FHC entre o povão e a contradição
por Diego Viana

Como é pobre a celeuma em torno do artigo de Fernando Henrique! Debater se o homem propõe ou não que o partido dele “abandone o povão” e se concentre na classe média, como se fosse algum absurdo haver partidos de classe média… Um texto inteiro poderia ser dedicado à preferência do brasileiro pela polêmica mesquinha, até mesmo na política, onde as discussões deveriam ser mais penetrantes e corajosas diante da aporia inescapável (sim, a política, enquanto arte, é o bailado numa pista de aporias). A algazarra em torno do texto fernandino é um claro exemplo dessa mediocridade escolhida. Valeria bem mais a pena, por ora, destrinchar o artigo, porque ele expõe o impasse em que se enreda, com muito gosto, o partido de que o autor é presidente de honra. Façamo-lo.
Nosso ex-presidente entende seu texto como um raio-x das insuficiências da oposição, especificamente o PSDB, e uma proposta de reorientação. Entre circunlóquios, lugares-comuns e interpretações bem livres da história recente do país, FHC acaba dizendo, um pouco sem querer, algumas coisas bastante verdadeiras. Se fossem ditas por querer, seriam talvez dolorosas demais para os tucanos e seus correligionários, porque revelam em filigrana que as diretrizes peremptórias que FHC delineia para seu partido, ora, são simplesmente o que o partido, tal como se organiza hoje, não poderá nunca realizar. Em outras palavras, Fernando Henrique atirou no que viu e acertou no que não viu. Só que, como estamos falando de política, o “ver” significa “querer ver” – é uma maneira de recortar a realidade de um universo político, tornando-a um discurso coerente, mas coerente segundo determinados pressupostos – e o “não ver” significa “recusar terminantemente, a ponto de não poder ver”.
Isso dito, ao texto: o penúltimo parágrafo resume o argumento, mas se abre com a frase que denuncia a principal fraqueza do artigo. Ei-la.
Engana-se quem pensar que basta manter a economia crescendo e oferecer ao povo a imagem de uma sociedade com mobilidade social. Esta, ao ocorrer, aumenta as demandas tanto em termos práticos, de salários e condições de vida, como culturais. Em um mundo interconectado pelos modernos meios de comunicação o cidadão comum deseja saber mais, participar mais e avaliar por si se de fato as diferenças econômicas e sociais estão diminuindo.
Observe o leitor que Fernando Henrique se esmerou em negar a existência de uma nova classe média no Brasil através da distinção entre “classe social” e “categorias de renda”, no que ele tem toda razão. Sem mencionar o conceito de “capital cultural” (ainda bem, porque esse tipo de sintagma é terrivelmente problemático), o ex-presidente explica que “a definição de classe social não se limita às categorias de renda (a elas se somam educação, redes sociais de conexão, prestígio social, etc.)”. Acontece que, ao usar essa distinção para se referir ao conceito de uma “nova classe média” brasileira como “impreciso”, ele torna o trecho que destaquei acima invisível, inócuo e falso (na verdade, um tanto contraditório) para quem queira seguir seu argumento, ou melhor, para falar claramente, suas instruções.
Pior ainda, ele oferece de bandeja a interpretação de querer “abandonar o povão” para a frase do parágrafo anterior: “Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos”. Sem essa confusão conceitual, o trecho serviria apenas para mostrar que o ex-presidente ou não sabe bem quem tem à sua volta, ou prefere deixar esse detalhe de lado – o que seria, por sinal, perfeitamente compreensível.
O maior problema do artigo de Fernando Henrique é a confusão que resulta de dissociar a ascensão econômica de dezenas de milhões de pessoas (que ele não nega, mas só reconhece alusivamente e como rebarba de suas próprias iniciativas) e o surgimento daquilo que seria a “nova classe média”. Para obter esse efeito retórico, é preciso questionar, com a maior sutileza do mundo, “educação, redes sociais de conexão, prestígio social” desse contingente de pessoas que acedem à sociedade de consumo. Ora, essas três coisas, e muitas outras, só têm realidade, na visão de FHC e de muita gente, infelizmente, se submetidas aos parâmetros da “velha” classe média. Ou seja, quem chega à sociedade de consumo pela via das classes baixas jamais pode ser classe média, mesmo “nova”, e continua sendo “povão, isto é, [...] massas carentes e pouco informadas”, porque seus valores e suas demandas serão outras e, como tal, inválidas. Resultado? Essa gente não poderia formar grandes novidades no campo das “demandas tanto em termos práticos, de salários e condições de vida, como culturais”. Não há nada de novo na “nova” classe média, só “povão” endinheirado sem nada na cabeça e facilmente cooptável pelo PT, descrito no artigo (e no discurso dos grupos a que se destina) como uma malta de trogloditas, embora tão cheios de ideias e tão difíceis de vencer.
Seria de se esperar que um sociólogo de campo (como ele mesmo já se definiu) saísse, ora, a campo para verificar uma proposição tão forte. Será mesmo que o brasileiro, ao melhorar de emprego, abrir pequenas empresas ou conseguir enfim passar num concurso público, continua com a cabeça de um Jeca Tatu e está condenado a essa condição por toda a eternidade? (A condenação eterna transparece em outros trechos do artigo, de que pretendo falar mais adiante.) Pesquisas de campo ou acadêmicas parecem indicar o contrário: que os ascendentes, “nova classe C” ou não, são exigentes, entendem sua posição e têm plena consciência de que precisam consolidar seus ganhos econômicos com aquele “capital social” que o ex-presidente menciona sem citar. Sem querer enveredar pela autopropaganda, eu mesmo tive a oportunidade de fazer, recentemente, uma matéria sobre jovens dessa nova classe média e seus estudos universitários. Conclusão das conversas: eles sabem muito bem, mas muito bem mesmo, quais são suas demandas sociais, econômicas e culturais. Ouso dizer que sabem muito melhor do que nós, porque, para eles, há algo bem mais crucial em jogo.
