Um debate abortado

por Daniel Lopes – Esse livro agora traduzido no Brasil foi publicado no segundo semestre de 2008 nos EUA. Reúne correspondências trocadas entre Douglas Wilson, filósofo, teólogo e pastor, e Christopher Hitchens, jornalista, escritor e ateu militante. O embate foi proposto por e publicado nas páginas da revista Christianity Today.

Até por ser ateu, achei que Hitchens se saiu melhor nesse curto debate. Wilson está muito preso a definições e, ou os fatos arrumam uma definição-guarda-chuva, ou contentem-se com sua irrelevância. Por exemplo, Hitchens nota que descrentes praticam boas ações, que boas ações não necessitam de crenças sobrenaturais, com o que Wilson (e felizmente muitos outros religiosos) concorda. No entanto, o oponente de Hitchens quer que o escritor ateu dê uma definição rígida de Bem e Mal segundo o ateísmo, tal como existe o Bem e o Mal para os cristãos.

Hitchens lembra da “solidariedade humana inata”, que sem dúvida convive lado a lado com a maldade da espécie; dá as razões evolutivas para boas ações (que não existem apenas entre nossa espécie); e nota que o fato de o cristianismo ter uma noção clara de Bem e Mal não faz com que os cristãos pratiquem apenas o Bem – estão aí as carnificinas ao longo da história.

Wilson acha que “solidariedade humana inata” é um termo que não diz nada; reafirma que a bondade só faz sentido em um contexto mais amplo de atenção a preceitos divinos (cristãos ocidentais); é da opinião de que a bondade dos ateus é irracional, já que eles (personificados na figura de Hitchens) não conseguem dar uma explicação racional para o fato de serem bons sem acreditarem no sobrenatural ou mesmo, em alguns casos, nas lições morais de Jesus. Acontece que Hitchens deu explicações naturais perfeitamente racionais para atos de bondade, que Wilson não aceitou ou não achou convincentes – o que ele queria, uma explicação atéia para atos de bondade que não fosse uma explicação de ordem natural?

Hitchens lança seu famoso desafio:

(…) você consegue mencionar uma ação ou declaração moral praticada ou proferida por um cristão que também não tenha sido praticada ou proferida por um ateu?

Em sua última correspondência, Wilson responde:

Seu convite para que tentemos mencionar uma ação moral que não tenha sido praticada ou proferida por um ateu demonstra que você continua sem entender do que estamos falando. Temos todos os motivos para acreditar que esses ateus, praticando tais atos, serão incapazes, tanto quanto você tem sido, de explicar o PORQUÊ de uma ação ser considerada BOA e outra, MÁ.

Graças a essa recorrente e tola exigência, por parte de Wilson, de conceitos perfeitamente definidos (mas que não venham do inferior mundo natural!), grande parte do potencial do debate foi desperdiçado. Ainda assim, é um bom livro, para ser lido de uma lapada só, e o leitor (crente ou não) sairá razoavelmente satisfeito, desde que não se deixe levar ao caixa apenas pela promessa do título.

Douglas Wilson encerra com um chatíssimo tom condescendente – como Hitchens foi batizado, nosso amigo cristão o chama “de volta aos termos do batismo”; lembra que “Christopher” significa “portador de Cristo”; e por fim avisa que “a porta está aberta, e vou deixar a luz acesa para você”. Pfff…

Como exemplo do grande debate que esse entre Hitchens e Wilson poderia ter sido, ver o debate “A Igreja Católica é uma força para o bem no mundo”, exibido pela BBC, estrelando John Onaiyekan e Ann Widdecombe, a favor da afirmação, e Stephen Fry e Christopher Hitchens, contra.

::: O cristianismo é bom para o mundo? – Um debate ::: Christopher Hitchens e Douglas Wilson :::
::: Garimpo Editorial, 2010, 80 páginas ::: compre na Livraria Cultura :::


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8 comentários | Dê sua opinião

  1. Fernando da Mota Lima 24/04/2010 em 7:42 am

    Daniel:
    Foi ótimo ter notícia, graças à leitura de sua resenha, do diálogo entre um ateu (Christopher Hitchens) e um teólogo e pastor (Douglas Wilson). Você ressalta uma questão que sempre importou para mim: a que opõe uma ética de fundo secular (professada por Hitchens, assim como por você e por mim) a uma religiosa. Lembro-me de que há algum tempo Caetano Veloso e Ariano Suassuna colocaram-se entre esses dois opostos em artigos que ambos publicaram na Folha de S. Paulo. Como ateu preocupado com questões de natureza ética, sempre me preocupei com essa questão. Em suma, concordo com Hitchens, isto é, tenho a firme convicção de que ninguém precisa professar nenhuma fé religiosa para praticar o bem ou ter noção clara do bem e do mal. Aliás, gosto sempre de lembrar uma frase escrita por Freud, salvo engano extraída da obra de Goethe: quem não tem ciência e arte precisa de religião; quem no entanto as tem, prescinde de religião. Friso que estou citando de memória. Daí a omissão intencional de aspas. Um abraço, Daniel.
    Fernando.

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  2. Bosco 24/04/2010 em 2:59 pm

    Desde que me ví como um ateu, (antes eu era um crente de pai, mãe, esposa, e filhos, que não entendia bem porque as evidências sempre me levavam para longe de deus, chegava até a rezar para que a minha fé não sucumbisse), descobri que o valor da ética secular é bem mais bonita de se viver que a ética religiosa, pois não precisamos fazer nenhuma troca com deus. O valor que damos ao bem precinde dessa negociação com uma divindade que nos escraviza. O Freud tem razão! A ciência e as artes libertam, por isso são tão perseguidas pela santa aliança. Só um ateu pode ser um homem livre.

