Brasil 2011: Fábrica de Wellingtons

por Bruno Cava

No começo do ano, escrevi sobre como a cobertura da grande imprensa em horas de comoção costuma ser pusilânime. Reproduz a morte à exaustão, explora a comiseração humana, estimula a cultura do medo. Tudo para fortalecer a agenda de segurança pública: mais vigilância, mais controle, mais punição. Se o luto consiste na esconjuração do que o morto tem de morto, para fazer valer a sua potência de vida, no (eterno) retorno do diferente que persevera em viver; a mídia da impotência fecha o zoom e pergunta aos entrevistados: e agora, como sobreviver na falta, como conviver com a morte? O jornalismo brasileiro agonizou de vez. Cada vez mais se impõe o desejo por um mundo pós-jornais que nos livre desse horror editorial.

Enquanto isso, na surrada narrativa cristã da Queda, fala-se em falência de valores. Como se o Brasil não fosse, desde o ovo, um país profundamente desigual, semicolonial, escravagista, ultraviolento, cuja cordialidade não passa de hipocrisia letrada, da condescendência humanistóide cevada nas mais chiques vernissages de seus salões acadêmicos.

Nunca houve impunidade por aqui, mas excesso de punição. Quem crê no sistema penal para mitigar mazelas sociais desconhece a via dolorosa que vai da ação policial às prisões, passando por autuações, inquéritos, varas criminais, tribunais de justiça, recursos, varas de execução etc. Em suma, pelos mil filtros e desvios e atalhos que tornam o sistema penal uma máquina de triturar pobres e negros. Sem qualquer serventia para uma pauta de esquerda, senão uma idealista, pois está idealizando o poder punitivo. A bem da verdade, dar vivas a um estado mais forte e repressor, sob qualquer pretexto imaginável, não tem como configurar uma posição emancipadora.

Sobrou até para a internet, novamente achincalhada pela velha mídia, desesperada ante a audiência perdida para a cauda longa de sites, blogues e redes sociais. Videogames? Que graça… a periferia do Rio já vive num regime de brutalidade permanente, direta e difusa. Nenhum morador do subúrbio carioca precisa jogar Counterstrike para vivenciar ao vivo e em cores a guerra. Sim, mais um caso em que negro pobre chacina negros e pobres, ou melhor, negras. Este crime tem cor e sexo. Vale lembrar como, no homicídio passional, a mulher geralmente morre (marido traído mata esposa e esposa traída, a amante).

Wellington é um cidadão como eu e você que, submetido a circunstâncias extremas por um longo período, acabou cometendo um ato extremo. Wellington nunca será santo nem demônio: um personagem demasiado real, tomado de dramas e carências, encharcado do fel da sociedade. Esquizofrenia não causa assassinato por si mesma. Nem todos levam na boa uma vida de opressão sistemática, vinda de todos os lados, sem rota de fuga.

Menos Febrônio Índio do Brasil ou Pièrre Rivière, mais para Seung-Hui Cho, jovem aliás da mesma idade de Wellington. Em 2007, matou 32 pessoas num instituto tecnológico americano, nos mesmos moldes do massacre em Realengo. Era um imigrante coreano num país atravessado por racismo, que reclamava ser tratado como bicho pelos colegas — abandonado a tratamentos inúteis por psiquiatras aborrecidos, vagamente interessados no paciente.

Na última década, a ascensão social e racial dos brasileiros acentuou a cultura do preconceito contra o diferente. No momento que pobres e minorias empoderam-se, que se formam mil classes-médias, a postura da reação torna-se mais agressiva, despudorada e odiosa. Ódio contra pobres, mulheres, negros, indígenas, minorias LGBT. Agrava-se um contexto de preconceito e repulsa que alimenta a criançada — fascista menos por natureza do que por copiar acriticamente a atitude de adultos, por absorver a violência disseminada nas frinchas do nosso sistema político.