Estabelecida a confusão, está jogado o óleo na pista para os escorregões. Eis o mais grave: como quer o ex-presidente que seu partido conquiste o eleitorado da nova classe média através de suas demandas sócio-econômico-culturais se seu traço distintivo é justamente o fato de não ter demandas classificáveis como “de classe média” (“povão” que são, isto é, massas carentes e pouco informadas)? Fernando Henrique tenta esvaziar a noção de “nova classe média” inserindo-a como um apêndice irrelevante (são pelo menos 30 milhões de almas) de
toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens) [observe a minúscula variação termionológica, pretendendo tornar qualquer novidade real invisível], de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora.
Mas, ao impor à imagem do brasileiro ascendente uma passividade que só mesmo uma aristocracia muito obtusa e ineficaz poderia supor, o que ele acaba esvaziando é o próprio objeto que, ao final do texto, vai designar para seu partido. No fundo, no fundo, Fernando Henrique quer que o PSDB, e em seu vácuo os demais partidos de oposição, corra atrás de fantasmas. Tudo isso como resultado de uma contradição em termos, algo pouco digno de um intelectual do quilate do ex-presidente, mas corrente na expressão política.
O segundo escorregão pode ser menos grave em termos argumentativos, mas expõe aquele que é o verdadeiro drama do PSDB e, por extensão, do sistema político brasileiro em geral (não só as oposições). No artigo, os olhos do autor brilham para falar de jovens usuários de redes sociais, membros da classe média que exigem moralidade pública (ainda que raivosa e difusamente) e consumidores maravilhados com as benesses da globalização e do capitalismo – assim mesmo, enquanto conceito abstrato (foi-se o tempo em que só a esquerda falava assim). Ele se refere a movimentos sociais entre aspas e só uma vez: por sinal, na mesma frase em que fala do “povão” (também só mencionado uma vez, o que foi o suficiente para elevar tantas vozes contra ele e algumas a favor). Por que os movimentos sociais estão entre aspas? Por acaso a sociedade brasileira não se move? Compreendo que o sociólogo queira criticar o sindicalismo brasileiro, no único ponto em que entra, de fato, na questão de movimentos vindos da sociedade; quanto a isso, lhe dou muita razão (mas não toda). Seria então o sindicalismo o único movimento possível de uma sociedade, descontados casos excepcionais como as revoluções árabes e as eleições de 1974, que colocaram o MDB no protagonismo político do Brasil?
Diante dessa juventude conectada, mas passiva, segundo FHC, e de uma sociedade cujos movimentos estarão sempre colocados entre aspas, porque não podem ser reais ou efetivos (o que, no fundo, é a mesma coisa), o articulista decreta: cabe à oposição, liderada pelo PSDB, “conquistar”, “seduzir, “buscar”, “falar para” esse público. O brasileiro de classe média, desamparado pelo “triunfalismo lulista” (ele às vezes usa um termo ainda mais sombrio, “lulopetismo”), está sentado, à espera da voz redentora da oposição. É o carisma, minha gente! Não o carisma de Lula, que esse não serve e, se usado, será sempre classificado como populismo; mas o carisma esclarecido e vertical de um príncipe qualquer…
Observe: só é possível chegar a essa conclusão porque o autor, numa circunvolução retórica hábil, mas falaciosa, postulou a existência de uma classe “possuidora” e, ao mesmo tempo, absolutamente passiva, ignorante de seus interesses até que esses lhe sejam apontados por uma inteligência mais privilegiada: um “povão”. É falso que o artigo exija um abandono do povão. O que o artigo faz é chamar todo mundo de povão, até mesmo quem não pertence à “nova classe média”, porque mesmo esses estão à espera de profetas que lhes falem. No frigir dos ovos, o povão somos nós.
O vício, porém, é inerente ao PSDB, como eu já disse, e à política brasileira em geral, historicamente, como há de se lembrar qualquer um que tenha lido Machado de Assis, com seu Brás Cubas parlamentar e seu Rubião financiador de jornal político. Pouca coisa mudou. Não é o caso de um PFL da vida, que muito honestamente se reconhece como um partido de gente que quer mandar, nada de ouvir anseios da população. Mas é, sim, o caso de um partido com nome de social-democrata, mas cujas escolhas são sempre feitas na cúpula, a cada vez sufocando a anêmica militância que ainda lhe resta – por puro milagre, aliás, e uma vaga ideologia mercadista que mal enxerga onde está o mercado. Enquanto o PFL nem dá pela existência de um povo, “ão” ou “inho”, a não ser na tentativa de recuperar os votos dos grotões (hélas! E FHC ainda fala em clientelismo!), o pobre do PSDB ainda pretende falar “ao” povo… (Talvez seja essa a fonte de toda a confusão em torno do “povão” que marcou a última semana.)
Em mais uma de suas já folclóricas comparações hiperbólicas e fantasiosas, o ex-presidente evoca a ascensão do MDB como paradigma para a recuperação da oposição brasileira. Perfeito! Seria uma ótima evocação, se a ideia transmitida fosse de um movimento (sim, movimento) da sociedade civil em que ela marcasse sua própria posição e a fizesse reverberar no sistema político através de um partido – ou mais, aliás, idealmente mais. Eis o que Fernando Henrique deixa de lado: o MDB, àquela altura, não estava falando à sociedade civil. O MDB era a sociedade civil, ou pelo menos sua porção contrária à ditadura. Não quero dizer que o MDB era “idêntico” à sociedade civil, mas que ele representava, ou melhor, expressava um movimento que tinha origem na sociedade civil. Não porque alguma voz da razão a conquistou ou lhe falou. Mas porque ela tem demandas (econômicas e culturais, sim) e, portanto, se move, formando blocos com potência individual no sentido espinozano, isto é, de direção conjunta e coerente.
