Ensaios de Fred Halliday
Anos atrás a BBC pediu a Fred Hallidey (1946-2010) para dar uma olhada numa lista de grupos muçulmanos, judaicos, árabes e sionistas a quem ela havia pedido para opinar sobre sua cobertura do Oriente Médio. O que, perguntaram a Fred, ela devia fazer com seus conselhos contraditórios?
“Ignorem completamente”, soltou Halliday, “e perguntem a si mesmos se eles sequer deviam ter peso no assunto.”
Fred Halliday, professor de relações internacionais na London School of Economics, cronista engajado dos traumas da guerra fria e do Oriente Médio e um dos poucos intelectuais para quem o desgastado epiteto “cidadão do mundo” genuinamente se aplicava, odiava as súplicas especiais de grupos tribais e confessionais. Acreditava que a intervenção de diásporas – fosse armena, turca, árabe, irlandesa ou cubana – invariavelmente prevenia a resolução de conflitos em suas pátrias-mãe. (Apenas imigrantes ingleses falhavam em fazer lobby pelos supostos interesses de sua terra nativa, observou, “embora seus espasmos de inebriação coletiva e seus conformistas estilos de vida de gueto no exterior fazem pouco para melhorar a reputação de sua pátria-mãe”.) Mais importante, ele apoiava valores universais. Sua carreira o havia ensinado que quando um homem começa uma sentença “falando como um muçulmano” ou “falando como um judeu”, estava invariavelmente preparando-se para dar a cartada racial e trunfar as objeções humanas de seus críticos.
Os intelectuais que mais admirava eram os secularistas lúcidos que haviam se libertado dos mitos de suas comunidades e tradições. Halliday teve que libertar a si mesmo da “comunidade” de esquerdistas marxistas da geração de 1968, cuja facção britânica falhou tão miseravelmente em cumprir suas promessas – e as promessas que fez a si mesma. Parte de Political journeys, uma coleção póstuma de ensaios que ele escreveu para o site openDemocracy, é um bem merecido tormento do abraço que a esquerda “anti-imperialista” deu na reação contra-iluminista. Para Halliday, como para outros, o momento em que Ken Livingstone, o prefeito esquerdista de Londres, fez causa comum com Yusuf al-Qaradawi, um demagogo misógino, homofóbico e antissemita da Irmandade Muçulmana, representou o estágio final de uma longa e nauseabunda decomposição.
De forma incomum para um intelectual ocidental moderno, Halliday via a emancipação feminina como a “questão mais candente de nossos tempos”, e nunca ficou quieto quando liberais tentaram dignificar a opressão de mulheres com termos aliviadores como “respeito às diferenças culturais”. Este volume contém calorosos tributos a feministas iranianas e libanesas que lutaram pelo direito de “falar, se vestir, trabalhar e amar livremente”, e contra a “re-masculinização do espaço político que tomou de conta do Oriente Médio”. No ensaio mais severo, ele pergunta se a marcha adiante das mulheres foi interrompida, não apenas pelo crescimento da intolerância religiosa nos EUA e no mundo muçulmano, mas também pelos ataques da globalização aos serviços públicos e redes de proteção dos quais mulheres com filhos tanto dependem.

-- O autor --
Entretanto, caracterizar esse livro como um “adeus à esquerda” é duplamente enganoso. Primeiro, nenhum jornal conservador teria publicado os escritos de Halliday. Ele permanecia um inimigo das políticas ocidentais, velhas e novas. Em nenhum momento consegue elaborar uma palavra positiva para a política externa americana; via o papel dos EUA no Oriente Médio como um desastre contínuo. Segundo, sua formação marxista e viagens aos locais de revolta, de Cuba ao Iêmen, garantiram que entendesse a dinâmica da revolução melhor que qualquer de seus contemporâneos. Diversas vezes, Halliday enfatiza que a onda islâmica que começou com a revolução iraniana de 1979 não se esgotará, e que aqueles esperando por uma vida tranquila provavelmente se desapontarão. Direto do Irã, ele escreve com considerável sensatez sobre como a figura apocalíptica de Ahmadinejad segue o padrão estabelecido por seus predecessores na Rússia e na China. Todos se engajaram em espasmos tardios de militância e violência, ao invés de encararem a realidade à medida que as falhas das esperanças utópicas da revolução se tornaram evidentes. Como Stalin com seus expurgos e Mao com sua revolução cultural, os herdeiros de Khomeini convenceram-se de que uma última onda sangrenta trará o céu para a terra.
Neste e em um punhado de outros tópicos, a escrita de Halliday vai muito além dos esforços padrão da academia e dos departamentos internacionais da imprensa. Leia sobre a intransigência dos apoiadores do IRA em sua cidade natal de Dundalk – “Perguntei se alguém tinha mudado de opinião sobre qualquer coisa nos últimos 30 anos. Ele me olhou com um pouco de desprezo e respondeu cortante, ‘Claro que não’” – ou sobre a globalização de ideias – “A surpresa britânica com o fato dos terroristas que atacaram Londres em 7 de julho de 2005 serem ‘home-grown’ se deu pela não compreensão de que restam poucas coisas puramente home-grown” – ou sobre as belezas e horrores do Iêmen ou sobre o efeito da imigração em Barcelona, e você provavelmente se surpreenderá com a profundidade de seu conhecimento e a extensão de seus interesses.
Halliday morreu no ano passado com 64 anos – jovem demais. Mas ele continua vivo, e não apenas em seus livros e nas memórias de amigos e estudantes. Quando a London School of Economics teve pela primeira vez a ideia de forrar o bolso com dinheiro de Saif Gaddafi, e de permitir que o filho do ditador fosse um dos consultores de seu Programa Norte da África, Halliday exortou seus colegas a recuarem, em um longo e profético memorando. Ao contrário de Anthony Giddens e David Held, Halliday falava árabe e viu por si mesmo na Líbia que o regime era uma cleptocracia odiosa, onde nada corria bem além dos pedidos de propina por parte da elite.
Para sua infelicidade, a LSE o ignorou e começou um processo de “engajamento”, que também pode ser classificado como um processo de “colaboração”. A LSE planejava realizar por estes dias “uma grande conferência na Líbia sobre o tema da reforma política no norte da África… um evento internacional inovador com acadêmicos e políticos de todo o mundo”. Ela teve que cancelar a inovadora visita a seus benfeitores porque o povo líbio preferiu ignorar os acadêmicos britânicos subornados, que, por não estarem de seu lado, jamais poderiam trazer reforma.
O melhor tributo que alguém pode pagar a Fred Halliday é dizer que ele sempre esteve do lado dos líbios.
::: Political journeys: The openDemocracy essays ::: Fred Halliday :::
::: Saqi Books, 2011, 350 páginas :::