    Deve ser um livro interessantíssimo.

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  3. André Egg 04/05/2010 em 2:08 am

    Cada um tem o debatedor que merece.

    O fato de Hitchens aceitar um debate proposto por esta revista mostra que ele não se leva muito a sério.

    O debate é se o cristianismo é bom para o mundo? Acho muito simplista. É difícil falar em cristianismo no singular. São tantos os tipos de cristianismos que já existiram em tantos os momentos históricos que não dá para fazer uma avaliação assim.

    Acho que o tipo de cristianismo que o Douglas Wilson representa é muito nocivo. Aliás, acho que só nos EUA um cara assim pode ser chamado de filósofo.

    Mas o Hitchens está no mesmo nível.

    Algum problema se cristãos respeitarem a opção religiosa dos ateus e vice-versa? Garantidos o respeito ao Estado laico e o direito à religião como questão privada e de foro íntimo, não há porque temer a existência tanto de um como de outro.

    Acho que o Ensino Religioso no Brasil está lidando bem com essa questão.

    Afinal, o contato com o sagrado, com o transcendente, nos lembram dos aspectos imateriais e da questões mais amplas da existência. A ciência nem pretende ter respostas pra isso.

    O problema é quando alguns religiosos querem se meter em questões da ciência ou da filosofia. Como este tema da definição do bem e do mal. O cristianismo não pode pretender ter resposta pra isso. Teístas responderão que a definição de bem emana de Deus. Mas, então, de onde viria o mal? Certamente o Deus da narrativa Bíblia pratica ou ordena diversas ações claramente definíveis como mal.

    E alguns argumentam que faz isso por que Ele quer, quem somos nós para questioná-lo, etc. Em última instância o negócio é mais ou menos assim. Deus é o bem, mas criou o mal, e o pratica quando bem entender e não temos nada com isso. E quem define o que é Deus? A ortodoxia, ora bolas.

    Admiro que o Hitchens esteja disposto a discutir com essa gente, espero que ao menos ele esteja ganhando dinheiro com isso – senão não vale a pena.

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  4. Amâncio Siqueira 06/05/2010 em 9:37 pm

    Se há que debater com qualquer um. Fugir ao debate, em especial alegando superioridade, é que não dá. Quanto maior o fanatismo do contendor, melhor, pois pode-se desmontar sua argumentação e sair numa vantagem maior, tirando mais alguns fiéis das igrejas. É ilusão achar que os ateus serão respeitados pelos crentes se ficarmos quietos em nossos lugares, enquanto eles criam mais e mais canais de pregação. Eles possuem canais de rádio e tv e milhares de saites de internete, e quanto mais pregam, mais enriquecem e investem em mais canais de pregação, para arregimentar mais fiéis, num círculo virtuoso para eles e vicioso para a sociedade.
    Os ateus não ganham dinheiro quando tiram um fiel de uma igreja, não conseguem canais para divulgar suas ideias, sendo inclusive excluídos dos canais mais "laicos". Se calarem-se mesmo quando recebem uma oportunidade de falar, estarão abrindo mão da única coisa que possuem, as palavras, e nesse silêncio abrirão espaço para um estado teocrático, que terminará por queimá-los, seja física, seja economicamente.

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  5. Daniel Christino 26/05/2010 em 6:03 pm

    O problema com o argumento do pastor é que ele inverte a direção do ceticismo moral. Hitchens lhe abre o flanco quando introduz uma evidência: ateus são tão capazes de ações morais quanto os crentes. O pastor, então, lhe pergunta o que ele entende por ações morais e como ele justificaria essa moralidade. O pastor sabe que o conceito de moralidade no ocidente é cristão: “não faça ao outro aquilo que você não gostaria que fizessem a você” – a famosa regra de ouro. O pastor também sabe que, segundo o ceticismo, é impossível justificar racionalmente uma proposição moral. Ela é necessariamente emocional, ou decorre de pressão social, etc. Assim, Hitchens fica nas cordas quando tem que provar que o ateísmo tem uma definição de moralidade. Se, por outro lado, ele disser que os ateus são morais ao modo dos cristãos e, com isso, quiser implicar a irrelevância da crença, o pastor poderá contra-argumentar que o Hitchens, na verdade, acredita que os ateus não são outra coisa senão cristãos desgarrados (que é o que ele faz). Essa é a arapuca.

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  6. Leandro Souza 07/06/2010 em 1:47 am

    Péssimo texto. Depois de Freud, Darwin, Nietzsche, e Marx não faz o menor sentido “debater” esse assunto. Hitchens sente culpa por ser ateu em um país extremamente cristão. Justificãções bobas para algo óbvio. Falta refinamento em seus argumentos. Simplesmente um ateu ressentido.

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    • Daniel 07/06/2010 em 4:16 pm

      Ahã. E depois de Raymond Aron, não faz mais sentido criticar o comunismo. Aliás, sou a favor de se abortar todo e qualquer detabe. Coisa mais besta.

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  7. Eraldo 20/08/2010 em 8:08 pm

    Recomendo o livro: Cartas entre FREUD E PFISTER. Muuuito melhor. O Pfister
    “sacou” o início do surgimento da psicanálise. Era pastor e um grande pensador.

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