Fernando Henrique e muitos outros opositores gostam de sugerir que o Brasil vive sob um regime parecido com uma ditadura. A maior semelhança, na minha opinião (estou exagerando para efeitos de impacto, mas há verdade aqui), é que vivemos num regime de “único partido”. Não digo “de partido único”, o que é outra coisa. Mas a noção de partido implica a repartição de potências sociais (daí o radical, “partir”) e seu reagrupamento em unidades que disputam parcelas do poder. No Brasil, porém, os partidos não são nada disso. Fundam-se por afinidades de interesse, formação universitária ou ideologia, tanto faz, contanto que de cima para baixo. A criação do ”partido do Kassab” é um caso recente e gritante, pelo descaramento do partido que “não é de centro, nem de direita, nem de esquerda…” Mas não é um evento excepcional.
Todos sabemos que o PSDB, por exemplo, é um partido de cardeais. O militante que não ouse colocar as asinhas de fora. Até em eleição de diretório a cúpula interfere com truculência. As disputas, hoje, se dão entre o “grupo de Alckmin” e o “grupo de Serra”, sendo que, agora, a figura (nem falei em grupo) de Aécio parece estar na crista da onda. Quais são os movimentos que esses líderes representam? E Fernando Henrique, por sinal? Pois é… Depois lemos no artigo do ex-presidente críticas à “personalização da política” promovida pelo PT.
Esse eixo de leitura permite um desnudamento de um artigo que contém diversas verdades, mas cujas verdades se desmiliguem tão logo confrontadas com a contradição central. Afinal, não existem verdades desconectadas de um corpo discursivo, como bem sabe o autor do artigo. É por isso que a figura do camaleão, que FHC cola ao PT, o surpreende e revolta tanto. Enquanto o PSDB pensará exatamente como pensam seus chefes, que, por sinal, estão um tanto velhinhos e não mudam de opinião desde princípios da década de 90, o PT pode mudar seus conceitos sempre que o mundo mude e, com o mundo, seus militantes, oriundos da sociedade e dos movimentos sociais (com ou sem aspas, não faz diferença). Um exemplo da direita, para não parecer que a conexão com a sociedade é privilégio das esquerdas: por que o Tea Party segue como parte do GOP, mesmo esvaziado, em vez de dar uma kassabada e abrir um novo partido? Porque há disputas internas entre os republicanos. E, surpresa: os radicais estão começando a perder terreno…
Mais um trecho do artigo, como demonstração de que os parágrafos acima oferecem um parapeito contra fraquezas conceituais. Diz FHC:
Não deve existir uma separação radical entre o mundo da política e a vida cotidiana, nem muito menos entre valores e interesses práticos. No mundo interconectado de hoje, vê-se, por exemplo, o que ocorre com as revoluções no meio islâmico, movimentos protestatários irrompem sem uma ligação formal com a política tradicional.
Mas já estamos carecas de saber, e o próprio ex-presidente mais ainda do que nós, que esses movimentos (observe que, desta vez, faltaram as aspas) sempre foram políticos, muito antes de saírem às ruas. Mesmo na opressão, mesmo no sufocamento, o dia-a-dia é político, ainda que só consiga assumir uma forma unificada e explosiva em situações extremas. “Não deve existir uma separação radical entre o mundo da política e a vida cotidiana”, presidente? Ora, mas jamais existe essa separação, radical ou não! Vou citar o trecho seguinte apenas para demonstrar minha absoluta descrença na possibilidade de que FHC desconheça o pulsar político constante da vida quotidiana:
Talvez as discussões sobre os meandros do poder não interessem ao povo no dia-a-dia tanto quanto os efeitos devastadores das enchentes ou o sufoco de um trânsito que não anda nas grandes cidades. Mas, de repente, se dá um “curto-circuito” e o que parecia não ser “política” se politiza. Não foi o que ocorreu nas eleições de 1974 ou na campanha das “diretas já”? Nestes momentos, o pragmatismo de quem luta para sobreviver no dia-a-dia lidando com questões “concretas” se empolga com crenças e valores. O discurso, noutros termos, não pode ser apenas o institucional, tem de ser o do cotidiano, mas não desligado de valores.
Alguém que leia esse trecho sem conhecer o PSDB e a história da política brasileira poderia pensar que nosso ex-presidente redescobriu a roda. Mas não é o caso. Ele está manifestando o desconforto da política brasileira, tal como ela é feita tradicionalmente, com o fato de que o país precisa evoluir e, supremo terror, já está evoluindo, bem debaixo de seus olhos. Mas essa política (que o autor denomina “a oposição”) não tem coragem de agir de acordo, porque seria obrigada a atuar de uma maneira que lhe é inteiramente desconhecida. Então não é a política que se alimenta do “não institucional”, para eles: é “o discurso”… Será que foi só isso que sobrou à oposição? Discurso? (Tenho amigos que dizem que o PT se tornou o que o PSDB deveria ter sido. Às vezes lhes dou razão…)
Mais um trecho ainda:
as oposições precisam voltar às salas universitárias, às inúmeras redes de palestras e que se propagam pelo país afora e não devem, obviamente, desacreditar do papel da mídia tradicional.
