Quase um pleonasmo

por Vanessa Souza – Amor e tropeço é quase um pleonasmo. Eu conheço poucas boas histórias de amor sem uma série de impeditivos. Faz-me quase chegar à conclusão de que, sim, amor e dor estão lado a lado. O livro da psicanalista paulista Sylvia Loeb é a prova desta teoria. Prova envolvente, aliás.

No posfácio da obra, escrito pela professora de literatura Áurea Rampazzo, há a afirmação de que os contos do livro possuem certo “encadeamento causal trágico em que os ‘amores’ têm como conseqüência ‘tropeços’”. Manuel Bandeira também explica bem o trágico dos personagens: “Porque os corpos se entendem, mas as almas não”. Isto se tivéssemos essa coisa chamada alma, o que eu duvido.

É possível fazer muitas leituras de Amores e tropeços. Fugas, desamparos, ausências, medos, embates, gozos, tombos. Usando um olhar psicanalítico, é possível pinçar vários conceitos no livro. Em “Cheiro de madeira”, a pulsão invocante – ativada pela voz – é narrada. “Ele me fala coisas lindas, olha dentro de meus olhos, diz que me ama, que me quer, mas sua voz não suporto. (…) O tom rouco, o sotaque cafajeste que puxa os esses e erres de modo forçado e artificial. Não adianta beijar bem, cheirar bem, nem ter o cabelo macio, não suporto sua voz”. O amor impossível é mostrado em “Olhos úmidos”. “Egoísta nos gestos, no amor, surgia quando queria, partia quando desejava. Nunca lhe deu nada, nada lhe prometeu. Perdeu-se nele”.

O mito do Don Juan, enfocado no Livro 10 de Lacan – seminário “A angústia” – está em “Amava as mulheres”. O personagem, sem nome, gostava de todas as mulheres, sem distinção. O cheiro, pele, textura. Mulheres de todas as formas, cores e tamanhos.

Em vários pequenos contos, nomeados por datas, de 31 de janeiro até 18 de fevereiro, Alberto e Adalgisa tentam compreender, por meio de recados, qual foi o ponto exato na trama em que o amor deles esgarçou e rompeu. Alberto, demasiado angustiado, pede que Adalgisa dê um sinal de vida e que o perdoe. Adalgisa, que não quer sequer pronunciar o nome do ex-amante, pede que a esqueça. Quase um mês depois, inundado de angústia, Alberto responde que ela não precisa ler sua carta, pois só precisa falar o nome dela. E continua escrevendo. “Adalgisa, Adalgisa, onde está você?” – em Fevereiro 4. Dois dias depois Adalgisa responde que da primeira vez que o amante a olhou, mas não a viu, sentiu uma espécie de “câimbra na alma”. São várias cartas onde o fim é esmiuçado, palavra a palavra, por quase três meses. Até que se esgote.

Amores e tropeços é uma leitura rápida, ágil, fluída. Sem, no entanto, perder a densidade dos personagens, dos (des)caminhos, das escolhas, dos (des)vãos, dos inícios e fins. Dói um pouco. Mas vale. Cada pontada.

::: Amores e tropeços ::: Sylvia Loeb ::: Terceiro Nome, 2010, 168 páginas :::
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10 comentários | Dê sua opinião

  1. V. Leal 13/04/2010 em 1:24 pm

    às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.” “. Paulo Mendes Campos.
    ___

    Responder
    • Vanessa Souza 13/04/2010 em 2:24 pm

      V.,
      Paulo Mendes Campos escreveu coisas lindas acerca do fim do amor.
      Abraço,
      Vanessa

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  2. Pingback: Andira Medeiros

  3. Rafael Carneiro 13/04/2010 em 5:11 pm

    “…Oh! o amor! E por que não se morre de amor! Como uma estrela que se apaga pouco a pouco entre perfumes e nuvens cor-de-rosa, porque a vida nõa desmaia e morre num beijo de mulher! Seria tão doce inanir e morrer sobre o seio da amante enlanguescida! No respirar indolente de seu colo confundir um último suspiro…” (Macário e Noite na Taverna de Álvares de Azevedo)

    “…Quanto a imagem da adorável Carlota me persegue! Ou eu vel ou sonhe, sempre está presente à minha alma agitada…Sei somente que no momento em que cerro meus olhos os dela se me apresentam como um mar, como um precipício diante de mim, e ocupam todas as fibras do meu cérebro…” (Os sofrimentos do jovem Werther de Goethe)

    Realmente o amor e a dor caminham juntos….

    Responder
    • Vanessa Souza 14/04/2010 em 9:55 am

      Rafael,
      Werther é um de meus personagens favoritos.
      Abraço,
      Vanessa

      Responder
  4. Viviane 13/04/2010 em 6:02 pm

    A propósito, o livro belíssimo de crônicas do Paulinho (como dizia Vinicius) chama-se “O amor acaba”. Talvez experimentemos mesmo o amor em pedaços. Ele acaba, mas recomeça em alguma esquina… Esperamos que seja assim, não é? E seguimos com o amor em pedaços. Por vezes, aos pedaços. Legal o seu olhar sobre o amor. No meu blog, começamos a falar do amor em pedaços. Qdo vc puder, passa lá… Dê uma olhadinha, ou mais de uma – à vontade! Caso vc se interesse por psicanálise, veja lá tbm o post “A trama do amor na palestra da psicanalista Malvine Zalcberg”. Os tropeços no amor talvez não sejam tão necessários… Um abraço. Vivi.

    Responder
    • Vanessa Souza 14/04/2010 em 9:57 am

      Viviane,
      Obrigada.
      Passarei no seu blog, sim.
      Eu me interesso por psicanálise, evidentemente, rs. Sou psicanalista e mestranda em psicanálise.
      Não são necessários os tropeços no amor, mas estão por aí – aqui, e lá, acolá…
      Abraço,
      Vanessa

      Responder
    • Amâncio Siqueira 20/04/2010 em 12:55 pm

      Talvez não sejam necessários tropeços no amor, mas amor nos tropeços.

      Responder
      • Vanessa Souza 01/05/2010 em 8:49 pm

        Quem sabe…
        Abraço,
        Vanessa

        Responder
  5. Jenifer 17/07/2010 em 1:00 am

    Ai, mais um para minha lista.
    Você me deixou cheia de vontade… se pudesse, teria agora em minhas mãos. Vou caçar. E logo.

    Excelente matéria dona moça =]
    Um Beijo!!!

    Responder

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