A Columbine brasileira e nosso mito da tolerância
por Raphael Douglas

O Brasil vive, infelizmente, um drama que quase sempre acompanhou de longe. Pela TV, nos emocionamos com o caso Columbine (1999). Sem dúvidas, esse foi o acontecimento norte-americano de maior repercussão quando tratamos das invasões violentas às instituições de ensino. Na época, a ideia mais sustentada era que, por felicidade, o Brasil não tinha “dessas coisas”. Ficávamos espantados quando nos dávamos conta de como a sociedade norte-americana era psicologicamente enferma.
O problema deixou de ser apenas do vizinho e nos tocou de perto. É a pedagogia do temor. Só aprendemos quando nos ocorre. Não existe um brasileiro sequer – a não ser algum indivíduo que tenha a mesma linhagem mental do sorumbático Wellington Menezes – que não esteja estarrecido, obscurecido e emocionado com o ocorrido em Realengo, na Escola Municipal Tasso de Oliveira, no último sete de abril.
O Brasil está emocionado não só pelo ato em si ou pela crueldade e frieza da execução desse ato abominável. Mas, também, pela fragilidade da nossa segurança pública. Acreditamos ser o nosso contrato social um dos mais cordiais do mundo. Para quê um porteiro ou um segurança na entrada de uma escola municipal? O modo de gerir a segurança pública passa necessariamente pelo ethos de um povo. Se não há porteiros em escolas, se a entrada e saída de pessoas não é coordenada e fiscalizada, isto se dá pela confiança cega no nosso tradicional contrato social de pacifismo e tolerância. No imaginário do brasileiro, essas barbaridades sanguinolentas em escolas e universidades só aconteciam em países plenamente desenvolvidos, cujos núcleos familiares estão cada vez mais efêmeros e a sociedade multicultural se impõe decisivamente. Esse tabu foi destruído, desafortunadamente, no Rio de Janeiro.
Nossa máscara vai caindo para nosso próprio bem. O Brasil possui admiravelmente uma identidade das mais cretinas. Somos uma das sociedades mais multiculturais do mundo. A quantidade de memórias genéticas e de expressões culturais que convivem nesse país impressiona os não brasileiros. Desta maneira, crê-se que é por esse fato que sejamos uma das nações em que a tolerância e a aceitação da diferença funcionem plenamente. Ledo engano.
Será que o caso de Realengo é suficiente para que acordemos do nosso gigante auto-engano? Creio que não.
Somos um dos países onde o preconceito acontece de forma mais silenciosa, recôndita, venenosa e implícita. Somos um povo admirável, sem dúvidas. Um povo que festeja sua própria condição sempre que possível. Um povoado continental que vomita todas as suas mazelas dionisiacamente e, assim, evita ao máximo as patologias psicossomáticas de nações neurotizadas pelo estilo workaholic de ser. Mas, ao mesmo tempo, somos o povo do sorriso mais hipócrita do mundo. O povo da falsa aceitação das diferenças e da falsa integração nacional. Gente conceituada no país manifesta não saber se há civilização no estado do Amazonas! Aspirantes à jurisprudência exigem afogamento de nordestinos! Os brasileiros que torcem piamente para que um transexual seja o campeão de um reality show são os mesmos que, na rua, abominam a transexualidade de um cidadão comum.
Somos sim um povo tolerante, mas tolerância não indica saúde social. Existe uma diferença abissal entre tolerância e aceitação. Entre a estrutura óssea da ética e da moral, existe o gordo tutano da hipocrisia. Nós, os cordiais brasileiros, não convivemos autenticamente tão bem com as diferenças. Situações sociais elementares ainda nos escandalizam, como por exemplo, a presença pública de casais homossexuais, relacionamentos afetivos entre negros e brancos ou entre ricos e pobres.
Engrossando esse caldo venenoso temos nossas metrópoles. Tipicamente caóticas com um avanço demográfico irregular, com océlere desenvolvimento tecnológico, aliado ao processo irrefreável da favelização – oriunda de uma distribuição de renda feudal -, somado a complicação do escoamento do trânsito e da presença fatal e pedagógica da violência. Esses críticos fatores transformaram as cidades brasileiras em usinas produtoras de neuróticos, obsessivos, psicopatas, transtornados, bulímicos, ansiosos e estressados.