Voltar às salas universitárias, presidente? Mas as salas universitárias há tempos estão sedentas para enviar suas mensagens às oposições! Essas últimas não precisam voltar às salas, elas precisam simplesmente se deixar impregnar pelas salas, pelas redes, pelas palestras, por todo o mundo exterior às suas mesquinhas disputas palacianas. Como bem sabe Fernando Henrique, salas, palestras e redes sempre precedem, repito, sempre, os partidos! A diferença entre o camaleão PT e o cágado PSDB é que o camaleão percebe isso de imediato e o cágado se esconde dentro do casco… Eu disse “percebe”, mas deveria ter dito exprime, porque o caso não é de observação, é de permeabilidade. Permeabilidade a quê? Às demandas, presidente, “tanto em termos práticos, de salários e condições de vida, como culturais”.
E o parágrafo continua:
Além da persistência e ampliação destas práticas, é preciso buscar novas formas de atuação para que a oposição esteja presente, ou pelo menos para que entenda e repercuta o que ocorre na sociedade. Há inúmeras organizações de bairro, um sem-número de grupos musicais e culturais nas periferias das grandes cidades, etc., organizações voluntárias de solidariedade e de protesto, redes de consumidores, ativistas do meio ambiente, e por aí vai, que atuam por conta própria. Dado o anacronismo das instituições político-partidárias, seria talvez pedir muito aos partidos que mergulhem na vida cotidiana e tenham ligações orgânicas com grupos que expressam as dificuldades e anseios do homem comum. Mas que pelo menos ouçam suas vozes e atuem em consonância com elas.
A referência às organizações de bairro, aos grupos musicais e às periferias é perfeita. Mas o que vem depois? Um “mergulho”, “ouvir vozes”, “atuar em consonância”. Presidente, basta não virar as costas que “as dificuldades e anseios do homem comum” vêm em enxurrada. Um bom começo é abdicar de chamar todo mundo que discorda de você de “povão”, “massa carente” e cooptável. Desse jeito, não se vai longe com o homem comum. Aliás, nem com o incomum.
Qual pode ser o âmago de uma proposta como essa de Fernando Henrique, para estabelecer um vínculo com a sociedade baseado em “discurso”, pressupondo o brasileiro como alguém passivo, cujos movimentos sociais se dizem entre aspas, anexando à ideia da ascensão social o epíteto de “imprecisa” e ao cidadão, esse que luta para consolidar a vida melhor, a pecha de “povão” e “pouco informado” (leia-se ignorante)?
Ei-lo:
É preciso persistir, repetir a crítica, ao estilo do “beba Coca Cola” dos publicitários. Não se trata de dar-nos por satisfeitos, à moda de demonstrar um teorema e escrever “cqd”, como queríamos demonstrar. Seres humanos não atuam por motivos meramente racionais. Sem a teatralização que leve à emoção, a crítica – moralista ou outra qualquer – cai no vazio. Sem Roberto Jefferson não teria havido mensalão como fato político.
Dê-lhes emoções e eles o seguirão… Essa é a proposta de Fernando Henrique. Mas se a emoção vier de adversários políticos, é “subperonismo” e comparável a Mussolini (foi ele quem disse, não eu). Para o autor, a solução para seu partido é o marketing. Há um Duda Mendonça em cada esquina. Sabendo disso, como podemos ler o último parágrafo? Aquele que diz:
No mundo contemporâneo este caminho não se constrói apenas por partidos políticos, nem se limita ao jogo institucional. Ele brota também da sociedade, de seus blogs, twitters, redes sociais, da mídia, das organizações da sociedade civil, enfim, é um processo coletivo. Não existe apenas uma oposição, a da arena institucional; existem vários focos de oposição, nas várias dimensões da sociedade. Reitero: se as oposições institucionais não forem capazes de se ligar mais diretamente aos movimentos da vida, que pelo menos os ouçam e não tenham a pretensão de imaginar que pelo jogo congressual isolado alcançarão resultados significativos. Os vários focos de insatisfação social, por sua vez, também podem se perder em demandas específicas a serem atendidas fragmentariamente pelo governo se não encontrarem canais institucionais que expressem sua vontade maior de transformação. As oposições políticas, por fim, se nada ou pouco tiverem a ver com as múltiplas demandas do cotidiano, como acumularão forças para ganhar a sociedade?
Podemos lê-lo da mesma maneira como lemos o resto do texto. Como a manifestação de desconforto entre a percepção de uma evidência atroz – “brota também da sociedade, de seus blogs, twitters, redes sociais, da mídia, das organizações da sociedade civil [onde, diga-se de passagem, uma organização da sociedade civil não é um movimento social, por algum motivo, porque, se fosse, deveria estar entre aspas], enfim, é um processo coletivo” – e a consciência íntima de que a política brasileira tradicional é incapaz de reagir a essa evidência – “se as oposições institucionais não forem capazes de se ligar mais diretamente aos movimentos da vida, que pelo menos os ouçam”.
Muito se tem falado sobre a necessidade de haver um bom, sério e forte partido conservador no Brasil. Chegou a meus ouvidos, recentemente, a notícia de que existem jovens por aí dispostos a fundar uma agremiação que corresponda a essa descrição. A julgar pelas palavras do presidente de honra do principal partido conservador estabelecido, esses jovens estão se movimentando em boa hora. Aliás, presidente, isso é um movimento social, também. Sem aspas.

Este texto demonstra a essência da natureza do FHC, pois com esta escrita rebuscada seu público alvo não passa de uma minoria inconformada com com a diminuição das diferenças entre as classes mais exploradas.
Precisamos avançar ainda mais!!!!
Agora dizer que FHC disse sem querer, é demais.
Digo mais este texto faz-me remeter à história clássica Grega. Onde os sofistas nada mais faziam, do que tentar enganar, por meio de discursos evasivos
Não sei se é o caso de ficar reverberando a descrição caricata que Platão faz dos sofistas. Eram professores de retórica e pensadores públicos como tantos que existem hoje e nós adoramos…
Em todo caso, a questão não é “dizer sem querer”, mas deixar chegar à superfície algo que está nas profundezas através das incompletudes (filigranas) do discurso.
