Realengo: Uma defesa da imprensa
por Luiz Biajoni

Além das imagens do dia da tragédia, de depoimentos emocionados de envolvidos e de psicólogos desfiando teorias, o que mais tenho visto nesses dias são críticas à imprensa. Acusam a imprensa de repetição, de invasão da privacidade dos envolvidos, de não respeitar a dor e o sofrimento de quem perdeu o filho ou mesmo de quem está em casa, no conforto do lar, querendo ver outra coisa na TV; de entrevistar pessoas que têm as mais diversas teorias sobre o que houve, mas que jamais vão nos dar a resposta real; de ficar martelando o assunto como se não tivesse nada mais a mostrar.
A mídia está fazendo o seu papel. Ela não está inventando coisa que não aconteceu, está apenas mostrando o que houve – e tentando buscar algumas respostas. As respostas não serão definitivas, não irão mostrar a verdade, não irão solucionar o problema nem ressuscitar os mortos. A imprensa não tem as respostas. Quase nunca. Em nenhum caso. Nem no caso da escola de Realengo nem no caso do mensalão. A imprensa mostra, faz algumas análises, aponta nomes, tece teorias. É assim. Sempre foi assim. É bom que seja assim e é assim em todos os lugares de imprensa livre. É assim nos Estados Unidos ou na França. E criticar isso é criticar uma liberdade conquistada.
Quando acontece qualquer acidente ou tragédia, é natural que se busquem respostas na razão. Para os religiosos, o conforto está em outra parte – ou deveria estar. Mas a imprensa – uma máquina laica – procura, ela mesma, as razões na intenção de satisfazer essa ânsia do seu cliente (o leitor, o telespectador, o ouvinte) . Assim, ela insiste, expõe, procura informações novas, entrevista pessoas – e, é claro, erra em algumas escolhas. O mais importante, eu acho, é não deixar de fazer.
A tragédia foi horrível e impactante e ela precisa ser mostrada. E culpados precisam ser procurados, apontados, as razões precisam ser discutidas e todos devem ver e rever as cenas – e as crianças devem saber o que houve e tudo deve ser, sim, o mais explorado possível. Esse tipo de exposição não causa novas tragédias, como muitos pensam: ela deve acontecer para gerar mais e mais discussões e iniciativas que impeçam novas tragédias e conscientizem as pessoas sobre uma série de coisas. A exposição sensacionalista de tragédias assim faz avançar a sociedade.
O massacre de Columbine foi explorado exaustivamente pela imprensa – e não só a americana -, sempre acompanhado de “possíveis motivações”, maneiras de se tentar entender o ocorrido. Além da imprensa, Michael Moore deu sua versão no documentário Tiros em Columbine (vencedor do Oscar): a facilidade na compra de armas, a angústia adolescente numa cidade pequena e deserta e a militarização dos EUA. O cineasta Gus van Sant deu sua versão, no filme Elefante, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, apontando para o bullying e para uma possível orientação homossexual dos dois garotos, em uma liberdade poética questionável. Ninguém sabe a motivação real, mas as obras – e a ampla divulgação pela imprensa – geraram várias discussões importantes e até ações que evitassem novos massacres como aquele.
Se por aqui alguém falar em fazer um documentário ou um filme, coitado. Há ainda, me parece, uma vontade de se querer varrer para debaixo do tapete nossas mazelas. No mar de matérias, depoimentos, entrevistas questionáveis, músicas lacrimosas em background, mães chorando e policiais indignados existe a verdade: o assassinato daquelas crianças. É isso que está sendo mantido no ar para que nossas antenas pessoais captem e tentem digerir. Ainda bem que há a imprensa para manter isso no ar.

Não acho que as pessoas critiquem a liberdade de imprensa. Criticam é o fato de essa liberdade ser uma licença para poder dizer a baboseira que quiser sem sofrer recriminações.
E dizer que essa exposição não causa novas tragédias é algo completamente sem fundamento. Que eu saiba, não há evidências concretas prum lado nem pro outro.
qualquer pessoa pode reclamar por baboseiras ditas, entidades de classe podem entrar com ações, etc… a questão da exposição é que sempre se diz que não deve-se mostrar para não incentivar. não é a exposição que incentiva nada, é como diz marilyn manson no documentário de moore: sempre vão achar que houve uma motivação distante, vão preferir culpar uma influência de um artística (um disco, um filme, uma matéria de TV) do que uma influência do meio, da família, etc…
Criticar a atuação da imprensa em um determinado caso não significa de maneira alguma criticar a liberdade de imprensa. É uma questão de bom senso, só por que a imprensa é livre para cobrir um determinado fato da maneira que bem desejar não significa que ela será isenta de qualquer crítica, muito pelo contrario.
