O casamento de Rachel: Uma história sem culpados, nem inocentes

por Juliana Dacoregio – Impossível não sentir uma certa antipatia por Kym, personagem de Anne Hathaway, nos primeiros momentos de O casamento de Rachel (2008), filme dirigido por Jonathan Demme – mesmo diretor de De Caso com a Máfia (1988), O Silêncio dos Inocentes (1991) e Filadélfia (1993). Apesar de ter passado quase toda a sua vida drogada, alcoolizada ou em clínicas de reabilitação, Kym tem o suporte e aceitação de sua família para se recuperar. Família esta que procura encarar a vida de forma otimista, mas que se tornou claramente desestruturada à custa dos estragos causados pelo vício de Kym.

Mesmo com toda essa acolhida, ao deixar a clínica por um fim de semana para participar do casamento de sua irmã Rachel (vivida por Rosemarie DeWitt), Kym não pára de causar problemas, tentar chamar a atenção para si mesma e implicar com pequenos detalhes, como a cor do seu vestido de dama de honra. Anne Hathaway consegue, com brilhantismo (distanciando-se da imagem da eterna mocinha hollywoodiana), compor uma personagem desaforada e, à primeira vista, irritante.

Porém à medida que descobrimos as culpas e angústias que a personagem carrega, suas atitudes começam a ser compreensíveis. Não que Kym deixe de ser o ponto de desequilíbrio da família, mas essa é a beleza de O Casamento de Rachel: nenhum dos personagens é monocromático. Todos vão mostrando a complexidade de seus papéis, fazendo então com que se torne impossível tomar partido de alguém. Exatamente como em qualquer problema familiar, todos têm culpa e todos são inocentes. Isso é mostrado, sobretudo, na cena em que Kym tem uma conversa tensa com sua mãe (Debra Winger), culpando-a de ter permitido uma certa situação que levou ao grande abalo na vida de todos.

O fato de Kym estar presente num momento em que todas as atenções estão voltadas para a sua irmã e que a casa está cheia de parentes e convidados também não a ajuda a encarar a dura empreitada que é voltar ao lar após nove meses em reabilitação. Durante os brindes em louvor aos noivos, ela acaba fazendo um discurso constrangedor, falando mais sobre sua luta contra o vício do que brindando à alegria do casal.

A direção de Jonathan Demme, optando por usar a câmera sempre na mão e deixando que os diálogos corram soltos (o que não significa que sejam ágeis), dá um ar ainda mais realista, quase que de documentário, e transmite com perfeição cada minuto da situação complicada a que todos ali estão expostos.

-- Anne Hathaway em cena --

Rachel, por sua vez, continua a exercer o papel de filha equilibrada, que sempre teve de agüentar o tranco das loucuras da irmã. Mas é visível que se ressente dessa posição e de perceber que a preocupação do pai (Bill Irwin) com Kym é constante, chegando a atrapalhar algumas preparações para o casamento. E o pai apenas quer que reine a paz dentro de casa e faz de tudo para que isso aconteça, sempre evitando debater os dramas familiares, em parte como uma fuga, em parte pelo desejo de restabelecer a harmonia há muito perdida.

É uma história tocante, cheia de dor, mas também de uma beleza verdadeira, por vezes melancólica; assim como o são quase todas as histórias reais, que acontecem entre aqueles que convivem e enfrentam juntos problemas e momentos de felicidade.

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12 comentários | Dê sua opinião

  1. Alex 07/04/2010 em 3:08 pm

    Excelente post! Brilhante análise do que acontece no filme e na maioria das famílias. Não há inocentes e não há culpados. São todos inocentes e todos culpados.

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  2. Pingback: Juliana Dacoregio

  3. Caio 09/04/2010 em 3:26 pm

    Filme lindo, texto lindo.

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  4. Milton Ribeiro 10/04/2010 em 11:46 am

    Eu também gostei demais de tuas observações. Considerei O Casamento de Rachel um dos melhores do ano passado (http://miltonribeiro.opsblog.org/2009/12/21/os-melhores-filmes-de-2009/) e fiz um post específicamente sobre ele (http://miltonribeiro.opsblog.org/2009/05/05/eu-nao-quero-um-deus-que-possa-perdoar-o-que-fiz/).

    A carga humana presente neste filme, sua paradoxal alegria e musicalidade me são muito sedutores.

    Parabéns pela excelente resenha. Fiquei muito feliz em ler. Vou dar-lhe uma tuitada.

    Bj.

    Responder
    • Ju Dacoregio 10/04/2010 em 2:43 pm

      Já comentei lá em seu post e também vou tuitá-lo. Gostei muito e, como já falei em seu blog, algumas de suas observações divergem um pouco das minhas, mas de certa forma as completam.

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  5. Pingback: Milton Ribeiro

  6. Wanderly 11/04/2010 em 11:21 am

    Leio você e me interesso imediatamente por ver o filme, o qual não assisti.Isso é o que faz o texto.Conversamos com ele e nos contagiamos.No caso, positivamente, sem dúvida! Gosto de ler o que você escreve! Não sei se vou gostar do casamento e se concordarei com tudo o que você coloca,mas aqui,o que ressalto, é essa interação que a escrita possibilita! Parabéns!

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    • Ju Dacoregio 13/04/2010 em 2:41 am

      Muito obrigada Wanderly! Que bom saber que gostas de ler o que escrevo, independente do fato se vais ter o mesmo ponto de vista ou não.
      Escrever sobre algo e ver que as pessoas se identificam ou sentem-se interessadas em assistir (no caso das minhas ‘críticas cinematográficas’) é algo que realmente não tem preço! :)

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  7. joêzer 21/04/2010 em 11:03 am

    li seu comentário sobre esse filme no blog do Milton. colo meu comentário aqui tb:

    chego tarde demais aqui, mas vá que alguém ainda venha a comentar o texto tb.
    algumas coisicas: 1) o filme não é discípulo do Dogma, mas filho da obra de John Cassavettes, com aqueles mergulhos psicológicos densos, naturalidade e improvisação. 2) se a história parece, só parece, representar o winners x losers tipicamente americano, ora, não vos espanteis; esse simplesmente é um filme americano sobre personagens americanos, mas certamente de alcance muito maior, já que a questão posta em cheque é a família.

    dito isso, O Casamento de Rachel é um filme que está sempre no limite, por causa das situações da narrativa, por causa do improviso concedido aos atores em algumas cenas, por causa da câmera nervosa. O diretor conseguiu um feito: enternecer a tragédia. Aqui também cabe um Mario Faustino: tanta violência, mas tanta ternura.

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    • Ju Dacoregio 22/07/2010 em 6:33 pm

      Joêzer, não creio que seja apenas um filme sobre personagens americanos, ao menos, não um filme sobre personagens americanos típicos. Também acredito que a história não seja uma simples representação sobre winners X losers. É bem mais do que isso, como você mesmo colocou, é um filme que coloca em cheque a família e suas relações tradicionais. Concordo com você: a tragédia é enternecida e a ternura não deixa de ter um toque de melancolia.
      abraço :)

      Responder
  8. Rafaela Camargo 06/04/2011 em 8:21 pm

    Otima sinopse. Parabéns expressou de forma bem clara os acontecimentos do filme.

    Responder

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