Caro Diego Viana.
Parabéns pelo seu artigo, estimula ao dialogismo bakhtiniano. Você sublinha pontos reflexivos importantes como análise do discurso de Fernando Henrique e mais importante, sobre os impasses históricos-políticos que nosso país se paralisa. Uma lástima, uma lástima vivermos o que vivemos após superarmos a ditadura militar como lógica de ordenamento político. Mas, gostaria de lhe fazer uma crítica pelo direito de seguir o teu texto com intensa atenção. Seu brilhante ensaio seria exemplar e eu o tornaria “viral”, se você se livrasse de uma sombra incômoda de um “duplo vínculo” paralisador. Você a um só tempo idolatra o intelectual(ismo) de Fernando Henrique e teme não idolatrar o Lula ex-atual-líder-de-oposição-nos-benesses-do-situacionismo-mandatário. Temendo muito mais criticar a lógica mediadora do lulismo, aí o critica com vaselina à moda de Fernando Henrique. Para não passar em branco de que é lúcido em ver os populismos do lulismo, mas sem deixar de beijar a mão de Lula. Creio que em você está plasmado o monstro Brasil: uma retórica de brilhantes conceitos para vasilinar os impasses brasileiros versus a pose de oposição à exploração do capital exercida por Lula. Me explico, você dá um tapa nas contradições lógicas do discurso de Fernando Henrique e dá uma tapa no lulismo, com medo de ser tachado de direitista. E aí alisa Lula. Ao mesmo tempo em que não nega, mas não tem coragem de apontar sem vaselinas FHC, que Lula e o Brasil ainda são reféns de um populismo bananeiro para mediar o poder numa sociedade politicamente muito atrasada. O que espero como gratificação quanto leitor do teu texto é que você seja mais homem. Seja mais corajoso. Não tema em botar o dedo nas chagas do populismo lulista, ou brasileiro, ou de modelo asiático de dominação, ou o nome que queira. Tá com medo de ser chamado de direitista? Por quê? Tem medo de ter mais leitores, mesmo discordando de você e o difamando? Mas tendo que te ler para estar em dia com a reflexão nacional? Medo de ser desprezado por acadêmicos defensores de um modo vaselina de serem “críticos’ mas fugindo da nossa contradição de classes à la Fernando Henrique? O papel de um intelectual, coisa que você o é, coroando com as artes de um exímio redator, é ter dúvidas dentro de si e as expressar aos outros. E não temer perder a adoração de cinco amigos esquerdistas. Esse medo é muito pequeno historicamente, não tornarão teus textos exemplares nas próximas décadas. Decida: você escreve para hoje ou para o milênio? Com admiração e agradecimento, Dirceu Tavares.
Cara, honestamente, não vejo onde no texto existe qualquer comentário sobre o lulismo, o populismo ou o que quer que seja… As relações de Lula, FHC ou outros políticos com o capital (mais especificamente o “grande capital”) são um problema interessantíssimo a ser tratado num texto. Mas outro texto. Este é sobre como transparece no artigo de FHC o impasse de uma forma de fazer política bem brasileira e que o PSDB encarna bastante bem. Qualquer outro tema está ausente do texto e, portanto, não cabe comentário; em outras palavras, é delírio seu.
PS: Sob certos aspectos, talvez eu seja mesmo um direitista.
caramba cara! que artigo! não comento nada sobre FHC.
Nossa a esta hora da noite, nada melhor de que ver essas perolas do jornalismo se expressarem.
Aliás melhor ainda lendo o artigo de que é algo o Sr.Fernando Henrique Cardoso.
De toda forma, mesmo eu sendo uma pessoa muito iletrada, porque não consegui estudar.
Amo politica e principalmente sou fã desse Sr. que não é Santo e enem nada,assim como muitos politicos não o são.
Mas fala e escreve para quem quer escutar e se faz entender sim.
O discurso é duro para quem é mole, aliás meus amigos do PSDB,não podem ser chamados de moles e sim de bananas.
Bananas sim, estou muito irrada em ver que eles só ficam de sangue na guela de vez em quando no senado.
A galinho Aecio só disse para que veio um dia desses,não mais se pronunciou;
Daí dar margem a tantas especulações e criticas de quem nem leu o texto e nem viu a briga.
Está se incomodando com o que.
Ele quis dizer que desse jeito não dá, que se apeguem com quem vai entender e não se dê bom dia a cavalo.
Me faz lembrar o Ex presidente Figueiredo quando disse quem cheirava melhor seu cavalo ou o povo.
Sem titubiar ele disse o cavalo.
Que fazer se essa massa que só quer bolsa e mais bolsa, para não estudar não fazer nada.
Ele se referiu que se deve buscar mais do que estão entendendo, e não das Maguidas da vida.
Está na hora de tomar posição e urgente,
Senão não vamos a lugar nenhum.
E quero lembrar o que está escrito na nossa bandeira.
Ordem e progresso.
Recomendo vivamente que você faça suas leituras e seus comentários durante o dia.
Muito bom o seu texto. Uma ótima análise do texto do fernandinho e da política à brasileira como um todo.
Apenas acredito que para entendermos melhor os partidos políticos na democracia representativa talvez seja bom uma oposição entre os conceitos de representação e apresentação (ou expressão). Você diz em seu texto que o MDB expressava certo movimento da sociedade, mas acredito que ele representava certo movimento da sociedade. Os partidos políticos sempre, em maior ou menor grau, representam alguma coisa, nunca conseguiriam apresentar ou exprimir o movimento. Para fazer isto eles teriam que ser homogêneos ao movimento, o que, acredito, não o são jamais.