O que ocorre com a imprensa nesse caso (e em muitos outros) é que não se está “discutindo” o caso Realengo. Ocorre sim uma mistura de mal profissionalismo – já no inicio do caso os jornalistas ficaram reféns de fontes que posteriormente mostraram-se equivocadas- conclusões apressadas e o excesso de apelo emocional no lugar do racional. Não se deseja fazer o cidadão pensar.
Também vale lembrar que mal jornalismo traz conseqüências. É só pensar nas tentativas de “rotular”
o assassino (islâmico, aidético) e como isso pode fomentar o preconceito contra certos setores da sociedade.
veja só: análises apressadas, posição emocionada, excesso de emoção num PRIMEIRO MOMENTO é natural. ou você queria que as emissoras ficassem distantes daquela quadro de realismo cruel, mostrando tudo de longe, e fazendo análises racionais do tipo: “é muito cedo para saber o que realmente aconteceu, esperemos que poucas pessoas tenham morrido…”. ora, estamos falando de seres humanos. o calor do momento é plenamente justificável.
sobre “fomentar preconceito”: o assassino escreveu que tinha ligação com o islamismo. foi ele, não foi a imprensa. a imprensa só divulgou. ora, o que está acontecendo? daqui a pouco o politicamente correto vai impedir a divulgação da realidade, não vamos mais poder dizer que o criminoso era negro ou que o morto era homossexual por causa das patrulhas? olha a liberdade de imprensa aí.
Tá, agora me diga, donde o assassino disse que era muçulmano? As únicas afirmações disso vieram da irmã dele e do policial. A carta que ele deixou, que foi o único comunicado que ele deixou, falava de preceitos cristão e até de alguma simpatia pela cause da proteção aos animais, nem uma menção ao islã.
Reafirmo novamente que liberdade de imprensa não significa de maneira alguma que a midia possui isenção para não ser criticada pelos cidadão que não estão satisfeitos com sua forma de cobrir a realidade.
a essa altura já apareceram vários escritos dele falando de islamismo, gabriel.
Biajoni,
Não, o rapaz NÃO É muçulmano. A União Nacional das Entidades Islâmicas divulgou um comunicado em que informa que esse rapaz “não é muçulmano e não tem nenhum vínculo com as mesquitas e sociedades beneficentes mantidas pela comunidade no Brasil”. Além disso, a própria autoridade policial descartou ligações com grupos terroristas islâmicos e classificou os escritos como uma fantasia do Wellington. Isto chama-se verdade factual.
Tá bom?
A mídia deve ter responsabilidade e saber do seu poder. A partir do momento em que a mídia acusa – sem NENNHUMA prova – o autor do massacre de ser islâmico, o que isso cria? A mulher de um líder muçulmano chegou a quase ser atacada depois desse absurdo.
Agora a mídia fala contra os games e contra a internet, em clara campanha pelo AI5#Digital. A mídia tem agenda política, não é independente. Ela é controlada por 5 famílias, todas com uma agenda política similar e histórico de apoio à Ditadura. Não é democrata ou democrática.
A mídia criou inúmeras teorias, todas infundadas, sem nem saber do teor da carta do infeliz! Depois de tanta mentira, mesmo com a carta mostrando um cara claramente cristão, fanáticos continuam a chamá-lo de muçulmano! Estamos criando ódio contra uma comunidade extremamente pacífica e importante! Ou melhor, a mídia está.
As manchetes dos principais veículos de imprensa destoavam. Não se sabia o número de vítimas e houve ainda grande especulação até mesmo sobre a motivação do assassino, enquanto as redes de TV e jornais buscavam os melhores ângulos para mostrar de forma mais crua a tragédia. Sangue, choro e desespero foram mostrados incansavelmente pela grande mídia, cada uma tentando ir mais além, numa competição que beira a desumanidade.
Em pleno dia do jornalista, o que vimos foram estes dando palpites, chutes, repassando a notícia sem qualquer apuração, pior, sem nenhuma responsabilidade.