O que é Wellington Menezes senão um filho do Brasil? Produto da vivência de uma metrópole brasileira, assim como todas as outras, acostumada à violência, ao preconceito, à segregação social e, como é o caso, familiarizada com armas de fogo. Prontamente taxado de psicopata, um laudo muito fácil de dar, Wellington foi abandonado. É preferível, então, depositar a culpa em fatores biológicos, afinal, sua mãe biológica é esquizofrênica. Eis ai outra incalculável desonestidade.
Surgem de pronto os psicanalistas de plantão. Afirmam bolsonarísticamente que a ausência da figura paterna o desviou de uma conduta normal. Houve sim ausência de figura paterna, sua pátria, cujo cuidado com a educação e a saúde mental de suas crianças, que têm a escola como segunda casa (quando não a primeira), é extremamente pífia. A educação pública no país é uma selva, não é novidade. Ninguém é suficientemente cínico e hipócrita para discordar dessa afirmação. Esse papo é clichê? Nunca será! Uma fala anciã e desgastada sobre educação pública (e mesmo a particular) no país tem de vir à tona sempre. A criança Wellington passou por instituições que, sem dúvidas, o segregaram deixando-o a mercê de administrar por si sua patologia.
É a educação a solução de todos os problemas? É a psicologia educacioal a panacéia? Nunca. Mas o fato é que os homens passam os anos mais cruciais de suas existências dentro de escolas e instituições de ensino. Escolas bem equipadas material e psicologicamente são, sem dúvidas, fatores de refreamento e detecção de potenciais Wellingtons. E no Brasil não são poucos. Que ser humano, cuja estrutura psicológica sempre frágil, não está submetido a tomar atitudes como a de Wellington? Vamos lá! Sejamos honestos! Todos nós precisamos de apoio psicológico desde a infância para alicerçarmos uma razoável estabilidade ou uma ordem, mesmo que precária, para a vida psicológica adulta.
O que se passava na cabeça de Wellington? Essa é uma pergunta tardia, típica dos cretinos sensacionalistas que exploram a desgraça de maneira espetacular. A pergunta deveria ter sido feita há dez anos atrás, por profissionais de educação das escolas pelas quais passou Wellington. Mas esses profissionais não existem em números minimamente suficientes. Se relatórios psicológicos de comportamento individual dos alunos fossem, de fato, levados em consideração e se os profissionais da área, essenciais no crescimento cognitivo, psicológico e existencial de uma criança, fossem realmente valorizados, a realidade, sem sombra de dúvidas, seria potencialmente diferente.
As propostas acima são suficientes e necessárias para evitar o ocorrido? Seria simplista e simplório demais afirmar que sim. Mas fica aqui a discussão modestamente restrita às atitudes gerais no campo da educação.
Wellington, aos 23 anos, é a reta final do que pode representar um país mal preparado para cuidar educacionalmente dos seus filhos.
Depois de Columbine, a educação norte-americana se viu num momento decisivo de repaginar suas ações. E nós? Será suficiente pôr detectores de metais nas entradas das escolas ou revistar as bolsas de cada aluno que entra numa instituição de ensino? O modo de acolher e manter uma criança em convivência com outras deve ser muito cuidadoso, principalmente se ela demonstra, ainda em tenra idade, traços de alguma psicopatologia. Trata-se de incluir e não isolar.
O Brasil não é só o país da alegria. Há muito sofrimento psicológico na terra do futebol. Wellington não foi o último. Nas salas de aula em que o meu e o seu filho estudam, há outros em potência. E por que o meu e o seu filho não podem vir a ser um Wellington? Choremos pelas vítimas e choremos, também, por todas as pessoas abandonadas pela própria família, pelos amigos, pelos vizinhos e, infelizmente, pelos braços educacionais do governo.

Raphael, parabéns pelo esforço reflexivo, é uma temática bastante difícil e estamos ainda em estado de choque por ter sido um acontecimento recente.
