A banalidade da má literatura

- "Diário da queda", de Michel Laub -
por Daniel Lopes
Se você vai de alguma forma colocar o Holocausto judeu em seu livro de ficção, melhor ter cuidado. Se ele for o tema central, pode ter certeza: já lemos pelo menos meia dúzia de livros que tornam o seu completamente irrelevante, não importa os ares locais que você tenha colado à narrativa – a não ser que você seja realmente um experimentado escritor de muito talento. Mas, ainda que o Holocausto não seja o tema central, é preciso ter cuidado. Aliás, especialmente se ele não for, pois dessa forma pode eclipsar mais do que iluminar seu tema central. E se o ponto principal da sua estória já não é lá essas coisas…
Não contei quantas vezes a palavra “Auschwitz” aparece em Diário da queda. Mas aposto que a média não é de menos que uma aparição por página. Ok, a gente entende desde o início que o campo nazista, de onde o avô do narrador saiu com vida, deverá ter papel decisivo para o restante da estória, mas, como nos ensinam os bons livros, há formas mais sutis e elegantes de fazer com que um local ou evento específico em nenhum momento saia da mente do leitor do que a explicitação de termos à exaustão.
Da forma como Auschwitz aparece no livro de Michel Laub, gera desconforto no leitor, mas não o desconforto que causam os bons romances – pensando melhor, é mais impaciência do que desconforto. Assim, chega a ser cômico quando lemos lá pelas últimas páginas: “(…) desculpem se preciso voltar mais uma vez a este assunto, e dizer mais uma vez essa palavra, e evocar mais uma vez o significado dela, Auschwitz”; e: “(…) me pergunto se faz sentido continuar citando Auschwitz nesta história.” Pelo menos nosso heroi tem consciência de que não é exatamente um mestre na arte da narrativa.
O diário da queda foi escrito pelo avô do narrador. Único de sua família que sobreviveu ao supracitado campo de concentração, ele chega no pós-guerra ao Brasil, primeiro em Santos, seguindo para o Rio Grande do Sul. Estabelece-se em Porto Alegre a acaba se casando com a filha de um brasileiro de classe alta, germanófilo. (Não é crível que um senhor desses fosse receber tão bem em casa ao futuro sogro judeu e consentir tão facilmente que a filha se mudasse com ele para uma casa humilde. Esse senhor não tinha que ser um germanófilo, para começar, essa sua condição não altera em nada o enredo além de torná-lo um pouco mais ruim.)
Nos últimos meses de uma vida relativamente bem sucedida nos negócios, o avô passou a viver trancado em seu escritório, enchendo diversos cadernos com letras miúdas que compunham definições de termos como leite e descrições de locais como a pensão em que hospedou-se na capital gaúcha. Suas linhas são serenas e positivas, vendo o que de bom e agradável há em volta, nunca os pontos negativos. Em adição, o avô passou a gritar. Após sua morte, o filho (pai do narrador) manda alguém traduzir os escritos do velho, e é assim que ele e futuramente o narrador se inteirarão de seu conteúdo.
Acontece que a queda é tripla, como também são triplos os diários. Após a queda do avô, teremos a queda (e os escritos) do pai (acometido de Alzheimer) e a queda do filho, que, essa, acompanhamos junto com sua narrativa do presente, quando sabemos que, agora com 40 anos e no terceiro casamento fracassado, tem a saúde debilitada, vício em álcool e não tem filhos. O personagem principal é um escritor com formação em direito e passagem pelo jornalismo – assim como Laub.
Todo esse imbróglio poderia ser bem explorado e eventualmente resolvido. A composição dos capítulos se dá a partir de pequenos blocos de texto. Em alguns livros essa técnica engaja o leitor pra valer, e cada frase final de um passagem é um empurrão para frente; cai como uma luva ao narrador com muitas revelações para fazer e com gosto para fazê-las de forma rápida e impactante – trata-se portanto de uma técnica do soco e do empurrão para frente. Mas em Diário da queda isso não acontece.
O livro começa com o menino João levando uma queda violenta em plena festa de aniversário. Com muito esforço do pai humilde, João cursa a sétima série em um excelente colégio judaico da Porto Alegre dos anos 80. Mas ele, ao contrário de quase todos os outros alunos, não é judeu. O pai resolvera dar a festa de aniversário de 13 anos do filho porque os colegas do menino davam festas especiais de 13 anos – Bar Mitzvá. O narrador e os coleguinhas judeus pegam João pelos braços e pernas e o jogam para cima 13 vezes, celebrando os anos de vida. Na décima terceira descida, todos saem correndo e o menino se espatifa no chão, numa queda que quase lhe deixa aleijado.
Até o dia dessa queda (são quatro, então), o narrador não era exatamente amigo de João, e, como o restante da escola, o maltratava. João era enterrado na areia, João era socado, João tinha seu sanduíche arremessado a metros de distância, mas sempre sofria quieto. João, filho de um cobrador de ônibus que complementa a renda vendendo algodão doce. João, o gói humilhado – cantam os companheiros de turma: “come areia, come areia, come areia, gói filho de uma puta”.
Essas cenas de humilhação são chocantes, mas esperamos que elas nos levem a algo maior no decorrer do livro. Em vão. Elas só nos levam a lugares-comuns. João está para a escola judaica, logo descobrimos, como o pai do narrador esteve para a escola não-judaica – ele lhe confidencia: “A vida inteira eu estudei numa escola onde não havia judeus. Eu era o único judeu entre quinhentos alunos, (…) e você não sabe o que é estudar todo dia sabendo que a qualquer momento alguém vai lembrar isso. Não adianta você ser amigo de todos porque eles sempre falarão disso. Não adianta ser o melhor em tudo porque eles sempre esfregarão isso na sua cara.” João está para a escola judaica como o narrador está para a escola não-judaica onde foi cursar a oitava série e onde “não era incomum eu achar dentro da mochila um papel com o desenho de Hitler.” Então, pobre João: sua queda terrível e seus dois meses fora das aulas e em uma cadeira de rodas, eventos nos quais apostamos tantas fichas no começo da leitura, só servem mesmo para mostrar que judeus podem ser maus com não-judeus, e não apenas vítimas destes últimos – quem diria?
Para a escola não-judaica, o narrador foi junto com João, com quem começara uma amizade logo após a queda no aniversário, movido pelo sentimento de culpa. O maior defeito do livro de Michel Laub é não fazer habilmente a conexão entre essa fase da infância do personagem e os desenvolvimentos de sua vida adulta. Há algo de interessante em suas relações com o pai, principalmente a partir do diagnóstico de Alzheimer, que o filho fica encarregado de lhe dar. Isso renderia um bom conto; no romance, aparece apenas como coda de uma narrativa banal. E não faz nenhuma diferença saber até que ponto a obra é autobiográfica.
::: Diário da queda ::: Michel Laub ::: Cia. das Letras, 2011, 152 páginas :::
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A resenha se atém a revelar meandros da narrativa e não explora bem as ideias defendidas, especialmente no que consiste a suposta banalidade do livro. Dizer que esse livro, um dos grandes lançamentos deste ano, serve apenas à ideia de que “judeus podem ser maus com não judeus” é um reducionismo absurdo. Esse texto, sim, não me serviu para nada. Isso é apenas uma necessidade rebelde de ir contra a corrente, com muita coragem, admito, mas sem conhecimento crítico.
Só posso dizer que pior do escrever um livro ruim como o presente, é não escrevê-lo e perder tempo com uma resenha (enrustida) com intenções (juvenis) e bestiais. Sorry!