A comparação feita por muitos com Columbine, escola dos EUA onde 15 pessoas foram mortas em 1999 (incluindo os dois responsáveis pelo massacre), funciona como paralelo não só pelo evento de similar mortandade, mas também pela cobertura midiática inconsequente. Nos EUA os culpados foram logo encontrados: Jogos violentos de videogame e Marilyn Manson.
Os dois rapazes responsáveis pelos massacres jogavam Counter Strike e ouviam o cantor. Estava resolvido.
Tudo sem grandes questionamentos sobre a sociedade em si, sobre o modelo de ensino e mesmo sobre o irrestrito porte de armas. Nos EUA as chacinas se repetem e, da mesma forma, pouco é questionado sobre os reais motivos, sobre a estrutura da sociedade e sobre algo que hoje finalmente vem sendo tratado como um problema generalizado, o bullying.
http://tsavkko.blogspot.com/2011/04/o-massacre-de-realengo-e-falencia-do.html
raphael, sem teorias da conspiração, ok? a mídia é múltipla, algumas pessoas insistem em tratar “a imprensa” como um grupo que senta e decide o que vai acontecer e como vai ser a cobertura. besteira.
“a imprensa” é feita de gente que, inclusive, erra. fica refém de informações, especialmente de órgãos públicos cheios de gente incompetente. sangue, choro e desespero foram mostrados incansavelmente pq foi isso que aconteceu. a mídia não maquiou, não teve photoshop. desumanidade foi o que aconteceu, a mídia apenas mostrou – várias vezes, para vários públicos, existe rotatividade de audiência e foi o fato mais importante do dia, da semana, do ano. você queria que o Jornal Nacional começasse aquela edição com “sobre o preço do pãozinho francês em 0,71%”? seja realista.
depois do incidente de columbine várias ações de medidas de segurança foram testadas e implementadas nos estados unidos. várias. passados 12 anos não houve mais casos como aquele, alguns menores, mas não como aquele.
A mídia é controlada por meia dúzia de famílias mafiosas. Isso já diz muito. Não vejo multiplicidade nenhuma em uma mídia que como bloco apoiou Serra e se pôs ferrenhamente ao Lula durante 8 anos (e não, não sou petista, lulista ou Dilmista, muito pelo contrário). Só a record fez algum contraponto, mas chamar a rede do Bispo de imparcial ou honesta é dose.
A mídia não precisava mostrar o sangue que mostrou, não precisava forçar crianças em desespero a dar entrevista chorando ou seus pais em desespero. O que vimos foi um circo de horrores, e que continua! A mídia tenta espremer tudo que pode e não pode. É vergonhoso.
olha, atrás de você, tem um mafioso da imprensa, cuidado!
pfff.
Caro Biajoni: Vou comentar seu artigo frisando, já de início, que vi muito pouco da cobertura feita pela mídia. Comento portanto alguns aspectos que prescindem de conhecimento mais detalhado desse episódio terrível que ocorreu na escola Tasso da Silveira. Acho que você adota uma atitude eticamente complacente, senão mesmo aprovativa, diante do tom sensacionalista rotineiro na mídia brasileira. Claro que a mídia tem o direito de mostrar o que acontece e até deve mostrar. A questão é de outra natureza. A questão é como mostrar e em que termos investigar e até julgar. Suponho que você reconhece a responsabilidade ética da mídia, em certos termos prevista até nos códigos legais. Também não está em jogo a liberdade de informação, também contemplada na constituição e noutros códigos legais. Confesso que me indignei diante do pouco que vi, notadamente no noticiário da Globo. Vi alguns minutos e logo desliguei a tv, pois não estou interessado em participar desse circo sado-masoquista orquestrado por uma mídia que quer faturar a qualquer preço, ao preço do sensacionalismo grosseiro que se lixa para a dor e sofrimento dessas pessoas atingidas pela brutalidade dos crimes expostos. É claro que o público não é inocente. Ele participa de forma decisiva desse jogo sado-masoquista. Mas a responsabilidade maior é sem dúvida da mídia.
