De tragédias e de valores

por Carlos Orsi

Nos 14 anos em que trabalhei no Grupo Estado, muitas vezes me vi defendendo — em mesas de bar, festas de família, e até na área de cafezinho da redação — os editoriais do Estadão da acusação de que seriam ranhetões, “direitões”, excessivamente conservadores.

Claro, sempre houve um prisma conservador filtrando as análises publicadas na vetusta página 3, mas eu insistia em apontar que, em muitos casos, a essência do que se dizia ali era, se não correta, ao menos apoiada numa argumentação firme o bastante para não poder ser desprezada com um dar de ombros ou o bom e velho “se o Estadão defende X, então X deve ser uma merda”.

Mas eis que, neste sábado, eu abro o jornal e vejo um texto que reduz toda a minha linha argumentativa a pó de traque. Trata-se da análise feita pelo jornal da tragédia do Realengo. O editorial “Que nos sirva de alerta” não só se abstém de comentar o caráter de fanatismo religioso do crime — mais sobre isso adiante — como ainda joga com o clichê da “falência dos valores humanos em seu embate permenente com o pragmatismo da sociedade de consumo” e, mirabile dictu, ainda encontra razões para atacar um criador de videogames dos Estados Unidos.

A hipótese de uma “falência dos valores humanos” diante do “pragmatismo” pressupõe uma época, em tempos idos, onde os valores humanos eram uma sólida corporação — mas que, no tempo que separa essa época áurea do presente, foi sendo acossada pelas pressões do “pragmatismo da sociedade de consumo” contemporânea, entrou em concordata e agora caminha para a liquidação extrajudicial.

Fico imaginando, quando foi que os valores humanos se sobrepuseram ao pragmatismo? Em tempos homéricos, quando Agamenon sacrificou a própria filha para garantir o sucesso da guerra contra Troia? Em tempos bíblicos, quando Abraão não hesitou em prostituir a própria esposa para atrair a boa vontade do faraó do Egito? Talvez na Atenas dos filósofos, sustentada por trabalho escravo? Ou na Roma dos jogos de gladiadores?

Talvez o editorialista estivesse se referindo à Idade Média? As Cruzadas talvez tenham sido impulsionadas mais por valores do que por considerações pragmáticas (o que nos deveria fazer parar para pensar se ter “valores” é uma boa ideia, afinal). Mas então, o que dizer da Quarta Cruzada, que desistiu de atacar os muçulmanos e optou pelo pragmatíssimo saque de Constantinopla?

Parafraseando Bertrand Russell, o que a história ensina é que, no geral, o ser humano não age de acordo com seus valores; em vez disso, ele escolhe os valores que melhor justificam o que já estava com vontade de fazer. Esse pragmatismo, tão cínico quanto, muitas vezes, inconsciente, não foi inventado pela sociedade de consumo ou pela globalização. Está conosco desde que descemos das árvores.

O que me traz ao segundo ponto do editorial, a condenação do designer de videogames que criou um jogo sobre massacres escolares — um jogo que o assassino de Realengo provavelmente nunca viu — e a olímpica omissão da clara inspiração bíblica do crime.

Os “valores” que o assassino escolheu para justificar o que havia decidido fazer não são os de um adolescente tarado por first-person-shooters, mas os do Levítico, um dos livros mais psicopáticos da Bíblia, todo obcecado com questões de pureza e de sacrifícios de sangue. Por exemplo, compare este trecho do livro supostamente sagrado:

19 A mulher que tiver o corrimento menstrual ficará durante sete dias na impureza das regras. Quem a tocar ficará impuro até à tarde. 20 O lugar em que ela deitar ou sentar durante as regras ficará impuro. 21 Quem tocar o leito dela deverá lavar as vestes, tomar banho e ficará impuro até à tarde. 22 Quem tocar um móvel no qual ela esteve sentada deverá lavar as vestes, tomar banho e ficará impuro até à tarde. 23 Se o objeto tocado estiver sobre o leito ou sobre o assento em que esteve sentada, ficará impuro até à tarde. 24 Se um homem dormir com ela, ficará contaminado com a impureza e estará impuro durante sete dias, ficando impuro também o leito em que dormir.

Com este trecho da carta-testamento do assassino:

Primeiramente deverão saber que os impuros não poderão me tocar sem usar luvas, somente os castos ou os que perderam suas castidades após o casamento e não se envolveram em adultério poderão me tocar sem usar luvas, ou seja, nenhum fornicador ou adúltero poderá ter contato direto comigo, nem nada que seja impuro poderá tocar em meu sangue.

A biomédica e escritora Cristina Lasaitis sugere, em seu blog, que o assassino sofria de uma doença mental e que o discurso religioso foi apenas o modo que ele encontrou para dar forma e expressão a seus conflitos íntimos.

Se tivesse outro tipo de formação e outras referências culturais, talvez o assassino escrevesse uma carta com alusões a O Senhor dos Anéis, Guerra nas Estrelas ou, sim, até a videogames — e fico imaginando a onda de caça às bruxas que a imprensa e as autoridades desencadeariam, fosse esse o caso: basta lembrar o circo armado há alguns anos contra os livros de RPG. Mas como a vestimenta da motivação foi religiosa, o editorialista prefere passar a borracha e culpar a decadência do ocidente e um remoto criador de videogames.

