anacronismo. Garboso e simplório, descendia de uma família de renome, mas não sabia ler e não tinha um grão de terra que fosse seu. Desprezava as roupas elegantes e só queria um pouco de paz para os camponeses, seus vizinhos. Virou general por acaso e derrubou governos por sorte. Teve uma rápida passagem pela presidência, mas renunciou, tomado de asco pelo universo do poder. Quando morreu, na famosa emboscada, foi culpa do cansaço por tanta luta. Quase uma desculpa para depor as armas.
O Zapata do México era um pouquinho diferente. Tinha terras; era pouca, mas produzia. Adorava vestir-se com garbo, destoava pela elegância até exagerada nas festas, cultivava um bigode que devia lhe subtrair não pouco tempo da vida a aparar e pentear. É provável que soubesse ler, caso contrário teria sido em vão o esforço do amigo Ricardo Flores Magón em lhe apresentar livros anarquistas. Em vez disso, deu resultado: Zapata se encantou pelo anarquismo a ponto de escrever um projeto de reforma agrária. Chamava-se Plano Ayala e influenciou o debate político mexicano por décadas. Enfim, se ele foi presidente do México, esqueceram de registrar e só contaram a Steinbeck.
Nem preciso dizer que o Zapata das telas é muito mais interessante. Fico imaginando os suspiros de nossas avós nos cines Serrador e Payssandu. O verdadeiro era muito humano, não chegou a general por acaso, tinha aspirações políticas e gosto de sangue, perdeu muitas batalhas e morreu porque se deixou enganar. Já Marlon Brando, quando mexicano, levava uma vida muito dura em nome de uma causa. Vivia escondido nas montanhas, arregimentava pobres camponeses ingênuos para sua luta, atacava comboios, preparava emboscadas, o escambau. Suprema ousadia, associou-se com comunistas e exilados para derrubar sucessivos presidentes de seu país. Alguns deles, até eleitos.
Não raro, dava um passo para fora de seu analfabetismo e discursava com as melhores técnicas da oratória. Conclamava cada homem a pegar em armas contra a iniquidade dos poderosos. Afirmou e reiterou que, se os oprimidos não se organizassem e lutassem contra os poderosos, as oligarquias, as corporações, seriam humilhados até o fim dos tempos. Para ele, não havia governo e não havia lei que estivessem acima do sagrado direito do trabalhador à terra. Parecia que falava Jacobo Arenas ou Osama bin Laden, mas não. Era um astro americano, filho dileto do star system, a soldo da não muito socialista Fox, explicando ao público, aos proletários, à classe média, o poder do indivíduo contra a ameaça dos poderosos. Leia-se, por favor, o poderoso exército soviético.
Eis, porém, que nesse meio-tempo os vermelhos viraram poeira. Grupos armados de países pobres, que vivem nas montanhas, preparam emboscadas, atacam comboios, ameaçam governos e desconsideram leis fundiárias saíram, vamos colocar assim, de moda. De quebra, ganharam uma nova alcunha, nem preciso dizer qual, e enchem de medo o cidadão médio e honrado. Não são mais interpretados por galãs do naipe de Marlon Brando e passaram para o lado menos feliz do quebra-quebra nas telas. Levam, se têm sorte, alguns cascudos de James Bond, quando tentam destruir a civilização ocidental, como outrora foi a praxe dos vilões russos. A idéia de que as pessoas peguem em armas contra os poderosos se tornou perigosamente inconveniente, agora que no ringue do poder mundial só sobrou um lutador de pé.
O Zapata de Marlon Brando não era um general competente como o Zapata de Morelos: era um terrorista (pelos padrões contemporâneos) cujas vitórias se apoiavam tão somente em sua ideologia inquebrantável e sua sede de lutar. Hoje, mais de meio século depois de filmado, Viva Zapata! de Elia Kazan, para além do filme épico, tornou-se um documento histórico. Onde mais podemos ver a indústria de Hollywood aplaudindo efusivamente um grupo paramilitar, sabotador, proscrito, liderado por um anarquista violento, mal ajambrado e de pele morena (artificial, mas enfim)! Em tempos de Halliburton e AIG, o filme é uma oportunidade rara de ver uma produção americana prestando homenagem à iniciativa privada.
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Gostei do toque nostálgico do texto. Vá lá que o filme para mim, não desceu muito bem. Acho o discurso ingênuo, tem jeito de revolucionarismo de grêmio estudantil com trotskismo mal colocado. Mas, não se pode chamar de ruim, é apenas um filme poiliticamente plano e moralmente indolor com um brilho corrupto, afinal é Kazan na direção, Brando e Quinn dominando tudo numa batalha de egos inesquecível. E esse trio junto, comprova a força do auê do Actor’s Studio diante do espelho, na maior alegria.