Fernando
caro fernando, sou contra o sensacionalismo. mas, nesse caso, o sensacionalismo é justificável já que estávamos diante de um crime “sensacional”, totalmente diferente do que constumamos ver (ainda bem) e não há uma conduta padrão nem para os nossos sentimentos, nem dos repórteres (são seres humanos) e nem dos diretores de tv, etc… entenda o meu ponto: é um caso anormal e as circunstâncias de uma transmissão ao vivo como aquela INCLUEM repetição, existe uma grade rotatividade na audiência. acredito que, no geral, a mídia tem conduta ética. existem casos isolados de abuso, mas nesse caso específico os abusos devem ser perdoados por conta da grandiosidade da tragédia. muitos disseram que a repetição das imagens dos aviões se chocando com as torres gêmas tornaram o incidente banal. eu pergunto: como não repetir algo assim? como não fazer uma abordagem emocional?
Concordo com o autor do post. Quando o imprevisto quebra a nossa noção do possível, a sociedade procura o controle da situação criando narrativas ao redor do fato. Isso passa pela mídia. Passa – e não só. Vários erros de interpretação e abordagens acontecem, sem falar do óbvio, que é nos primeiros momentos as estimativas de números conflitarem. Quem critica isso é porque não tem noção das condições de produção.
Quem diz que a mídia procura soluções simples como religião ou internet, ou games e cantores no caso de Columbine, sem querer comete o mesmo erro simplista. Porque a mídia não é culpada de toda a interpretação torta. Quem interpreta também é toda a sociedade.
Por razões que desconheço, muitas pessoas criticam os meios pelo simples fato de eles darem espaço maior ao fato. Parece que é um cacoete: critica a mídia e acabou. Se pretendemos buscar respostas, precisamos também transcender esse comportamento. Os meios não espelham a sociedade e nem criam identidades e representações. Tudo isso passa por eles, é verdade, mas eles não fazem isso sozinhos – sempre necessários lembrar.
obrigado pelo comentário, Giuliana.
Concordo com o Alisson.
Cobertura da mídia não significa qualquer cobertura. Explorar a dor e o sofrimento dos familiares – com replays à exaustão – não é o mesmo que questionar as origens do massacre de realengo e problematizar as causas.
Na internet – ainda livre, ao contrário da imprensa, corporativa e vinculada à necessidade de lucro – o que se está criticando é a cobertura SENSACIONALISTA, que estimula a repetição desse tipo de tragédia.
Querem fazer cobertura, ótimo, mas o façam transmitindo alguma informação, e não novelizando a dor das famílias, professores e colegas dos assassinados. No mais, faço aqui referência ao excelente artigo “não estou nem ai para os mortos”, de Bruno Cava, publicado aqui mesmo no amálgama.
No mais, acho que o autor do texto lamentavelmente – ou deliberadamente – mistura liberdade de imprensa com irresponsabilidade de imprensa. Uma coisa é ter liberdade para publicar, a outra, é ser imune a toda e qualquer consequencia, política, social ou jurídica. A cobertura da imprensa, como todo o resto, deve ser pensada em função das consequencias, e não apenas do ibope e do lucro.
O próximo massacre que acontecer numa escola brasileira dirá quem, afinal, tem razão nessa conversa.
bom, victor, vou cometer uma boutade: liberdade significa alguma irresponsabilidade. fecha aspas. o que temos que entender é que as pessoas que se sentirem prejudicadas podem procurar os seus direitos. a sociedade civil organizada pode entrar com processos, caso detecte abusos. certamente todos os veículos de imprensa sabem dos riscos jurídicos que correm. o que vc coloca é que os órgãos de imprensa deviam se reunir para PENSAR sobre como cobrir um evento como aquele, quando simplesmente não havia tempo para isso. e nem houve ao longo do dia, se vc pensar bem. no mais, foi importante mostrar tudo, a dor, o choro, a angústia, o sangue, tudo – isso é mais A REALIDADE que o SENSACIONAL, e é importante mostrar essa realidade urgente.
Aproveitando o ensejo – aqui vai, em primeira mão, uma consequência da cobertura “profissional” que a imprensa vulturista fez do massacre.
Quatro dias após o massacre em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro, um ex-aluno de uma escola municipal de Campos dos Goytacazes, no norte do Estado, ameaçou atirar em estudantes e na diretora da instituição. Segundo a Polícia Militar, uma viatura da corporação foi enviada à Escola Municipal Fernando de Andrade, no distrito de Guarus, para atender à ocorrência.
Em: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5069602-EI5030,00-RJ+dias+apos+massacre+exaluno+ameaca+atirar+em+estudantes.html
vitor, ameaças como essa acontecem diariamente. como você, deve ter muita gente torcendo para acontecer algo parecido com a tragédia de realengo só para dizer: tá vendo, é culpa da imprensa. pára com isso.
caro flávio, o fato das organizações islâmicas dizerem que ele não pertencia à religião não quer dizer absolutamente nada. ele tinha simpatia – e fim. minha mãe é espírita mas não tem a carteirinha da USE.