Sim, é bem provável que a religião não tenha tido nada a ver com o crime, da mesma forma que Tolkien, George Lucas — e o game designer — não teriam tido nada a ver, caso as referências da carta fossem outras. Para encerrar, porém, deixo aqui um fato que você provavelmente não verá mencionado em momento algum da cobertura da tragédia de Realengo: os dois maiores massacres de civis, fora de contexto militar, da história recente foram cometidos por motivação religiosa: o 11 de Setembro e o suicídio coletivo de Jonestown. Tire disso a conclusão que quiser.

7 comentários | Dê sua opinião

  1. Turismo e Paradigma 09/04/2011 em 4:47 pm

    Brilhante o texto.
    Eu mesmo fiz longas reflexões sobre o que é exposto na televisão, videogames e internet na cabeças das pessoas. Eu mesmo questionei se tudo isso não seria o gatilho necessário. Mas refletindo melhor, privar a grande maioria de qualquer coisa por causa de uma atitude de gente com problemas mentais, seria a nova inquisição travestida de boa intenção. Isso sim!!!
    Agora uma coisa não deve ser deixada de lado em toda essa estória… A ultra exposição na mídia de coisas desse tipo, sem dúvida instiga mentes frágeis e doentes, inexpressivas a terem o desejo de se tornarem mitos. Mesmo que para isso seja necessário o suicídio.
    Já prestou atenção em alguns programas do Biography, NatGeo ou Discovery, em como eles se referem aos criminosos??? ” maopr criminoso do século”; grandes mentes assassinas”, etc, etc.
    Talvez poderíamos glamurizar menos.
    Abraços
    Gustavo

    Responder
  2. Bosco 09/04/2011 em 6:26 pm

    Chegou em boa hora! Valeu.

    Responder
  3. Bete Meira 10/04/2011 em 2:31 am

    Não vi motivação alguma na carta. Nem religiosa nem relacionada a jogos. Muito difícil descobrir os motivos vindos certamente de uma alma atormentada, de uma mente perturbada. Inexplicável e injustificável. Discordo do modo como se refere a Levítico. Creio que a bíblia é inspirada por Deus e Ele não é psicopata, O velho testamento é de difícil compreensão, gosto do novo com os ensinos de Jesus. Religião alguma ensina a trucidar, matar, destroçar. O homem é que se torna fanático e faz barbaridades em nome de alguma religião, que na verdade, deveria ‘religar’ o homem a Deus.

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  4. Pingback: A clara inspiração cristã do assassino de crianças | ESTADO ANARQUISTA

  5. Angela 10/04/2011 em 9:28 am

    O ser Humano é um organismo complexo e nosso cérebro funciona com trilhões de neurônios e bilhões de informações que se processam de modo diferente em cada indivíduo. A mesma informação tem efeito diferente em cada pessoa. Seria muito fácil se houvesse um modo de descobrir claramente como funciona a mente de psicopatas e também de pessoas normais, mas o fato é que nem mesmo nós sabemos que reação teremos diante de um fato inusitado.
    Sabemos que muitas vezes as doutrinas religiosas (sejam elas quais forem) podem ter resultados devastadores em mentes já doentias ou em pessoas carentes, com baixo estima. Podemos colocar um pouco de tudo nesta mistura e teremos um banquete completo, um coquetel nefasto capaz de dar azia e dor de cabeça por muito tempo.
    Pobres daqueles que agora precisam conviver com o resultado desta tragédia.
    Parabéns pelo texto.

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  6. rayssa gon 14/04/2011 em 10:31 pm

    o texto está otimo, é realmente um reflexão bem sóbria do que aconteceu. o que se destaca no meio dessa cobertura histerica e miope. mas só achei estranho a seguinte frase:

    ” é bem provável que a religião não tenha tido nada a ver com o crime”.

    como assim? a religião, pelo que você mesmo mostrou, teve tudo a ver com o crime. foi objetivo e a inspiração, o alpha e o omega.

    um detalhe que vc esbarra, quase que tropeça nele, mas não aborda: a violência de genero. seja no maior numero de garotas vitimadas ou na sua escolha da passagem biblica. a relação fica bem clara quando lembramos que esse tipo de preceito é reforçado em praticamente todos os livros da biblia.

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  7. Carlso Orsi 15/04/2011 em 12:24 pm

    Oi, Rayssa! Eu devia ter expandido a questão do “nada a ver”: o que está embutido nessa frase é a ideia de que Wellington já estava desequilibrado por fatores outros que não a religião em si; ou seja, ela não foi o motivo do crime, embora tenha dado ao criminoso uma linguagem estruturante para justificá-lo. Quanto à violência sexual, você está certíssima: esse foi um crime misógino — e a Bíblia é, sim, um livro misógino, principalmente no Pentateuco. Aliás, um aparte engraçado: se Deus chamou Moisés para dar os 10 mandamentos e tal, por que ele não aproveitou para explicar os fatos da vida a respeito da menstruação? Teria poupado muita confusão…

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