Tezza além dos prêmios

a Israel Jorge

É verdade que se escreve para pensar, é verdade que se escreve para fazer as pessoas pensarem. Mas também não seria verdade que se escreve pelo reconhecimento? Trata-se de uma consequência inevitável da exposição, e a exposição é a essência da arte (em que pese a parceria paradoxal com a solidão criativa). Qualquer tentativa de impressão artística nos outros, justamente por depender dos outros, parece não prescindir de sua admiração. O prêmio, portanto, seria o principal objetivo de todo escritor. Cristovão Tezza, porém, garante que não: “Jamais escrevi para ganhar prêmio.” E ele afirma como premiado. Sem contar algumas obras anteriores, O filho eterno (2007) ganhou praticamente tudo (Jabuti, Associação Paulista dos Críticos de Arte, Bravo!, Portugal-Telecom, São Paulo, Zaffari & Bourbon e Charles Brisset).

Tezza, de fato, está acima da vaidade literária, e sua trajetória de vida comprova. A simplicidade aventureira e o espírito despojado que marcaram diversas experiências (mochileiro, relojoeiro, etc.), bem como o trabalho docente, formaram um escritor que cultiva a face mais sublime da arte.

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Amálgama: Olá, Cristovão, tudo bem? Cansado de conceder entrevistas, após a avalanche que O filho eterno provocou?
Cristovão Tezza: Digamos que eu subitamente entrei numa roda-viva de entrevistas, palestras e eventos literários pelo Brasil afora de que só agora começo a acordar. Na verdade, tudo mudou na minha vida a partir do momento em que pedi demissão da universidade para me dedicar a uma vida mais tranquila – uma tranquilidade que de fato ainda não aconteceu, mas as coisas vão bem. Começo enfim a reorganizar minha vida.

Chesterton, em Ortodoxia, fez as seguintes considerações: “Os velhos contos de fada fazem do herói um ser humano normal; suas aventuras é que são surpreendentes. Elas o surpreendem porque ele é normal. Mas no romance psicológico moderno o herói é anormal; o centro não é central. Consequentemente, as mais loucas aventuras não conseguem afetá-lo de forma adequada, e o livro é monótono. Pode-se criar uma história a partir de um herói entre dragões, mas não a partir de um dragão entre dragões. O conto de fadas discute o que o homem sensato fará num mundo de loucura. O romance realista sóbrio de hoje discute o que um completo lunático fará num mundo sem graça.” Guardadas as devidas diferenças históricas, como é que você responderia?
A ideia de um herói “normal” é interessante – afinal, eu, você e o leitor somos “normais”, não? Eu não vejo o herói do romance realista moderno como um lunático. É um tema amplo demais para pensar. Mas poderíamos ver o herói moderno como alguém desconfortável diante do “sentido de ordem” que o Estado nos oferece. A civilização, afinal de contas, é um conjunto de regulamentos cotidianos (o que deixa, aí sim, o mundo sem graça, mas qualquer outra opção acaba por se provar irracional). A ideia de desconforto ou inadequação talvez esteja no centro do herói moderno.

Qual seria uma boa pergunta sobre um de seus romances que ainda não lhe fizeram?
Sinceramente, não sei. Eu tenho a sensação de que já perguntaram tudo – eu é que não sei de fato responder a muitas questões, mas vou disfarçando como posso. Estou sempre pensando sobre questões literárias, mas não tenho um quadro fixo de referência. Agora mesmo começo um ensaio mais longo, não acadêmico, sobre a prosa – algo que há anos tenho pensado em escrever. Mas sinto que as “respostas” não estão prontas. Será o ato de escrever que me dirá alguma coisa mais estável e precisa.

No clima de Um erro emocional, você diria que a admiração platônica é mais benéfica ou mais prejudicial em um relacionamento?
Toda relação amorosa tem uma boa dose de platonismo e idealização. Como disse o poeta, o homem não suporta tanta realidade.

Creio que não precisamos mais falar sobre as recentes mudanças no prêmio Jabuti, pois não faz mesmo nenhum sentido um segundo colocado entre os infantis (2008) ou romances (2010) levar o livro do ano de ficção. Mas o que significa ser premiado, afinal? Suas reflexões e noções estéticas, após o reconhecimento, tornaram-se mais reais ou mais convincentes para você mesmo?
Eu tive uma excelente escola para reagir aos concursos e prêmios literários: durante 20 anos e cerca de 10 livros perdi praticamente todos os concursos literários em que entrei. Isto é, passei a vida escrevendo meus livros por eles mesmos. Nada contra os prêmios, mas jamais escrevi uma linha pensando neles. E também sei que a literatura não pode simplesmente ser pautada pelos prêmios literários, que são retratos importantes de um momento literário, mas é claro que são frágeis e falíveis.