Mas me questiono e te questiono, porém, eu que também tenho formação em ciências humanas (antropologia), por que temos que sempre procurar causas gerais a um episódio como este último ocorrido? Será que este lamentável fato não foi um “fato isolado”, de uma “loucura” individual deste rapaz, com formação pessoal deveras complicada. Por que devo acreditar que a sociedade brasileira (do Amapá ao Rio Grande do Sul) está mais violenta e que a violência é cada vez mais gratuita e que é culpa de educação pública mal resolvida?
Se a escrita da história do ocidente cristão tiver alguma veracidade, sinto dizer que a violência individual, social e institucional perpassa por todos os recortes cronológicos e geográficos possíveis. Loucos que saem matando por aí e depois se suicidam não é novidade nenhuma. Questiono a psicanálise, os cafés filosóficos da vida, que defendem que nossa época é uma época de valores morais frágeis, de incertezas e de fissuras como se na chamada “Idade Média”, por exemplo, os valores fossem estáveis, não tivessem choque de referências culturais, nem loucos que descumprissem contratos sociais.
Penso que nossa época, o “século XXI”, vem cada vez mais com o discurso pela paz, pelo respeito aos direitos humanos, pelos juízos apriorísticos aparentemente laicos de respeito à diferença como nenhum outro período sonhou imaginar. E esse discurso é também uma prática, uma realidade. Você já imaginou como deveria ser fácil e pacífica a vida de um escravo em território brasileiro no em 1850? Será que tinha violência gratuita no citado ano?
Não devemos cair na ilusão sensacionalista da mídia de massa, por mais que saibamos que foi, de fato, um acontecimento digno de notícia. Mas eles querem explicações, a sociedade exige explicação. Mas, às vezes, ela não existe. Às vezes é caso de psiquiatria mesmo, é loucura individual isolada de um cara que pirou pra valer e que, como você disse, podem ser nossos filhos.
O que eu quero dizer, e sei que vão me entender como “essencialista”, é o seguinte: a violência existe, os conflitos e a loucura (que são, sem dúvida, produções culturais) existem. E, felizmente ou infelizmente, não é uma boa escola ou uma boa cadeia ou um bom extermínio que vão resolver e eliminar da existência humana lamentáveis casos como o ocorridos com as crianças da agora famosa escola carioca. Isso não quer dizer que não devemos a todo instante pela melhoria de nossa educação que anda de mal a pior. O caso de Wellington não é um fenômeno de nossa estrutura social radcliffe-browniana. Talvez o fato de gostarmos de ver violência na televisão e vibrarmos com sangue e pararmos o trânsito para ver uma vítima de um acidente, isso sim é típico do nosso fascismo sádico, estrutural.
Emanuel, você leu a carta do atirador? Viu as circunstâncias do crime? Viu o histórico do rapaz? O que foi que você ainda não entendeu, meu filho? O caldo cultural da tragédia está lá. A análise do Raphael é excelente. O Raphael se mostra um pensador comprometido com o seu tempo, e não um acadêmico vaidoso que se perde em masturbações intelectuais.
Barato Flávio, não entendi o seu destempero. Assim como Raphael, e ao contrário de você, também sou comprometido com meu tempo. Tão comprometido que me preocupo quando se põe toda a culpa de um infeliz episódio como o ocorrido em Realengo na “sociedade”, na “escola” ou na “solidão do mundo”. Por que temos que achar culpados para o Wellington fez? O que isso vai acrescentar à tristeza das famílias das crianças assassinadas? Vai acrescentar apenas para o seu ego miúdo de caçador de notícias trágicas e de reverberador de maus presságios.
É na escola, barato Flávio, que passamos as horas mais perdidas de nossas vidas, ficar sentado naqueles bancos duros, ouvindo alguém professar suas crenças e aplicando testes de inteligência. São presídios, usamos fardas, aprendemos técnicas inúteis, é a instituição social que mais destruiu criatividades e conhecimentos na pequena história de nossa risonha espécie. Mas tenho que matricular meu filho num troço desses e acreditar que pelo menos Paulo Freire tinha certa razão. A sorte é que nos educamos também na rua e no mei do mundo. O que vai melhorar nisso tudo? Você só vai botar a roda pra girar, vai só urubuzar as notícias selecionadas e já prontas pra e ficar fazendo comentários confetes.
