Asas à imaginação
por Lelê Teles – Em um muro em Cochabamba há uma pichação: “Erradiquem a Coca-Cola”. Evo Morales já havia dito que a coca não poderia ser legal somente para a Coca-Cola. Nos Estados Unidos, há três anos, um energético foi banido das prateleiras: ele tinha o sugestivo nome de Cocaine e a fonte imitava um pó de giz. Agora, cinco estados alemães proibiram a venda do refrigerante Red Bull Cola após constatarem vestígio de coca na composição química do refresco.
Não há motivos para espanto. A folha de coca não é uma droga, é um suplemento nutritivo. E tem, há séculos, uso medicinal e terapêutico, além de servir para fazer chá, bolachas, xampus etc. O químico italiano Ângelo Mariani fez a infusão alcoólica de folhas de coca, em 1863, criando o vinho Mariani, muito apreciado pelo Papa Leão XIII. O Foro Internacional de La Hoja de Coca, realizado em 2006 na Facultad de Ciencias Económicas de Buenos Aires, solicita que a ONU retire a folha de Coca da categoria de veneno ou estupefaciente. O Foro reuniu empresários, cientistas, técnicos, indígenas, políticos e membros da sociedade civil da Argentina, Peru, Equador e Bolívia.
Foram os europeus que criaram a cocaína. Freud foi o seu maior entusiasta, chegando a receitá-la a seus pacientes. Os estadunidenses consomem metade da cocaína produzida no mundo. Os europeus ficam com boa parcela da produção. O narcotráfico global, que movimenta 600 bilhões de dólares por ano, deposita seu dinheiro nos paraísos fiscais pertencentes a países como Estados Unidos, Inglaterra, Suíça e Alemanha. Quem é mesmo que lucra com a venda de cocaína?
A cocaína é uma droga química. E só é fabricada na Colômbia, Bolívia e Peru porque as autoridades permitem o livre comércio dos agentes químicos necessários à sua produção. Ou seja, além dos paraísos fiscais, a indústria química também lucra muito com a produção de cocaína. Entre 700 e 1.000 toneladas de cocaína são produzidas por ano somente na Colômbia. Esses produtos químicos, como se pode deduzir, não são comprados litro por litro em uma farmácia de esquina – são centenas de toneladas!
Os Estados Unidos, em uma fracassada guerra contra as drogas, despejaram 8 milhões de litros de produtos químicos no solo colombiano a pretexto de erradicar as plantações por fumigação, mas só se conseguiu poluir o ambiente e contaminar os camponeses. Os governantes deveriam fechar o cerco à venda de produtos químicos – sem insumos não tem droga – e deixar a população andina viver em paz com suas plantas milenares, produzindo refrigerantes, energéticos, chás, vinhos, bolachas…
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