Um detalhe importante é que a importância do prêmio literário, no Brasil, mudou drasticamente na virada do século 21, na vida literária pós-internet. De uma relevância mais ou menos ornamental, como costumava ser, passou a ser economicamente forte (prêmios de 100 mil, 200 mil reais, por exemplo, como os da Portugal-Telecom, Jornada de Passo Fundo e São Paulo de Literatura seriam considerados um delírio poucos anos atrás), e literariamente significativos, pela profissionalização das comissões julgadoras, que têm tido um peso importante, e pela multiplicação da informação via internet (blogs, revistas digitais, cadernos de cultura, resenhas, etc.). Hoje, prêmios fazem diferença na vida real: graças a eles, por exemplo, criei coragem para sair da Universidade. Mas, se mudaram minha vida do lado prático, não mudaram em nada a relação sempre tensa que mantenho com a página em branco quando começo outro livro.

“Nenhuma cidade tem mais vergonha na cara que Curitiba – tanta, que emudece, na timidez doida e doída, no silêncio pesado de alguma coisa mais grave, mais forte, mais alta que o riso fácil brasileirinho.” Gosto muito desse trecho da crônica “O olhar de Curitiba”, de 1991. Uma coisa “mais alta”… Pergunto-me sempre se o espírito “brasileirinho”, num viés de déficit de atenção e hiperatividade carnavalesca, não prejudica o alcance da serenidade intelectual. O que acha?
Não sei. Talvez haja coisas demais na cesta: brasileiros, déficit de atenção, carnaval. A crônica era um texto sobre a literatura de Dalton Trevisan, e a expressão deve ser lida nesse contexto.

Em “Seguidores, perseguidores e fugitivos”, crônica mais recente, você declarou fugir do Twitter. O que fazer para que outras pessoas nos sigam nessa fuga? Há volta no processo esquizofrênico criado pelas redes sociais, com todas aquelas oportunidades de novas (e sempre sonhadas) identidades?
Veja bem: eu não tenho nada contra a internet e suas novidades; acho que está acontecendo uma revolução monumental, e ainda não atinamos para todos os seus efeitos. A questão é que na vida temos sempre uma idade, um temperamento e um foco de interesse. A minha filha vive no Twitter e no Facebook, amigos meus mantêm-se plugados na rede, e eu acho isso ótimo. Só que não tenho nenhum interesse em ficar seguindo nem ser seguido por ninguém, nem partilhar fotografias na rede, nem nada disso. O meu tempo é desesperadamente curto, estou quase chegando aos 60 anos e tenho outras prioridades. Eu vivo viajando e dando entrevista – é o suficiente de exposição para mim; às vezes, até demais. Aqui em casa quero sossego, solidão e silêncio. A internet é uma devoradora brutal de tempo.

E o que podemos esperar de sua coletânea de crônicas, prevista para 2012? Alguma definição particular para esse gênero que brinca entre a efemeridade e as ponderações atemporais?
O livro será organizado e apresentado pelo jornalista e tradutor Christian Schwartz, meu amigo, vizinho e, como eu, também torcedor do Atlético Paranaense, o que é um detalhe importante. Conversamos sempre sobre as crônicas, um gênero novo para mim (até dois anos atrás, nunca havia escrito uma crônica na vida). Estou curioso para ver o resultado, porque os textos lidos em conjunto acabam por criar uma unidade estilística e temática eventualmente ausente na leitura avulsa do jornal.

1 comentário | Dê sua opinião

  1. Franciele Vianna 07/03/2012 em 9:07 pm

    eu nunca li um livro da literatura brasileira, mas minha professora de português me disse que o seminário que ela vai fazer com os alunos deve ser só sobre literatura brasileira e a obra O FILHO ETERNO estava na lista dos pedidos pela professora apesar de não ter nada que dissesse sobre o que o livro contava eu escolhi justamente pelo titulo eu imaginei que seria algo mais interessante de se aprofundar num seminario, mas tenho um pequeno problema esse livro não tem na biblioteca publica da minha cidade nem da minha escola e pra compra tem que pedir para vir e vai demorar um tempo e meu seminario é no mês que vem, ou seja, só tenho um mês para ler ele queria, mas o que eu queria mesmo desse site algo que me ajuda- se se eu não conseguir o livro se não der tudo bem agradeço só pela tentativa.

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