Daí a gravidade de discursos inflamados de políticos como Bolsonaro e de religiosos fanáticos (inclusive parlamentares). Por sinal, mesmo sem desejá-lo, o “único deputado de direita do Brasil” serviu de grande referência da pequena, porém sintomática manifestação fascista e neonazista ontem, na Avenida Paulista — tão famosa ultimamente por seus atentados homofóbicos na madrugada.

Esse fenômeno também aparece de modo mais “cordial”, no almoço de domingo ou na roda do bar, quando, diante dos jovens, se discriminam pessoas diferentes, se contam piadas racistas ou contra nordestinos, se fazem comentários machistas, se propagam ideais punitivos e vingativos.

Inadvertidamente ou nem tanto, banhamos os nossos adolescentes nas águas podres do que de pior temos em nós, de preconceito, de medo, de bullying, de sectarismo, de incompreensão, de completa ausência de generosidade e mesmo de desprezo pela alteridade. Quanta burrice, agora querer levantar mais muros, espalhar mais câmeras, colocar mais guardas, punir com mais violência!

O resultado a olhos vivos é isso aí: doze crianças mortas. Não deveria surpreender tanto. Torço para que o espetáculo ao redor do caso não abra a caixa de Pandora, inspirando ações semelhantes no futuro. Desta vez, pelo menos, Wellington sequer deu o gostinho para alguém sair bradando pela “pena de morte contra vagabundo”.


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17 comentários | Dê sua opinião

  1. Cristian Korny 11/04/2011 em 7:17 pm

    ah! a criançada! criada à base de televisão com publicidade discretamente fascista, a criançada, que absorve tudo 100%, eu deveria soltar um palavrão agora, mas aí vão dizer que eu não preciso agredir, para em seguida me agredir de diversas formas possíveis.

    Bruno, bom texto, corajoso:O)

    e os adolescentes, se eles souberem o que os espera no mercado de trabalho, um monstro mais vitaminado e voraz que o bullying, o assédio moral, pq ninguém quer dizer essas duas palavras juntas? assédio moral, assédio moral, assédio moral, assédio moral, assédio moral,…

    duas coisas que não se discutem: 1. ué, o plesbiscito pelo desarmamento não perdeu? e a mídia não anabolizou a posição favorável às armas? 2. em nenhum lugar eu vi alguém discutir qual a forma de elaborar a intolerância em tolerância, elaborar a diversidade, afinal, o mundo não terá mais diversidade ainda no futuro?

    que mundo se deseja?

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  2. Biajoni 11/04/2011 em 10:21 pm

    existe aí uma idéia de que a IMPRENSA é uma COISA SÓ, manipulada pelo grande ARQUITETO DA IMPRENSA, um deus, um demiurgo controller das informações gerais. como o Deus “real”, ele não existe.
    ;>)

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    • Bruno Cava 12/04/2011 em 1:54 pm

      A grande imprensa não é uma coisa só, mas tem uma capacidade ímpar de agir em bloco quando ameaçada ou então para tocar agendas políticas. Basta ler, como casos extremos, os editoriais do dia 1º de abril de 1964, a cobertura televisiva do “mensalão” e todas as campanhas que participem Serra, Alckmin ou FHC. No Brasil não temos sequer uma imprensa capitalista, porque não há concorrência ou liberdade de expressão formal. O que há é um oligopólio quase centenário sem abertura para novos discursos. A internet, as novas mídias, as redes sociais, tudo isso constrói um mundo mais compartilhado e livre, que empodera os cidadãos, mas não tem como disputar, pelo menos ainda não, de igual pra igual com a grande imprensa.

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      • Dawran Numida 22/04/2011 em 3:04 pm

        Bruno Cava, no caso da imprensa e dos meiso de comunicação em todas as “mídias”, pode considerar o ex-presidnet Lula e a atual presidente, como caudatários de exposição positiva. Bem ao contrário do que é dedicado às oposições a seus respectivos e contínuos governos, bem como ao PT.

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    • Raphael Tsavkko Garcia 12/04/2011 em 2:50 pm

      A imprensa é uma máfia controlada por meia dúzia de famílias com interesses colados aos da elite – da qual essas familias obviamente fazem parte.