Com certeza existem partidos que representam melhor, mas nunca chegam a exprimir ou apresentar os movimentos. Por isso que existe tanto ruído, tanta contradição entre os movimentos e os partidos.
Apenas uma contribuição (que talvez fuja um pouco do centro do seu texto).
Excelente texto. Mesmo.
Abraço
A distinção que você propõe é muito interessante, aliás bem benjaminiana. (Por outro lado, apresentação como sinônimo de expressão? Sei não…) De fato, os dois objetos estão longe de coincidir e daí vem muito da tensão que faz a política representativa tão interessante.
Sobre o MDB, eu diria, sim, que era mais uma expressão do que uma representação. O partido, não sendo propriamente um partido de verdade, não podia, como podem o PSDB, o PT, o PFL (veja bem, eu disse PODEM, o que não quer dizer que de fato o façam), representar setores da sociedade a contento. Por outro lado, todos os setores contrários à tirania instituída podiam recorrer ao MDB como válvula de escape, no âmbito parlamentar e de maneira infelizmente um tanto quanto limitada, para suas aspirações. Daí ao uso de expressão, em vez de representação.
Abraço
Você peca no essencial e faz alusões das quais o texto claramente não diz.
Veja, você supõe por sua ótica deturpada e preconceituosa de que um tucano (o ex-presidente, no caso) não poderia considerar como classe média a “nova classe média”, mas oras, isso é deturpar a essência do texto.
Fernando Henrique não chama a nova classe média de povão, pelo contrário, ele chama de povão a massa cooptada pelo petismo através dos benefícios sociais do Estado ou do sindicalismo pelego.
Oras, quem ganha Bolsa Família não faz parte da nova classe média da qual os tucanos teriam (segundo FH) de se aproximar, os próprios limites de renda do programa especificam isso.
Por seu texto ter se construído sobre esse aspecto, todo ele é falso.
Publique se quiser.
Querido, ele não chama a nova classe média de povão; ele chama de povão todo mundo que é incapaz de formular as próprias demandas culturais. Em seguida, ele demonstra que o país inteiro está esperando, sentadinho, pela fabulosa mensagem dele (e, em menor escala, de seu partido). Ou seja, ele chama todo mundo de povão, a começar por você e eu.
Você está tão doido pra falar da minha lógica deturpada e preconceituosa que não se preocupou nem em entender o que diz o texto do Fernando Henrique, nem o meu. Isso não é legal. Pra debater, é preciso passar pelas etapas iniciais.
Engraçado, pois você deixa de fora (acho que por pura coincidência, não é mesmo) a parte em que o autor explica o que seria o tal do povão:
“Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os “movimentos sociais” ou o “povão”, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos. Isto porque o governo “aparelhou”, cooptou com benesses e recursos as principais centrais sindicais e os movimentos organizados da sociedade civil e dispõe de mecanismos de concessão de benesses às massas carentes mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, além da influência que exerce na mídia com as verbas publicitárias.”
Esse é o parágrafo polêmico inteiro, inclusive a parte que o senhor cortou de seu texto, o que é emblemático! Em um longo texto em que o senhor cita diversos trechos do artigo de FHC, mas resolve deixar de fora justamente o parágrafo que originou o seu enorme texto que, diga-se, fiz questão de ler, assim como o de Fernando Henrique.
No parágrafo em questão, Fernando Henrique deixa claro que seu partido não pode competir (em falar) com as massas que recebem benefícios ou que estão sob a alçada do sindicalismo pelego.
Oras, eu, assim como boa parte da população brasileira e, acredito, até mesmo o senhor, não estou sob influência de programa assistencial algum, tampouco sofro influência de movimentos sindicais.
Então, caro Diego Viana, eu lhe questiono, no que o parágrafo polêmico é mentiroso?
Espalhou-se ou não os boatos de que José Serra acabaria com o Bolsa Família ao longo da Eleição?
Os movimentos sindicais foram às ruas contra a candidatura tucana ou não?
Ou devo lhe lembrar da greve política dos professores e dos policiais civis?
De dona Bebel e de seu Paulinho da Força?
Afinal, Diego, em que parte do parágrafo o presidente de honra do tucanato me inclui (ou ao senhor) nessa massa carente?
O parágrafo é de um realismo desesperador para os tucanos, pois vai de frente em tentativas quase cômicas que vimos tucanos perpetrarem no início do ano, tal como Aécio se aproximando de Paulinho da Força na votação do mínimo, indo contra o próprio partido para ser traído pela raposa no último momento.
O artigo de Fernando Henrique não dá margem para interpretações fantasiosas como a sua, é um artigo bem claro: Tucanos, parem de disputar o esquerdismo bom moço com os Petistas, vamos perder invariavelmente! Aproximemo-nos da nova classe média, aquela que não recebe ajuda do Governo, que não se deixa impressionar com o sindicalismo, enfim, que está de fato alinhada com os pensamentos mais à direita.
Mas, sejamos claro Diego, sabemos que isso não vai acontecer, até porque a reação descabida da imprensa deixa claro que no Brasil ser liberal é crime contra honra e vimos o sr. Kassab nos ensinando que seu partido não será de esquerda, nem de direita e, pasme, nem de centro!
O medo da rotulagem não é infundado, não é mesmo, o escarcel que fizeram com o texto de FHC mostra bem o motivo.
