Sobre ‘Tanto Faz’, ‘Abacaxi’ e arredores
por Luiz Biajoni
Eu tinha uns 13 ou 14 anos e adorava ir até a casa de um amigo de colégio que tinha um irmão mais velho e esse irmão mais velho tinha uma imensa estante com livros no quarto que os dois dividiam e eu ficava olhando praqueles livros e lendo uns pedaços e folheando. Um desses livros tinha um título que me chamou a atenção: “Tanto faz”. Eu achei demais. Ficava imaginando o camarada tendo acabado de escrever o livro e era chegado o momento de batizar a cria e ele dava de ombros e dizia: tanto faz – e assim ficaria.
(Bem, depois fiquei sabendo que era assim que os músicos de jazz davam nomes às suas canções: era sempre algo que lhes passava pela cabeça naquele momento – e são várias as canções com nomes estranhos como “So What”, do Miles Davis, por exemplo. E ei, será que Tanto Faz, no fundo, não é um longo improviso jazzístico?)
Um dia eu apanhei aquele livro da estante do irmão mais velho do meu amigo e li alguns trechos. Não entendi nada, mas adorei. Ficaram em minha memória algumas palavras em inglês e algumas passagens com sexo. Segui a vida e acho que nunca mais encontrei outro Tanto Faz.
Uns 20 anos depois, li numa nota de jornal que a Azougue Editorial estava relançando um “clássico do underground brasileiro” – e adivinha? Eu reencontrava o livro. Corri e comprei e li e pouco tempo depois pediram que eu fizesse uma lista dos meus 10 livros brasileiros preferidos e eu taquei lá o tal Tanto Faz – muita gente me perguntou que livro era aquele, eu indiquei adoidado.
Agora, a Companhia das Letras inaugura o selo “Má Companhia” com a obra “maldita” de Reinaldo Moraes, acompanhada, num único volume, de sua continuação, Abacaxi, um livro ainda mais obscuro que Tanto Faz. Há pouquíssima coisa mais legal na literatura brasileira, eu garanto.
Os dois livros contam as aventuras de Ricardo, um brasileiro batendo nos 30 anos, em Paris (em Tanto Faz) e em Nova Iorque (em Abacaxi). Ele bebe, usa drogas, ouve música, conhece pessoas e lugares, namora e filosofa. E só. Como se precisasse de mais. Você encontra vários textos na internet falando sobre esses livros: quem lê logo se apaixona e acaba querendo escrever uma resenha. Eu quis escrever algo diferente. Mas recomendo os livros igualmente.
(Gostei ainda mais de Abacaxi: achei-o mais conciso e até mais engraçado e perverso.)
(O maior problema dos livros é que eles foram escritos em uma época em que não existia a Aids, o celular ou a internet, e alguns leitores mais jovens podem realmente estranhar um mundo assim.)
:>)
Oito anos depois de ter lido a edição da Azougue e loguinho depois de ter lido a edição dupla da Cia., achei que podia ser interessante ler a primeira edição, da Brasiliense, de 1981. Fui buscar na Estante Virtual e, ei, tinha um camarada vendendo o livro a R$ 12,00. Comprei imediatamente. Qual não foi a minha surpresa quando vi que o camarada que estava vendendo o livro por essa pechincha era de… Americana! – minha cidade, isso mesmo, aqui do ladinho de casa! Pura coincidência, claro.

-- Tantos fazem --
Devo ser uma das poucas pessoas com três Tanto Faz – e isso mostra o quanto eu gosto do livro. Acompanhado de Abacaxi, esse já é um dos lançamentos do ano.
Trecho de Abacaxi, no qual o nosso herói diz qual o final do seu livro anterior (e que não é verdade):
No alto da torre Eiffel, ele se preparava para embarcar no Zepelim que o traria de volta a São Paulo. A representante da Associação Das Mulheres que Ele Infelizmente Não Comeu em Paris ofereceu-lhe um felatio de despedida, ao som da Marselhesa, enquanto a população do Zepelim, perfilada na plataforma, batia continência coa a mão esquerda e punheta ou siririca coa direita. Foi tocante, trepidante, esporrante. Ricardinho gozou na boca da representante da ADMQEINCEP com os olhos rasos d’água. Já a bordo do Zepelim, enquanto enrabava uma zep-girl (cortesia da primeira classe), o herói devolvido suspirou: ‘Tchau vida boa…’.
::: Tanto Faz & Abacaxi ::: Reinaldo Moraes ::: Cia. das Letras, 2011, 344 páginas :::
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Caro Luiz Biajoni,
Ainda hoje tenho um exemplar de “Abacaxi” lançado pela L&PM nos idos dos anos 80. Adoro este livro. Durante muito tempo, na década de 90, fiquei aguardando notícias sobre Reinaldo Moraes, sem sucesso. Parecia que ele tinha caído no ostracismo.
Até que um dia, por volta de 2004, durante uma aula no curso de especialização em Jornalismo Cultural, a professora Angela Priston comentou sobre as obras deste escritor, para a minha surpresa e felicidade. E não demorou muito, Reinaldo Moraes voltou a estar em destaque, com livros editados e discutidos. Ainda bem.
Ah, também tenho duas edições de “Tanto Faz” e agora, depois dessa notícia, pretendo comprar esta mais recente em dose dupla com “Abacaxi”. Gosto muito igualmente dos contos de “Umidade”.
Abraços,
obrigado pelo comentário, eduardo. não li umidade e estou para ler o pornopopéia. vale a pena reler abacaxi nesta nova edição, mudou muita coisa (mais que tanto faz). ficou legal. na comparação, acho abacaxi até melhor. houve um resgate do moraes mesmo, tomara que ele continue no embalo.
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