Mestre Biajoni,
A questão é menos o direito em si que as condições materiais de exercício dos direitos. Em termos liberais, debate-se bastante os limites da liberdade, até onde se pode ir, onde se torna desrespeito etc. Mas uma pauta cidadã deve ir além disso, e discutir quem de fato tem acesso à mídia, quem pode propagar a informação e sobre quais territórios. Nesse sentido, a liberdade de expressão no Brasil não constitui um direito. É meramente formal. Uma oligarquia familiar domina os meios de difusão de massa, entranhada com a representação parlamentar, de norte a sul do país, cabeça-a-cabeça com o mundo publicitário das grandes corporações. Há propriedade cruzada de vários meios (rádio, TV, jornais etc) e a cobertura tende a um padrão único, dito de qualidade. Por isso que a crítica da mídia sempre precisa levar em conta como empoderar todos nós, todos os cidadãos. Não se trata de defender a verdade, mas de defender um regime democrático de produção dela. Veja bem, não promovo nenhuma censura ou mesmo estatização, um erro simétrico. A democracia na mídia, aliás a democracia tout court, só acontecerá quando todos formos mídia, e não quando toda a mídia for estatal.
Meus vinte vinténs de taxa para entrar no tema
Um abraço.
mestre cava, estás bem certo. mas essa discussão da, digamos, “influência da mídia na personalidade brasileira”, se assim posso chamar, tout court, devia ser mais no âmbito político do que num pontual caso policial. esse caso de realengo é menos político -, embora tenha visto que o mestre foi por esse viés em seu último artigo, pensando sobre o caso.
btw, não acho toda mídia estatal, temos uma pluradidade de mídia no país, embora poucos órgãos grandes, é verdade. e a internet está transformando todos em mídia – se já não transformou.
devo troco de dez pelos teus vinte vinténs.
;>)
Durante momento algum demonstrou-se que o rapaz tinha simpatia pelo islã. Ele demonstrava interesse sim em atentados terroristas, inclusive os cometidos por radicais islâmicos como o 11/09.
E mesmo que ele simpatizasse, isso sequer demonstraria que ele foi influenciado por aquela religião. Afinal, diferente do islã, comprovou-se que ele tem simpatia real pelos direitos dos animais, duvido muito que essa causa o tivesse levado a cometer um assassinato irracional contra crianças. Simpatia nunca significa adesão a uma determinada doutrina.
ué, isso eu nunca falei. aliás, nenhum órgão de imprensa disse que ele cometeu os crimes por simpatia ao islã. mas é fato que ele tinha simpatia. isso é real. vc entendeu talvez que a imprensa tivesse dito que o fato da divulgação de que ele tinha simpatia pelo islã o tivesse levado a cometer o crime. isso nunca foi dito. o ruído de comunicação foi você quem criou. no final das contas, só foi dita A VERDADE; subentendidos ou superentendidos só na cabeça de cada um.
Não, Biajoni. O rapaz não era muçulmano, ponto. Sua simpatia era pelo ATO TERRORISTA, é daí que surge sua noção deturpada de “islamismo”. O jornalista tem obrigação de zelar pela informação verdadeira e objetiva, sem enviesá-la e considerando corretamente o contexto da notícia.
Sua carta de suicídio é uma paráfrase da carta do terrorista do 11 de setembro. No ponto em que o terrorista muçulmano deixava seus bens para a mesquita etc., Wellington manda deixar para os animais de rua. Ora, um muçulmano jamais recomendaria que deixasse sua herança para animais de rua, uma vez que no Islamismo os cachorros são considerados impuros. Coisa que Wellington saberia se participasse de uma comunidade islâmica, uma religião sem grande expressão no Brasil.
Além disso, os muçulmanos não são cristãos, diferentemente dos espíritas. E os papéis manuscritos mostram que Wellington continuava indo a Testemunhas de Jeová, que era a sua religião de formação familiar. Testemunhas de Jeová são uma das formas do fundamentalismo cristão dos Estados Unidos. É a matriz do forte moralismo sexual que Wellington revela na carta.