Emanuel, o assunto é sério demais para perder tempo com metadiscussão. Lamento que você julgue que o Raphael Douglas esteja urubuzando notícias, porque nada mais distante das preocupações dele. Abraços.
E o que você propõe de prático, Flávio? Que o governo contrate psicólogos para as escolas? Que as escolas usem os métodos de Rubem Alves? Que as garotas passem, por lei, a transar para os rapazes tímidos? Que as religiões de matrizes cristãs incluam em seus dogmas uma maior liberdade sexual? Que os porteiros das escolas sejam treinados pelo Capitão Nascimento? Que seja proibido o acesso de pessoas psiquicamente conturbadas a sites fundamentalistas? Como seria o seu mecanismo de controle social para criação de uma sociedade sem loucos??? Você que é um homem tão prático e eficaz, deve ter algum coelho ensaguentado em sua cartola…
Emanuel, lamento que você trate a questão na base do escárnio. A minha proposta para você é que procure algo útil para fazer, a vida é curta. Fique na paz.
texto preciso, raphael!
pega a ferida ainda sangrando e enfia o dedo nela.
vamo nessa!
Valeu a força Neco. Nessas horas palavras são apenas para sanar o que o espírito sente de verdade.
Você lembrou do caso columbine mas esqueceu de outro caso aqui no Brasil, nas salas de cinema do MorumbiShopping, em São Paulo, onde o estudante de medicina Mateus da Costa Meira, 24 anos, descarregou um pente de submetralhadora na platéia, matando três pessoas e ferindo outras cinco. Mais tarde, Meira diria que há sete anos vem pensando em cometer um crime assim.
Bosco,
Por isso enfatizei o “quase” na primeria frase do texto.
“O Brasil vive, infelizmente, um drama que QUASE sempre acompanhou de longe.”
Acabei por enxergar uma diferença entre um playboy, Mateus da Costa Meira, estudante de medicina, que entra heio de cocaína na cabeça num cinema e atira para todo lado, e um rapaz, da periferia do RJ cujas intenções são tão mais obscuras, motivadas por anomias psicologicas tremendas e atingindo alvos escandalosos. Em suma, seria cretino da minha parte achar que um é mais cruel do que o outro. Eu estou vivo aqui, apenas discursando enquanto há famílias realmente na pior.
“A pior resposta é aquela que aponta para a “loucura” ”
http://ghiraldelli.pro.br/2011/04/07/chacina-na-escola-de-um-tempo-pos-liberal/
Argumente rapaz, por que cita capítulos e versículos de Paulo Ghiraldelli Jr.?
Emanuel Braga;
Quiz só mostrar uma outra opinião. Nem sempre sinto-me abalizado a comentar os postes do amálgama, embora seja um viciado em acompanha-los, justamente pela falta incapacidade em argumentar. Nem todos que vêm aqui são pessoas em condições de meter o bedelho. As vezes beber as diversas opiniões daqui é bem melhor do que ficar só com o sensacionalismo que a TV e os jornais exploram. Esperei pacientemente que alguem do amálgama postasse sobre o fato, queria uma opinião que não fosse o espetaculo da imprensa.
Valeu pelo toque, também acho que copiar e colar ou indicar link não é participar.
Ok, gosto deste blog também, acho ele bem aberto às várias vozes existentes.
“nos emocionamos” com o caso columbine, mas a divulgação do caso brasileiro é sensacionalista?*
*tio sam deslumbre detected*
Biajoni. Eu teria colocado as aspas em “nos emocionamos”, sem dúvidas. Mas num momento como esse não consegui ser irônico.
O interessante nisso tudo é que temos que conclamar a universidade e os círculos intelectuais para pôr a culpa sempre na sociedade e nos nossos ombros, pois temos que carregar sempre o peso das escolhas psíquicas das pessoas, pois se somos culpados no cristianismo, somos também culpados na tal pós-modernidade.
