22–05–2009

A arte da ficção, de David Lodge

por Daniel Lopes – Calma. Esse não é mais um daqueles manuais que te farão escrever o livro da década. Reunião de 50 breves ensaios do escritor e professor David Lodge, publicados originalmente nos jornais Independent on Sunday e Washington Post, A arte da ficção é, segundo o autor, “para as pessoas que preferem ter contato com a crítica literária em doses homeopáticas”. Doses homeopáticas, mas ricas em substância. Análises curtas e profundas. Não há uma única página desse livro sem potencial pra encher os olhos dos amantes da ou iniciantes na literatura.

Cada capítulo apresenta um tema ou aspecto da ficção associado a um (ou mais de um) escritor ou escritora de língua inglesa (com a exceção de Milan Kundera). Assim, o capítulo 9 é “Fluxo de consciência (Virginia Woolf)”, o 17, “O leitor no texto (Laurence Sterne)”, o 39, “Ironia (Arnold Bennett)”, e por aí vai. No capítulo sobre Salinger e sua “skaz”, ficamos sabendo que esta é uma palavra russa que designa o texto que lembra mais o falar que a cerimoniosidade da escrita. Difícil imaginar outro termo que defina melhor o estilo de Salinger. Quando escreveu sua obra-prima O apanhador no campo de centeio (1951), o recluso autor mostrou-se um herdeiro direto de Mark Twain, que com seu descolado Hucleberry Finn buscou distinguir a literatura estadunidense da prosa formal britânica.

Todos os capítulos de A arte da ficção abrem com passagens de contos ou romances, que servem de base para as explorações de Lodge. O livro foi publicado primeiramente em 1992 – daí a aposta furada de seu autor, de que “a invenção do fax pode dar vida nova à forma” do romance epistolar, algo que não se cumpriu nem com a proeminência do e-mail.

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TRECHOS SELECIONADOS

- A aporia em Beckett:

Na ficção de Samuel Beckett, especialmente em escritos mais tardios, a aporia é endêmica. “O inominável” (publicado pela primeira vez em francês como L’innommable, em 1952) é um romance de fluxo de consciência, mas não como o “Ulisses” de Joyce (…). Temos apenas uma voz narrativa que fala consigo mesma, transcreve seus pensamentos à medida que estes lhe ocorrem enquanto deseja a extinção e o silêncio, mas condenada a seguir narrando, ainda que lhe falte uma história a contar e não tenha certeza de nada, nem mesmo de sua própria situação no espeço e no tempo.

 

(…) “O inominável” parece ser o que Roland Barthes definiu como “grau zero da escrita”, em que “a literatura é vencida, a problemática humana é suscitada e apresentada sem nenhuma elaboração, o autor se torna irreversivelmente honesto”.

 

- O futuro imaginado em Orwell:

Claro que para nós, hoje, 1984 já aconteceu. Porém, Orwell escreveu o romance imaginando o futuro e, para compreendê-lo, temos de lê-lo como um romance profético, não histórico. Orwell usou a narrativa no passado para conferir ao seu relato do futuro uma aura romanesca de realidade. Ao ambientar o romance apenas trinta e poucos anos no futuro, talvez ele quisesse impressionar os leitores com a iminência da tirania política que vislumbrava. Mas há também uma certa dose de humor negro no espelhamento anagramático da data em que o romance foi terminado (1948). Orwell inspirou-se em muitas catacterísticas reconhecíveis da vida sob o regime de austeridade na Inglaterra do período pós-guerra, assim como em relatórios sobre a vida no Leste Europeu, para criar a atmosfera opressiva da Londres em 1984: decadência, escassez, dilapidação. A ficção científica em geral nos conta como as condições materiais da vida serão diferentes no futuro. Orwell sugeriu que seriam bastante semelhantes, mas piores.

 

A primeira frase do livro [“1984”] é muito admirada, e com razão: “Era um dia claro e frio em abril, e os relógios soavam treze horas”. O golpe vem ao final da frase, ainda que provavelmente seu impacto seja maior para os leitores que lembram de uma época em que não havia relógios digitais nem tabelas de 24 horas. Até que você chegue ao fim, tudo parece familiar. Este poderia ser o início de um romance “comum” sobre um dia qualquer no mundo contemporâneo. É a estranha palavra “treze” que nos informa, com extraordinária economia, que uma experiência muito diferente nos aguarda. Os relógios, o tempo e os cálculos que os envolvem são parte das regras que usamos para ordenar nossas vidas no mundo comum e familiar que conhecemos. Assim, “treze” é como aquele momento durante um pesadelo em que você percebe estar sonhando e acorda. Mas, nesse caso, o pesadelo acaba de começar, e ao menos o herói não acorda nunca – ele segue adormecido num mundo onde o poder pode determinar que dois mais dois sejam cinco.

 

- Nomeando os personagens:

Os sobrenomes (…) em geral são percebidos como arbitrários, a despeito de qualquer força descritiva existente em outras épocas. Não esperamos que um vizinho chamado Shepherd cuide de ovelhas, como o sobrenome indica, nem associamos o nome à ocupação. Mas se esse mesmo sr. Shepherd for personagem de um romance, no entanto, associações pastorais e bíblicas serão inevitáveis. Um dos grandes mistérios da história literária diz respeito às intenções precisas do respeitabilíssimo Henry James ao batizar uma de suas personagens com o nome Fanny Assingham.

 
::: A arte da ficção ::: David Lodge, trad. Guilherme da Silva Braga :::
::: L&PM, 2009, 246 págs. ::: compare preços :::

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| 5 comentários | Dê sua opinião ↓ |

  1. Bernardo (22–05–2009 9:29 am)

    Não tem nenhum link pra mandar esse post por e-mail???

    -Responder

  2. Daniel (22–05–2009 11:21 am)

    Ainda não, Bernardo. Vá desculpando.

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  3. léo e só (23–05–2009 12:26 am)

    oi Daniel

    Só uma nota de bar.

    Não senti essa estranheza com a hora treze. Talvez por já estar acostumado com esse tipo de marcação temporal.

    Pura nota de boteco, mas que até dá um caldo sobre impressões e captações do objeot artístico.

    abs

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  4. Daniel (23–05–2009 1:27 am)

    Léo, é que o “treze” funciona como o primeiro sinal da precisão (e) do domínio estatal que ocorre durante todo o livro. Da primeira vez que reli o 1984 me ocorreu isso, mas pensei que podia estar imaginando coisas. O Lodge me confirmou… ;-)

    Abs.

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  5. Bernardo (25–05–2009 7:53 am)

    Que pena Daniel, queria enviar o texto a um amigo e tive que copiar e colar.

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