O crime não tem nada a ver com terrorismo de motivação político-religiosa. As informações apontam para crime de ódio motivado por assédio escolar ou “bullying”, similar a outros assassinatos em escolas.
Vendo o site da Associação Brasileira de Imprensa, ele diz sobre a ética no jornalismo:
“Princípio II – A Dedicação do Jornalista para a Realidade Objetiva
A tarefa primeira do jornalista é garantir o direito das pessoas à informação verdadeira e autêntica através de uma dedicação honesta para a realidade objetiva, por meio de que são informados fatos conscienciosamente no contexto formal deles/delas, e mostram as conexões essenciais deles/delas e sem causar distorção, com desenvolvimento devido da capacidade criativa do jornalista, de forma que o público é provido com material adequado para facilitar a formação de um quadro preciso e compreensivo do mundo no qual a origem, a natureza e a essência dos acontecimentos, processos e estados dos casos são tão objetivamente quanto possível compreendidos”.
Fora disso, ou é incompetência ou é má-fé.
ter ligação ou simpatia pelo islamismo não significa que ele tenha cometido o ato pelo.
Biajoni, o único “islamismo” aí é um estereótipo de muçulmano como promotor de atos terroristas. Portanto é esquizofrenia de setores da imprensa. Assim como você, certos veículos cairam na tentação de abraçar o estereótipo negligenciando a substância da informação.
é, sim, a imprensa é esquizofrênica e não ele. é o que eu digo, querem arrumar sempre um culpado.
Biajoni, é isso o que você considera jornalismo, joguinho de palavras? Ele provavelmente era esquizofrênico, só não é muçulmano. Você entendeu. Não é muito inteligente subestimar os leitores do blog.
Caro Biajoni. A meu ver você mistura liberdade de imprensa com irresponsabilidade de imprensa. Como qualquer atividade a imprensa, até mais do que outras, tem responsabilidade sobre sua atividade de informação. Voce diz que os prejudicados podem reclamar seus direitos. Que bom se fosse tão simples assim. Veja o caso da escola Base onde a imprensa, como voce diz, apenas informou os fatos, apesar de serem fantasias de pais e ilações irresponsáveis da polícia e deu no que deu. Ganharam a ação judicial mas tiveram suas vidas destruídas. Quando falamos mal da cobertura da imprensa é justamente para apontar os errose não impedir que os fatos sejam noticiados. Temos que fazer ver a diferença entre imprensa responsável e imprensa marrom. Tai a cobertura eleitoral que não nos deixa mentir, onde a internet teve um papel decisivo.
antonio, quem me dera as críticas fossem todas no sentido de “apontar os erros”. a imprensa, grosso modo, comete erros sim. como eu disse: é feita igualmente de seres humanos e, portanto, sujeita a erros, a levantamentos apressados, divulgações que pretendem gerar “furos”. só que nesse caso específico de realengo falamos do pior massacre, da pior tragédia envolvendo crianças da nossa história… o calor do momento e até a emoção das horas seguintes devem ser consideradas. a posteriori, acredito que a cobertura foi bastante boa.
“A tragédia foi horrível e impactante e ela precisa ser mostrada. E culpados precisam ser procurados, apontados, as razões precisam ser discutidas e todos devem ver e rever as cenas – e as crianças devem saber o que houve e tudo deve ser, sim, o mais explorado possível. Esse tipo de exposição não causa novas tragédias, como muitos pensam: ela deve acontecer para gerar mais e mais discussões e iniciativas que impeçam novas tragédias e conscientizem as pessoas sobre uma série de coisas. A exposição sensacionalista de tragédias assim faz avançar a sociedade.”
Precisei chamar atenção para um dos elementos fundamentais na sua argumentação. Para você, a exposição da mídia “espreme que sai sangue” possui uma capacidade de fazer a sociedade avançar. Meu questionamento é, entretanto, para onde a veiculação constante e massiva desse tipo de informação e nesses moldes de “exploração do sofrimento alheio” não ferem os princípios da dignidade humana presente tanto do lado das vítimas, mas também do ofensor.
O que se percebe na cobertura da mídia é uma explicação “simplista” que busca discussões de pouco alcance dentro da sociedade, perdendo o ponto de vista “macro” no qual está inserido esta experiência que apesar de individual, ganhou uma amplitude coletiva.
Todos nós sofremos e choramos juntos dos familiares das vítimas, sentimos coletivamente raiva dos agressores mas nos limitamos apenas a compreender a formação da monstruosidade do agressor, não nos ocupando em compreender o processo como um todo.