Ora, tantas pessoas são solitárias, fechadas em si mesmas, mesmo que aparentemente extrovertidas, e, no entanto, passam a vida sem serem potencialmente assassinas. O que vejo em Paulo Ghiraldelli Jr. é o grito foucaultiano pela inversão do louco-indivíduo pela louca-sociedade. A sociedade ocidental seria entendida assim como louca e esquizofrênica e aqueles classificados individualmente ou socialmente como “loucos” seriam, na verdade, heróis de um mundo caduco, como diria Drummond.
Outra falácia desta filosofia anti-boteco é enxergar tudo na caixinha “pós-alguma coisa”. Não se dá atenção ao fato de que em muitas outras sociedades não exatamente “pós-liberais”, há um grande apelo para a popularidade individual, o prestígio individual que deseja se tornar público, como entre os Kayapó, onde o homem violento é um homem popular, sedutor e poderoso.
Paulo Ghiraldelli Jr. cai na rede do intelectualismo psicanalítico, tão na moda nos círculos cult atuais, que querem, a todo custo, pôr no mesmo saco lacaniano evangélicos, pedreiros, mulçumanos, monges, crianças, chineses… É como se alguém que acredita que a obediência a Deus faz parte do sentido da vida e alguém que acredita que os debates filosóficos levam a uma elucidação de fatos necessariamente estivessem no mesmo tempo vivencial só porque estão no “século XXI”. E explicam essa diversidade de plausibilidades com termos como “fissura” e “fragmentação”. Fazem que nem os críticos literários: tem o romantismo, depois o realismo, depois o modernismo, depois vem o pós-modernismo ou o “contemporâneo”. E o cara pode escrever que nem Casimiro de Abreu que mesmo assim será “contemporâneo” em respeito à cronologia universal da humanidade.
Outro detalhe nessa narrativa pra lá de duvidosa é que só é plausível o aparentemente “laico”, os fatos devem ser explicados por lógicas seculares, interpretações que levem em conta solidão do mundo virtual, necessidade de comunicação com pessoas consideradas reais, assédio escolar, enfim… Wellington faz uma carta totalmente espiritualizada, mas isso não importa né gente?! Isso é bruxaria, é pensamento pré-lógico, é “coisa de doido”… Vamos pra Foucault e Freud que eles explicam como funciona o esquema dos “loucos”.
É lamentável quem so ver as notícias na TV. Execelente texto Rapha
Caro Raphael,
Tomei contato com o seu texto através do blog do Luiz Nassif. Tomei a liberdade de reproduzi-lo em outros blogs, evidentemente dando o seu devido crédito como autor.
O que dizer? A sua análise é excelente. Realmente você põe o dedo na ferida, de uma maneira lúcida e responsável. Acredito que este é o verdadeiro papel do intelectual, comprometer-se com o seu tempo e com a transformação social. Dedico a você as palavras do velho Goethe, citadas por Nietzsche: “Eu desprezo tudo o que apenas me instrui sem aumentar ou imediatamente avivar a minha atividade”.
Sou de Pernambuco também, quem sabe um dia batemos um papo.
Vá em frente. Um forte abraço.
Flavio
Flavio,
Agradeço a apreciação. De que parte de PE você é?
O que motivou esse texto foi a insistência de alguns familiares em continuar dando audiência para o espetáculo televisivo sanguinolento e que finge um luto cínico. Os “problemas são problemas demais e não correr atrás da maneira certa de solucionar”, já dizia um camarada pernambucano.
Moro perto do Recife mesmo, na região metropolitana.
Raphael, como você vê que a alteridade poderia ser trabalhada no ambiente escolar? Existem abordagens pedagógicas que poderíamos chamar de “inclusivas”, como a Summerhill e a Escola da Ponte. Mas me refiro ao que pode ser trabalhado dentro do modelo de escola tradicional.
Caro Raphael, achei o texto excelente e também tive contato no blog do Nassif. Só não entendo uma coisa. Porque colocar o slogan do governo Lula sob a foto do assassino? A mim pareceu uma conotação política. Me corrija se eu estiver enganado. Abraço, Roberto.
