Bem longe da literatura infernal
por Vanessa Souza
“Fazer crônicas de estilo ligeiro, tem muito perigo. O perigo de tomar gosto na facilidade de escrever. O perigo de cair no que Antônio Cândido chama de “literatura infernal…” (Teresa Montero (org.) in: Minhas queridas, de Clarice Lispector.)
Quando estava lendo Clarice Lispector na cabeceira – crônicas, lembrei-me do sublinhado acima. 2010 foi um ano muito claricelispectoriano para mim. Li as duas principais biografias dela (as que eu considero as principais) e tantos outros escritos dispersos. Também fui a um evento literário que a escolheu como escritora-tema. Assisti ao monólogo (maravilhoso!) com Beth Goulart. Uma imersão de Clarice L., para chegar a Caio F. (escritor que trabalho em minha dissertação, que teve em Clarice sua maior inspiração-devoção). E por que não fui feliz em 2010? Culpa da Clarice!
Clarice, a cronista. E o que é uma crônica? Um relato do cotidiano com um misto de literatura. Talvez. Preguiça de pegar algum dicionário de jornalismo para uma definição mais justa. As crônicas de Clarice são uma deliciosa confusão entre conto e crônica, já que ela utilizava textos já publicados e os inseria nas suas crônicas. Os temas eram os mais variados: os filhos, as empregadas domésticas (ainda é politicamente correto usar este termo, leitor?), os motoristas de táxi… Temas aparentemente tão banais, que acabam se tornando histórias fascinantes, da forma que apenas Clarice conseguia tecer. Fascinantes, não leves. O texto de Clarice nunca deixa de incomodar. Boa literatura não é feita de leite condensado e aroma de orquídeas.
Clarice, a que tinha raiva de escrever por dinheiro. Raiva e necessidade, raiva da necessidade – já que a pensão do ex-marido não dava conta das contas. Essa obrigação de escrever crônicas – e toda obrigação era tema complexo para uma escritora de frágil equilíbrio psíquico – trazia ambivalência aos escritos. Que bom! Clarice costumava dizer que não escrevia história com começo, meio e fim. Escrevia sensações. Além disso, ser publicada nos jornais trouxe mais leitores para Clarice do que havia tido com todos os seus livros publicados anteriormente.
Clarice Lispector na cabeceira – crônicas traz vinte textos escolhidos pelas mais variadas personalidades. Difícil escolher as melhores, a melhor. “Banhos de mar” narra uma grande epifania da infância pobre (porém rica em criatividade) da escritora: os banhos de mar que tomava em Olinda com o pai e as irmãs. Aquele tempo, para sempre perdido, e jamais reencontrado.
A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais?
Nunca mais.
Nunca.
::: Clarice Lispector na cabeceira – crônicas :::
::: Rocco, 2010, 176 páginas ::: comprar na Livraria Cultura :::


Van,
que resenha maravilhosa!!
Não tive ainda a oportunidade de ler este livro – mas está na minha infinita lista.
O que me lembra que preciso retomar a biografia de Benjamin.
Beijos e boas leituras!
Vanessa, que delícia ler você dizendo de Clarice. Sou fã das duas.
“A descoberta do mundo” é tão boa, que ainda não consegui terminar de ler. Não porque não quis, mas porque não pude. Se eu a devorar, ela termina rápido. E eu só posso degustá-la lentamente…
Ai, como é saborosa a leitura de Clarice. Nada leve, como você disse, mas eis o seu sabor.
Um beijo.