A beleza do não-todo por Nabokov
por Vanessa Souza
Como escrever sobre a vida de uma pessoa, se não damos conta nem de nossas lacunas? Em A verdadeira vida de Sebastian Knight de Vladimir Nabokov – vale ressaltar, o primeiro romance escrito em inglês pelo autor – o narrador, denominado apenas como V., propõe-se a narrar a vida de Sebastian Knight, seu meio irmão. Knight, na trama, é um grande escritor de sua época, bem como uma persona peculiar: antissocial, solitário e estrangeiro (russo vivendo na Inglaterra, que foi estudante de Cambridge).
Sebastian era uma companhia ausente. Dois meses após sua morte, o meio irmão decide ir atrás de sua história, para escrevê-la. Têm nas mãos umas parcas pistas e um bocado de esperança. Ainda possui a falta de parcialidade (e existe parcialidade?) que só detém um homem que pretende escrever sobre outro homem, não um qualquer, mas aquele que mais admirou na vida.
Lembre-se de que o que lhe contam tem realmente três aspectos: moldado pelo narrador, remodelado pelo ouvinte, escondido de ambos pelo morto da história. Quem está falando de Sebastian Knight? [p. 53]
V. começa por Cambridge a juntar o quebra-cabeça de impressões que estranhos tinham sobre o escritor recluso. Se já não é fácil escrever a biografia de alguma figura com família e um bocado de amigos/conhecidos, o narrador vai percebendo o quão hercúlea será a tarefa de reconstituir em pedaços as memórias de Knight, intermitentemente feliz e apreensivo, divertido e infeliz, cujo humor mudava numa pantomima constante. Tal como seu estado de espírito, frágil também era sua saúde – morreu antes dos 40, de problemas cardíacos. O narrador vai percebendo o quanto a obra de Sebastian era autobiográfica, como o trecho a seguir, que o irmão investigador relembra:
A maior parte dos cérebros tem domingos, o meu se recusava até a um meio expediente. Esse estado de constante alerta era extremamente doloroso não apenas em si, mas em seus resultados diretos. Todo ato comum que eu obrigatoriamente tinha de cumprir assumia uma aparência complicada, provocava uma multidão de ideias associativas na minha cabeça, e essas associações eram tão esquivas e obscuras, tão absolutamente inúteis para aplicação prática, que eu ou escapava da questão em pauta ou a transformava numa confusão por mero nervosismo. [p.66]
Sebastian, russo que lutava com o inglês, escreveu cada um de seus livros de forma quase dolorosa. Dolorosa também foi a procura pelas suas memórias – já que ele pediu ao irmão que queimasse sua correspondência após sua morte, o que foi cumprido. O narrador reclama da rebeldia do passado, escapando vertiginosamente em sua busca. Lentamente e apressadamente, de pista em pista, como nas narrativas policiais que Sebastian escrevia, o narrador descobre alguns poucos amigos e dois amores do escritor. Pouco? Muito, levando-se em conta que cada descoberta traz um mundo de significados. Embora eu não seja nada imparcial no que diz respeito a Nabokov, recomendo a leitura. Se a verdade é não-toda, já disse Lacan, as suas lacunas podem trazer o que há de mais belo de seres faltosos como Sebastian. Como nós.
::: A verdadeira vida de Sebastian Knight ::: Vladimir Nabokov (trad. José Rubens Siqueira :::
::: Alfaguara, 2010, 200 páginas ::: Compre no Submarino ou na Livraria Cultura :::


Este é o melhor Nabô.
Muito bom!
A maior parte dos cérebros tem domingos, o meu se recusava até a um meio expediente.
Vanessa, Seguindo-te aqui também!
É comum que os críticos questionem o quanto um autor é auto-referente, e, de igual modo, é comum que os autores neguem as coincidências possíveis da influência pessoal na obra. Os dois estão certos; Pois o olhar do outro (crítico) sempre será de um conhecimento, sobre o autor, dado pelos fatos; pelos registros, pelas pistas engendradas, e isso é pouco; e, para o autor, a literatura é a descrição do que não pode ser factual, é místico, é a universalmente a busca do outro em si mesmo.
Vejo Nabokov destoando dos grandes autores russos, que tentavam manter a tradição russa, para não se ocidentalizar, Nabokov era um russo, sem vocação para seguir as tradições, sejam elas de seu país, da França ou da Inglaterra…