Olá,
Nada contra Lula e o seu governo. Usei o slogan com duas intenções ilustrativas simples. O Brasil é sim um país de todos e isso inclui psicopatas, assassinos, doleiros, estelionatários, entre outros. A segunda intenção aponta para a falta de intervenções governamentais em relação à educação ao longo de muitas dezenas de anos. Não importa se no governo de Collor, Itamar, FHC, Lula ou Dilma. Eu tenho sido professor e, mesmo a educação particular, tem necessitado e uma bela reciclagem. É assombroso o abandono da escola pública ainda hoje, mesmo reconhecendo que, desde que o PT está no poder, há casos que se tornaram menos graves. Como vi em outro lugar, “só o barulho do revólver e a cor do sangue faz o Brasil voltar os olhos para a escola.”
Gostei do artigo e concordo que Wellington é um personagem como qualquer outro, como eu e você. Submetido a uma confluência de circunstâncias críticas, foi levado a atos extremos, porém de que podemos esboçar explicações (por mais precárias que sejam).
Acho engraçado a imprensa falar em isolamento individual, bullying, videogames etc, como se a periferia do RJ já não convivesse desde criancinha num cenário de brutalidade permanente e à flor da pele, seja explícita, seja difusa. É difícil não analisar esse episódio como mais um em que pobre e negro chacina outros pobres e negros, aliás, aqui foram negras (porque no crime passional a mulher sempre morre: marido traído mata a esposa e esposa traída a amante).
Como de praxe, a grande mídia repetirá a morte à exaustão, lucrará na comiseração humana, mobilizará o medo do povo, e fortalecerá sua agenda conservadora (pois é parte visceral do establishment) de “segurança pública”, qual seja, a gestão violenta da pobreza.
Bruno,
Com suas colocações estou 100% de acordo. Nosso sono conformista é eterno, não adianta bater o pé. Parece papo de estudante incomformado do DCE, mas é. A frase do novo filósofo brasileiro, Capitão Nascimento, nunca fez tanto sentido: “o sistema é foda”. Nossos problemas são tão claros, que acabam por nos ofuscar.
Parabéns pelo texto. As colocações sobre a parcela de comprometimento da educação no destino de alguns brasileiros são pertinentes.Educadora, diretora de escola por alguns anos, tive sob a minha responsabilidade crianças que nos deixavam amarguradas por não saber como conduzir a questão.Psicólogos com suas fichas de anotações e sessões individuais não conduziam a nada e nunca encontramos respaldo para ir além disso.A escola não tem mesmo suporte para os casos já estabelecidos de desvios emocionais ou mentais, no entanto, com crianças que demonstram por atitudes estranhas, por isolamento, por agressividade ou apatia, que detém algum drama interior, é possível atuar, mas elas são penalizadas com a indiferença e a discriminação no grupo.Não há inclusão e não há um olhar para o futuro dessas crianças e da sociedade.É assim. Damos tempo ao tempo e logo elas estão nos CDPs – Centros de Detenção Provisória – ou nas ruas promovendo o medo com o qual convivemos atualmente.
Wanderly,
Você, muito mais do que eu conhece essa realidade. Tenho sido professor e vejo como é difícil gerir existências individuais dentro da escola. A pluralidade de personalidades num mesmo ambiente durante anos é algo de extremo cuidado. Os anos mais frágeis de nossas vidas são vividos ali, no ambiente escolar. Qualquer simples desvio e a criança do sorriso puro e sincero pode ser maculada e transformada numa criança de sorriso opaco. Essa questão, para mim, está no top list de prioridades de uma nação. Uma pátria que esquece os filhos adoenta a sociedade. São 195 milhões de filhos. Quão dificil é isso…
Olá. Não seria o caso de trabalhar, com o próprio grupo, valores como a alteridade?
Abraços.
Acredito ser uma chave muito importante a que você coloca aqui. Alteridade não é meramente o contrário de identidade. Expor a delicadeza do respeito à outreidade é uma questão nevrágilca na educação. Ninguém é obrigado a amar ninguém e aceitar todas as imposições éticas do mundo, mas a educação para o respeito é possível sim.
