Uma grande estreia discográfica: Algaravia
por André Egg

Ao entrar em uma faculdade de música, o músico se depara com aulas e professores chatos (posso dizer isso porque sou professor em faculdade de música), leituras e trabalhos teóricos que dificultarão sua dedicação ao que mais gosta de fazer: tocar música. E muitos entram imaginando que o mais importante que levarão da faculdade de música é o seu diploma. Não é não. Entre outras coisas, porque a maior parte dos trabalhos que estão ao alcance do músico não exigem diploma. O que de melhor o músico poderá levar será sua formação, e, melhor ainda, os colegas que irá conhecer no curso, e que formarão seu network para o resto da vida. Alguns encontrarão afinidades musicais e formarão grupos.
Foi o que aconteceu com um pessoal no curso de música da UNICAMP: Bruno Cabral (saxofone), Rafael Thomaz (violão e guitarra), Eloá Gonçalves (piano e acordeom), Ricardo Lira (contrabaixo), Fábio Augustinis (bateria e percussão). Eles formaram um grupo, e lançaram recentemente um memorável disco: Algaravia. Ainda não entendi bem se “Algaravia” é o nome do disco ou do grupo ou as duas coisas ou nenhuma. Só sei que o disco é uma maravilha.
Partindo de uma citação de Deleuze/Guattari sobre rizoma, incluída no encarte do disco, o grupo remeteu às múltiplas possibilidades de afinidades musicais, a partir da seleção de um repertório de compositores “clássicos”. Coloco entre aspas a palavra, porque ela vem carregada de imprecisão conceitual, explorada ao extremo nesse disco. Ravel, Debussy, Camargo Guarnieri, Villa-Lobos, Marlos Nobre, Piazzolla, Satie, Janácek – todos compositores classificáveis como clássicos ou eruditos, mas todos também músicos que transitaram pela música popular – seja pela atuação profissional seja pela linguagem composicional.
Assim, obras compostas originalmente para piano solo, destinadas aos livros de partituras, às salas de concerto, aos repertórios dos conservatórios, em Algaravia aparecem em maravilhosos arranjos, assinados pelos próprios integrantes do conjunto, que ainda conseguiram as participações especiais de Maria José Carrasqueira (piano), Ivan Vilela (viola caipira) e Nailor Proveta (clarinete) em algumas faixas.
Na versão para banda, as músicas escolhidas ganharam nova vida. Uma vida que provavelmente era a que inspirava os compositores na hora em que eles colocaram todas aquelas notas no túmulo das bolinhas na pauta, e tantas vezes foi datilografada por pianistas mundo afora. Não estando presas às limitações de timbres do piano, as obras revelaram a cor que estava latente, e o fraseado, o frescor e a liberdade improvisatória da música popular reaparecem – lembrando que os grandes músicos, apesar da sisudez que está embutida no termo “clássicos”, nunca abriram mão dessa espontaneidade.
Por uma série de fatores pessoais (excesso de compromissos de trabalho, uma família com duas crianças, falta de espaço adequado em casa para ouvir música), há anos que não ouvia um disco dessa maneira: deitado no sofá, escutando de cabo a rabo, sem interrupção. E se fiz isso com Algarvia não foi somente porque consegui driblar as limitações de tempo/espaço. Foi, acima de tudo, porque o disco é fascinante como há muito tempo eu não via.
Boa parte do álbum me remete à referência musical do Duo Assad, cujos violões irmanados passaram anos fazendo esse diálogo erudito-popular em primorosas transcrições. Coisas que depois a gente também já pode ver no trabalho de um Quaternaglia, ou de um Maogani. “A lenda do caboclo” (Villa-Lobos, faixa 5 do disco) ou “Ciclo nordestino n° 1″ (Marlos Nobre, faixa 6 do disco) são coisas que me lembro de ter ouvido com os irmão Assad, e que remeteram à ligação estética tão forte que o disco me causa.
O disco todo é de uma delícia indizível, mas se me torturassem até eu ter de escolher apenas uma música, ficaria com o arranjo de Rafael Thomaz para “Ciclo nordestino n° 1″ de Marlos Nobre. Com a viola de Ivan Vilela de lambuja, o Algaravia remeteu de novo à balbúrdia da música de rua e das feiras do nordeste brasileiro, onde provavelmente Marlos Nobre foi buscar inspiração para sua composição para piano. Além da volta aos timbres e inflexões populares, o arranjo inseriu um longo improviso no meio da peça, que deixou tudo ainda mais instigante.
Além do excelente trabalho de escolha das músicas, dos arranjos e das execuções impecáveis, o disco também é muito bem gravado e tem ótima arte gráfica, realizada por Gu Sobral.
Tem pra vender na Livraria Cultura e dá pra ouvir uma palhinha no MySpace.

















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