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      • Flavio 13/04/2011 em 4:45 pm

        Bruno, o negócio é que até por uma questão de mercado de trabalho, muitos jornalistas têm o rabo preso. Não vendem só a consciência, vendem a alma, confiando em continuar manipulando a opinião pública. Mas isto já está mudando.

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  4. Fernando da Mota Lima 12/04/2011 em 9:24 am

    Bruno: uma das qualidades que mais aprecio nos seus artigos é a independência inteligente com que você confronta as ideias feitas, os clichês sentimentais e desonestos correntes na opinião geral, que aliás bem pouco tem de opinião compreendida como atitude crítica diante da realidade.
    Fernando.

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    • Bruno Cava 12/04/2011 em 1:58 pm

      Pois é, Fernando. Em assuntos políticos, o senso comum de almoço de domingo da classe-média ainda seja dominante na maioria dos letrados e jornalistas. Mas eu acredito na inteligência da multidão. Cada vez mais vem se potencializando com novos discursos e mídias, com um regime mais aberto de produção da verdade, sem cair na lógica vazia do espetáculo e da desinformação dos canais da TV aberta, das revistas e grandes jornais impressos. Abraço.

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  5. Bosco 12/04/2011 em 9:17 pm

    “Mas eu acredito na inteligência da multidão.”

    A “inteligênciada da multidão” é o que mantem acesa a chama da esperança…

    Ótimo texto Bruno.

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  6. Agenor 13/04/2011 em 5:18 pm

    Achei interessante teu texto, Bruno, mas não há nele nada de original. E há uma série de incorreções e precipitações que não fogem nem um pouco do que a mídia produz sobre o assunto. “Fábrica de assassinos do Realengo” soa muito manjado, deve haver uma dezena de títulos semelhantes transitando pela net nesse momento. A expansão da net, com blogs e sites de opinião, como tu dizes, é motivo de cuidado e auto-crítica para quem se dispõe a confrontar a tão demonizada mídia corporativa, pois o multidudinarismo é antes propício à escrita massificada do que a escrita com qualidade distintiva.

    Não sei em que tu se avalia em descartar a hipótese da esquizofrenia do assassino. Resumir tudo à velha cantilena da opressão social não traz NENHUM progresso ao tema. Consideremos que, num surto milagroso, os mandatários do país se prontifiquem a uma melhora imediata dessa situação social, em restrita atenção ao caso do Realengo. O que tu propõe: lei severa contra discriminação racial e classista? lei severa contra bullying? melhoria geral no descalabro tradicional da educação nacional? A net, com seu poder de falar a verdade sem se atrelar a pautas editoriais, serveria à sua vantagem efetiva se descartasse esses textos de indignação poéticas como esse teu, e passasse para o discurso pragmático. Todos os problemas que tu colocastes acima são demasiadamente conhecidos por TODO O BRASIL. Ou seja, à medida que escrever por escrever só serve para colocar um tijolo a mais na parede da vaidade pessoal do autor, repete o mesmo descompromisso e superficialidade que vemos na tv e nos jornais.

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    • Bruno Cava 14/04/2011 em 11:59 am

      Olá, Agenor,

      O texto não se pretende imediatamente programático. Mesmo porque momentos de comoção costumam ser péssimos para isso. Leis severas contradiriam o que foi escrito, e exprimem exatamente o tipo de raciocínio (punição para resolver problema social) que o texto rejeita. Seu rendimento, acho eu, consiste em construir uma perspectiva sobre o caso com outras conotações éticas e políticas. Arrancar um tijolo da parede de minha “vaidade” e atirá-lo sobre alguns discursos que incham nessas horas. Se o que está nele, já se encontra reproduzido nos noticiários, fracassei. E daí? sinto-me livre para fracassar.

      Um abraço.