Querido, procure respirar. Em todo caso, você acrescentou duas frases à citação. Uma delas é a eterna queixa de cooptação, a outra é a repetição das “massas carentes”. Não faz a menor diferença. Mas é interessante, aliás, como essa queixa da cooptação reflete os vetores que a política institucional brasileira sempre atribuiu à realidade política como um todo, e que o PSDB reflete, para decepção de todos que um dia acreditamos que o partido de Covas traria a modernidade. (Essa seria a queixa incisiva e pertinente, não os circunlóquios do ex-presidente.) A sociedade nunca pode se expressar, ela pode apenas ouvir; a disputa é pelos ouvidos, não pelos braços e bocas; qualquer fluxo no sentido inverso é imediatamente lido como cooptação, como se fosse o tradicional clientelismo do PFL.
É por isso que toda a sociedade é transformada em povão no texto, aliás, não sei nem por que estou repetindo, isso está claríssimo aí acima; bastaria respirar um pouco antes de ler e estaria compreensível.
A questão não é que parágrafos sejam “mentirosos”, o debate começa justamente quando as pessoas deixam essa mesquinharia de chamar umas às outras de mentirosas… O parágrafo expressa uma forma de pensar que vai manter o PSDB na posição difícil em que está, é para isso que o texto foi feito, não pra chamar alguém de mentiroso, feio ou malvado.
O que você, no seu pobre nervosismo, não consegue perceber é que o cerne da questão está nos pressupostos do texto, não nos argumentos. É na ideia de que o brasileiro está bovinamente sentado à espera de alguém que dele se aproxime. Daí a citação dos personagens do Machado de Assis (mas poderia ser de Coelho Netto ou Lima Barreto, está tudo lá). De que esse contingente populacional não tem demandas culturais, o que poderia ser traduzido como: não tem potência para realizar seus desejos.
A questão do liberalismo no Brasil é, sim, muito interessante. O problema não é que seja crime ou qualquer coisa assim: o problema é que é um discurso vazio, porque o liberal brasileiro invariavelmente toma atitudes, quando no poder, que reproduzem a ação tradicional estatal brasileira em seus detalhes mais ínfimos.
Seria ótimo que tivéssemos liberais, mas eles não caem do céu…
Tente se acalmar um pouco. Vai fazer bem a você.
Bem, Diego, você diz que não se trata de argumentos, mas sim de pressupostos, e essa é minha crítica ao seu texto desde o início.
Você escreveu seu texto em cima do que você queria que Fernando Henrique tivesse escrito, e não do que ele realmente escreveu.
Do Houaiss:
” substantivo masculino
1 aquilo que se supõe antecipadamente; pressuposição, conjectura, suposição
Ex.: quais são os p. para o pedido do empréstimo?
2 aquilo que se busca alcançar; desígnio, objetivo, meta
3 ideia que se tem de executar ou realizar algo; plano, projeto
4 motivo alegado para encobrir a causa real de uma ação ou omissão; desculpa, pretexto
5 Rubrica: termo jurídico.
circunstância ou fato em que se considera um antecedente necessário de outro
n adjetivo
6 que se pressupôs; presumido”
Você vai me desculpar, mas seus “pressupostos” me parecem mais com “preconceitos”.
Ora, não se deve analisar o que você “pressupõe” que alguém quis dizer, mas sobre o que foi escrito de fato.
Na realidade, não há um único parágrafo que realmente exprima o que você apregoou em todo o seu texto.
Mas concordamos: há poucos liberais no Brasil, e no poder eles se reduzem ainda mais.
Rafael, legal que você tenha encontrado a definição da palavra. E já que você agora está falando de maneira mais educada, explico: o que você exige é que a leitura do texto fique necessariamente no plano superficial: fulano se dispôs a dizer tal coisa e foi isso que ele disse. OK. Mas essa leitura não é muito útil, certo?
Talvez seja mesmo por preconceito, porque eu sou uma pessoa má, porque um dia o FHC disse alguma coisa que me ofendeu, porque ele é flamenguista e eu sou tricolor, por mil motivos, escolha o seu preferido (mas, se quiser debatê-los, pelo menos aponte algo que o demonstre, pf). Mas transparece muito claramente no texto dele, quando saímos do nível superficial que você deseja e entramos no nível dos fundamentos (ou pressupostos, como você colocou aí na definição), que o ex-presidente se coloca numa posição perfeitamente pombalina, para o bem e para o mal. Ele tem as respostas, o problema é fazer o país ouvir. Ele nunca se coloca na posição de ouvir, de buscar demandas da sociedade. Ao contrário, ele elenca as demandas que ele acha que existem ou devem existir e qualquer coisa além disso ele dispensa, dizendo simplesmente que não existem. Por preconceito ou não, fui lá no texto dele, isolei partes e mostrei por que estou dizendo o que digo.
Essa postura explica muito, aliás, do problema dos tucanos, não pelo que FHC diz, mas pelo que ele deixa de dizer. E não é um mal inventado por ele, é um mal antiquíssimo no país, essa vaga concepção iluminista e mal-disfarçadamente platônica do “eu sei o que é melhor para vocês e, se vocês discordam, é porque são uns ignorantes, massas carentes e assim por diante”. Só teremos equilíbrio político no Brasil quando todas as correntes políticas abandonarem essa forma de pensar.
Aliás, esse sintoma do PSDB só se tornou visível nos últimos anos porque, coincidência ou não, o partido, em sua origem, estava, sim, sustentado por demandas da sociedade bastante concretas. Em meados dos anos 80, até a era FHC, o PSDB foi, sim, o partido que respondeu às exigências de estabilidade monetária, liberalização econômica, desregulação de mercados. Pois bem, passaram-se 16, quase 17 anos desde que o plano real foi implementado e o que o PSDB tem para oferecer hoje? Estabilidade monetária, liberalização econômica, desregulação de mercados…
Ora, se em vez de querer simplesmente falar aos brasileiros (e dizer o que já foi dito há muito tempo) o PSDB (ou outro partido que reivindique uma bandeira liberal) incorporasse organicamente, como um verdadeiro partido, as demandas novas que vão surgindo no (nas palavras do próprio FHC no artigo do último domingo no Estadão, um artigo muito mais lúcido que esse citado acima, mas ainda se apoiando sobre a mesma fraqueza) novo Brasil, não estaria na situação em que está.