Na minha opinião, discordante da sua, a exposição realizada por esse tipo de mídia “sensacionalista” visa apenas construir e desenvolver no senso coletiva essas “sensações” junto aos eventos, pouco (ou melhor nada) se esforçando na construção de uma interpretação do evento como um todo. O que faz nos avançar ainda mais, ai chegou a minha conclusão, em um processo de construção do elemento “o outro” enquanto diferente de “nós” porque incapaz de “sentir” como nós sentimos. Isto, meu nobre colega, é a construção da alteridade…
“Todos nós sofremos e choramos juntos dos familiares das vítimas, sentimos coletivamente raiva dos agressores mas nos limitamos apenas a compreender a formação da monstruosidade do agressor, não nos ocupando em compreender o processo como um todo”.
NÃO NOS OCUPANDO? ué, acho que todos estamos NOS OCUPANDO de compreender o processo como um todo, talvez só não dê pra querer “se ocupar de compreender o processo como um todo” no momento que o ato acontece. agora, passado um tempo, acho que tem muita gente (governo, sociedade civil organizada, mídia…) tentando compreender O PROCESSO COMO UM TODO.
para finalizar, a “alteridade” a que você se refere é intrínseca ao processo de conhecer a nós mesmos e nos colocar, de forma respeitosa, no lugar do outro. quantas pessoas não fizeram essa reflexão no caso de realengo? eu fiz e conheço muita gente que fez, vi conversa de bar, gente dizendo: “dá pra entender o cara fazer um negócio desse, eu mesmo sofri coisa igual, etc…”. é ou não um avanço?
Dei muuuuuita risada com este texto, só vim vê-lo agora, tardiamente, infelizmente, mas… Que é de rir, ah! É sim… É essa liberdade de imprensa e de expressão que levou o Bolsonaro a falar o que falou, e o CQC explorar como explorou, além é claro de exemplos típicos do fascismo e nazismo… Tudo amparado por uma “propaganda” institucionalizada e com parâmetros jurídicos presentes a época. E por falar em jurídico, como bem disse sua colega Majore Rodrigues em carta ao Noblat, no caso do Bolsonaro, “Não é apenas questão do ofendido recorrer à justiça”, não claro que não, os danos sempre são maiores do que se possa antever ou que a justiça possa corrigir/punir.
Imprensa livre, plural e responsável, sempre. Só isso meu caro, responsabilidade!
Abraços!
que bom que riste, ewerton. e, mais uma vez, esse caso não tem NADA A VER com o caso bolsonaro.
Luiz Biajoni, vi em seu texto pouca base para desenvolvimento de argumentos significativos. Acredito que o desenvolvimento de sua opinião nas respostas aqui suscitadas, durante os comentários (como faço também agora), sem dúvida alguma, estão assentadas no fato de você ser jornalista – logo, está levando para o lado da defesa de sua profissão. Acredito que as análises acerca dos fenômenos sociais, no entanto, estão mais fundamentados pela via das teorias sociais e não nos debates decorrentes da produção da grande mídia. Dito em outras palavras, sua reflexão no texto aqui presente, não dá margem alguma para verificação empírica da relação entre mídia, crítica da mídia e, consequentemente, formação da opinião pública. Só para demonstração de uma posição mais cuidadosa, logo, mais acurada, cito um colaborador aqui do Amálgama, Bruno Cava:
Como de praxe, a grande mídia repetirá a morte à exaustão, lucrará na comiseração humana, mobilizará o medo do povo, e fortalecerá sua agenda conservadora (pois é parte visceral do establishment) de “segurança pública”, qual seja, a gestão violenta da pobreza.
Assim, como Bruno, penso que melhor seria levar em consideração o interesse do campo do jornalismo no cerne dos processos de acumulação de capital, no caso, econômico. A mídia, não precisa ser nenhum especialista para chegar a essa conclusão (e você, que é jornalista, sabe bem!) é formada por um conjunto de empresas disputando na livre concorrência um posição que possibilite a legitimação de seus produtos dentro do seu próprio campo de produção.
Logo, espero que você seja mais cuidadoso ao expor seus textos, uma vez que, a difusão na internet também, como na mídia televisiva, trás bastante dor de cabeça ao seu produtor.
rodrigo, estamos em junho e certamente você já se esqueceu de tudo.