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E o fanatismo escolar? Achar que a escola é responsável pelo Mal e pelo Bem, pela vida das pessoas? Wellington matou uma dúzia, por estratégia, numa escola. E quantas criatividades, quantas belezas, quantas liberdades, a escola ocidental (matemática, português, química, história, o escambal) não destruiu ao longo de sua triste história institucional?
Recomendo o texto:
http://www.cgceducacao.com.br/canal.php?c=4&a=15413
Raphael, sem dúvida sua análise aborda aspectos importantes do episódio. Concordo, tolerância não significa aceitação. Aliás, “tolerar”, na sua raiz, está bem distante de “aceitar” – tem mais a ver com “aguentar a proximidade” – se tanto! Mas, especificamente no caso de Wellington, há um aspecto – sociológico, por certo, que aponta para outra direção, também importante: a espetacularização da desgraça. Assim, um rapaz tomado pela incompreensão, dele e dos outros, encontrou nesse crime sua maneira de “ficar famoso”, mesmo às custas da própria vida – com a vida alheia, ele não tinha compromisso, isso ficou patente. Veja o link: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=636IPB012
Excelente texto, Rafael. Parabéns.
Ainda mais quando o outro texto publicado no site em referência à Realengo foi uma tentativa de dar salvo-conduto à irreponsabilidade de imprensa.
Acho que o seu é o primeiro texto que vi sobre o tema que coloca em questão o que realmente deveria estar: o papel da Escola na construção – ou não – de cidadãos para o futuro.
Abs!
Victor,
Agradeço seu comentário. Óbvio que a imprensa tem papel fundamental em divulgar massivamente uma barbaridade como essas. Mas embrulhar em caixinhas de isopor enfeitadas e vender, é cretinice nojenta e pusilânime. Divulgar sim, industrializar não.
O que o governo e a mídia MENOS tratam é da raiz problema. Excelente seu texto. Sem novidades pra mim, mas um texto que recomendo a todas as pessoas, pois a grande maioria enxerga só até onde o Datena enxerga.
Felipe. Mesmo sendo um problema macro, existem as soluções simples para começar. A educação é primeva.
Obrigada Rafael. Você disse tudo.
Agradeço. Disse o que a maioria dos brasileiros sensatos diria.
eu não estou emocionada, eu não me rendi à cobertura tão exaustiva quanto rasteira das milhões de versões do ocorrido q estão pela internet e televisão. eu não chorei por nenhuma das crianças que morreram nem pelo atirador. seu texto tenta conciliar o tom patetico dos jornais e a pretensão de uma discussão academia “mais profunda”.
ah, e o titulo é simplesmente ridiculo.
Pois eu senti, Rayssa, uma tragédia é para ser sentida. Também percebi a sinceridade do Raphael. O horror do mundo não destruiu minha sensibilidade nem me fez indiferente, porque me recuso a falir como ser humano.
Ao que parece, para Flávio, as palavras “humanidade” e “solidariedade” tem o mesmo significado. Raphael, onde você arranjou este fiel escudeiro?
Vamos aos fatos: o rapaz deu pistas do que poderia fazer – e ninguém ligou. Ele não era um estranho, era conhecido na comunidade, tanto que entrou na escola sem problemas. Mas era uma pessoa invisível, na medida em que ninguém se deu conta do problema que ele estava passando. E o resultado deu no que deu. Nesse momento, quantos jovens invisíveis não existem por aí? Para Levinas, por exemplo, a identidade não termina no umbigo, ela se realiza também na relação com o outro.
Respeito sua opinião Rayssa. Desculpe-me o título. Sou péssimo esteta de cabeça de textos. Enfim… Seu depoimento demonstra que você está emocionada sim, até mais do que os outros. Ainda que não seja em relação às mortes das crianças ou em relação a comoção da mídia. Mas você expõe aqui um comentário completamente recheado de emoções, movido por emoções outras, ainda que não sejam as emoções triviais que você repudia. O caso Realengo também mexeu com você, isso está claro analisando seu discurso.