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    • Flavio 15/04/2011 em 1:01 am

      Agenor,

      Não sejamos levianos, o Bruno não descartou a esquizofrenia. O texto diz: “esquizofrenia não causa assassinato POR SI MESMA. Nem todos levam na boa uma vida de opressão sistemática, vinda de todos os lados, sem rota de fuga”. E é absolutamente verdade. Esse Wellington mostra traços de esquizofrenia, sim – mas não foi só isso o que houve. Ele sofreu pesado assédio moral na escola, ao que a relação em casa não aliviou, pelo contrário, piorou, já que era baseada numa dependência opressiva à figura materna, temperada por uma religiosidade doentia com forte repressão sexual. O cara era uma bomba chiando. Conheço esse tipo de situação de perto, eu sei o que estou falando.

      Se o texto é mais ou menos original, francamente isso é irrelevante. A função de um texto nesse caso deve ser estimular uma reflexão responsável, para que possamos ser propositivos. Sim, em TODO O BRASIL existe bullying, existe gente com problemas mentais e existe escola ruim – e muito gente não sabe disso. E muita gente que SABE, permanece anestesiada, seja por comodismo, por ceticismo, ou simplesmente porque perdeu a esperança. É mais cômodo a gente fingir que o problema não é conosco, mas infelizmente ele é.

      Responder
  7. Agenor 15/04/2011 em 6:57 pm

    Cava, tudo bem o fracasso, mas desde que não critique o dos outros.

    Flávio, estudar a fisiologia do rabo do porco depois que a coisa tá torta, não adianta nada. O que importa mesmo não é saber a causa da origem desse assassino covarde, mas os meios do Estado controlar para que não aconteça mais algo do gênero. É muita conversa pra pouco conteúdo, é sociologismo vaidoso demais que não mexe uma pluma. A solução é o reaparecimento do Estado com seus mecanismos de saneamento, e não a mitificação de um rapaz que se limitou a ser medíocre a vida inteira para encerrar com chave de ouro com uma covardia sem tamanho. Chega de textos palavrosos como esses do Cava, que gosta de flanar sobre todos os assuntos.

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    • Flavio 16/04/2011 em 1:24 am

      Agenor, sendo curto e grosso: esse rapaz é a soma de transtorno mental + culpa religiosa + bullying. O cara sofreu assédio moral pesado, que pode literalmente destruir uma pessoa. Está cheio de jovens por aí que são verdadeiras bombas chiando. Doido é feito de gente, meu amigo, qualquer pessoa está sujeita a perder o eixo. Se não entender isso, não tem como encaminhar soluções. No que tange ao importantíssimo papel da escola, ele não é o de sanear os “diferentes”, mas de incluir as pessoas. Reitero que é mais cômodo a gente se limitar a cobrar de Deus, ou do Deus-Estado. Certamente o Estado tem sua responsabilidade, mas o assunto diz respeito a todos. É uma questão de cidadania.

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  8. Agenor 16/04/2011 em 8:34 am

    Flávio, talvez por isso, enquanto conversamos, as milícias de extermínio e os deputados desaforados que beiram uma ultra-direita, como o histriônico Bolsonaro, estejam caindo tanto no gosto de um povo que conhece por demais o desamparo do Estado.

    O policial que interrompeu a chacina foi reticente: primeiro disse ter dado um tiro na perna, depois afirmou que atingiu o assassino no abdômen, sempre ressaltando que o tiro final foi ato de suicídio deliberado. Nas palavras dele se percebe o cara já escolado e ressabiado criando álibes para quando os sociólogos poéticos dos Direitos Humanos prostituírem os fatos, não acusem ELE por frio assassinato.

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    • Flavio 16/04/2011 em 7:46 pm

      Agenor, se ali o policial atirou para matar, numa situação limite, estando sob a mira do rapaz, o policial cumpriu o dever dele. Só acho que as autoridades deveriam informar o que aconteceu com toda a clareza, sem hipocrisia e sem maquiar os fatos. O rapaz sabia que ia morrer e foi lá para isso, é um suicida. Ali era uma situação limite.

      O problema é que até chegar naquilo, o rapaz deu pistas do que poderia fazer – e ninguém ligou. Ele não era um estranho, era conhecido na comunidade, tanto que entrou na escola sem problemas. Mas era uma pessoa invisível, na medida em que ninguém se deu conta do problema que ele estava passando. Cobrar o Estado é necessário, mas não é suficiente.

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