Mas, opa, só estou dizendo isso porque sou um preconceituoso.
Alto nível o artigo, parabéns Diego.
Minha leitura é que não houve mera assimilação dos pobres à classe média tradicional brasileira. É o inverso. Está havendo uma assimilação da classe média pelos pobres, daí o despudor e histeria ao diferente dos udenistas modernizantes, que representam a velha classe média, a “elite”. No fundo, penso eu, com distribuição de renda, acesso universitário e inclusão produtiva, está em curso uma revolução cultural em que se afirmam mil classes médias, mil subjetividades com seus regimes de produção de discurso, mídia e imagem. Nesse sentido, falha qualquer análise que achate a heterogeneidade resultante da última década em alguma homogênea “classe média”, nova ou antiga.
Abraço.
Minha leitura é muito parecida com a sua. Eu diria que a única diferença é que não penso em termo de absorções (confesso que não entendi muito bem, aliás, o que você quis dizer com absorção da classe média pelos pobres). Sua idéia das mil subjetividades é perfeita e estou postergando há semanas um texto sobre isso, a miséria como aniquilação de potência (como já disse Deleuze, o poder é a forma mais triste de potência que existe, triste no sentido espinozano, claro; a palavra que pretendo usar é “buraco negro”; o texto amarraria tudo que tenho escrito sobre política nos últimos meses, textos que estão meio desconexos justamente por falta dessa articulação) e a inclusão como liberação dessas potências.
Aliás, pegando o seu gancho: se abandonarmos até mesmo o conceito de “classe média” (nova ou velha), fica evidente que o que há de novo é a possibilidade de uma série de relações – muitas delas conflituosas, como já temos visto, mas todas elas criativas em algum sentido – que exigiriam, aliás, exigirão reconfigurações profundas no modo de vida do país. É claro que isso tudo pode ser bloqueado, como já foi mais de uma vez na história do país…
Abraço!
Salve, Diego,
Assimilação no sentido de ocupação de territórios antes reservados à classe-média. Entenda-se territórios em sentido muito amplo. Essa ocupação, menos do que render os empoderados à identidade dessa classe (muita crítica “à esquerda” do governo Lula vai nessa direção), reformula-a, e redimensiona esses espaços, multiplicando-os. É isso que irrita o udenismo latente: a implosão de um consenso/identidade, o que chama imediatamente o discurso da falência de valores, e então do desprezo (como modo de tentar manter os marcadores de status).
Também acho que classe-média está vinculada por demasiado na teoria das elites, mesmo de uma forma vulgar. É preciso analisar o impacto nas relações produtivas, e suas repercussões no campo simbólico, e vice-versa.
Abração.
Não vou ficar procurando palavras rebuscadas para decifrar esse enigma chamado FHC.
No entanto digo que ele foi uma unanimidade em matéria de impotência e imobilidade na gerencia e administração do Brasil, apenas quebrou a nação três vezes e levou a todos de joelhos diante da banca internacional choramingando como um qualquer. Ele como presidente foi a negação em pessoa, é passado seu tempo e sua história ele mesmo enterrou quando diz esqueça que escreveu, trocando em miúdos esqueça de mim!
A análise realizada por FHC encontra ecos críticos em quase todos os quadrantes. Talvez por esclarecer alguns aspectos sobre os quais patinam as oposições. O objetivo dele foi falar ás oposições, ponto no quel se encontra e não para a situação, ponto ao qual se opõe. Ele procura abordar como entender ou procurar entender o que se passa na sociedade e a partir dai, o de útil, no terreno da ação política, que possa ser planejado e realizado. A nação não foi quebrada três vezes. Se o tivesse sido, não estaria sequer no patamar, ainda insatisfatório, diga-se, no qual se encontra hoje.
O que menos importa no texto de FHC é a menção ao “povão”. Sem exageros, todo m undo entendeu o que ele disse, mas, o magnificam dentro de uma mística que poderia ser chamada de oportunística, com as excessões devidas. Essa palavra foi transformada numa verdeira quimera. O numa esfinge. Antes da redemocratização, o termo praticamente definia o que havia de alienado e suporte para a propaganda do regime autoritário. Durante a fase de pressão sobre o regime, o termo passou a definir as parcelas da população que deveriam ser buscada como apoio, para que as bases populares do regime não mais o sustentasse. Com a superação do regime autoritário, passou a ser buscado como forma de representação dos novos tempos do País. Agora, ou é tema de deificação exagerada ou base eventual para discursos populistas, atrasados e mistificadores. Assim, criticar o termo, exceto para os que não têm medo, pode representar o escárnio. Para quem tem medo, pode exortar a submissão. FHC abre o debate e expõe-se a ele, exatamente do lado daqueles que não têm medo.
Concordo plenamente. A alusão ao povão é irrelevante, comparada com a fraqueza conceitual e a rendição a uma forma de fazer política meramente vertical. É pena que FHC tenha caído a esse ponto, faz pensar que novos partidos liberais e urbanos são mesmo necessários.
Diego Viana, partidos liberais e urbanos já existem. PMDB, PT, PP, PSB e outros da base são exemplos claros disso. Não entendo que FHC tenha “caído” a algum ponto. Ele fez análise política abordando pontos importantes, visando as oposições. Os governistas têm suas interpretações, com base em outros parâmetros.
Ah, sim, esses partidos que você citou são, de fato, liberais e urbanos.